16 de fevereiro de 2018

Capítulo 20

Sentei-me no muro, fitando as finas nuvens cinzentas, estranhas para mim como tudo nesta cidade sombria. Elas riscavam os céus como garras gigantes arranhando carne, o rosa do crepúsculo saltando entre elas.
Os guardas abaixo de mim, a essa hora, deviam ter se acostumado a onde eu estava empoleirada. Eu não fui capaz de voltar para o alçapão no armário da câmara, então a única chance era voltar pela minha janela, uma vez que a porta estava trancada. Tinha quase chegado no peitoril quando os guardas me viram. Eu imediatamente sente-me no muro, fazendo parecer que aquele era o meu destino e eu tinha acabado de sair pela minha janela. Seus gritos não me dissuadiram, e uma vez que tiveram certeza de que a fuga não fazia parte do meu plano, eles passaram a tolerar o meu oscilante local de refúgio.
Na verdade, eu não queria voltar para dentro. Falei a mim mesma que eu precisava de ar para limpar a fumaça e o enxofre das minhas narinas. Parecia agarrar-se a todos os poros do meu corpo, um fedor doentio e pungente. Havia algo sobre os homens estranhos lá embaixo nas cavernas que me deixou zonza e fraca.
Lembrei-me de Walther dizendo que eu era a mais forte de nós.
Eu não me sentia forte, e se fosse, não queria ser forte por mais tempo. Eu queria ir embora. Eu tinha o suficiente. Eu queria Terravin. Queria Pauline e Berdi e o cozido de peixe. Eu queria tudo menos o agora. Queria que meus sonhos de volta. Queria que Rafe fosse um fazendeiro e Walther...
Meu peito saltou, e sufoquei o que estava tentando se soltar.
Algo está se agitando.
E agora, com estes estranhos homens eruditos na caverna, parecia ser certeza.
Senti as peças soltas flutuando fora do meu alcance – a Canção de Venda, o Chanceler e o Erudito Real escondendo livros e enviando um caçador de recompensas para me matar sem o benefício do julgamento. E depois havia o kavah no meu ombro que se recusava a desaparecer. Algo estava se agitando muito antes de eu ter fugido no meu dia do casamento.
Lembrei-me do vento naquele dia em que me preparei para o casamento. Rajadas frias acertavam a cidadela, avisos sussurrados serpeando por corredores friorentos. Estava no ar, mesmo assim. As verdades do mundo desejam ser conhecidas. Mas era muito mais do que eu acreditava que fosse. O antes e o depois da minha vida partiram-se em dois naquele dia, de maneiras que eu nunca poderia ter imaginado. Minha cabeça doía com perguntas.
Fechei os olhos, procurando o dom que eu tinha apenas sentido de leve quando cruzei o Cam Lanteux. Dihara me avisara que dons que não eram alimentados murchavam e morreram, mas era difícil alimentar qualquer coisa aqui. Ainda assim, mantive meus olhos fechados e busquei aquele lugar de saber. Forcei minhas mãos a relaxarem em meus lados, forcei o aperto dos meus ombros, foquei-me na luz atrás das minhas pálpebras, e ouvi Dihara novamente... É a linguagem do saber, filha. Confie na força dentro de você.
Senti-me à deriva de algo familiar, ouvi o farfalhar da grama no prado, o borbulhar de um rio, captei o cheiro do trevo, senti o vento levantar o meu cabelo, e então ouvi uma canção, calma e distante, tão delicada como uma brisa da meia-noite. Uma voz que eu precisava desesperadamente ouvir. Pauline. Ouvi Pauline entoando as memórias. Ergui a minha voz com a dela e cantei as palavras do Texto Sagrado da menina Morrighan enquanto ela cruzava o deserto.

Mais um passo, minhas irmãs,
meus irmãos,
meu amor.
O caminho é longo, mas nós temos um ao outro.
mais um quilômetro,
mais um amanhã,
o caminho é cruel, mas nós somos fortes.

Pressionei dois dedos contra meus lábios, mantive-os ali para fazer o momento durar tanto quanto o universo, e os ergui para os céus.
— E que assim seja — falei suavemente — para todo o sempre.
Quando abri os olhos, vi um pequeno grupo reunido abaixo de mim, me ouvindo. Duas eram meninas apenas um pouco mais jovens que eu, e elas buscaram o céu onde libertei minhas orações, suas expressões sérias. Olhei para cima novamente também, examinando o céu, e me perguntei se as minhas palavras já estavam perdidos entre as estrelas.

2 comentários:

  1. hmmm,tecendo minhas teorias

    ResponderExcluir
  2. Fazendo praticamente a mesma coisa que Venda fazia!!! Esse livro tá me matando de ansiedade, sempre quero um próximo cap

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!