20 de fevereiro de 2018

Capítulo 20

RAFE

Entrei no bangalô do cirurgião.
Tavish, Jeb, Griz e Kaden estavam todos deitados em macas, recebendo tratamento. Kaden havia ocultado o fato de que também tinha sido ferido: um talho na parte baixa das costas. Uma ferida pequena, mas que ainda precisava de pontos. Orrin e Sven estavam sentados em cadeiras do outro lado deles, com os pés apoiados nas macas dos pacientes.
Assim que me avistaram, Tavish e Orrin soltaram assovios insultantes, como se eu fosse um dândi fanfarronando. Jeb aprovou minha transformação.
— Já estávamos todos nos acostumando com a sua cara feia — disse Sven.
— Isso se chama tomar banho e fazer a barba. Vocês deveriam experimentar de vez em quando.
Havia uma boa quantidade de unguento e compressas no ombro de Jeb. O cirurgião me disse que alguns músculos dele foram dilacerados e que teria que ficar com o ombro imobilizado durante várias semanas. Nada de cavalgar, nada de fazer qualquer tarefa que fosse. Jeb fez caretas por trás das costas do cirurgião, fazendo que não sem emitir som.
Dei de ombros, como se não pudesse passar por cima das ordens do medico, e Jeb fechou a cara.
Uns poucos dias de descanso foram prescritos para Griz também, mas Tavish e Kaden tinham feridas menores que só lhes trariam desconforto por um dia, não precisavam de qualquer restrição nos seus deveres. O cirurgião, de alguma forma, não sabia que Kaden não era um dos nossos e presumia que ele era apenas outro soldado.
— Aqueles dois podem ir tomar banho — falou o cirurgião. — Vou fazer uma bandagem neles depois que tiverem se limpado.
Ele voltou a cuidar de Griz.
Kaden estava na parte de trás do bangalô mal iluminado, mas quando esticou a mão para pegar a camisa, ele entrou na luz da janela e eu vi as costas dele e a curta linha preta onde o cirurgião o havia costurado. E então, vi as cicatrizes. Profundas. Ele fora chicoteado.
Ele se virou e me viu encarando-o.
O peito também estava marcado por cicatrizes.
Ele parou, e então vestiu a camisa, como se aquilo não importasse.
— Machucados antigos? — perguntei a ele.
— Sim. Antigos.
Quão antigos seriam?, eu me perguntei, mas a resposta brusca deixou claro que ele não queria entrar em detalhes. Kaden tinha mais ou menos a mesma idade que eu, então machucados antigos queriam dizer que ele não passava de uma criança quando os adquiriu. Eu me lembrava de Lia dizendo que ele era morrighês, mas ela estava febril e quase adormecendo quando dissera isso, e eu achava que era algo improvável. Ainda assim, se ele havia apanhado tão severamente daquele jeito de vendanos, eu não podia entender como havia permanecido tão leal a eles. ele terminou de abotoar a camisa.
— Tenho alguns soldados lá fora que vão mostrar a você onde ficam os locais de banho. Eles vão lhe dar umas roupas limpas também.
— Guardas, você quer dizer?
Eu não podia permitir que ele andasse pelos arredores livremente, não apenas porque não confiava completamente nele, como também para a sua própria proteção. As notícias do massacre do pelotão haviam se espalhado pelo acampamento. Qualquer tipo de vendano, mesmo que o rei tivesse dito que era de confiança moderada, não era bem-vindo ali.
— Vamos chamá-los de escolta — respondi. — Você se lembra dessa palavra, não? Juro a você que as suas escoltas serão bem mais agradáveis do que Ulrix e seu bando de brutos foram comigo.
Ele olhou para o cinto e para a espada que ainda estavam em cima de uma mesa.
— Você terá que deixar essas coisas para trás.
— Eu salvei o seu rabo real hoje.
— E eu estou salvando o seu rabo vendano agora.

* * *

Normalmente, quando me era designado ficar em Marabella, eu dormia nos alojamentos com o restante dos soldados, mas o coronel disse que isso não era adequado agora que eu era rei. Você tem que começar a agir como tal, insistiu, e Sven concordou. Eles ordenaram que uma tenda fosse arrumada para mim. Tendas eram reservadas para embaixadores e visitantes dignitários, os quais usavam o posto avançado como um posto de parada. As tendas eram maiores, mais extravagantes e certamente proporcionavam mais privacidade do que os alojamentos que abrigavam os soldados.
Eu havia ordenado que uma tenda fosse montada para Lia também, e entrei na tenda dela para me certificar de que tudo estava em ordem. Um grosso tapete floral fora desenrolado no chão, e a cama dela estava cheia de cobertores, peles e diversos travesseiros. Uma lareira redonda estava cheia de lenha e pronta para entrar em ação, e um candelabro a óleo havia sido pendurado para proporcionar alguma iluminação.
E flores. Um pequeno vaso estava cheio de umas flores meio que púrpuras. O coronel deve ter mandado um esquadrão inteiro ir atrás de mercadores carroceiros que as vendiam. Havia um jarro colorido de água em cima de uma mesa coberta de renda, junto com uma provisão de bolinhos amanteigados ao lado. Coloquei um deles na boca e recoloquei a tampa no lugar. Nenhum detalhe fora esquecido. A tenda dela estava bem mais equipada do que a minha. É claro que o coronel sabia que eu verificaria tudo para me certificar de que ela estivesse confortável.
Avistei o alforje dela no chão ao lado da cama. Eu havia dito ao camareiro que o trouxesse tão logo a tenda estivesse pronta. O alforje também estava manchado de sangue. Talvez fosse por esse motivo que o criado o tivesse deixado no chão. Esvaziei o seu conteúdo na mesinha da cabeceira para que pudesse levá-lo comigo e ordenar a limpeza dele. Eu queria apagar todas as lembranças dos dias passados.
Eu me sentei na cama dela e folheei um dos livros da bolsa de Lia. Era aquele do qual ela havia me falado, a Canção de Venda. Aquele que mencionava o nome Jezelia. Deitei-me e afundei no colchão macio, olhando para palavras que não faziam qualquer sentido para mim. Como ela poderia ter certeza do que aquelas palavras diziam? Ela não era uma erudita.
Eu me lembrei da expressão de Lia lá no Sanctum quando tentou explicar a importância disso para mim.
Talvez não seja por acaso que eu esteja aqui.
Um calafrio havia subido aos poucos pelo meu pescoço quando ela falou aquelas palavras. Eu odiava a forma como Venda, fosse a mulher ou o reino, estava brincando com os medos dela, mas também me lembrava das multidões e da forma como elas cresciam a cada dia que se passava. Havia algo que não era natural em relação a isso, algo que não parecia certo para mim, algo que nem mesmo o Komizar conseguia controlar.
Coloquei o livro de lado. Isso ficaria para trás agora. O Sanctum, Venda, tudo. Inclusive a noção ridícula de Griz de que ela fosse a rainha deles. Nós estaríamos a caminho de Dalbreck em breve. Eu amaldiçoava o fato de não ter como ir embora naquele instante. O coronel não podia se dar ao luxo de nos prover uma escolta grande o bastante a ponto de agradar Sven, mas ele disse que estava esperando que uma rotação de tropas chegasse em poucos dias e que nós poderíamos ir em segurança junto com as tropas que estariam de partida. Nesse ínterim, ele havia ordenado que o falcoeiro enviasse um trio rápido de Valsprey a Falworth com a notícia da minha segurança e do meu iminente retorno.
Ele falou que isso também lhe daria tempo para me atualizar quanto às questões da corte. Preparar-me, foram as palavras de aviso que vi nos olhos dele, mesmo que o homem não as tivesse dito. Eu sabia que o meu retorno à corte não seria fácil. Eu ainda estava tentando absorver o conhecimento de que os meus piores medos haviam se realizado. Tanto a minha mãe quanto o meu pai estavam mortos e eles tinham morrido sem saber do destino do único filho que tinham. Ondas de culpa passavam por mim. Mas eles sabiam que eu os amava. Disso, eles sabiam.
Concordamos em esperar até amanhã, depois que eu estivesse descansado, para discutir os detalhes das mortes dos meus pais e de tudo que havia acontecido desde então. O gabinete ficaria furioso quando soubesse onde eu estivera e os riscos que correra. Eu teria que me esforçar um pouco para recuperar a confiança deles.
No entanto, Lia estava viva, e eu faria tudo aquilo de novo se necessário fosse. Uma vez que meu gabinete a conhecesse, eles também entenderiam isso.

17 comentários:

  1. to lembrando levemente do Tamlin quando ele da a loka......to com medo do Rafe dá uns bugue também.

    SABS

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    1. Tô com receio disso também 😐

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    2. Tomara q ele não seja como o tamlim..Mas as vezes me lembro dele tb..kkk..aí q saudade do rhys s2

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    3. Tamlin é personagem de qual livro?

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    4. Tomara q ele n fique como o Tamlin, todo obcecado pela proteção da Lia :/

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  2. Ainda acho que o lugar de Lia era em Venda

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  3. Quero que o livro termine igual a seleção. A Lia fica com o Rafe, mas o Kaden fica morando em Dalbreck, casado com outra pessoa, e todo mundo vira amigo, e todo mundo feliz e na paz.

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    1. Se vc quer que seja como a seleção vamos seguir o conselho da diva América.. (Se tá em duvida entre dois amores.. Escolha sempre o segundo../se vc ama o primeiro o segundo ñ existiria

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  4. Gente eu ODIEI venda, nao sei como puderam gostar daquela terra amaldiçoada. Credo, o lugar da Lista é com o Rafe que cuida dela

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    1. Tb acho. Quero muito que a Lia se case com o Rafe e fique em Dalbreck

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  5. De alguma forma acho que Lia voltará a Venda. Há algo de misterioso naquela cidade. E se realmente o Kozimar estiver morto, lia seria a rainha de lá.

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  6. Não sei....acho que de alguma forma a Lia vai acabar ajustando os 3 reinos...

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Boa leitura, E SEM SPOILER!