24 de fevereiro de 2018

Capítulo 21

No fim, encontrei Josh em um bar que ele conhecia na Times Square. Era comprido e estreito, com as paredes repletas de fotos de boxeadores e o piso pegajoso. Eu estava de calça jeans preta e o cabelo preso em um rabo de cavalo. Ninguém ergueu os olhos enquanto eu me espremia para passar por entre os homens de meia-idade, fotos autografadas de pesos-mosca e homens com pescoço mais largo do que a cabeça.
Ele estava sentado a uma mesa minúscula nos fundos do bar, de casaco informal marrom-escuro. Ao me ver, subitamente abriu um sorriso contagiante e por um momento fiquei feliz por alguém descomplicado estar contente em me ver em um mundo que parecia terrivelmente confuso.
— Como você está?
Ele se levantou e pareceu querer dar um passo à frente para me abraçar, mas alguma coisa — talvez as circunstâncias do nosso último encontro — o impediu. Em vez disso, tocou no meu braço.
— Tive um dia meio ruim. Uma semana meio ruim, na verdade. E realmente precisava de um amigo para tomar um ou dois drinques. E, adivinhe só, o seu nome foi o primeiro que eu sorteei!
— O que você quer? Tenha em mente que eles fazem uns seis drinques aqui.
— Vodca com tônica?
— Tenho certeza de que esse é um deles.
Josh voltou em poucos minutos com uma cerveja long-neck para ele e uma vodca com tônica para mim. Eu havia tirado o casaco e estava estranhamente nervosa na frente dele.
— E então... Essa semana. O que aconteceu?
Tomei um gole. Desceu confortavelmente bem sobre o que eu havia tomado naquela tarde.
— Eu... eu descobri uma coisa hoje. Ela meio que me abalou. Eu não posso contar o que é, não porque não confie em você, mas porque é tão grande que poderia afetar muita gente. E eu não sei o que fazer com isso. — Eu me remexi. — Acho que eu só preciso engolir e tentar não ter uma indigestão por causa disso. Faz sentido? Eu estava torcendo para conseguir encontrar você, tomar uns drinques, saber um pouco da sua vida. Uma vida boa sem grandes segredos sombrios, partindo do princípio de que você não tem nenhum segredo sombrio, e com isso lembrar a mim mesma que a vida pode ser normal e boa, mas eu realmente não quero que você tente me convencer a falar sobre a minha vida. Tipo, me fazer baixar a guarda ou coisa do tipo.
Ele colocou a mão sobre o coração.
— Louisa, eu não quero saber sobre o seu lance. Só estou feliz de ver você.
— Eu sinceramente contaria, se pudesse.
— Não estou nem um pouco curioso com esse segredo gigantesco e bombástico. Pode ficar tranquila.
Ele tomou um gole de cerveja e abriu seu sorriso perfeito e, pela primeira vez em duas semanas, eu me senti um pouquinho menos solitária.

* * *

Duas horas depois, o bar estava quente e cheio demais, turistas exaustos e maravilhados com cervejas de três dólares e clientes assíduos se amontoavam no corredor comprido e estreito, a maioria concentrada em uma luta de boxe passando na TV no canto. Todos gritaram em uníssono com um uppercut rápido e rugiram com o lutador para quem torciam, que caiu nas cordas com o rosto amassado e desfigurado. Josh era o único homem do lugar que não estava vendo a luta, apoiado em silêncio sobre a garrafa, os olhos fixos nos meus.
Eu estava jogada por cima da mesa, contando detalhadamente a história de Treena e Edwina no dia do Natal, uma das poucas coisas que eu podia contar totalmente, junto com a do derrame do vovô, a história do piano (eu disse que era para a sobrinha de Agnes) e — caso começasse a parecer sombria demais — o meu ótimo upgrade de Nova York a Londres. Não fazia ideia de quantas vodcas eu já havia tomado — antes que eu me desse conta de ter terminado a bebida em mãos, Josh surgia com outro copo num passe de mágica à minha frente. Uma parte distante de mim, no entanto, tinha noção de que a minha voz havia adquirido um tom estranho e musical, aumentando e nem sempre baixando de acordo com o que eu dizia.
— Uau, isso foi legal, não? — perguntou ele quando cheguei ao discurso do papai sobre felicidade.
Talvez eu lhe tenha dado um tom mais cinematográfico do que foi na realidade. Em minha última versão, meu pai havia se tornado Atticus Finch no tribunal, em sua fala final em O sol é para todos.
— Está tudo certo — continuou Josh. — Ele só quer que ela seja feliz. Quando meu primo Tim saiu do armário, meu tio ficou sem falar com ele por, tipo, um ano.
— Elas estão muito felizes — falei, estendendo os braços por cima da mesa para tocar na superfície fria, tentando não me importar com o fato de que estava grudenta. — É muito legal. Com certeza. — Tomei mais um gole. — A gente olha para as duas juntas e fica muito feliz, sabe? Treena estava sozinha fazia um milhão de anos, mas, sinceramente... seria muito bom se elas estivessem só um pouquinho menos radiantes. Tipo, se ficassem um minuto sem olhar uma nos olhos da outra. Ou com aquele sorriso secreto que de quem tem muitas piadas internas. Ou aquele outro que diz que as duas acabaram de fazer um sexo maravilhoso. E talvez Treena simplesmente parasse de me mandar fotos das duas juntas. Ou mensagens sobre todas as coisas incríveis que Eddie diz ou faz. O que pelo jeito é basicamente qualquer coisa que ela diz ou faz.
— Ah, qual é. Elas estão apaixonadas há pouco tempo, certo? As pessoas fazem isso.
— Eu nunca fiz esse tipo de coisa. Você já fez? Sério, eu nunca mandei para os outros fotos minhas beijando alguém. Se eu mandasse para Treena uma foto minha abraçada com um namorado, ela reagiria como se eu tivesse enviado uma foto do pau dele. Quero dizer, estamos falando da mulher que achava todas as demonstrações de emoção nojentas.
— Então é a primeira vez que ela está apaixonada. E ela vai adorar a próxima foto que você mandar estando enjoativamente feliz com o seu namorado. — Josh parecia estar rindo de mim. — Talvez não a foto do pau.
— Você me acha uma pessoa horrível.
— Eu não acho que você seja uma pessoa horrível. Só uma pessoa bem... renovada.
Gemi.
— Eu sei. Sou uma pessoa horrível. Não estou pedindo que elas não sejam felizes, só um pouquinho sensíveis em relação a quem pode não estar... com...
Eu havia ficado sem palavras.
Josh tinha se recostado na cadeira e me observava.
— Um ex-namorado — falei, com a voz um pouco arrastada. — Ele agora é ex-namorado.
Josh ergueu as sobrancelhas.
— Opa. Foram duas semanas e tanto, então.
— Putz.
Encostei a testa na mesa.
— Você não faz ideia.
Tomei consciência do silêncio pairando suavemente entre nós. Por um instante, me perguntei se eu não poderia tirar um cochilo rápido ali. Estava bem confortável. Os ruídos da luta de boxe diminuíram por um segundo. Minha testa só estava um pouco molhada. E então senti a mão dele na minha.
— Muito bem, Louisa. Acho que está na hora de tirar você daqui.
No caminho até o lado de fora, fui me despedindo de todas as pessoas gentis no bar, cumprimentando com um “toca aqui” o máximo de gente possível (alguns pareciam errar a minha mão... idiotas). Por algum motivo, Josh ficava pedindo desculpa em voz alta. Acho que talvez ele estivesse tropeçando nas pessoas ao passar. Vestiu o casaco em mim quando chegamos à porta, e eu comecei a rir porque ele não conseguia colocar meus braços nas mangas e, quando conseguiu, foi ao contrário, como uma camisa de força.
— Eu desisto — disse ele, afinal. — Fique assim mesmo.
Ouvi alguém gritar:
— Vê se bebe um pouco d’água, lady.
— Eu sou uma lady! — exclamei. — Uma dama inglesa! Sou Louisa Clark Primeira, não sou, Joshua?
Eu me virei para quem havia gritado e dei um soco no ar. Eu estava encostada na parede de fotografias, e algumas caíram em cima de mim.
— Estamos indo, estamos indo — disse Josh, erguendo as mãos para o barman.
Alguém começou a gritar. Josh continuava pedindo desculpas para todo mundo. Eu disse a ele que não era bom pedir desculpas. Will havia me ensinado isso. É preciso ficar de cabeça erguida.
Um segundo depois estávamos do lado de fora, no ar frio. Foi quando tropecei em alguma coisa e subitamente caí na calçada gelada, os joelhos no concreto duro. Soltei um palavrão.
— Deus do céu — disse Josh, passando o braço com firmeza ao redor da minha cintura e me levantando. — Acho que você precisa tomar um café.
O perfume dele era ótimo. Lembrava o de Will — um aroma caro, como a seção masculina de uma loja de departamentos chique. Encostei o nariz no pescoço dele e inspirei enquanto cambaleávamos pela calçada.
— Seu perfume é ótimo.
— Muito obrigado.
— Muito caro.
— Bom saber.
— Eu poderia lamber você.
— Se isso fizer você se sentir melhor.
Eu o lambi. O sabor do pós-barba não era tão bom como o perfume, mas até que foi legal lamber alguém.
— Estou me sentindo melhor — falei, com alguma surpresa. — De verdade!
— Muuuuuito bem. Aqui é o melhor lugar para pegar um táxi.
Ele se posicionou de modo a ficar de frente para mim e colocou as mãos nos meus ombros. Ao nosso redor, a Times Square era ofuscante e estonteante, um circo de neon, seus banners imensos acima de nós emitindo uma claridade exagerada. Eu me virei lentamente, olhando para as luzes e tendo a impressão de que poderia cair outra vez. Minha cabeça girou várias vezes, as luzes ficaram borradas e então cambaleei um pouco. Senti Josh me segurar.
— Posso colocar você em um táxi para a sua casa, porque acho que talvez você precise dormir até isso passar. Ou podemos caminhar até a minha casa e lá você pode tomar um pouco de café. Você escolhe.
Já passava de uma da manhã, mas ainda assim ele precisou gritar para ser escutado acima do barulho das pessoas ao nosso redor. Ele estava muito bonito com aquela camisa e aquele casaco. Com uma aparência muito boa e arrumada. Eu gostava muito dele. Então me virei em seus braços e pisquei. Ajudaria se ele parasse de balançar.
— Isso é muito gentil da sua parte — disse ele.
— Eu disse tudo em voz alta?
— Disse.
— Desculpe. Mas você é mesmo. Muito bonito. Bonito no padrão americano. Um verdadeiro astro de cinema. Josh?
— Sim?
— Acho que é melhor eu me sentar. Minha cabeça ficou meio confusa.
Eu estava na metade do caminho para o chão quando fui levantada por ele de novo.
— E lá vamos nós.
— Eu realmente quero contar a coisa para você. Mas não posso contar a coisa para você.
— Então não me conte a coisa.
— Você entenderia. Eu sei que entenderia. Sabe... Você se parece tanto com alguém que eu amei. Amei de verdade. Sabia disso? Você se parece muito com ele.
— Que... bom saber disso.
— É bom, sim. Ele era absurdamente bonito. Como você. Bonito tipo astro de cinema... Eu já disse isso? Ele morreu. Eu contei para você que ele morreu?
— Eu sinto muito pela sua perda. Mas acho que precisamos tirar você daqui.
Ele caminhou comigo por duas quadras, chamou um táxi e, com algum esforço, me ajudou a entrar. Eu me obriguei a me endireitar no banco de trás e me segurei na manga dele. Josh estava com metade do corpo dentro, metade fora do táxi.
— Para onde, moça? — perguntou o motorista ao olhar para trás.
Eu me virei para Josh.
— Você pode ficar comigo?
— Claro. Para onde vamos?
Vi o olhar desconfiado do motorista pelo retrovisor. Da televisão que estava ligada em um volume muito alto na parte de trás do banco dele, uma plateia começou a aplaudir. Do lado de fora, todos buzinaram ao mesmo tempo. As luzes eram ofuscantes. Nova York de repente era alta demais, tudo demais.
— Não sei. Para a sua casa — falei. — Eu não posso voltar. Ainda não. — Olhei para ele e senti vontade de chorar. — Sabia que eu tenho duas pernas em dois lugares?
Ele entortou a cabeça na minha direção e me olhou com uma expressão suave.
— Louisa Clark, de alguma maneira isso não me surpreende.
Apoiei a cabeça no ombro dele e senti seu braço passar gentilmente ao meu redor.

* * *

Acordei com o toque de um celular. Agudo e insistente. Logo veio o abençoado alívio com o fim do toque, e então uma voz masculina começou a murmurar. Senti um bem-vindo cheiro acre de café. Eu mudei de posição, tentando levantar a cabeça do travesseiro. Com o movimento veio uma dor que atravessou minhas têmporas, tão intensa e implacável que soltei um ruído meio animalesco, feito um cachorro com o rabo preso em uma porta. Fechei os olhos, inspirei, e os abri de novo.
Aquela não era a minha cama.
Ainda não era a minha cama quando abri os olhos pela terceira vez.
Esse fato indiscutível bastou para que eu tentasse levantar a cabeça mais uma vez, ignorando a dor latejante por tempo suficiente para me focar. Não, definitivamente aquela não era a minha cama. Também não era o meu quarto.
Na realidade, era um quarto que eu nunca tinha visto. Olhei para as roupas — masculinas — dobradas cuidadosamente na parte de trás de uma cadeira, para a televisão no canto, a escrivaninha e o guarda-roupa e tomei consciência da voz se aproximando cada vez mais. E então a porta se abriu. Josh entrou, vestindo um terno, segurando uma caneca em uma das mãos e com a outra pressionando o celular na orelha. Nossos olhares se cruzaram, então ele ergueu uma sobrancelha e colocou a caneca na mesa de cabeceira, ainda falando.
— É, teve um problema no metrô. Vou pegar um táxi e chego aí em vinte minutos... Claro. Sem problemas... Não, ela já está cuidando disso.
Eu me sentei, descobrindo, ao fazer isso, que estava com uma camiseta masculina. As implicações desse fato levaram alguns minutos para serem absorvidas e senti a vermelhidão subindo do meu peito até o rosto.
— Não, nós já falamos sobre isso ontem. Ele está com toda a papelada pronta.
Ele se virou, e eu me deitei de novo, puxando o edredom até o pescoço. Eu estava de calcinha. Já era alguma coisa.
— Sim. Vai ser ótimo. Tá... almoço parece bom.
Josh desligou e enfiou o celular no bolso.
— Bom dia! Estava indo buscar um ibuprofeno. Acha melhor dois? Infelizmente, preciso ir...
— Ir?
Minha boca parecia estar cheia de poeira. Eu a abri e fechei umas duas vezes, notando que com isso eu fazia um som estalado meio nojento.
— Trabalhar. Hoje é sexta-feira?
— Ah, meu Deus. Que horas são?
— Sete e quinze. Preciso ir. Já estou atrasado. Tudo bem você sair sozinha?
Ele remexeu uma gaveta, pegou uma cartela de cápsulas e colocou do meu lado.
— Pronto. Isso vai ajudar.
Afastei o cabelo do rosto. Estava um pouco molhado de suor e espantosamente embaraçado.
— O que... o que aconteceu?
— Falaremos sobre isso mais tarde. Tome o café.
Bebi um gole obedientemente. Forte e restaurador. Desconfiava que precisasse de mais uns seis.
— Por que eu estou usando a sua camiseta?
Ele sorriu.
— Isso foi a dança.
— A dança?
Senti meu estômago revirar.
Ele se abaixou e me deu um beijo no rosto. Cheirava a sabonete, limpeza, frutas cítricas, todas as coisas boas. Eu tinha noção de que estava exalando ondas quentes de suor seco, álcool e vergonha.
— Foi uma noite divertida. Olha... só se certifique de bater bem a porta quando sair, ok? Às vezes ela não fecha direito. Ligo para você mais tarde.
Ele acenou da porta, se virou e saiu, batendo as mãos nos bolsos como que para se certificar de alguma coisa.
— Espere um pouco... onde eu estou? — gritei, um instante depois, mas ele já havia saído.

* * *

Eu estava no SoHo. A um engarrafamento terrível de distância de onde deveria estar. Peguei o metrô da Spring Street até a 59, tentando não suar demais na minha camisa amarrotada de ontem e agradecida pela pequena bênção de não estar usando as costumeiras roupas brilhantes de noite. Eu nunca havia compreendido realmente a palavra “imundo” até aquela manhã. Não conseguia me lembrar de quase nada da noite anterior. E o que eu lembrava vinha na forma de desagradáveis flashbacks.
Eu sentada no meio da Times Square.
Eu lambendo o pescoço de Josh. Eu realmente havia lambido o pescoço dele. E que história era essa de dança?
Se eu não estivesse me segurando na barra do metrô como se minha vida dependesse disso, estaria com a cabeça entre as mãos. Em vez disso, fechei os olhos, fui chacoalhando entre as estações, tentando não vomitar enquanto desviava de mochilas e seus donos mal-humorados com fones de ouvido.
Apenas sobreviva ao dia de hoje, eu dizia o tempo todo a mim mesma. Se a vida havia me ensinado uma coisa era que as respostas sempre vinham.

* * *

Eu estava abrindo a porta do meu quarto quando o Sr. Gopnik apareceu. Ainda estava usando suas roupas de ginástica — algo incomum para ele depois das sete horas — e ergueu a mão quando me viu, como se estivesse à minha procura havia algum tempo.
— Ah. Louisa.
— Desculpe, eu...
— Queria conversar com você no meu escritório. Agora.
É claro que sim, pensei. É claro. Ele se virou e seguiu pelo corredor. Lancei um olhar angustiado para o meu quarto, onde estavam minhas roupas limpas, meu desodorante e creme dental. Desejei muito mais um café. Mas o Sr. Gopnik não era o tipo de homem que se deixava esperando.
Olhei para o celular e saí correndo atrás dele.

* * *

Entrei no escritório e já o encontrei sentado.
— Peço desculpas por estar dez minutos atrasada. Não costumo me atrasar. Eu só precisei...
Atrás de sua mesa de trabalho, o Sr. Gopnik exibia uma expressão indecifrável. Agnes estava sentada na poltrona estofada ao lado da mesa de centro, também com roupa de ginástica. Nenhum deles me convidou para sentar. Alguma coisa no clima do ambiente me deixou terrivelmente sóbria.
— Está... está tudo bem?
— Estou esperando você me dizer se está ou não. Recebi uma ligação do gerente da minha conta pessoal esta manhã.
— De quem?
— O homem que cuida das minhas operações bancárias. Será que você conseguiria me explicar isto?
Ele empurrou um pedaço de papel na minha direção. Era um extrato bancário, com os totais apagados. Minha visão estava um pouco embaçada, mas apenas uma coisa era visível: uma rastro de valores, quinhentos dólares por dia em “saques em dinheiro”.
Foi quando notei a expressão de Agnes. Ela olhava fixamente para as próprias mãos, a boca retesada em uma linha fina. O olhar dela se fixou em mim e desviou em seguida. Fiquei de pé, uma gota de suor escorrendo pelas minhas costas.
— Ele me contou algo muito interessante. Aparentemente, perto do Natal, uma quantia considerável de dinheiro foi retirada da nossa conta bancária conjunta. E assim foram sendo retiradas dia a dia de um caixa eletrônico próximo daqui quantias que, talvez, foram pensadas para não ser percebidas. Meu gerente notou porque dispõe de um software antifraude criado para identificar padrões estranhos de uso de qualquer um dos nossos cartões, e esses se enquadraram. Claro que achei preocupante, então perguntei a Agnes, e ela me disse que não tinha nada a ver com isso. Então pedi que Ashok me passasse as imagens das câmeras de vigilância dos dias em questão, e o pessoal da segurança cruzou esses dados com os horários dos saques. E acontece, Louisa — nesse ponto ele olhou diretamente para mim — que a única pessoa entrando e saindo do prédio nesses horários era você.
Arregalei os olhos.
— Pois bem, eu poderia ir ao banco e pedir que me fornecessem as imagens das câmeras dos caixas eletrônicos nos horários dos saques, mas prefiro não dar esse trabalho a eles. Então, eu realmente gostaria de saber se você poderia me explicar o que está acontecendo aqui. E por que quase dez mil dólares foram sacados da nossa conta conjunta.
Olhei para Agnes, mas ela continuava desviando o olhar de mim. Fiquei com a boca ainda mais seca do que no início da manhã.
— Eu precisei fazer umas... compras de Natal. Para Agnes.
— Você tem um cartão de crédito para fazer isso. Que mostra claramente as compras que fez, e você fornece a nota de todas essas compras. O que, até agora, segundo Michael, você tem feito. Mas dinheiro... dinheiro é bem menos transparente. Você tem os recibos dessas compras?
— Não.
— E pode me dizer o que comprou?
— Eu... não.
— Então o que aconteceu com o dinheiro, Louisa?
Eu não conseguia falar. Engoli em seco. E então respondi:
— Não sei.
— Você não sabe?
— Eu... eu não roubei nada.
Senti meu rosto ficando vermelho.
— Então Agnes está mentindo?
— Não.
— Louisa... Agnes sabe que eu daria tudo o que ela quisesse. Para ser sincero, ela poderia gastar dez vezes esse valor em um dia e eu não daria a menor importância. Sendo assim, ela não tem motivo para sacar quantias em dinheiro de um caixa eletrônico às escondidas. Por isso, vou perguntar a você mais uma vez: o que aconteceu com o dinheiro?
Senti o rosto quente, em pânico. E então Agnes olhou para mim. Sua expressão era uma súplica silenciosa.
— Louisa?
— Talvez... talvez eu tenha sacado o dinheiro.
— Talvez você tenha sacado o dinheiro?
— Para fazer compras. Não para mim. O senhor pode conferir o meu quarto. Pode conferir a minha conta bancária.
— Você gastou dez mil dólares em “compras”. Comprando o quê?
— Só... coisinhas.
Ele baixou a cabeça brevemente, como se estivesse tentando conter a fúria.
— Coisinhas — repetiu ele devagar. — Louisa, você entende que sua presença nesta casa requer confiança.
— Entendo, Sr. Gopnik. E levo isso muito a sério.
— Você tem acesso aos funcionamentos mais particulares desta casa. Você tem chaves, cartões de crédito, conhecimento íntimo das nossas rotinas. É bem recompensada por isso porque entendemos que se trata de um cargo de responsabilidade e contamos com você para não trair essa responsabilidade.
— Sr. Gopnik. Eu adoro este trabalho. Eu não...
Lancei um olhar angustiado para Agnes, mas ela continuava olhando fixamente para baixo.
Vi que uma das mãos segurava a outra. A unha afundando na carne do polegar.
— Você não consegue explicar o que aconteceu com esse dinheiro?
— Eu... eu não o roubei.
Ele olhou atentamente para mim por um longo instante, como se estivesse esperando por algo. Como eu não disse nada, a expressão dele endureceu.
— Estou decepcionado, Louisa. Sei que Agnes gosta muito de você e que a tem ajudado bastante. Mas não posso ter dentro da minha casa alguém em quem eu não confie.
— Leonard... — começou Agnes, mas ele ergueu a mão.
— Não, querida. Eu já falei sobre isso. Sinto muito, Louisa, mas o seu trabalho nesta casa está imediatamente encerrado.
— O... o quê?
— Você tem uma hora para pegar as suas coisas no quarto. Deve deixar um endereço de correspondência com Michael. Ele entrará em contato para tratar do que quer que seja devido a você. Aproveito a oportunidade para lembrar você da cláusula de confidencialidade do seu contrato. Os detalhes desta conversa não avançarão. Espero que perceba que é tanto pelo seu bem quanto pelo nosso.
Agnes estava totalmente pálida.
— Não, Leonard. Você não pode fazer isso.
— Não vou mais falar sobre este assunto. Preciso ir trabalhar. Louisa, sua hora começa agora.
Ele se levantou. Estava esperando que eu saísse do escritório.
Pisei no corredor com a cabeça girando. Michael esperava por mim, e levei alguns instantes para me dar conta de que ele não tinha ido ver se eu estava bem, na verdade ia me acompanhar até o meu quarto. Porque daquele momento em diante eu não era alguém de confiança naquela casa.
Percorri o corredor em silêncio, vagamente ciente da expressão perplexa de Ilaria na porta da cozinha, o som de uma conversa fervorosa em algum ponto do outro lado do apartamento. Nathan não estava em lugar algum. Com Michael parado na porta, peguei minha mala debaixo da cama e comecei a guardar as coisas de forma desordenada e caótica, abrindo gavetas, recolhendo os objetos o mais rapidamente possível, sabendo trabalhar contra um relógio imprevisível.
Minha cabeça zunia — choque e indignação misturados à necessidade de não me esquecer de nada. Eu havia deixado roupa suja na lavanderia? Onde estavam os meus tênis? E então, vinte minutos depois, eu estava pronta. Todas as minhas coisas estavam dentro de uma mala, uma mochila de viagem e uma sacola de compras grande com estampa xadrez.
— Pode deixar que eu pego isso — disse Michael, segurando minha mala de rodinhas ao ver que eu estava com dificuldade para chegar com todas as três até a porta do quarto.
Levei um segundo para me dar conta de que era menos uma gentileza e mais uma atitude de eficiência.
— iPad? — disse ele. — Celular do trabalho? Cartão de crédito.
Entreguei tudo a ele, junto com as chaves da porta, e ele as guardou no bolso. Segui pelo corredor, ainda me esforçando para acreditar que aquilo estava acontecendo. Vi Ilaria parada na porta da cozinha, de avental, as mãos gorduchas fechadas. Quando passei por ela, olhei de soslaio, esperando que ela me dissesse um palavrão em espanhol ou me lançasse o tipo de olhar devastador que mulheres da idade dela reservavam para supostos ladrões. Mas, em vez disso, ela deu um passo para a frente e tocou a minha mão em silêncio.
Michael se virou, como se não tivesse visto nada. E então chegamos à porta da frente.
Ele me passou a alça da mala.
— Adeus, Louisa — disse ele, a expressão indecifrável. — Boa sorte.
Saí do apartamento. E a imensa porta de mogno se fechou firmemente atrás de mim.

* * *

Fiquei sentada na lanchonete durante duas horas. Estava em choque. Não conseguia chorar. Não conseguia sentir raiva. Estava apenas paralisada. No começo achei que Agnes resolveria a situação. Ela daria um jeito de convencer o marido de que ele estava errado. Nós éramos amigas, afinal. Sendo assim, fiquei sentada esperando que Michael aparecesse, meio constrangido, pronto para levar minhas malas de volta ao Lavery. Olhei para o celular, aguardando uma mensagem. “Louisa, houve um terrível mal-entendido.” Mas não recebi nada.
Quando me dei conta de que provavelmente essa mensagem não chegaria, pensei em voltar para o Reino Unido, mas fazer isso estragaria a vida de Treena. A última coisa de que ela e Thom precisavam era que eu os tirasse do apartamento. Eu não podia voltar para a casa dos meus pais — não era apenas a ideia arrasadora de retornar para Stortfold, mas a ideia de que eu seria capaz de morrer se voltasse fracassada para casa pela segunda vez. Antes eu tinha me ferrado depois de cair bêbada de um edifício e agora, demitida do emprego que eu adorava.
E, é claro, eu não podia mais ficar com Sam.
Segurei a xícara de café com os dedos ainda trêmulos e vi que eu havia efetivamente me encaixotado para fora da minha própria vida. Pensei em ligar para Josh, mas achei que não fosse adequado pedir para morar com ele, considerando que eu não sabia ao certo se aquele ao menos tinha sido nosso primeiro encontro.
E se eu encontrasse um lugar para ficar, o que iria fazer? Eu não tinha emprego. Não sabia se o Sr. Gopnik podia revogar meu visto de trabalho. Supostamente, o documento existia apenas enquanto eu trabalhasse para ele. Mas o pior de tudo era a sensação de estar sendo assombrada pelo olhar que ele me lançara, a expressão de decepção absoluta e desprezo quando não consegui dar uma resposta satisfatória. A aprovação silenciosa do Sr. Gopnik era uma das várias pequenas satisfações da minha vida naquela casa — que um homem de tamanha estatura achasse que eu estava fazendo um bom trabalho havia melhorado a minha autoconfiança, fazendo com que eu me sentisse capaz e profissional, de um modo que eu não me sentia desde Will. Queria muito me explicar para ele, reconquistar sua confiança, mas como? Vi a expressão de Agnes, os olhos arregalados, suplicantes. Ela ia me ligar, não ia? Por que não havia ligado?
— Quer mais café, querida?
Olhei para a garçonete de meia-idade com cabelo cor de tangerina segurando a jarra de café.
Ela olhou para as minhas coisas como se já tivesse visto aquela cena um milhão de vezes.
— Acabou de chegar?
— Não exatamente.
Tentei sorrir, mas saiu meio como uma careta.
Ela serviu o café e se inclinou na minha direção, baixando o tom de voz:
— Meu primo é gerente de um hostel em Bensonhurst, se estiver precisando de um lugar para ficar. Tem cartões ao lado do caixa. Não é bonito, mas é barato e limpo. Então é melhor ligar logo, entendeu? As vagas são preenchidas rápido.
Ela colocou a mão no meu ombro por um segundo, depois foi até o cliente seguinte.
Aquele pequeno gesto de bondade quase me fez perder a compostura. Pela primeira vez, eu me senti impotente, sufocada por saber que estava sozinha em uma cidade na qual eu não era mais bem-vinda. Não sabia o que fazer agora que meu cérebro parecia ter queimado e soltava fumaça espessa e escura nos dois extremos. Tentei imaginar a mim mesma explicando aos meus pais o que havia acontecido, mas me peguei mais uma vez encurralada no imenso muro de segredos de Agnes. Seria possível contar a uma pessoa sem que a verdade se revelasse lentamente? Meus pais ficariam tão indignados por mim, que não consegui me convencer de que o papai não ligaria para o Sr. Gopnik para contar toda a verdade a respeito da esposa mentirosa dele. E se Agnes negasse tudo?
Pensei nas palavras de Nathan — no fim, somos empregados, não amigos. E se ela mentiu e disse que eu havia roubado o dinheiro? Isso não pioraria as coisas?
Talvez pela primeira vez desde que eu havia chegado a Nova York desejei não ter vindo. Ainda estava com as roupas do dia anterior, amarrotadas e fedidas, e isso só me fazia sentir ainda pior. Funguei baixinho e limpei o nariz com um guardanapo de papel, olhando fixamente para a caneca diante de mim.
Do lado de fora, a vida em Manhattan seguia seu curso, distraída, veloz, ignorando o lixo que se acumulava na sarjeta. O que eu faço agora, Will?, pensei enquanto um nó imenso se formava em minha garganta.
Parecendo atender a uma deixa, meu celular apitou.
Que diabo está acontecendo? Era a mensagem de Nathan. Me liga, Clark.
E, apesar de tudo, sorri.

* * *

Nathan disse que de jeito nenhum eu ia ficar em um maldito hostel em sabe Deus onde, com estupradores, traficantes e sabe Deus o quê. Ele me pediu para esperar até as sete e meia, horário em que os malditos Gopnik iriam para o maldito jantar e então encontrá-lo na entrada de serviço para pensarmos o que fazer a seguir. Foram vários palavrões em três mensagens de texto.
Quando cheguei, a raiva dele estava estranhamente igual.
— Não entendo. É como se eles tivessem transformado você em um fantasma. Como um maldito código de silêncio da máfia. Michael não me falou nada além de que se tratava de uma “questão de desonestidade”. Eu disse a ele que nunca havia conhecido ninguém mais honesto em toda a minha vida e que eles estavam malucos. Que diabo aconteceu?
Ele havia me levado até o seu quarto no corredor de serviço e fechado a porta atrás de nós. Foi um alívio tão grande vê-lo, que quase o abracei. Mas não fiz isso. Achei que provavelmente havia agarrado uma quantidade suficiente de homens nas últimas vinte e quatro horas.
— Pelamordedeus. Gente. Quer uma cerveja?
— Claro.
Ele abriu duas latas e deu uma para mim, sentando-se na sua poltrona. Eu me sentei na beira da cama e bebi um gole.
— E... então?
Fiz uma careta.
— Eu não posso contar, Nathan.
As sobrancelhas dele se ergueram quase até o teto.
— Você também? Ah, caramba. Não me diga que você...
— É claro que não. Eu não roubaria um saquinho de chá dos Gopnik. Mas se eu te dissesse o que realmente aconteceu, seria... seria desastroso. Para outras pessoas na casa... É complicado.
Ele franziu a testa.
— Como assim? Você está dizendo que levou a culpa por algo que não fez?
— Mais ou menos.
Nathan apoiou os cotovelos nos joelhos, balançando a cabeça.
— Isso não está certo.
— Eu sei.
— Alguém precisa dizer alguma coisa. Sabia que ele estava pensando em chamar a polícia?
Acho que fiquei boquiaberta.
— Pois é. Ela o convenceu a não fazer isso, mas o Michael disse que ele estava furioso o bastante para tanto. Alguma coisa a ver com caixas eletrônicos?
— Eu não fiz isso, Nathan.
— Eu sei, Clark. Você seria uma criminosa de merda. Seria o pior blefe que já vi na vida. — Ele tomou um gole da cerveja. — Caramba. Eu adoro o meu emprego, sabe? Gosto de trabalhar para essas famílias. Gosto do velho Gopnik. Mas de vez em quando é como se eles nos lembrassem que somos basicamente dispensáveis. Não importa o quanto digam que somos amigos da família e o quanto somos ótimos, o quanto eles contam conosco, blá-blá-bá, no instante em que não precisam mais da gente, ou se fizermos algo de que não gostem, bum. Rua. Não existe justiça alguma.
Foi a coisa mais longa que ouvi Nathan dizer desde que cheguei a Nova York.
— Eu odeio isso, Lou. Mesmo sabendo tão pouco, para mim está claro que você está sendo injustiçada. E isso é uma droga.
— É complicado.
— Complicado? — Ele ficou olhando para mim com firmeza, balançou a cabeça de novo e tomou um longo gole de cerveja. — Cara, você é uma pessoa melhor do que eu.

* * *

Íamos sair para comprar comida, mas no instante em que Nathan vestiu o casaco para ir até o restaurante chinês, alguém bateu na porta. Olhamos um para o outro, horrorizados, e ele fez um sinal para eu ir para o banheiro. Fui deslizando e fechei a porta silenciosamente ao entrar. Pendurada no suporte de toalha, ouvi uma voz conhecida.
— Clark, está tudo bem. É a Ilaria — disse Nathan, um instante depois.
Ela estava de avental, segurando uma panela tampada.
— Para você. Ouvi vocês dois conversando.
Ela estendeu a panela na minha direção.
— Eu fiz para você. Você precisa comer. É o frango que você gosta. Com o molho apimentado.
— Ah, cara.
Nathan deu um tapa nas costas de Ilaria. Ela cambaleou para a frente, se recuperou e colocou cuidadosamente a panela em cima da mesa de Nathan.
— Você fez isto para mim?
Ilaria estava apontando com o indicador para o peito de Nathan.
— Eu sei que ela não fez isso que estão dizendo que fez. Eu sei de muita coisa. Muita coisa que acontece neste apartamento. — Ela deu um tapinha no próprio nariz. — Ah, sei.
Levantei a tampa por um segundo e um cheiro delicioso emergiu. De repente, lembrei que mal havia comido o dia todo.
— Obrigada, Ilaria. Não sei o que dizer.
— Aonde vai agora?
— Não faço ideia.
— Bom, você não vai ficar em um hostel no maldito Bensonhurst — disse Nathan. — Pode ficar aqui por uma ou duas noites até dar um jeito. Eu deixo a porta trancada. Você não vai dizer nada, vai, Ilaria?
Ela fez uma expressão de incredulidade, como se fosse uma estupidez ele fazer aquela pergunta.
— Ilaria está amaldiçoando a mulher a tarde toda de um jeito inacreditável. Diz que ela vendeu você. Fez um prato de peixe de jantar porque sabe que os dois detestam. Estou dizendo, cara, aprendi um monte de palavrões novos hoje.
Ilaria resmungou alguma coisa baixinho. Só consegui entender a palavra puta.

* * *

Como a poltrona era pequena demais para Nathan dormir e ele era antiquado demais para permitir que eu dormisse nela, concordamos em dividir a cama de casal com um muro de almofadas no meio que nos protegeria de toques acidentais durante a noite. Não sei quem estava mais constrangido. Nathan fez questão de me acompanhar até o banheiro primeiro, se certificando de que eu havia trancado a porta e esperando que eu estivesse na cama antes de ele sair do banho. Ele estava usando uma camiseta e uma calça de pijama listrada e, mesmo assim, eu não sabia para onde olhar.
— Meio estranho, né? — disse ele, deitando-se na cama.
— Hum, sim.
Não sei se foi pelo choque ou pela exaustão ou simplesmente pelo rumo surreal dos acontecimentos, mas comecei a rir. E então o riso se transformou em lágrimas. E antes que eu me desse conta, estava soluçando, curvada na cama de um estranho, segurando a cabeça com as mãos.
— Ah, cara.
Nathan claramente ficou constrangido por me abraçar estando na cama junto comigo. Ficava dando tapinhas no meu ombro e se inclinando na minha direção.
— Vai ficar tudo bem.
— Como? Eu perdi o meu emprego, o lugar onde morava e o homem que amava. Não vou ter nenhuma referência, porque o Sr. Gopnik acha que eu sou uma ladra, e eu nem sequer sei a que país pertenço. — Limpei o nariz na manga do pijama. — Eu ferrei com tudo de novo e nem sei por que ainda me dou ao trabalho de tentar ser algo além do que eu era porque sempre que eu tento, tudo acaba em desastre.
— Você só está cansada. Vai ficar tudo bem. Vai, sim.
— Como ficou com o Will?
— Ah... aquilo foi completamente diferente. Qual é...
Então Nathan me abraçou e me puxou para o ombro dele, passando o braço enorme ao meu redor. Chorei até não aguentar mais e, então, exatamente como ele disse, exausta pelos acontecimentos do dia e da noite, eu devo ter caído no sono.

* * *

Acordei oito horas mais tarde e me vi sozinha no quarto de Nathan. Levei alguns minutos para entender onde estava, e então me lembrei dos acontecimentos do dia anterior. Fiquei deitada embaixo do cobertor por um tempo, enroscada em posição fetal, me perguntando vagamente se eu não podia ficar ali por um ou dois anos, até a minha vida ter se resolvido de alguma maneira.

* * *

Conferi o celular: duas chamadas perdidas e uma série de mensagens de Josh que pareciam ter chegado de uma só vez no final da noite anterior.
Oi, Louisa, espero que esteja se sentindo bem. Passei o dia inteiro me lembrando da sua dança e dando risada no trabalho! Que noite! Bj, J
Você tá bem? Só quero saber se você chegou em casa e não tirou outro cochilo na Times Square ;-) Bj, J
Certo. Já são mais de dez e meia. Estou chutando que você foi para a cama dormir. Espero não ter ofendido você. Estava só brincando. Dê uma ligada. Bj
Aquela noite, com a luta de boxe e as luzes cintilantes da Times Square, parecia ter acontecido uma vida inteira atrás. Saí da cama, tomei uma ducha e me vesti, deixando minhas coisas no canto do banheiro. Isso limitava bastante o espaço, mas achei que seria mais seguro, apenas para o caso de um Gopnik perdido calhar de espiar pela porta de Nathan.
Mandei uma mensagem perguntando quando seria seguro sair, e Nathan respondeu: AGORA. Os dois no escritório. Desci pela entrada de serviço, passando rapidamente por Ashok de cabeça baixa. Ele estava conversando com um entregador, mas vi sua cabeça girar e ouvi seu “Ei! Louisa!”, mas eu já estava do lado de fora.
Manhattan estava congelada e cinzenta, um daqueles dias sombrios em que parece haver partículas de gelo no ar, o frio penetrando nos ossos e apenas olhos, e o nariz de algumas pessoas, ficavam visíveis. Caminhei cabisbaixa, com o chapéu enfiado na cabeça, sem saber para onde estava indo. Acabei voltando para a lanchonete do dia anterior, racionalizando que tudo pareceria melhor depois do café da manhã. Eu me sentei sozinha em uma mesa e fiquei olhando para todos os transeuntes que seguiam para seus destinos, me obrigando a comer um muffin, a coisa mais barata e substanciosa do cardápio, tentando ignorar o fato de que era seco e sem gosto.
Às nove e quarenta, chegou uma mensagem. Michael. Meu coração deu um pulo.
Oi, Louisa. O Sr. Gopnik pagará você até o fim do mês em vez do aviso. Todos os seus benefícios de seguro-saúde estão suspensos a partir desse momento. Seu green card não será afetado. Tenho certeza de que compreende que isso é evidentemente muito mais do que ele precisaria fazer, considerando a violação do seu contrato, mas Agnes interveio em seu favor.
Att., Michael
— Gentil da parte dela — resmunguei.
Obrigada por me informar, digitei. Ele não respondeu mais nada.
E então meu celular soou de novo.
Muito bem, Louisa. Agora estou preocupado que eu possa ter feito algo que incomodou você. Ou quem sabe você se perdeu voltando para o Central Park? Por favor, me ligue. Bj. J

* * *

Eu encontrei com Josh perto do escritório dele, em um daqueles prédios do centro da cidade tão altos que, se paramos na calçada e olhamos para cima, ficamos até tontos. Ele veio a passos largos em minha direção, com um cachecol cinza leve enrolado no pescoço. Enquanto eu descia da mureta em que estava sentada, ele se aproximou mim e me deu um abraço.
— Não acredito. Eita. Caramba, você está gelada. Vamos comer alguma coisa quente.
Nós nos sentamos em um bar de tacos quente e barulhento a duas quadras de distância enquanto um fluxo constante de executivos fazia os pedidos e os atendentes gritavam. Contei a ele, como havia contado a Nathan, o básico da história.
— Eu realmente não posso dar mais detalhes, só que não roubei nada. Eu não faria isso. Eu nunca roubei nada. Bom, só uma vez quando tinha oito anos. A minha mãe ainda menciona a ocasião às vezes, quando precisa de um exemplo de como eu quase me embrenhei em uma vida no crime.
Tentei sorrir.
Ele franziu a testa.
— Então isso quer dizer que você vai ter que ir embora de Nova York?
— Não sei exatamente o que vou fazer. Mas não consigo imaginar os Gopnik dando qualquer referência minha e não sei como vou me sustentar aqui. Quer dizer, eu não tenho emprego e os hotéis de Manhattan ficam um pouco além da minha faixa de preço...
Na lanchonete, eu havia feito uma busca na internet pelos aluguéis locais e quase cuspi o café. O minúsculo quartinho que me fizera sentir tão ambivalente quando cheguei para trabalhar com os Gopnik só era acessível com um salário de executivo. Não surpreendia que aquela barata não se mudasse de lá.
— Ajudaria se ficasse lá em casa?
Ergui os olhos do meu taco.
— Só por um tempo — acrescentou ele. — Não precisa significar uma coisa de namorados. Eu tenho um sofá-cama na sala. Você provavelmente não lembra.
Ele deu um meio sorriso. Eu havia esquecido que os americanos estão acostumados a convidar as pessoas para as suas casas. Diferentemente dos ingleses, que fazem o convite, mas saem do país no instante em que a pessoa diz que aceita.
— Muito gentil da sua parte. Mas isso complicaria as coisas, Josh. Talvez eu precise voltar para casa, pelo menos por enquanto. Só até outro emprego aparecer.
Josh ficou olhando fixamente para seu prato.
— Nosso timing é uma droga, hein?
— É.
— Eu estava esperando ansiosamente por mais danças.
Fiz uma careta.
— Ah, meu Deus. O lance da dança. Eu... eu... eu quero saber o que aconteceu naquela noite.
— Você realmente não lembra?
— Só das partes na Times Square. Talvez de entrar em um táxi.
Ele ergueu as sobrancelhas.
— Opa! Ah, Louisa Clark. É muito tentador provocar você agora, mas não aconteceu nada. Nada daquilo, pelo menos. Quer dizer, só se lamber o meu pescoço for o seu lance.
— Mas eu não estava com as minhas roupas quando acordei.
— Porque você insistiu em tirar tudo durante a dança. Quando chegamos ao meu prédio, você anunciou que gostaria de expressar seus últimos dias através da dança livre e, enquanto eu te seguia, você foi tirando as peças de roupa do saguão do edifício até a minha sala de estar.
— Eu mesma tirei a roupa.
— E de um jeito muito encantador. Houve... floreios.
Subitamente, me vi rodopiando, uma perna reticente saindo de trás de uma cortina, a sensação do vidro da janela gelado em minhas costas. Eu não sabia se ria ou chorava. Minhas bochechas estavam completamente vermelhas, e cobri o rosto com as mãos.
— Preciso dizer que você é uma bêbada muito divertida.
— E... depois que chegamos no seu quarto?
— Ah, a essa altura você estava só com a roupa de baixo. E então cantou uma música maluca... alguma coisa sobre um macaco ou malaco, ou coisa parecida. E aí caiu no sono do nada, toda enroscada no chão. Então vesti uma camiseta em você e a coloquei na minha cama. E eu dormi no sofá-cama.
— Eu sinto muito. E obrigada.
— Foi um prazer.
Ele sorriu, e seus olhos brilharam.
— A maioria dos meus encontros não tem nem metade dessa diversão.
Abaixei a cabeça por cima da caneca e disse:
— Sabe, nesses últimos dias, eu tenho me sentido como se estivesse o tempo todo prestes a cair no riso ou no choro e, neste momento, eu meio que quero fazer as duas coisas.
— Você vai ficar no quarto do Nathan esta noite?
— Acho que sim.
— Está bem. Bom, não faça nada sem pensar. Deixe eu dar alguns telefonemas antes de reservar a passagem, ok? Vou ver se tem alguma vaga em algum lugar.
— Acha mesmo possível?
Ele era sempre muito confiante. Era uma das coisas que mais me faziam lembrar de Will.
— Sempre tem alguma coisa. Ligo para você mais tarde.
E então ele me beijou. Fez isso tão casualmente que eu quase não registrei a ação. Ele se inclinou para a frente e me deu um selinho, como se fosse algo que já tivesse feito um milhão de vezes, como se fosse o encerramento natural de todos os nossos almoços juntos. E então, antes que eu tivesse tempo de ficar assustada, ele soltou os meus dedos e enrolou o cachecol no pescoço.
— Muito bem. Preciso ir. Tenho duas reuniões importantes esta tarde. Cabeça erguida, ok?
Ele deu seu sorriso perfeito de alta voltagem e voltou para o escritório, me deixando em meu banquinho alto de plástico, boquiaberta.

* * *

Não contei a Nathan o que havia acontecido. Mandei uma mensagem perguntando se era seguro voltar, e ele respondeu que os Gopnik sairiam de novo às sete, então seria bom se eu esperasse até sete e quinze. Caminhei no frio, fiquei esperando na lanchonete e finalmente voltei para casa, onde descobri que Ilaria havia deixado uma garrafa térmica com sopa e dois bolinhos macios que eles chamavam de biscuits. Nathan tinha saído para um encontro e quando acordei na manhã seguinte ele não estava. Havia deixado um bilhete dizendo que esperava que eu estivesse bem e reafirmando que eu podia ficar.
Pelo jeito, eu roncava só um pouquinho.
Eu havia passado meses desejando ter mais tempo livre. Agora que tinha o tempo livre, descobri que a cidade não era um lugar tão amistoso quando não se tinha dinheiro para gastar. Saí do prédio quando encontrei uma brecha e caminhei a esmo até os dedos dos pés ficarem gelados demais. Então tomei chá em uma Starbucks, passando umas duas horas lá e usando o WiFi liberado para procurar emprego. Não havia muita coisa para alguém sem referência, a menos que eu tivesse experiência no setor de alimentos.
Comecei a vestir várias camadas de roupas, agora que a minha vida não envolvia poucos minutos ao ar livre entre saguões aquecidos e limusines quentes. Eu estava usando uma jaqueta esportiva azul, macacão jeans, botas pesadas, meia-calça e meias grossas por baixo. Nada elegante, mas isso não era mais minha prioridade.
Na hora do almoço, fui até uma lanchonete de fast-food onde os hambúrgueres eram baratos e ninguém notaria uma cliente solitária beliscando um pãozinho durante uma ou duas horas. Lojas de departamentos eram uma triste impossibilidade, já que eu não me sentia mais capaz de gastar dinheiro, embora os banheiros fossem bons e tivesse WiFi liberado. Fui duas vezes ao Vintage Clothes Emporium, onde as meninas se solidarizaram comigo, mas trocaram aqueles olhares ligeiramente tensos de quem desconfia que vão lhes pedir um favor.
— Se souberem de alguma vaga de emprego, especialmente parecida com as de vocês, podem me avisar? — pedi, sem conseguir mais olhar as araras de roupas.
— Querida, mal conseguimos pagar o aluguel. Senão, você seria contratada aqui imediatamente.
Lydia soprou um anel de fumaça de cigarro para o teto e olhou para a irmã, que espalhou a fumaça com a mão.
— Você vai deixar as roupas fedendo. A gente vai perguntar por aí, ok? — disse Angelica.
Ela falou isso de um jeito que me fez pensar que eu não era a primeira pessoa a pedir aquilo.
Saí lentamente da loja, me sentindo desanimada. Não sabia o que fazer. Não havia nenhum lugar tranquilo onde eu pudesse ficar sentada por um tempo. Nenhum lugar onde eu pudesse pensar no que fazer. Quem não tem dinheiro em Nova York vira um refugiado, passa a não ser bem-vindo em nenhum lugar por muito tempo. Talvez, pensei, estivesse na hora de admitir a derrota e comprar a passagem de avião.
E então me dei conta.
Peguei o metrô até Washington Heights e saí a uma distância curta a pé da biblioteca. Pela primeira vez em dias, tive a sensação de estar em algum lugar conhecido, algum lugar onde eu era bem-vinda. Aquele seria o meu refúgio, o meu trampolim para um novo futuro. Segui até os degraus de pedra. No primeiro andar, encontrei um computador desocupado. Eu me sentei pesadamente, respirei fundo e, pela primeira vez desde o desastre dos Gopnik, fechei os olhos e deixei meus pensamentos assentarem.
Senti como se um peso antigo saísse de cima dos meus ombros e divaguei pelo murmúrio das pessoas ao redor, a um mundo de distância do caos e da movimentação do lado de fora. Não sei se era apenas a alegria de estar cercada por livros, e pelo silêncio, mas eu me senti uma igual ali. Discreta, um cérebro, um teclado, apenas mais uma pessoa à procura de informações.
E ali, pela primeira vez, me perguntei que diabo havia acontecido, afinal.
Agnes havia me traído. Meus meses com os Gopnik subitamente pareceram um delírio, um tempo fora da curva, uma névoa estranha e compactada de limusines e decorações suntuosas, um mundo para o qual uma cortina havia sido aberta por um segundo e fechada bruscamente.
Aquilo, por outro lado, era real. Ali, eu disse a mim mesma, era aonde eu poderia ir todos os dias até definir a minha estratégia. Ali, eu encontraria o caminho para me reerguer.
Conhecimento é poder, Clark.
— Moça.
Abri os olhos e encontrei um segurança à minha frente. Ele estava abaixado de tal forma que olhava diretamente para o meu rosto.
— Você não pode dormir aqui.
— Como?
— Você não pode dormir aqui.
— Eu não estava dormindo — retruquei, indignada. — Eu estava pensando.
— Então que tal pensar com os olhos abertos, sim? Senão terá que sair.
Ele se virou, murmurando alguma coisa em um walkie-talkie. Levei um instante para registrar o que ele realmente estava me dizendo. Duas pessoas em uma mesa próxima olharam para mim e então desviaram o olhar. Meu rosto ficou vermelho. Notei os olhares constrangidos dos outros frequentadores da biblioteca ao meu redor. Olhei para as minhas roupas: meu macacão jeans, as botas pesadas forradas de flanela e o chapéu de lã. Não era exatamente Bergdorf Goodman, mas estava longe de ser um visual de mendigo.
— Ei! Eu não sou uma sem-teto! — gritei às costas dele. — Fiz protestos em defesa deste lugar! Moço! EU NÃO SOU UMA SEM-TETO!
Duas mulheres ergueram os olhos no meio da conversa que estavam tendo. Uma delas ergueu uma sobrancelha.
E então eu me dei conta: eu era, sim, uma sem-teto.

7 comentários:

  1. E eu aqui reclamando da minha vida...

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  2. Falei... essa Agnes ia ferrar c a Low...vac* 😠 #$#*%××#$

    Eríneas Graças

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  3. Desapontadíssima com a Agnes.
    E, por mais que eu não quisesse, to shipando o novo "Will" rs

    Mari Matias

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  4. Tadinha da Lou...
    Rege a cabeça, se não a coroa cai!

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  5. E A Ilaria ainda tentou avisar a Lou sobre a "puta". 😂
    A Agnes é uma egoísta e interesseira.
    Não pensou duas vezes em entregar a cabeça da Lou pra salvar a própria.
    Nojeeeenta!
    Mas a Lou vai se sair bem.

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  6. Agnes Fdp, entregou a cabeça da lou,de bandeja muito triste!amiga na onde? Vaca interesseira.

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Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!