6 de fevereiro de 2018

Capítulo 21. Um desfecho com sol e praia

Aquilo era demais para os agentes do FBI e para o diretor da Penitenciária de Segurança Máxima.
Para a intérprete, a história estava se tornando fascinante e a mulher assistia a tudo como se estivesse diante da tevê. Normalmente, ela só traduzia encontros chatos entre executivos. Era a primeira vez que ela estava participando de uma reunião tão emocionante.
Para Andrade, porém, a surpresa era menor. Ele sabia do que era capaz aquela menina magrinha, de rosto lindo.
Com a folha de fax sobre a agenda aberta, Magrí sacudia o braço.
— Era disso que eu precisava. Desde hoje à tarde tinha uma coisa na minha cabeça que me incomodava. Eu me lembrei da conversa que ouvi no avião entre os dois cientistas da Drug Enforcement. Lembro-me que o doutor Bartholomew Flanagan falava para o doutor Hector Morales que odiava praia e calor, não gostava de sol, nem de areia. Era um homem da cidade grande, que detestava sujeira. Lembra-se dessa conversa, doutor Morales?
O porto-riquenho americano sorriu:
— Não, acho que não. Num voo, conversa-se de tudo. Como é que eu vou me lembrar de pequenos detalhes?
— Eu tenho mania por detalhes, doutor Morales — continuou Magrí. — Mas não pensei nessa conversa quando vi as fotos do doutor Bartholomew Flanagan que os agentes do FBI trouxeram.
Foi até a mesa, onde tinha deixado o envelope, e exibiu as fotos para todos.
— Vejam. O que está nestas fotografias? O que vocês veem nelas? Um homem sorridente, de bermudas e camisa colorida, sempre em praias, sempre procurando o verão, não é? Um ex-surfista, que mora em Malibu, e passa as férias em Acapulco, na Flórida e no Havaí. Estão vendo? Estas fotos poderiam ser de um homem “da cidade”, que detesta praia, sol, calor e areia?
O emudecimento foi geral. O que Magrí mostrara parecia incontestável, mas o doutor Hector Morales sorriu, condescendente, com carinho.
— Muito bem, menina. Tudo isso pareceria perfeito se a realidade não fosse como ela é. Eu conheço o doutor Bartholomew Flanagan há muitos anos. Eu sei e todo mundo sabe que ele detesta as cidades grandes, odeia andar de gravata. O que ele gosta é da natureza, do sol e das praias. Assim é o doutor Flanagan. Essa história de que ele detesta praia e sol não faz o menor sentido!
— Eu o ouvi conversando com o senhor, doutor Morales. E ele falava exatamente o que eu disse: que odiava praia, sol e calor — confirmou Magrí.
— Ora, menina! Havia dezenas de americanos naquele voo! Como pode ter certeza de que éramos nós dois?
— Eu tenho certeza, doutor Morales.
O doutor Hector Morales parecia possuidor da maior das paciências. Não queria ofender a menina e argumentava com grande delicadeza.
— Está bem, eu sei que você não inventaria uma coisa dessas. Mas pense bem. Quem acreditaria em você? A conversa que você ouviu poderia ter acontecido com qualquer outro par de americanos!
— Temos mais um pequeno ponto a discutir, Doutor Morales — Magrí não perdia a convicção. — Quando amanheceu, no avião, dona Iolanda acordou-me dizendo que uma jornalista havia reconhecido o famoso doutor Flanagan naquele voo. Ela pegou sua agenda e correu para pedir um autógrafo. Esta é a agenda.
Seu braço levantado exibia a agenda da professora junto com o papel de fax.
— Agora eu quero que os senhores comparem a assinatura desta agenda com a assinatura do doutor Bartholomew Flanagan, que veio neste fax. Vejam! São duas assinaturas completamente diferentes!
Andrade, o diretor e Patrick Lockwood fizeram a comparação.
— Verdade, Magrí! — concordou Andrade. — Uma nada tem a ver com a outra!
Miguel levantou-se:
— Magrí, o que você quer dizer com isso?
— Quero dizer que o homem que veio naquele voo, e que foi sequestrado no aeroporto, não era o doutor Bartholomew Flanagan!
Hector Morales pulou da cadeira:
— Quer dizer... quer dizer que os sequestradores levaram o homem errado?
— O senhor devia saber, doutor Morales — respondeu Magrí. — O senhor não disse que conhecia o doutor Flanagan há anos?
— Bem, eu falei com ele por telefone, fax e telex durante quase dez anos. Pessoalmente, eu nunca o vi, mas o conhecia muito bem por fotografias. Acho que eu não poderia me enganar...
O diretor deu sua opinião:
— Bem, se a pessoa que estava no lugar do doutor Flanagan fosse muito parecida com ele, talvez qualquer um pudesse se enganar. Mas a questão é: por que alguém ia fazer-se passar pelo doutor Bartholomew Flanagan?
— Isso eu não sei — retomou Magrí. — Mas agora tenho certeza de que alguém veio dos Estados Unidos no lugar do verdadeiro doutor Flanagan. E acho que essa pessoa veio sabendo que ia ser sequestrada. Veio para fazer parte de uma encenação!
Andrade não acreditava no que estava ouvindo:
— Que absurdo é esse, Magrí?
— Meu palpite, Andrade, é que esse sequestro foi uma armação. Mas eu não tenho nada para provar essa tese, nem um palpite sobre o motivo de alguém pensar em encenar o sequestro do doutor Bartholomew Flanagan. Mas, agora, eu já sei por que dona Iolanda foi baleada. E, sabendo disso, descobri quem é o chefe da trama toda...
Durante o silêncio que se seguiu, Magrí passeou os olhos calmamente em torno da sala, até parar no rosto do doutor Hector Morales.
— Quem encenou esse sequestro e quem mandou atirar na minha professora foi o senhor, não foi, doutor Hector Morales? O americano de cabelo liso sorria e balançava a cabeça.
— By God! Eu não sabia que os jovens brasileiros tinham tanta imaginação!
— Imaginação, doutor Morales? — continuava Magrí. Por que somente dona Iolanda foi baleada no aeroporto? Por que roubaram a minha bolsa na confusão? Eu consegui ver a minha professora no hospital, antes de a sequestrarem. Ela estava lá, superficialmente ferida, mas dopada. Por ordem de quem a doparam? O senhor não me disse, lá na sala da Polícia Federal, no aeroporto, que eu podia ficar tranquila, que a Drug Enforcement cuidaria de dona Iolanda? Pois vocês cuidaram mesmo, não é? Mandaram uma falsa equipe médica que assumiu o tratamento dela e a manteve sob anestésicos sem que ninguém do hospital pudesse entrar no quarto!
— Bullshit! Garanto que...
Magrí não o deixou continuar.
— Eu tirei o anestésico do braço dela e consegui fazê-la voltar a si. E ela ainda pôde dizer: “Ele... ele mandou atirar em mim!” Foi o senhor quem mandou atirar na minha professora, doutor Morales!
— Nonsense! Por que eu quereria matá-la?
— Por causa do autógrafo. O senhor sabia que o sósia que veio no lugar do doutor Bartholomew Flanagan, um idiota provavelmente, assinara qualquer coisa na agenda de dona Iolanda. O senhor mandou baleá-la, doutor Morales, e mandou roubar-lhe a bolsa com a agenda, para que ninguém viesse a descobrir que aquela não era a assinatura do verdadeiro doutor Flanagan. Felizmente seus capangas confundiram as bolsas e levaram a minha, no lugar da dela!
A intérprete, como uma metralhadora, traduzia tudo para Patríck Lockwood. O agente americano, ao ouvir a tradução, apontou para a menina e perguntou:
— Who’s that little woman? Supergirl? (— Quem é essa jovem? Super girl? )
Crânio respondeu, com orgulho:
— She’s our Wonderwoman, mister Lockwood! (— Ela é nossa Mulher Maravilha, senhor Lockwood!)
Iúri Mikhailevich já tinha desistido de tentar entender qualquer coisa.
Hector Morales continuava controlado, com um sorriso superior:
— Ora, ora, menina! Mais uma vez só temos a sua palavra. Quem mais ouviu essa acusação de sua professora? Só você? Quem pode confirmar essa suposta declaração?
Nesse momento, a porta da sala de interrogatórios abriu-se num tranco.
— Eu posso! – disse o anão, de pé, na soleira da porta.
A intérprete deu um grito.
Aquela era a aparição mais horrenda daquela noite, desde que tinham descoberto o plano antropofágico do Doutor Q.I.
Um anão horrendo mesmo. Sua face deformada torcia-se num sorriso que escancarava lábios grossos e maus.
— O anão! — gritou Crânio. — Foi ele que eu vi! Ele está envolvido nisso até o pescoço! Prenda esse anão, detetive Andrade!
— Deixe de besteira, Crânio!
Quem falara fora o anão.
Ante a surpresa de todos, a feia criatura levou a mão ao pescoço. Cuidadosamente, começou a arrancar a pele, a puxar, até que toda a carantonha horrível saiu por cima da cabeça, levando junto o chapéu e o cabelo ensebado!
— Chumbinho! — gritou Andrade.
— Eu mesmo! — riu-se o menino, com a cara mais marota do mundo. — Eu mesmo, Crânio. Ah, ah! Te enganei, geninho! Eu acompanhei vocês esse tempo todo, sem que ninguém notasse! Está vendo, Calú? Aprendi esse truque com você. Gostou da maquilagem?
— Chumbinho, mas... — Andrade estava zonzo. — O que está acontecendo? Você não tinha sido sequestrado?
Magrí levantou os braços, pedindo um pouco de ordem na balbúrdia provocada pelo aparecimento daquele “anão”.
— Esperem um pouco! Acho que aprendi com o doutor Morales a simular sequestros. Desculpe, Miguel. Desculpe, Crânio. Desculpe, Calú. Mas foi a única maneira que eu e Chumbinho encontramos para fazer vocês três mudarem de ideia...
— Mudar de ideia? — Andrade entendia cada vez menos. Que ideia?
Miguel sorria, surpreso e orgulhoso da iniciativa daqueles dois Karas:
— Não ligue, Andrade. É uma coisa entre nós. Muito bem, Magrí. Parabéns, Chumbinho. Vocês fizeram a coisa certa!
Chumbinho exultava:
— Eu estava ótimo de anão, não estava? Eu tinha de me disfarçar, para continuar na brincadeira!
— Brincadeira?! — espantou-se o diretor da penitenciária. — Você chama isso de brincadeira?
— Que graça teria eu ficar “sequestrado” e escondido como um bobo o tempo todo? Ah, eu precisava acompanhar vocês, ficar sabendo de tudo o que acontecia. Só mesmo disfarçado, né?
Magrí erguia novamente o braço e exigia que a discussão voltasse ao ponto em que tinha sido interrompida.
— Um momento! Falta ainda resolver dois sequestros. O de dona Iolanda e o do doutor Bartholomew Flanagan!
Chumbinho ria-se, feliz:
— Só o do doutor Flanagan, Magrí. O da professora já está resolvido.
— Resolvido? — perguntou Hector Morales. — E onde está ela?
— Está lá em casa. Muito bem de saúde, aliás... — informou Chumbinho, fazendo uma cara de quem fala a coisa mais natural do mundo.
— Na sua casa?! — berrou Andrade. — Mas o que aconteceu? Vocês também simularam o sequestro da professora?
— Esse não — continuou Chumbinho. — Eu estava escondido na viela, atrás do hospital, quando Magrí saiu para encontrar-se com Crânio. Estava muito quietinho dentro de uma caixa de papelão...
“Ai, ele estava lá! Então ele ouviu tudo! Eu e Crânio! Chumbinho sabe de nós dois!”, pensou a menina, olhando disfarçadamente para o geninho dos Karas.
Crânio estava vermelho como um tomate.
— Vocês saíram no fusquinha e eu vi que alguma coisa estranha estava acontecendo no hospital. Os bandidos devem ter descoberto que Magrí tinha trocado o frasco que mantinha dona Iolanda desacordada, e eu ouvi que eles iam levá-la dali. Não perdi tempo e me meti no porta-malas do carro. Antes, é claro, dei um jeito de amarrar o fecho com um pano, para poder sair dali quando eu quisesse...
— Boa, Chumbinho! — aplaudiu Magrí.
— O carro rodou bastante e foi parar em um galpão, na periferia da cidade. Eu saí do porta-malas e telefonei para Magrí, de um orelhão. Depois, foi só voltar para lá e esperar. Deixaram só um gorila tomando conta da professora. Bom, eu já tinha visto ele fazer xixi lá na viela. Mas, como ele tinha mais coisas para fazer, acabou saindo para um banheiro externo. Eu aproveitei e fui lá dentro, com o meu canivetinho, cortar as cordas que prendiam dona Iolanda...
— Que coragem, Chumbinho! — admirava-se Andrade. — Mas como vocês fugiram de lá?
— De táxi, é claro!
Hector Morales estava de pé. Toda sua segurança e autoconfiança pareciam ter desaparecido.
Chumbinho, sorrindo como se estivesse contando uma travessura, olhou o presidente para a América Latina da Drug Enforcement Inc.
— Por isso eu posso confirmar o que Magrí estava dizendo agora mesmo. Dona Iolanda me contou que, no aeroporto, quem apontou para ela ordenando que o capanga atirasse foi o senhor doutor Hector Morales
Andrade levantou-se e olhou aliviado para o diretor da penitenciária:
— Que sorte, diretor. Não precisamos levar esse sujeito para a cadeia. Ele já está na cadeia!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!