2 de fevereiro de 2018

Capítulo 2

menos que recontemos a história,
os relatos serão passados
de pai para filho, de mãe para filha,
pois, sem apenas uma geração que seja,
história e verdade ficariam perdidas para sempre.
— Livro dos Textos Sagrados de Morrighan, vol. III —



Pauline e eu gritamos. Berramos com toda a potência de nossos pulmões, sabendo que o vento, as colinas e a distância impediam nossa liberdade cheia de nervosismo de ser captada por qualquer ouvido. Gritamos com uma entrega eufórica e uma necessidade primitiva de acreditarmos em nossa fuga, porque, se não acreditássemos nela, seríamos tomadas pelo medo. Eu já o sentia mordendo-me as costas enquanto me impulsionava com mais força para a frente.
Seguíamos para o norte, cientes de que o cuidador de cavalos ficaria nos observando desaparecer floresta adentro. Quando estávamos sob a proteção das árvores, encontramos um riacho que eu vira em caçadas com meus irmãos e voltamos em meio às águas que fluíam, seguindo pelo raso fio d’água até nos depararmos com uma escarpa rochosa no outro lado, a qual usamos para nossa saída, sem deixar pegadas ou rastros para serem seguidos.
Assim que voltamos a um terreno nivelado, afundamos nossos calcanhares nos cavalos e corremos como se algum monstro estivesse nos perseguindo. Cavalgamos sem parar, seguindo por um caminho pouco usado que abraçava os densos pinheiros, os quais nos dariam refúgio se precisássemos nos abaixar rapidamente. De vez em quando, ficávamos tontas de tanto rir; em outras ocasiões, lágrimas escorriam por nossas bochechas, impulsionadas pela velocidade em que estávamos, mas ficamos em silêncio na maior parte do tempo, sem acreditar que havíamos realmente feito aquilo.
Depois de uma hora, eu não sabia ao certo o que doía mais: minhas coxas, minhas panturrilhas em cãibras ou minhas nádegas machucadas, totalmente desacostumadas a nada além de um passeio real em um cavalo trotando, porque, nos últimos meses, meu pai não permitia que eu fizesse mais que isso.
Meus dedos estavam entorpecidos de segurar as rédeas, mas Pauline não parou, e fiz o mesmo.
Meu vestido flamulava atrás de mim, agora casando-me com uma vida de incertezas, mas que me assustava bem menos do que a vida cheia de certezas que eu tinha encarado. Agora, essa vida era um sonho criado por mim mesma, na qual o único limite era minha imaginação. Era uma vida comandada por mim, apenas por mim.
Perdi a noção do tempo. O ritmo dos cascos era a única coisa que importava, cada batida deles no chão ampliando a linha de separação da minha antiga vida. Por fim, quase em uníssono, nossos fulgurosos cavalos ravianos, com seus pelos castanho-avermelhados, bufaram e diminuíram as passadas por decisão própria, como se uma mensagem secreta tivesse sido trocada entre eles. Os cavalos eram o orgulho dos estábulos de Morrighan, e estes receberam tudo o que mereciam. Olhei para o pouco do oeste que eu era capaz de ver acima das copas das árvores. Havia ainda pelo menos três horas de luz do dia. Ainda não podíamos parar. Seguimos em frente, pressionando os animais, em um ritmo mais lento, e, quando enfim o sol desapareceu atrás das cordilheiras de Andeluchi, procuramos um local seguro para montar acampamento e passar a noite.
Fiquei ouvindo com cautela enquanto cavalgávamos por entre as árvores e procurávamos pelo que poderia ser um provável abrigo. Senti picadas no pescoço enquanto guinchos lancinantes e repentinos de pássaros ressoaram pela floresta como se fossem um aviso. Nós nos deparamos com as ruínas desmoronadas dos Antigos, partes de muralhas e de pilares que agora eram mais floresta do que civilização, muralhas que estavam cobertas por uma espessa camada de musgo verde e líquen, e que provavelmente eram o que mantinha os destroços em pé. Talvez as modestas ruínas outrora fossem parte de um glorioso templo, mas agora, samambaias reclamavam-nas para a terra.
Pauline deu um beijo no dorso da própria mão, tanto como bênção quanto como proteção contra espíritos que poderiam vagar por ali, e puxou as rédeas para rapidamente deixar as ruínas para trás. Não beijei o dorso de minha mão nem me apressei a passar logo por ali; pelo contrário, analisei os ossos verdes de uma outra época com curiosidade, como eu sempre fazia, e me pus a imaginar as pessoas que os haviam criado.
Por fim, chegamos a uma pequena clareira. Com um último brilho de luz do dia acima de nossas cabeças e tanto eu como Pauline arqueadas em nossas selas, concordamos em silêncio que este era o lugar onde iríamos acampar. Tudo que eu queria era cair na grama e dormir até de manhã, mas os cavalos estavam tão cansados quanto nós e ainda mereciam atenção, já que eram a única forma verdadeira de fugir.
Retiramos as selas de nossos cavalos deixando que caíssem no chão com um som oco e sem cerimônia, porque não tínhamos forças para nada mais que isso, e depois chacoalhamos as cobertas úmidas e as penduramos em um galho para secarem. Demos tapinhas amigáveis nos traseiros dos animais, que seguiram direto até o riacho para beber água.
Pauline e eu caímos juntas, ambas cansadas demais para comer, embora nenhuma de nós tivesse se alimentado o dia todo. Naquela manhã, estávamos nervosas demais, por conta de nossos planos clandestinos, até mesmo para comermos uma refeição decente. Embora eu tivesse considerado fugir havia semanas, aquilo teria sido impensável, mesmo para mim, até o meu banquete de despedida na última noite com minha família, no Salão de Aldrid. Foi então que tudo mudou e o impensável de repente parecia minha única escolha.
Quando brindes e risadas voaram pelo salão, e eu estava ficando sufocada sob o peso da celebração e dos sorrisos satisfeitos dos membros do gabinete de meu pai, meus olhos encontraram-se com os de Pauline. Ela estava em pé, esperando, encostada na parede mais afastada, junto com os outros criados.
Quando balancei a cabeça, ela soube. Eu não poderia fazer isso. Ela assentiu em resposta.
Foi uma troca de ideias tão silenciosa que ninguém mais notou. No entanto, tarde da noite, quando todo mundo havia se retirado, ela voltou para os meus aposentos e as ideias jorraram entre nós. Havia pouco tempo e muito a fazer, e quase tudo dependia de conseguirmos dois cavalos selados sem que ninguém ficasse sabendo. Na alvorada, Pauline evitou o Mestre do Estábulo, que estava ocupado preparando equipes para a procissão real, e falou baixinho com o mais jovem cuidador de cavalos, um rapaz inexperiente que ficaria intimidado demais para questionar uma solicitação direta vindo da corte da Rainha. Até agora, nossos planos elaborados às pressas tinham dado certo. Embora estivéssemos cansadas demais para comer, enquanto o sol caía ainda mais baixo no horizonte e a luz ficava cada vez mais fraca, nossa exaustão cedera lugar ao medo. Fomos atrás de lenha para fazermos uma fogueira, de modo a manter as criaturas que espreitavam na floresta a uma distância segura de nós, ou pelo menos para que pudéssemos ver os dentes delas antes que nos devorassem.
A escuridão veio rapidamente e mascarou o mundo todo além do pequeno círculo de chamas tremeluzentes que aqueciam nossos pés. Observei as chamas lambendo o ar na nossa frente, ouvindo o crepitar delas, e o sibilar e o farfalhar da madeira assentando-se. Aqueles eram os únicos sons existentes, mas permanecemos de ouvidos abertos para ver se havia algo mais.
— Você acha que tem ursos aqui? — perguntou Pauline.
— Quase com certeza, sim. — No entanto, a minha mente já havia se voltado para os tigres. Eu tinha ficado cara a cara com um quando tinha apenas dez anos de idade, tão perto que podia sentir seu hálito, seu rosnado, sua saliva, sua suprema enormidade prestes a engolfar-me. Fiquei esperando a morte. Não sei por que motivo ele não me atacou na hora, mas um grito longínquo do meu irmão, me procurando, foi a única coisa que salvou minha vida. O animal desaparecera floresta adentro com tanta rapidez quanto havia chegado.
Quando eu contava isso às pessoas, ninguém acreditava em mim. Havia relatos de tigres no Cam Lanteux, porém, eram poucos. Morrighan não era seu reino natural. Os vidrados olhos amarelos da fera ainda assombravam meus sonhos.
Espiei além das chamas, na escuridão, onde minha adaga ainda estava dentro do alforje, apenas poucos passos do lado de fora de nosso seguro círculo de luz.
Que tola eu era de pensar nisso apenas naquele momento!
— Ou pior do que ursos, pode haver bárbaros — falei, colocando um terror fingido na voz, tentando tornar mais leves nossos humores.
Pauline arregalou os olhos, embora um sorriso brincasse abaixo deles.
— Ouvi dizer que eles se reproduzem como coelhos e arrancam as cabeças de pequenos animais a dentadas.
— E falam apenas em um misto de grunhido e bufada. — Eu também ouvira as histórias. Soldados traziam de volta de suas patrulhas histórias sobre os modos brutais dos bárbaros e seus números crescentes. Era apenas por causa deles que a animosidade de longa data entre Morrighan e Dalbreck havia sido posta de lado e uma aliança desconfortável, às minhas custas, havia sido alcançada. Um grande e feroz reino do outro lado do continente com uma população crescente e rumores de estar ampliando suas fronteiras era mais ameaçador do que um reino vizinho um tanto quanto civilizado, cujo povo pelo menos descendia dos escolhidos Remanescentes. Juntas, as forças de Morrighan e Dalbreck poderiam ser grandes, mas sozinhos, os reinos estavam miseravelmente vulneráveis. Apenas o Grande Rio e o Cam Lanteux detinham o avanço dos bárbaros.
Pauline lançou mais um galho seco no fogo.
— Você é boa com idiomas, não deverá ter problema algum com os grunhidos dos bárbaros. É assim que metade da corte do Rei fala.
Caímos na gargalhada, imitando os rugidos do Chanceler e os suspiros de desdém do Erudito.
— Você já viu um? — perguntou ela.
— Eu? Se vi um bárbaro? Fui mantida em uma rédea tão curta nesses últimos anos que mal consegui ver alguma coisa. — Meus dias de liberdade vagando pelas colinas e correndo atrás dos meus irmãos tiveram um fim abrupto quando meus pais decidiram que eu já estava começando a parecer uma mulher e que, portanto, deveria me comportar como uma. Fui arrancada das liberdades que partilhava com Walther, Regan e Bryn, como explorar as ruínas nos bosques, cavalgar pelas campinas, caçar pequenos animais e entrar em uma boa quantidade de travessuras. Conforme fomos ficando mais velhos, as travessuras deles continuavam a ser dispensadas com um dar de ombros, mas não as minhas, e soube, a partir daquele ponto, que eu era medida com base numa régua diferente da usada com meus irmãos.
Depois que minhas atividades foram restringidas, desenvolvi uma tendência a sair sorrateiramente, como fiz hoje. Não é uma habilidade que seria valorizada pelos meus pais, embora eu me orgulhasse um tanto dela. O Erudito suspeitava dos meus meandros, e montava armadilhas bem fracas, as quais eu evitava com facilidade. Ele sabia que eu tinha inspecionado com afinco a sala de textos antigos, o que era proibido, pois supostamente os textos eram delicados demais para mãos descuidadas como as minhas. Porém, naquela época, embora eu tivesse conseguido fugir dos limites da cidadela, não havia na verdade nenhum lugar aonde ir a partir dali. Todo mundo em Civica sabia quem eu era, e com certeza notícias sobre mim teriam chegado até os meus pais. Como resultado disso, minhas escapadas eram, em sua maioria, limitadas a ocasionais investidas noturnas até salas mal iluminadas para jogar cartas ou dados com meus irmãos e seus amigos de confiança, que sabiam como manter as bocas fechadas em relação à irmã caçula de Walther e que poderiam até mesmo simpatizar com meu infortúnio. Meus irmãos sempre gostaram da expressão de surpresa nos rostos de seus amigos quando eu dava as cartas tão bem quanto as recebia. Palavras e assuntos não eram poupados por causa de meu gênero ou título, e aqueles fofoqueiros escandalosos educaram-me de maneiras que um tutor real jamais poderia ter feito.
Fiz sombra nos olhos com a mão como se estivesse espiando pelo bosque escuro adentro, procurando por eles.
— Eu daria as boas-vindas à distração de um selvagem agora mesmo. Bárbaros, mostrem-se! — gritei. Não obtive resposta. — Acredito que os assustamos.
Pauline deu risada, mas essa pretensa ousadia pendia no ar entre nós.
Tanto eu quanto ela sabíamos que de vez em quando se avistavam pequenos bandos de bárbaros nos bosques, fazendo a travessia de Venda até os territórios proibidos do Cam Lanteux. Às vezes, eles até mesmo se aventuram, de forma bastante audaciosa, a adentrar os Reinos de Morrighan e de Dalbreck, desaparecendo com a mesma facilidade com que os lobos somem ao serem perseguidos. Por ora, nós ainda estávamos perto demais do coração de Morrighan para precisarmos nos preocupar com eles. Ou assim eu esperava.
Seria mais provável que encontrássemos andarilhos, os nômades errantes que eventualmente vinham vagando do Cam Lanteux. Eu mesma nunca tinha visto um, mas ouvira relatos de seus modos de vida não usuais. Eles viajavam em carroças coloridas para comercializarem quinquilharias, comprarem suprimentos, venderem suas misteriosas poções ou, às vezes, tocarem música por uma moeda ou duas; no entanto, não eram eles quem mais me preocupavam. Minhas maiores preocupações eram meu pai e o fato de eu ter arrastado Pauline nessa fuga. Não tivemos tempo para discutir tanta coisa na noite passada...
Fiquei observando-a, enquanto a própria Pauline, distraída, fitava o fogo, colocando mais gravetos para atiçá-lo quando necessário. Ela era capaz de lidar muito bem com diversas situações, mas eu sabia que não era desprovida de medo, e que isso fazia com que sua coragem no dia de hoje fosse maior do que a minha. Ela tinha tudo a perder pelo que fizera, enquanto eu só tinha a ganhar.
— Sinto muito, Pauline. Que confusão criei para você!
Ela deu de ombros.
— Eu ia embora de qualquer forma. Falei isso a você.
— Mas não assim. Você poderia ter ido embora sob circunstâncias muito mais favoráveis.
Ela abriu um largo sorriso, incapaz de discordar.
— Talvez. — Seu sorriso rapidamente esvaiu-se, e ela analisava meu rosto. — Mas eu nunca poderia ter ido embora de lá por um motivo tão importante quanto este. Nem sempre é possível esperar pelo momento perfeito.
Eu não merecia uma amiga como ela. Doía-me a compaixão que Pauline me demonstrava.
— Nós seremos caçadas — falei. — Haverá uma recompensa pela minha cabeça. — Isso era algo sobre o qual não tínhamos conversado na madrugada.
Ela desviou o olhar e balançou a cabeça com vigor.
— Não, não do seu próprio pai.
Soltei um suspiro, agarrando e juntando minhas pernas, e fixando o olhar nas brasas reluzentes perto dos meus pés.
— Especialmente do meu pai. Cometi um ato de traição, como se um soldado do exército dele tivesse desertado. E, pior ainda, eu o humilhei. Fiz com que parecesse fraco. O gabinete real não permitirá que ele se esqueça disso. Ele vai ter que tomar alguma atitude.
Pauline também não podia discordar de mim. Desde os meus doze anos, fazendo parte da corte real, era minha obrigação frequentar e testemunhar as execuções de traidores — o que era uma ocorrência rara, visto que os enforcamentos públicos provavam-se uma eficiente força dissuasora —, mas tanto eu quanto Pauline conhecíamos a história da irmã do meu próprio pai. Ela havia morrido antes de eu nascer, quando se jogou da Torre Leste. Seu filho havia desertado de seu regimento, e ela sabia que nem mesmo o sobrinho do Rei seria poupado. E ela estava certa. O rapaz foi enforcado no dia seguinte, e ambos foram enterrados em desgraça no mesmo túmulo sem identificação.
Certos limites não poderiam ser cruzados em Morrighan. Lealdade era um deles.
Pauline franziu o rosto.
— Mas você não é um soldado, Lia. Você é filha dele. Você não tinha escolha, e isso quer dizer que eu não tinha também. Ninguém deveria ser forçada a casar-se com alguém que não ama.— Ela se deitou, contemplando as estrelas e torcendo o nariz. — Especialmente com algum príncipe velho, enfadonho e gordo.
Nós caímos na gargalhada de novo, e eu estava mais grata por Pauline do que pelo ar que eu respirava. Ficamos observando as constelações reluzentes, e ela me falou sobre Mikael, sobre as promessas que trocaram, as coisas doces que ele sussurrara ao seu ouvido, e os planos que fizeram para quando ele voltasse de sua patrulha com a Guarda Real no fim desse mês. Vi o amor nos olhos dela e a mudança em sua voz enquanto falava dele.
Ela me disse o quanto sentia falta do namorado, mas também falou que estava confiante de que ele haveria de encontrá-la, porque a conhecia como mais ninguém no mundo. Eles haviam conversado sobre Terravin por incontáveis horas, sobre a vida que formariam e os filhos que criariam lá.
Quanto mais ela falava, mais a dor dentro de mim aumentava. Eu tinha apenas pensamentos vagos e vazios sobre o futuro, a maior parte sobre coisas que eu não queria que acontecessem, ao passo que Pauline tinha criado sonhos com pessoas reais e com detalhes verdadeiros. Ela havia criado um futuro com outro alguém.
Eu me perguntava como seria ter alguém que me conhecesse tão bem, alguém que olharia direto na minha alma, alguém cujo próprio toque eliminaria todos os meus outros pensamentos. Tentei imaginar alguém que ansiasse pelas mesmas coisas que eu e que quisesse passar o resto da vida comigo, e não porque isso estava em conformidade com um contrato sem amor escrito em um papel.
Pauline deu um apertão suave na minha mão e sentou-se direito, colocando mais lenha na fogueira.
— Nós deveríamos dormir um pouco para que possamos começar a cavalgar cedo.
Ela estava certa. Tínhamos pelo menos uma semana de viagem pela frente, presumindo que não nos perderíamos. Pauline não ia a Terravin desde criança e não estava segura em relação ao caminho, e eu nunca estive lá, de modo que poderíamos apenas seguir os instintos dela e confiar na ajuda de estranhos que estivessem de passagem. Estirei uma coberta no chão para dormirmos e tirei dos meus cabelos as agulhas de pinho vindas do chão da floresta.
Ela olhou para mim, hesitante.
— Você se importa se eu recitar as memórias sagradas primeiro? Posso falar baixinho.
— Por favor, fique à vontade — sussurrei, tentando demonstrar um pouco de respeito por ela e sentindo uma pontinha de culpa por não me sentir compelida a fazer o mesmo. Pauline tinha fé, ao passo que eu não fazia segredo do meu desdém pelas tradições que haviam ditado meu futuro.
Ela se ajoelhou, recitando as memórias sagradas. Sua voz era hipnótica, como as suaves cordas da harpa que ecoavam por toda a abadia. Fiquei observando-a, pensando na enorme tolice que era o destino. Ela teria sido uma Primeira Filha de Morrighan bem melhor, a filha que meus pais teriam desejado, quieta e discreta com a língua, paciente, leal aos modos antigos, pura de coração, que capta com facilidade o que não é dito, mais próxima de ter um dom do que eu algum dia teria, perfeita para uma Primeira Filha em todos os aspectos.
Deitei-me e fiquei ouvindo o que ela recitava em tom de cântico. Era a história da Primeira Filha original fazendo uso do dom que os deuses lhe concederam para conduzir os Remanescentes escolhidos para longe da devastação, até a segurança de uma nova terra, deixando um mundo desolado, pilhado e devastado para trás, e construindo um novo mundo, cheio de esperanças. Com a doce cadência de Pauline, a história ficava bela, redentora, cativante, e eu me deixei levar por seu ritmo, perdida nas profundezas do bosque que nos cercava e no mundo mais além, na magia de um tempo que passara. Em suas notas mais delicadas, a história chegava até o início do universo e voltava. Eu quase podia entendê-la.
Fiquei encarando o círculo de céu acima dos pinheiros, distante e intocável, cintilante, vivo, e um anseio aumentou dentro de mim para esticar a mão e partilhar de sua magia. As árvores também se estendiam em busca da magia, e depois estremeceram em uníssono, como se um exército de fantasmas tivesse acabado de varrer seus galhos mais altos, um mundo inteiro e sábio, logo ali, além do meu alcance.
Pensei em todos os momentos em que passara escondida quando criança, saindo sorrateiramente no meio da noite até a parte mais calma da cidadela: o telhado. Aquele era um lugar em que o ruído constante era silenciado, e eu me tornava um daqueles pontinhos calados conectados ao universo. Lá, eu me sentia mais perto de algo que não seria capaz de nomear.
Se eu apenas pudesse esticar as mãos e tocar as estrelas, saberia de tudo. Entenderia.
Saber do quê, minha querida?
Disso, eu dizia, pressionando a mão no peito. Não tinha palavras para descrever a dor que ardia dentro em mim.
Não há nada a saber, doce criança. É só o frio da noite. Minha mãe me pegava em seus braços e me levava de volta para a cama. Mais tarde, quando minhas perambulações noturnas não pararam, ela mandou colocar uma trava adicional na porta do telhado, fora do meu alcance.
Pauline enfim terminou, suas últimas palavras saindo como um baixinho sussurrar reverente. Então assim haverá de ser, para todo o sempre.
— Para todo o sempre — sussurrei para mim mesma, imaginando simplesmente o quão longo seria o para sempre.
Ela se aninhou na coberta ao meu lado, e puxei o manto de casamento para cima, para cobrir nós duas. O repentino silêncio fez com que o bosque se aproximasse, audaz, de nós, e nosso círculo de luz ficou menor.
Pauline caiu no sono em pouco tempo, mas os eventos do dia ainda se reviravam dentro de mim. Não importava que eu estivesse exausta. Meus músculos cansados se contorciam, e minha mente pulava de um pensamento para o outro como um grilo desafortunado esquivando-se de uma debandada de patas.
Meu único consolo, enquanto eu erguia o olhar para as estrelas piscantes, era que provavelmente o Príncipe de Dalbreck também estava ainda acordado, voltando aos solavancos para casa, em uma estrada cheia de buracos, com seus velhos ossos doendo, em uma fria e desconfortável carruagem — sem nenhuma jovem noiva para aquecê-lo.

10 comentários:

  1. GOSTARIA DE SABER O QUE ACONTECEU NO CASAMENTO

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  2. Aposto que o príncipe é jovem e todo perfect body

    E eu meio que tô shippando a Lia e a Pauline haushaushaushaus

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  3. Eu imagino que ela pensa no príncipe como uns 10 anos mais velho que ela mas eu acho que ele deve ser 1 ou2 anos no Max 3 anos mais velho que ela é ele deve provavelmente ser no mimínium pouco bonito

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  4. Opa esqueci de assinar

    Mirtiz

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  5. mal sabe ela q o príncipe e um gostosao da porra [descupa o palavrao]

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  6. com certeza o príncipe, é um cara novo. E não esse velho que ela pensa ����

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Boa leitura, E SEM SPOILER!