16 de fevereiro de 2018

Capítulo 21

PAULINE

Três dias e dois bilhetes mais tarde, Gwyneth ainda não tinha recebido uma resposta do Chanceler. Ela tinha me convencido de que, enquanto eu não gostava ou confiava no Chanceler e no Erudito Real depois do tratamento para com Lia, isso também os tornava perfeitos para Gwyneth procurar. Eles seriam os mais propensos a terem segredos sobre ela e, mais importante, estarem interessados em informações sobre ela. Era com os jogadores desconhecidos que deveríamos nos preocupar, o que, no momento atual, incluía quase todos.
— Que diferença faz em quem podemos ou não confiar além do rei?
— Porque alguém tentou cortar a garganta de Lia quando ela estava em Terravin.
Eu apenas fiquei sentada lá em descrença quando Gwyneth me disse. Lia tinha explicado a lesão no pescoço como um tropeço ao descer as escadas enquanto carregava uma braçada de lenha. Senti pesar no quanto Lia tinha me protegido durante os dias logo após a morte de Mikael. Eu estava tão envolvida em minha própria dor, não estive lá por ela. Isto lançava uma nova luz sobre tudo. Traidores sempre eram trazidos de volta para julgamento, e certamente a filha do rei, acima de todos, receberia essa pequena quantidade de justiça. Alguém a queria morta sem o benefício de até mesmo uma audiência. Eu olhava para a corte e o gabinete agora com novos olhos.
O terceiro bilhete de Gwyneth ao Chanceler, enviado esta manhã, foi respondido imediatamente, com ele concordando em encontrar-se com ela ao meio-dia. Nesse bilhete, ela dizia que tinha notícias da princesa Arabella.
Sentei-me em um canto escuro do pub onde ninguém me notaria, embora, a essa hora, o pub estivesse vazio exceto por dois clientes do outro lado da sala. Meu capuz escondia meu rosto, e cada fio de meu cabelo loiro estava cuidadosamente escondido fora de vista. Eu estava de frente para a porta e lentamente bebi uma caneca de caldo quente. Gwyneth sentava-se em uma mesa bem iluminada no meio da sala. Eu deveria me revelar apenas se ela me desse um sinal para tal, e teríamos que recorrer ao nosso segundo plano... eu confrontar o Chanceler. Eu tinha certeza de que ela não me daria um sinal. Ela ficou consternada até mesmo de eu ter concordado em ir junto, mas não faria isso de outra maneira. Ela me acusou de não confiar nela, e talvez a revelação de que ela fora uma espiã me fez parar, mas na maior parte do tempo eu tinha medo de deixar um único momento passar, quando eu poderia ser capaz de ajudar Lia.
Ele veio sozinho, sem séquito ou guardas para acompanhá-lo. O vi aproximar-se através da janela do pub e acenei para Gwyneth. Ela não parecia nem um pouco nervosa, mas eu estava começando a compreender que Gwyneth era em muitos aspectos como Lia. Ela escondia seus medos sob um verniz treinado de aço, mas seus medos estavam lá, tão certos e trêmulos quanto minhas mãos em meu colo.
Ele passeou pela sala e sentou-se em frente Gwyneth. Sua capa era simples, e ele não usava nenhum dos enfeites de costume em seus dedos. Pela primeira vez, não queria ser notado. Estabeleceu-se em sua cadeira e olhou-a sem dizer uma palavra. Ela fez o mesmo. Eu tinha uma visão clara de ambos. O silêncio era longo e duro, e eu prendi a respiração à espera que um deles para falasse, mas nenhum deles parecia perturbado pelo silêncio. Finalmente, o Chanceler falou em um tom estranhamente familiar, fazendo minha pele formigar.
— Você parece estar bem — disse ele.
— Eu estou.
— E a criança?
Os lábios de Gwyneth viraram uma linha reta.
— Nasceu morta — respondeu ela.
Ele concordou e recostou-se na cadeira, soltando um longo suspiro, como se aliviado.
— Melhor assim.
A frieza dela tornou-se gélida, e uma única sobrancelha se arqueou para cima.
— Sim. Melhor assim.
— Passaram-se anos — falou ele. — De repente você tem informações de novo?
— Estou precisando de capital.
— Vamos ver se a sua informação vale alguma coisa.
— A princesa Arabella foi sequestrada.
Ele riu.
— Você terá que fazer melhor do que isso. Minhas fontes dizem que ela está morta. Que aconteceu em um acidente infeliz.
A caneca escorregou na minha mão, e caldo se espalhou sobre a mesa. Gwyneth colocou aço nos olhos para me ignorar.
— Então suas fontes estão erradas — disse ela. — Ela foi feita prisioneira por um assassino de Venda. Ele disse que a levaria de volta para o seu reino, mas com que finalidade, não sei.
— Todo mundo sabe que Venda não faz prisioneiros. Você já foi melhor, Gwyneth. Acho que encerramos por aqui. — Ele se afastou da mesa e se levantou para sair.
— Eu soube disso em primeira mão da acompanhante dela, Pauline — Gwyneth acrescentou rapidamente. — Ela testemunhou o rapto.
O Chanceler parou no meio de um passo.
— Pauline? — ele sentou-se novamente. — Onde ela está?
Eu engoli, abaixando a cabeça.
— Ela está escondida — disse Gwyneth — em algum lugar no norte do país. Uma ratinha assustada, mas me deu sua última moeda para vir até aqui e pedir ajuda para a princesa Arabella. Ela me disse para falar com o Vice-Regente, mas vim até você em vez disso, uma vez que temos uma história. Pensei que eu poderia conseguir uma recompensa mais favorável de você. Pauline prometeu que eu obteria uma ampla recompensa por esse trabalho. Tenho certeza de que o rei e a rainha querem desesperadamente a princesa de volta, independentemente de sua indiscrição.
Ele olhou para ela, a mesma expressão severa que o vi usar em minhas andanças na cidadela, mas agora era intensificada, como se estivesse calculando a veracidade de cada palavra que Gwyneth proferiu. Ele então colocou a mão dentro da capa e jogou uma pequena bolsa sobre a mesa.
— Eu vou falar com o rei e a rainha. Não mencione isso para ninguém.
Gwyneth estendeu a mão e pegou a bolsa, como se pesando-a, em seguida, sorriu.
— Você tem meu silêncio.
— É bom trabalhar com você novamente, Gwyneth. Onde você disse que ficaria?
— Eu não disse.
Ele se inclinou para frente.
— Peço apenas porque eu poderia ser capaz de ajudá-la com acomodações mais confortáveis. Como antes.
— Muito generoso de sua parte. Deixe-me saber o que o rei e a rainha têm a dizer, e então discutiremos as minhas acomodações.
Ela sorriu, bateu as pestanas, inclinou a cabeça do jeito que eu a tinha visto fazer com inúmeros clientes da taberna e, em seguida, quando ele saiu, ficou sentada com um brilho de suor no seu rosto. Ela estendeu a mão e afastou as mechas úmidas de cabelo da testa.
Eu andei até ela.
— Você está bem?
Ela assentiu, mas estava claramente abalada. Desde o momento em que ele mencionou a criança, eu tinha visto Gwyneth ficar cada vez mais tensa.
— Você teve um bebê com o Chanceler? — perguntei.
Fúria varreu os olhos.
— Nasceu morto — disse ela bruscamente.
— Mas, Gwyneth...
— Nasceu morto, já falei! Deixe pra la, Pauline.
Ela poderia dizer e fingir o que quisesse, mas eu ainda sabia a verdade. Ela desconfiava tanto do Chanceler que nem sequer contaria a ele sobre o filho dos dois.

* * *

Um pacote chegou na pousada no dia seguinte. Não estava endereçado ao serviço de mensageiro, mas diretamente a Gwyneth na pousada. Ele vinha com um saco maior de moedas que o do dia anterior e um bilhete.

Já consultei as partes que você mencionou, e elas não têm interesse em prosseguir com o assunto. Ambos consideram melhor deixar como está, com um lembrete de que a cidade ainda está de luto pela princesa Greta e as suas preocupações se encontram agora com o príncipe herdeiro Walther, cuja companhia de homens desapareceu. Isto é por seu trabalho e discrição.

O rei e a rainha tinham virado as costas para sua filha? Melhor deixar como está? Para ser torturada e morta nas mãos dos bárbaros? Balancei a cabeça em descrença. Eu não podia acreditar que eles abandonariam a sua própria filha, mas, em seguida, a palavra luto me surpreendeu.
Sentei-me na cama, a minha força drenada, e a culpa tomou conta de mim.
De luto eu entendia. Com toda a minha preocupação com Lia, tinha quase esquecido de Greta e a tragédia que fez Lia tomar a estrada de volta para Civica em primeiro lugar.
A expressão assombrada de Walther apareceu na minha frente novamente, e a maneira como parecera enquanto estava agachado na lama atrás do depósito de gelo. O horror em seus olhos. Ele não parecia o irmão de Lia, mas uma concha do homem que fora uma vez. Pelo menos eu não tinha visto Mikael morto bem diante dos meus olhos.
Lia me disse apenas que ele morreu bravamente em batalha. Agora eu me perguntava se um bárbaro sem alma como Kaden atirara uma flecha através de sua garganta também. Embalei meu estômago, sentindo a dor novamente.
— Precisamos sair — disse Gwyneth. — Imediatamente.
— Não — eu argumentei. — Não vou ir embora apenas porque...
— Não Civica. Esta pousada. Esta aldeia. O Chanceler descobriu onde estou hospedada. Ele deve ter subornado o mensageiro. Agora ou estará esperando que eu tome o meu caminho, ou me fará uma visita para obter outros favores. Não demorará muito antes que a descubra.
Não discuti. Eu tinha ouvido a voz dele quando perguntou: Onde ela está? Ele não tinha perguntado por preocupação com o meu bem-estar.

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