14 de fevereiro de 2018

Capítulo 2. A filha do presidente americano

Na noite anterior, para mostrar a vista da cidade a Sherman Blake, o simpático guarda-costas de seu pai, Peggy MacDermott levara-o à varanda do luxuoso hotel brasileiro, cujo último andar havia sido reservado somente para o presidente e sua filha.
— Come here, uncle Sherm. Venha cá, tio Sherm. Veja, esta cidade até parece Chicago!
Sherman Blake era um homem atlético, que ostentava ainda a forma física do fuzileiro naval que mais condecorações tinha recebido por atos de bravura. Depois de reformado, Sherman Blake acompanhava há tantos anos a carreira política de Wilbur MacDermott, cuidando de sua segurança, que já fazia parte da família. Quando era pequena, muitas vezes Peggy havia cavalgado em seus ombros fortes e, no Natal, o primeiro presente que recebia era sempre daquele eficiente protetor de seu pai. Para Peggy, Sherman Blake sempre fora o querido “tio Sherm”.
— Uncle Sherm, aqui as pessoas falam português, não é? Não vou entender nem uma palavra!
— Well. Aprendi um pouco de espanhol lutando contra as guerrilhas latino-americanas. De português, só conheço algumas frases...
Peggy repousou a cabeça em seu peito e o afável anjo da guarda do presidente pousou os lábios em seus cabelos e sussurrou, carinhosamente:
— My dear est Peggy, éo tchi áámôu...
— What? O que você disse, uncle Sherm?
— I said I love you, my little Peggy... In Portuguese!
A menina sorriu, feliz:
— I love you too, uncle Sherm...
A poucos metros da varanda, sentados nas confortáveis poltronas do grande salão, o presidente e J. Edgar Hooper discutiam o protocolo acertado para o dia seguinte, que transcorreria lá mesmo, no hotel.
— Pela manhã, Mister President, o trabalho ficará com as comissões técnicas em economia e política exterior — recapitulava Hooper. — À tarde, está marcada sua reunião com o presidente do Brasil, o senhor Augusto Rodrigues Lobo.
— E... Temos tantas coisas a decidir...
— Depois, exatamente à meia-noite, hora brasileira, será a hora do seu discurso, senhor. A transmissão será feita daqui mesmo, desta sala. Já está tudo acertado para formar a rede mundial de televisão.
— Esse horário foi bem escolhido, Hooper — comentou o presidente. — Corresponde às sete da noite em Los Angeles e às dez em Nova York. O horário certo para pegar nossos compatriotas na frente de seus aparelhos de tevê...
O diretor da CIA pigarreou:
— Bem... agora o roteiro de sua filha. À tarde, como o senhor concordou, lamento dizer que contra os meus conselhos, miss Peggy será levada ao Colégio Elite, para a exibição de ginástica com a amiga brasileira. E esse ponto me preocupa, Mister President, me preocupa muito...
MacDermott sorriu daquele cuidado exagerado:
— Come on, Hooper! Não se preocupe tanto. O esquema de segurança que você organizou está perfeito. Nada vai acontecer comigo nem com a minha filha no Brasil!
— I’m not sure. Não sei, Mister President. Vamos ter de confiar muito nas forças locais. Estive reunido com os encarregados brasileiros na semana passada. Eles parecem muito solícitos e organizados mas... como ter certeza? A proteção externa do colégio ficará a cargo do exército e da polícia do Brasil, fora do nosso comando!
— Não haverá problemas, meu caro Hooper. O Presidente Rodrigues Lobo é um grande estadista. O povo o adora. Ninguém nos fará mal.
— É, mas há muita gente que odeia o presidente brasileiro, Mister President.
— Assim como a mim, Hooper, assim como a mim. Principalmente dentro do meu próprio país...
— Ainda acho que o senhor não devia ter feito essa viagem, Mister President. Sua segurança é...
— Importante? Pois muito mais importante será meu discurso de amanhã à noite. O mundo ficará surpreso com a proposta que vou apresentar, você vai ver!
— Surpreso? No caso de sua segurança e de sua filha, espero que estejamos livres de surpresas, Mister President...
O presidente voltou-se para o lado da varanda, chamando carinhosamente a filha:
— My little kangaroo! Não está na hora de ir para a cama? Você deve estar exausta, depois da viagem para cá...
Pouco depois, Peggy aconchegava-se sob as cobertas, pensando em Magrí, a amiga que ela havia conquistado no campeonato mundial de ginástica olímpica, disputado nos Estados Unidos. Isso tinha sido poucos meses antes de seu pai, o senador Wilbur MacDermott, ter vencido as eleições presidenciais. Agora, os eleitores americanos a haviam transformado na filha do presidente dos Estados Unidos da América.
E, quando soube que o pai preparava uma visita oficial ao Brasil, pediu e teve permissão para acompanhá-lo, embora sua mãe não pudesse viajar desta vez, ocupada com suas atividades filantrópicas. Mas acabou consentindo, pois a filha ficaria só três dias longe dela. E Peggy adormeceu, repetindo mentalmente a primeira frase em português que havia aprendido:
“Éo tchi áámôu... éo tchi áámôu...”.
— Hey, Magrí, could you handle me that towel, please? Pode me passar a toalha, Magrí?
No dia seguinte, depois que toda a plateia do ginásio de esportes já tinha sido levada para fora do Colégio Elite pelos homens de J. Edgar Hooper, a jovem americana enxugava o rosto com a toalha que Magrí lhe estendera e sorria:
— Como é que você consegue saltar dessa maneira, Magrí?
— Do mesmo jeito que você. Você está em ótima forma, Peggy!
As atletas ainda tinham se demorado na quadra, uma mostrando para a outra suas habilidades. Depois, abraçadas, rindo felizes pelo encontro, Magrí e Peggy haviam saído do ginásio para o vestiário, junto com três das garotas que tinham participado da exibição de ginástica.
Dois agentes da CIA, de terno e cara feia, escoltaram o grupo até a porta do vestiário. Naturalmente nenhum deles falava ou lia português, mas o desenho de um rosto feminino numa plaquinha na porta mostrava que havia um limite para sua vigilância. As meninas entraram no vestiário e os dois “orangotangos” postaram-se na entrada, dispostos a proteger a filha do presidente com suas próprias vidas.
— Oh, Magrí! Você é incrível. Eu nunca vou ser capaz de fazer uma saída das barras como você fez hoje!
— É claro que vai, Peggy. Você tem uma agilidade sensacional!
— Você acha? Meu pai diz que eu salto feito um canguru, até me chama de “my little kangaroo”, mas ele deveria ver você saltando!

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