6 de fevereiro de 2018

Capítulo 20. A vez de Magrí

Sentado no sofá da diretoria da penitenciária, enxugando a boca com o lenço, o detetive Andrade estava pálido. O susto fora de amargar!
A intérprete, de olhos vermelhos, tinha se acalmado um pouco, depois de tomar água com açúcar.
O agente Patrick Lockwood, enquanto Hector Morales traduzia para ele a causa de todo o tumulto, balançava a cabeça e repetia:
— My God! My God! It’s awfull… (— Meu Deus! Meu Deus! É horrível…)
Somente o russo não parecia chocado. Só tinha entendido um pouquinho daquela história toda. E esse pouquinho não era suficiente para que ele entendesse por que todo mundo estava tão fora de si. 
Hector Morales perdera o ar de segurança absoluta. Até seus cabelos não estavam mais irrepreensivelmente penteados, de tanto que ele passava a mão por eles, chocado com o plano macabro do Doutor Q.I.
— Que horror! O velho foi comido pelos prisioneiros!
— Demônio! — praguejava Andrade. — O Doutor Q.I. é o demônio! Nunca na minha vida de policial ouvi falar em uma barbaridade como essa!
Miguel concordou:
— Só mesmo uma mente doentia como a do Doutor Q.I. poderia pedir resgate pela Droga do Amor. Somente um homem cruel como ele poderia querer ganhar um bilhão de dólares especulando com a vida de milhões de seres humanos que agonizam em todo o mundo, vitimados pela praga do século!
— Até parece impossível que ele possa ter liderado esse plano todo daqui de dentro, da penitenciária mais fechada do país! — observou Calú. — Só mesmo um criminoso com a inteligência maligna dele poderia encontrar um meio de dirigir, daqui de dentro, uma operação como essa!
Miguel não era de deixar que aquele choque perturbasse sua capacidade de ação:
— Pessoal, não temos tempo a perder. Talvez a vida do doutor Bartholomew Flanagan não corra perigo imediato, pois os bandidos esperam ganhar dinheiro com ele. Mas, para que precisam manter dona Iolanda viva? Para que manter vivo o Chumbinho? O tempo está contra nós!
As palavras de Miguel despertaram Andrade:
— Muito bem, precisamos fazer com que esse monstro confesse onde estão o doutor Bartholomew Flanagan, dona Iolanda Negri, Chumbinho e as amostras da Droga do Amor. Senhor diretor, peço que traga o Doutor Q.I., agora, para a sala de interrogatório. Cada minuto é precioso, daqui para a frente!

* * *

O Doutor Q.I. entrou algemado na mesma sala onde fora desmascarado por Crânio. Parecia já estar refeito. Vestia um uniforme limpo e em seu rosto não havia mais sinais da máscara plástica. Tinha recuperado a frieza e a autoconfiança.
Dez outras pessoas abarrotavam a sala. Mas tinha ficado decidido que somente Andrade faria as perguntas.
— Muito bem, Doutor Q.I., já descobrimos todo o seu joguinho...
Os músculos do rosto do prisioneiro não se moveram.
— Mais algumas décadas de condenação esperam o senhor pelo bárbaro assassinato de um companheiro de prisão, Doutor Q.I. Não queira complicar mais as coisas para o seu lado. Queremos saber, já, onde estão o doutor Bartholomew Flanagan, dona Iolanda Negri, o menino Chumbinho e as amostras da Droga do Amor!
As sobrancelhas do prisioneiro franziram-se.
— Não me venha dar uma de inocente, Doutor Q.I. Nós já descobrimos todo o seu joguinho. Pode começar a falar.
— A falar o quê? — perguntou o homem, com um meio sorriso.
— Você sabe muito bem do que eu estou falando, miserável! Da Droga do Amor? Dos sequestros...
— É claro que já ouvi falar disso. Até aqui dentro dá para se saber o que se passa lá fora. Mas por que o senhor pensa que eu tenho alguma coisa a ver com tudo isso?
— Ora, não me venha bancar o inocente! O senhor não conseguiu conter sua vaidade criminosa, não é? E assinou o bilhete do sequestro de Chumbinho!
— Eu fiz o quê?
— O bilhete que a empregada encontrou ao lado da bicicleta de Chumbinho estava assinado “Q.I.”. Você sabe muito bem disso!
— Não. Isso eu não sabia. E também não sabia que o senhor, detetive Andrade, seria tão burro a ponto de imaginar que eu assinaria um bilhete de sequestro. O senhor me subestima, detetive Andrade. O senhor está acostumado a prender criminosos analfabetos e ignorantes e até hoje não pôde compreender a profundidade da minha mente...
— Ora, seu...
— É do meu raciocínio que o senhor precisa? Pois estou às suas ordens. Não gosto de criminosos que usam meu nome.
A segurança daquele criminoso era impressionante. Sua personalidade era rara, dominadora.
— Vocês estão farejando a pista errada! — declarou com ironia o Doutor Q.I. — O sequestro desse cientista não é coisa planejada aqui. Vocês não percebem? Como eu sei? Eu não sei. Eu penso.
O olhar de Magrí, durante todo aquele interrogatório, permanecia meio distante. A menina pensava. Colocada no fundo da sala, fora dos olhares dos outros, abriu a mochila e, discretamente, examinou o conteúdo da bolsa de dona Iolanda. Fechou-a novamente.
Um silêncio constrangido tomava conta da sala de interrogatório.
Quem o rompeu foi Magrí.
— Andrade, posso falar?
O gordo detetive, meio zonzo, sem saber como sobrepor-se à forte personalidade do Doutor Q.I., voltou a cabeça para a menina:
— Claro, Magrí.
— Peço que o Doutor Q.I. seja dispensado.
— Como?
Por favor, Andrade. Confie em mim. Por favor!

* * *

Depois que o prisioneiro foi levado pelos guardas, Magrí levantou-se:
— O Doutor Q.I. tem razão. Estamos na pista errada.
O diretor sorriu, com condescendência:
— Ora, desculpe, detetive Andrade, mas não vamos ficar aqui perdendo tempo com opiniões de crianças...
O olhar de Magrí fuzilou o diretor, e Andrade veio em seu socorro.
— O senhor é que deve me desculpar, diretor, mas eu estou no comando das investigações deste caso. Peço sua paciência. O senhor já viu do que estes meninos são capazes. Vamos ouvir o que Magrí tem a dizer.
Dessa vez a segurança da personalidade do Doutor Q.I. estava sendo substituída pela força de Magrí. Era de impressionar.
— Andrade, deixe-me ver de novo as fotos do doutor Bartholomew Flanagan e o resumo de sua biografia, por favor. Andrade tirou o envelope do bolso.
— Aqui estão, Magrí.
A menina folheou as fotos e passou os olhos pelo conteúdo da biografia.
— Vou começar com um pedido — disse ela, voltando-se para Patrick Lockwood. — Please, mister Lockwood, I need your help. Would you call the FBI immediately?  (— Por favor, senhor Lockwood. Preciso de sua ajuda. O senhor poderia telefonar para o FBI, imediatamente?)
— Of course... but what for?  ( —Claro… mas para que?)
— Please, ask,for a sample of Doctor Flanagan’s signature. Would you do that? Would you ask them to send a fax right away with that sample? (— Por favor, peça uma amostra da assinatura do doutor Flanagan. O senhor pode fazer isso? Peça para eles enviarem um fax, a seguir, com essa amostra. )
— O que ela está dizendo? — perguntou Andrade.
Antes que a intérprete começasse a traduzir, Magrí interrompeu-a com um gesto.
— Andrade, eu pedi ao agente Lockwood uma amostra da assinatura do doutor Bartholomew Flanagan que o FBI deve ter. Pedi que mandassem essa amostra por fax para cá, o mais rápido possível.
Patrick Lockwood olhava em volta, sem saber se cumpria ou não o que pedira a menina.
O doutor Hector Morales riu-se.
— Ora, isso é uma brincadeira? Vamos ficar aqui perdendo tempo, enquanto...
Andrade cortou.
— Por favor, doutor Morales. Como eu já disse, quem comanda esta investigação sou eu.
Com um movimento de cabeça, autorizou o agente do FBI a atender o pedido de Magrí.
Depois de instruções do diretor da penitenciária, um guarda saiu com Patrick Lockwood da sala de interrogatório.
— Continue, Magrí.
— A polícia podia tentar encontrar os quatro homens que na certa são da quadrilha. Aqueles dois que estavam na frente do hospital e os outros dois gorilas que guardavam a porta do quarto de dona Iolanda, mas isso seria inútil...
— Você viu a cara deles, Magrí — lembrou Andrade. Podemos mostrar-lhe os arquivos de fotos de criminosos procurados. Se eles já tiverem sido fichados...
— Ora, Andrade, vai levar um tempão! Não temos tempo para isso! — exclamou Magrí.
Crânio interrompeu:
— Mas tem um da quadrilha que só eu vi. E esse não é difícil de identificar. É um anão!
— Um anão?
— Shtó? — perguntou o russo.
— A dwarf, he saïd — tentava explicar a intérprete para Iúri Mikhailevich. — Do you understand? Oh, my! How do you .suy “dwarf” in Russian? ( — Um anão, ele disse... Você entende? Oh! Como se diz “anão” em russo? )
Andrade também não estava entendendo:
— Que novidade é essa, Crânio?
— Um anão disforme, Andrade. Um homenzinho horrível, sinistro, que estava rondando nossas ações lá no hospital. Ele se escondeu e desapareceu, logo que eu o vi. Pela cara dele, acho que é um bandido capaz das piores barbaridades! É um sujeito perigoso, sem dúvida nenhuma. Acho que era quem estava coordenando a quadrilha, lá no hospital. Na certa foi ele quem mandou sequestrar dona Iolanda, quando viu que nós estávamos na pista deles!
Magrí cortou a fala de Crânio com um gesto:
— Crânio, quer ficar quieto? Quer esquecer essa bobagem de anão?
— Mas, Magrí, você não diria que estou falando bobagem se visse a cara do anão. Ele é o sujeito mais assustador, mais suspeito que eu já vi!
Magrí foi dura, dessa vez:
— Por favor, Crânio! Eu sei o que estou fazendo! Crânio calou-se e Magrí retomou seu raciocínio.
— Tem alguns detalhes dessa história que só eu testemunhei. Lembram-se de eu ter contado que, à noite, no avião, ouvi uma conversa entre o doutor Hector Morales e o doutor Bartholomew Flanagan?
Os olhos de Hector Morales arregalaram-se:
— Uma conversa entre mim e o doutor Flanagan, menina? Não diga! O que você ouviu?
— Uma conversa corriqueira, doutor Morales. Mas, agora, pensando nela, eu...
Foi interrompida pelo telefone, que tocava na sala ao lado. Um funcionário o atendeu e chamou pelo diretor.
— Tem um sujeito esquisito lá no portão, diretor. Diz que tem de falar com urgência com o detetive Andrade. Tentaram mandá-lo embora, mas ele insiste que tem informações importantes sobre o sequestro da professora. Ele é um...
Andrade interrompeu o funcionário:
— Como esse sujeito pode saber que eu estou aqui?
Magrí tocou no braço do diretor, pedindo, com suavidade:
— Deixe-o subir, diretor. Não podemos abrir mão de nenhum depoimento. Se esse tal sujeito esquisito sabe que o detetive Andrade está aqui, precisamos descobrir quem é ele e o que quer.
O diretor olhou para Andrade. Andrade olhou intrigado para Magrí. Magrí insistiu:
— Por favor, Andrade. Por favor!
Andrade fez um gesto com a cabeça em direção ao diretor, autorizando mais aquela irregularidade na rotina da penitenciária.
— Mande trazer o visitante misterioso até aqui, diretor.
O diretor estava dando as ordens para que revistassem direitinho o tal sujeito, antes de deixá-lo entrar, quando o agente Patrick Lockwood voltou à sala de interrogatórios. Trazia um papel de fax nas mãos. Estendeu-o para Andrade.
— Here you are, detective. There are some samples of Doctor Flanagan’s signature… (— Aqui estão, detetive. Algumas amostras da assinatura do doutor Flanagan…)
Andrade pegou o papel, passou-lhe os olhos e entregou-o para Magrí.
A menina olhou detidamente o papel de fax. Abriu a mochila e tirou de lá uma agenda. Abriu-a e colocou o papel de fax ao lado, comparando alguma coisa.
Sua carinha iluminou-se. E foi com o sorriso mais lindo do mundo que a menina levantou o rosto e encarou a todos:
— Gente, acho que resolvi o caso!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!