2 de fevereiro de 2018

Capítulo 20

Ele surgiu do nada. Em um instante não estava ali, no momento seguinte, estava, segurando Pauline em seus braços.
— Vou levá-la até a cabana — disse ele, quase fazendo uma pergunta em vez de uma afirmação. Assenti, e ele saiu. Eu o segui logo atrás. Pauline estava mole em seus braços, gemendo, inconsolável.
Logo antes de chegarmos à cabana, saí correndo na frente, escancarei a porta, acendendo a luz do lampião, e ele a carregou para dentro. Apontei para a cama, e ele, com gentileza, colocou Pauline deitada no colchão. Ela se encolheu como uma bolinha de frente para a parede. Tirei os cabelos emaranhados de sua face e pus a mão na bochecha dela.
— Pauline, o que posso fazer? — O que eu já tinha feito?
Ela gemia entre soluços chorosos, e as únicas palavras que consegui entender eram:
— Vá embora, por favor, vá embora.
Encarei-a, incapaz de me mexer. Eu não podia deixá-la. Vi Pauline tremer, e estiquei a mão para pegar uma coberta, envolvendo-a cuidadosamente, fazendo carinho em sua testa e desejando levar sua dor embora. Aproximei-me bem dela e falei em um sussurro:
— Eu vou ficar com você, Pauline. Em meio a isso tudo, juro que vou!
Mais uma vez, as únicas palavras discerníveis eram “Vá embora, me deixe sozinha”, cada qual uma facada no meu peito.
Ouvi o raspar das botas de Rafe no chão e percebi que ele ainda estava no quarto. Ele inclinou a cabeça em direção à porta, sugerindo que saíssemos dali.
Apaguei o lampião e o acompanhei, entorpecida, fechando a porta em silêncio atrás de nós. Reclinei-me junto ao batente, precisando de seu suporte. O que eu tinha dito? Como havia dito aquilo? Eu tinha dito as palavras sem pensar... com crueldade? Ainda assim, o que mais eu poderia ter feito? Eu precisaria dizer alguma coisa para ela mais cedo ou mais tarde. Tentei retraçar todas as palavras.
— Lia — sussurrou Rafe, erguendo meu queixo para que eu olhasse para ele, lembrando-me de sua presença ali. — Você está bem?
Balancei a cabeça em negativa.
— Eu não queria dizer a ela... — Olhei para ele, sem saber ao certo o que Rafe tinha ouvido. — Você estava lá? Você ouviu...?
Ele assentiu.
— Você não tinha outra opção além de dizer a verdade.
A verdade.
Eu tinha dito a Pauline que Mikael estava morto. Mas não seria esse dos males o menor? Ele não estava vindo atrás dela. Nunca viria. Se eu tivesse contado a ela a verdade, todos os sonhos que ela prezava desapareceriam.
Todos seriam transformados em ilusões, falsos em suas próprias origens. Ela saberia que havia sido feita de tola. Não teria nada em que se prender, apenas a amargura para endurecer seu coração. Sendo assim, será que ela não poderia pelo menos ter memórias ternas dele para aquecê-la? Qual verdade era mais cruel — o engodo e a traição de Mikael... ou sua morte?
— Acho que vou embora — sussurrou Rafe. Olhei de relance para ele, que estava tão perto de mim que eu podia sentir o cheiro da cidra em seu hálito, sua pulsação, o galope de seus pensamentos, todos os meus nervos à flor da pele, a própria noite fechando-se sobre mim.
Agarrei-o pelo braço.
— Não — falei. — Por favor, não vá embora ainda.
Ele olhou para o local onde a minha mão segurava o braço dele, e depois voltou a olhar para mim. Seus lábios se abriram, seus olhos ficaram cálidos, mas depois, devagar, alguma outra coisa encheu-os, algo frio e rígido, e ele se afastou de mim.
— Está tarde.
— É claro — disse, deixando minha mão cair na lateral do corpo, mantendo-a ali, desajeitada, como se não fosse minha. — Eu só queria agradecer a você antes que fosse embora. Se você não tivesse aparecido, não sei o que eu teria feito.
A única resposta dele foi assentir. Em seguida, Rafe desapareceu trilha abaixo.

11 comentários:

  1. Não era pra ter um capitulo dela contando para Pauline?

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  2. como assim ? agora fiquei curiosa para saber como foi a conversa

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  3. GALERA. NÃO TEM A CONVERSA DELAS NO LIVRO N!!! É ASSIM MESMO!!! TAMBÉM ESTRANHEI E FUI PROCURAR, MAS NÃO TINHA.

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  4. Rapaz, eu até voltei pra ver se tinha perdido alguma coisa, mas parece que não. Tá meio confuso o negócio e o Rafe ainda tá enciumado, achando que o irmão dela era o amante.

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  5. Ela falou p Pauline a o boy morreu e ela deve ter desmaiado ou algo assim o Rafe ajudou lia a levar Pauline p cabana é só!

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  6. Eu tô muito apaixonada pelo Rafe, ele sendo o assassino ou príncipe. Lia, se não quiser eu quero!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!