2 de fevereiro de 2018

Capítulo 21

Passei a noite sentada na cadeira do canto, com o olhar fixo em Pauline.
Tentei não a perturbar. Durante uma hora, ela encarou a parede, e depois, soluços chorosos e guturais atormentaram o peito dela, seguidos por gritos que pareciam miados de um gatinho machucado e que escapavam dos lábios dela.
Por fim, gemidos baixinhos, entre os quais ela repetia Mikael, Mikael, Mik tomaram conta do aposento, como se ele estivesse lá e Pauline estivesse falando com ele. Se eu tentasse confortá-la, ela me afastava, então me sentei, oferecendo-lhe água quando podia, oferecendo-lhe preces, oferecendo mais e mais coisas a ela; no entanto, nada que eu fizesse afastaria sua dor.
Na manhã daquele mesmo dia eu temera nunca conhecer o jovem que a amava tanto. Agora, eu temia que se algum dia o encontrasse, cortaria fora seu coração com uma faca cega e o daria como comida às gaivotas.
Por fim, nas primeiras horas da madrugada, ela dormiu, mas eu ainda a encarava. Lembrei-me da minha cavalgada passando pelo cemitério com Pauline hoje de manhã. O medo havia tomado conta de mim. Havia alguma coisa errada. Algo estava errado... sem esperanças e irrecuperavelmente errado. Eu sentira arrepios. Brisas me avisando. Uma vela. Uma prece. Uma esperança.
Um sussurro gélido.
A mão fria com garras no meu pescoço.
Eu não tinha entendido o que isso queria dizer, mas eu sabia.
Os vários dias seguintes passaram em um borrão de emoções e tarefas — funções intermináveis que eu ficava feliz em realizar. Na manhã seguinte às notícias, Pauline levantou-se, lavou o rosto, pegou três moedas de suas parcas economias de gorjetas e partiu em direção à Sacrista. Ela ficou lá o dia todo, e, quando voltou, estava usando um lenço de seda branca em torno da cabeça, o símbolo de luto reservado para viúvas.
Enquanto ela estava lá, eu disse a Berdi e a Gwyneth que Mikael morrera. Gwyneth nem mesmo sabia da existência do rapaz, e nenhuma das duas ouvira Pauline contar suas histórias emocionadas sobre ele, de modo que não tinham como saber o quanto minha amiga estava abalada... até que ela voltou da Sacrista. Sua pele estava da mesma cor da seda branca que caía em cascata em volta de seu rosto, rosto este que estava fantasmagórico, exceto pelos inchados olhos vermelhos. Ela parecia mais um esquálido espectro que havia voltado do túmulo do que a doce e jovem empregada que fora há apenas um dia.
Mais preocupante do que a aparência dela era sua recusa em conversar.
Ela aceitava as preocupações e os confortos de Berdi e Gwyneth de um jeito bem estoico, mas dispensava algo além disso, passando a maior parte dos seus dias de joelhos, oferecendo uma evocação sagrada atrás da outra a Mikael, acendendo diversas velas, febrilmente iluminando o caminho dele para que adentrasse o próximo mundo.
Berdi observou que ao menos Pauline estava se alimentando, não que estivesse comendo muito, mas o suficiente, o básico para se sustentar. Eu sabia o porquê. Aquilo também era por Mikael, e pelo que eles ainda dividiam. Se eu tivesse contado a Pauline a verdade em relação a ele, será que ela ainda teria se importado a ponto de até mesmo tocar em sua comida?
Todas concordamos que ajudaríamos Pauline a passar por isso, cada uma de nós assumindo um pouco da carga de trabalho dela, além de darmos o espaço e o tempo que ela pedira para que observasse o luto. Nós sabíamos que ela não era realmente uma viúva, mas quem mais deveria saber? Resolvemos não falar nada a respeito disso. Eu estava magoada por ela não se abrir comigo, mas eu nunca havia perdido o amor da minha vida, e era isso que Mikael havia sido para ela.
Faltando pouco mais do que duas semanas para o festival, havia mais trabalho a ser feito do que o de costume, e, sem Pauline para nos ajudar, trabalhávamos desde a aurora até a última refeição ser servida na noite. Eu pensava nos dias lá na cidadela em que ficava deitada, acordada, sem conseguir dormir, ponderando sobre uma coisa ou outra, geralmente uma injustiça perpetrada por alguém que tinha mais poder do que eu, e isso incluía praticamente quase todo mundo. Não tinha mais esse problema. Eu dormia profundamente, que nem uma pedra, e se a cabana pegasse fogo, eu morreria queimada junto com ela.
Apesar do aumento na carga de trabalho, eu ainda via com frequência tanto Rafe quanto Kaden. Para falar a verdade, em todos os turnos, um deles sempre parecia estar lá, oferecendo ajuda com um cesto de roupa suja ou me ajudando a descarregar suprimentos de Otto. Às escondidas, Gwyneth me provocava quanto às atenções convenientes deles, mas nunca passou de uma ajuda — na maior parte do tempo, pelo menos. Um dia ouvi Kaden ruminando uma vingança. Quando saí correndo da limpeza dos quartos para ver o que havia de errado, ele estava saindo do celeiro, segurando o ombro e soltando uma série de palavrões para o cavalo de Rafe, que o havia mordido na parte da frente do ombro. O sangue escorria por sua camisa.
Conduzi-o até os degraus da taverna e empurrei-o em seu ombro bom para que se sentasse, tentando acalmá-lo. Soltei o primeiro botão de sua camisa e puxei-a para o lado para dar uma olhada na ferida.
A mordida do cavalo mal tinha rompido a pele, mas um inchaço feio do tamanho da palma da mão já estava se formando e ficando azul. Fui correndo até o depósito de gelo, voltei com várias lascas envolvidas em um pano e segurei-o junto ao machucado.
— Eu vou pegar algumas bandagens e sálvia — falei.
Kaden insistiu que não era necessário, mas insisti ainda mais alto, e ele cedeu. Eu sabia onde Berdi mantinha os suprimentos, e quando voltei, ele ficou observando todos os meus movimentos. Não disse nada enquanto eu aplicava o unguento com os dedos, mas senti seus músculos ficando tensos com meu toque, enquanto eu pressionava com gentileza a bandagem na ferida. Coloquei o pacote com as lascas de gelo de volta em cima do curativo, e ele ergueu sua mão, segurando a palma da minha junto ao seu ombro, como se estivesse segurando algo mais do que apenas minha mão.
— Onde foi que você aprendeu a fazer isso? — ele me perguntou.
Dei risada.
— A aplicar uma bandagem? Um simples ato de bondade não precisa ser aprendido... e eu cresci com irmãos mais velhos, então sempre havia bandagens sendo aplicadas em algum de nós.
Ele apertou os dedos nos meus e me fitou. Achei que ele estava procurando uma forma de me agradecer por aquilo, mas então soube que se tratava de mais do que isso. Alguma coisa profunda, terna e particular estava à espreita nos olhos crepusculares dele. Por fim, ele soltou minha mão e desviou o olhar, com as têmporas um pouco rosadas. Com o olhar ainda desviado do meu, ele sussurrou um agradecimento simples.
A reação dele era enigmática, mas a cor desvaneceu-se tão rapidamente quanto tinha surgido, e ele puxou a camisa de volta para cima do ombro como se aquilo não tivesse acontecido.
— Você tem uma alma bondosa, Kaden — eu disse. — Tenho certeza de que isso vai curar rápido.
Quando eu estava no meio do caminho para guardar os suprimentos que não usei, me virei e perguntei a ele:
— Que idioma era aquele? Dos xingamentos? Não o reconheci.
Ele ficou boquiaberto, e sua expressão... bem, ele estava inexpressivo.
— Apenas umas coisas sem sentido que minha avó me ensinou — disse ele. — Com o propósito de poupar uma moeda de penitência.
Aquilo não soara como palavras sem sentido para mim. Havia soado como palavras de verdade, cheias de raiva e ditas no calor do momento.
— Preciso aprender algumas dessas palavras. Você poderia ensiná-las a mim um dia desses, de modo que eu também possa poupar minhas moedas.
Os cantos da boca dele se ergueram em um sorriso rígido.
— Um dia eu farei isso.

* * *

Com os dias ficando mais quentes, eu apreciava a ajuda de Rafe e de Kaden ainda mais. Porém, aquilo me levava a refletir por que eles não tinham nenhum trabalho próprio para realizar. Eles eram jovens e saudáveis, e, embora ambos tivessem belos garanhões e equipamentos de montaria, não pareciam ser ricos, e ainda assim pagavam a Berdi animadamente pelo celeiro e pelas vagas para seus cavalos no estábulo. Nenhum dos dois nunca parecia ficar sem moedas. Seria possível um agricultor que não estava trabalhando e um comerciante ocioso terem tanto dinheiro assim guardado? Eu teria questionado mais a falta de direção deles, mas a maior parte de Terravin estava repleta de visitantes de verão que só matavam tempo até o festival, inclusive os outros hóspedes da estalagem, muitos vindos de jornadas a partir de pequenos vilarejos solitários, fazendas isoladas, e, ao que parecia, no caso do Rafe, de regiões sem nomes. Rafe havia até dito que sua falta de trabalho como agricultor era temporária. Talvez seu empregador estivesse apenas fazendo uma pausa para o festival, o que também lhe dava tempo livre.
Não que ele fosse preguiçoso, nem Kaden. Ambos estavam sempre ansiosos para ajudar, Kaden consertando a roda da carroça de Berdi sem que ninguém tivesse que o lembrar de fazer isso, e Rafe provando ser um trabalhador agrícola experiente, limpando as trincheiras no jardim de legumes e vegetais de Berdi e consertando sua barragem pegajosa. Tanto eu quanto Gwyneth observamos com mais do que um pouco de interesse enquanto ele girava a enxada e erguia pedras pesadas para reforçar o canal. Talvez, como os outros que iam para o festival, eles apreciassem essa oportunidade de terem um intervalo da costumeira rotina repleta de trabalho duro das vidas deles. O festival era tanto uma obrigação sagrada quanto um alívio bem-vindo no meio do verão.
A cidade estava decorada com bandeiras e fitas coloridas, e no batente das portas havia longas guirlandas feitas com espigas de pinho pendurada antecipando as celebrações em que se comemoraria a libertação. Os Dias de Devassidão — era assim que meus irmãos chamavam, notando que os amigos deles tinham em grande conta a parte das festividades que envolvia bebida.
O festival durava seis dias. O primeiro dia era dedicado a ritos sagrados, fastio e preces, o segundo, a comida, jogos e danças. Cada um dos quatro dias restantes era dedicado a preces e atos para honrarem os quatro deuses que haviam dado o dom a Morrighan e libertado os Remanescentes.
Como membros da corte real, nossa família sempre manteve cronogramas rígidos para o festival, estabelecidos pelo Guardião do Tempo, observando todos os sacramentos, o jejum, os festins e a dança, a tudo dado o devido e apropriado tempo. No entanto, eu não era mais membro de corte alguma. Neste ano eu poderia estabelecer meu próprio cronograma e ir aos eventos que escolhesse.
Eu me perguntava a quais partes das festividades Kaden e Rafe mais se dedicariam.
Apesar de todas suas atenções, Rafe ainda mantinha uma distância calculada. O que não fazia sentido. Ele poderia me evitar por completo se assim quisesse, mas não fazia isso. Talvez só estivesse ocupando seu tempo até o festival, no entanto, mais de uma vez, em uma ou outra tarefa, nossos dedos se tocavam ou nossos braços roçavam um no outro, e o fogo percorria em minhas veias.
Um dia, enquanto eu passava pela porta para sair da taverna, ele estava entrando, e nós demos um encontrão, com nossos rostos tão próximos que nossa respiração se mesclava. Esqueci para onde estava indo. Achei que tivesse visto ternura nos olhos dele, talvez até paixão, e me perguntava se o mesmo fogo percorria em suas veias. Tal como em nossos outros encontros, eu aguardava e nutria esperanças, tentando não estragar o momento, porém, como sempre, o instante se desfazia quando Rafe se lembrava de alguma outra coisa de que precisava cuidar, e eu era deixada confusa e sem fôlego.
Todos os dias nós parecíamos partilhar algum tipo de conversa amigável, talvez várias vezes em um só dia. Enquanto eu varria um pórtico do lado de fora de um quarto, ele aparecia como se estivesse a caminho de algum lugar, então dava uma parada e apoiava-se em uma coluna, perguntando-me como estava Pauline ou se havia chance de algum quarto ficar vago em breve, ou qualquer que fosse o tópico que servisse ao momento. Eu queria me apoiar na vassoura e conversar sem parar com ele, mas com que propósito? Às vezes, eu simplesmente esquecia de nutrir esperanças por algo mais e aproveitava a companhia e proximidade dele.
Eu imaginava que, se as coisas deveriam acontecer, elas aconteceriam cedo ou tarde, e tentei tirar isso da cabeça, mas, na quietude da noite, eu só pensava em nossas conversas. Conforme ia pegando no sono, revivia cada palavra que tínhamos partilhado, pensando em todas as expressões no rosto dele, imaginando o que eu estaria fazendo de errado. Talvez, durante todo esse tempo, eu fosse o problema. Talvez eu estivesse destinada a nunca ser beijada. “Nunca ser beijada.” Porém, enquanto eu estava ali, deitada, ponderando sobre essas coisas, ouvia Pauline dormindo intermitentemente a meu lado e sentia vergonha das minhas rasas preocupações.
Um dia, depois de ouvir Pauline revirar-se e lamuriar-se durante a maior parte da noite, ataquei com ferocidade as teias de aranha penduradas nos tetos dos pórticos dos quartos de hóspedes, imaginando Mikael curando-se da embriaguez de passar a noite toda em algum bar com uma nova garota no colo. Aquele homem não trará nada de bom. Certifique-se de que ela fique longe dele. No entanto, ainda assim, ele era um soldado na Guarda Real. Aquilo me enojava. Um soldado com uma língua coberta de açúcar e um rosto angelical, mas com um coração tão negro quanto a noite.
Eu descontei o engodo dele em todas as criaturas de oito patas que estavam penduradas nas vigas. Rafe acabou passando por ali e me perguntou qual aranha seria responsável por me deixar com um humor tão ruim.
— Receio que não seja nenhum destes vermes rastejantes, mas há um verme que anda sobre duas pernas contra o qual eu adoraria usar um bastão em vez de uma vassoura. — Eu não mencionei nomes, mas falei sobre um camarada que havia enganado uma jovem moça, brincando com o coração dela.
— É claro que todo mundo comete um erro de vez em quando. — Ele pegou a vassoura das minhas mãos e continuou a limpar calmamente as teias de aranha que não estavam ao meu alcance.
A varredura silenciosa dele me enlouquecia.
— Um engodo deliberado não é um erro. É algo frio e calculista — falei. — Especialmente quando voltado para aquela pessoa que você diz amar. — Ele fez pausa no meio da limpeza, como se eu o tivesse acertado na nuca. —E se a gente não pode confiar em uma pessoa no amor — acrescentei — não se pode confiar nela para nada.
Ele parou e abaixou a vassoura, virando-se para me encarar. Ele parecia ter sido atingido pelo que eu falei, absorvendo minhas palavras como se fossem uma proclamação profunda em vez de uma reclamação movida pelo ódio contra uma pessoa horrível depois de uma noite sem dormir. Ele se apoiou na vassoura, e senti algo na minha barriga, como sempre sentia, toda vez que olhava para ele. O brilho do suor iluminava a face de Rafe.
— Eu sinto muito pelo que sua amiga está passando — disse ele — mas a decepção e a confiança... são realmente tão incondicionais assim?
— Sim.
— Você nunca foi culpada de decepcionar ninguém?
— Já fui, mas...
— Ah, então existem condições.
— Não quando se trata de amor e de ganhar as afeições de outra pessoa.
Ele inclinou a cabeça, como se reconhecesse o que eu havia dito.
— Você acha que sua amiga sente o mesmo? Algum dia acha que ela vai perdoá-lo pelo engodo?
Meu coração ainda doía por Pauline. Doía por mim. Balancei a cabeça em negativa.
— Nunca — sussurrei. — Algumas coisas não podem ser perdoadas.
Os olhos dele se estreitaram como se ele estivesse contemplando a gravidade do imperdoável. Era isso que eu tanto amava e tanto odiava em Rafe: ele me desafiava em tudo que eu dizia, mas também me ouvia com atenção. Ele me dava ouvidos como se todas as palavras que eu dissesse fossem importantes.

7 comentários:

  1. Acho que kande é o príncipe e o Rafe é o assassino

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  2. Cada capítulo eu shippo mais.
    Eu devia estar dormindo, volto às aulas amanhã de manhã, tenho que acordar cedo, mas não consigo parar de ler. Fico esperando eles se beijarem! Qual é? Se beijem!

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  3. Eu ainda não faço ideia de quem é quem. É muito angustiante, rafe, Kaden, assassino, príncipe, sei lá mas to shipando

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    1. Shippando quem? Todo mundo? Hauehaueha

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Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!