6 de fevereiro de 2018

Capítulo 2. A droga do amor

Eram oito horas da manhã quando Miguel levantou-se da mesa do café.
O ano terminava, mas o rapaz não queria descanso. Tinha de manter-se ocupado, preparando a nova vida que, a partir de agora, estava decidido a levar. Inscrevera-se como monitor de uma colônia de férias para crianças e, naquela manhã, aprontava-se para uma reunião em que os monitores receberiam treinamento para a primeira temporada.
Sobre a mesa, passou os olhos pelas manchetes do jornal.
A DROGA DO AMOR VEM AO BRASIL
Dava orgulho: o Brasil tinha sido escolhido para sediar a parte final do mais importante projeto científico do mundo. Conhecido laboratório multinacional estava às vésperas de descobrir a cura para a praga do século. O soro já demonstrara ser cem por cento eficiente nos testes in vitro e já fora testado em seres humanos sadios para que se verificasse se apresentava algum grau de intolerância no organismo humano. Tudo estava perfeito. O próximo passo seria o experimento com seres humanos infectados. Dos inúmeros países que tinham apresentado grupos de pacientes terminais voluntários para a experimentação, o escolhido tinha sido o Brasil. O chefe da equipe de cientistas desembarcaria brevemente em São Paulo.
A cura para a praga do século era a melhor notícia que o mundo poderia esperar. O Brasil estava nas manchetes e um jornalista criativo inventara o apelido “Droga do Amor” para o soro experimental, porque, se desse certo, aquela droga libertaria realmente o amor da morte.
“Droga do Amor! Amor tem a ver com vida, não pode trazer a morte junto...”, pensou o rapaz. “Que nome bem achado!” Lembrou-se destas palavras do seu professor de biologia: “Amor é vida, não é morte! Amor produz vida, traz a felicidade, move o mundo, não pode destruí-lo!”
Empolgado, esperançoso, ele contara aos alunos que muitas doenças que vitimavam os amantes no passado já tinham sido vencidas pela ciência e que essa também seria derrotada.
Mas, ao entrar no chuveiro, o fim da praga do século não ocupava mais os pensamentos do ex-líder dos Karas. Como um pesadelo do qual o rapazinho não conseguia desfazer-se, veio-lhe à lembrança a última reunião dos Karas e a dolorida lembrança de Magrí.
“Ah, Magrí, Magrí, Magrí... Como eu vou conseguir viver sem você ao meu lado? Você está em Nova Iorque... Quando voltar, será que vai compreender o que eu fiz? Vai entender por que eu fiz o que fiz?”.
Ele tivera de agir antes que Magrí voltasse. Viver perto de Magrí, sem ter Magrí, para ele seria o fim. E ele sabia que o mesmo acontecia com Crânio, o mesmo acontecia com Calú.
Miguel lembrou-se de sua decisão. Não poderia ferir seus melhores amigos. Não poderia suportar a ideia de ver Calú e Crânio como rivais. O jeito tinha sido sair da jogada e nunca mais ver nenhum deles.
O jeito tinha sido dissolver o grupo dos Karas. E nunca mais ver Magrí...
O suave cheiro do sabonete lembrou-lhe o perfume do corpinho da única garota do grupo dos Karas.

* * *

Um gostoso perfume de banho, de sabonete e de xampu envolveu o ambiente quando Magrí voltou ao quarto, enxugando-se.
O inverno nova-iorquino não entrava no apartamento muito bem aquecido do hotel, e o vapor do banho quente tornava tudo ainda mais aconchegante. Na frente do espelho, acariciando lentamente os longos cabelos com a toalha felpuda, Magrí examinou-se.
“Bom, eu não engordei, mas já estou grande demais para a ginástica olímpica... Aquela ucraniana é uma anãzinha! E a azerbaijana? Parece um pássaro! Tem também a americana que... Ah, mas eu não posso decepcionar dona Iolanda...”.
Ainda nua, Magrí sentia-se sensual, quentinha do banho, com um pouco de preguiça. Examinou-se. Imaginou-se. Lembrou-se dos Karas. Dos seus queridos Karas...
Ao lado, estava a bandeja do breakfast, abandonada. Café, leite, chocolate, ovos fritos e bacon, tudo já frio. Havia grapefruit e quatro pequenas bananas, as “chiquitas”, muito raras e muito caras nos Estados Unidos. Uma delas muito pequena mesmo.
“Essa é o Chumbinho”, pensou, rindo, ao lembrar-se do querido caçula dos Karas.
Mas os outros três... Miguel, Calú e Crânio. Ah, os três Karas! Os seus três Karas! Que saudades!
A ponta do seu dedinho tocou delicadamente cada uma das três bananas maiores.
“Qual deles? Ai, qual deles? Os três são tão... são tão... Eu devo decidir? Escolher? Como escolher? Crânio, ele é tão... Ai, Crânio! Mas Miguel... se não fosse ele, eu... E Calú? Ai, como você é lindo, Calú! Todos os três me querem, eu sei que me querem... Hummmm... eu queria agora sentir perto de mim este aqui...
Magrí escolheu uma das bananas e, devagar, nua no meio do quarto, começou a descascá-la.
* * *

Calú espremeu o tubo de pasta de dentes, estendendo a minhoquinha branca sobre a escova. Levantou os olhos e encarou-se no espelho. A briga que dissolvera os Karas pesava demais.
“Mas foi melhor assim... Eu não aguentava mais”. Lembrou-se da reunião. A última reunião, no esconderijo secreto do grupo dos Karas, o forro do vestiário do Colégio Elite.
Tudo deveria estar resolvido depois da briga. Mas, no fundo de sua alma, Calú sentia que nada estava resolvido.
“Os Karas não existem mais! E eu... ai, Magrí! Eu ainda não aguento...”.
Calú fechou os olhos, como se, dentro das próprias pálpebras, estivesse vendo aquele rostinho:
“Eu amo você, Magrí... desesperadamente...”.
Lá estava ele, no espelho, ouvindo suas próprias confissões. “Como posso manter o equilíbrio perto dela? A gente vive se metendo nas maiores confusões, enfrentando perigos, e ela sempre ali, corajosa, alegre, carinhosa com todos nós, e eu...”.
Seu rosto bonito refletia-se no espelho. Aquele rosto que derretia tantas garotas. Calú era um ator. Teatro, comerciais de televisão... as meninas o reconheciam a toda hora, olhavam para ele como se fosse algum deus do Olimpo. Não o enxergavam como pessoa, como gente. Tantas garotas que o cercavam, insinuando-se, cada uma querendo ficar com ele, pelo menos uma vez...
“Ficar? Ficar! Ficar com Magrí? Ah, com Magrí eu quero ficar, ser, estar, permanecer, parecer, continuar! Viver com ela! Não dá pra viver sem ela!”.
Calú sentia-se só, mesmo sabendo que qualquer garota do Colégio Elite daria tudo para ficar com ele.
“Ficar com quem? Com o semi-deus que elas imaginam, que elas idealizam, mas que não sou eu? Ou ficar comigo, com a pessoa que eu sou, um ser humano, alguém de carne, osso e sangue, que tem seus momentos de fragilidade, que quer carinho, que tem carinho para dar? Elas só querem o ídolo... Mas Magrí é diferente. Ela sabe quem eu sou. Ela me conhece. Só ela poderia me compreender... Me acolher, como eu sou... Mas ela... Ah, Magrí!”
Uma lágrima quente, doída, escorreu pelo rosto do ator dos Karas.

* * *

A gaitinha estava muda. Crânio soprava-a tão delicadamente, que a música só acontecia dentro do seu espírito. Deitado na cama, não conseguia deixar de repassar na memória a última reunião dos Karas. Crânio tinha chegado bem antes da hora marcada e subira ao forro do vestiário do Colégio Elite, sozinho.
Para pensar. Pensar em Magrí. Pensar na saudade que sentia. E para concluir. Concluir que nada mais havia a fazer. A sensibilidade do gênio dos Karas lia na expressão de Miguel, na expressão de Calú, o mesmo fogo que ele sentia queimar-lhe por dentro. E aqueles dois queridos amigos eram as duas últimas pessoas no mundo de quem ele gostaria de ter ciúmes.
Mas, como poderia suportar a ideia de Magrí ser de outro? Ainda que fosse de um daqueles dois amigos, mais queridos do que irmãos. Calú e Miguel! Sorriu amarelo, ao imaginar que pelo menos Chumbinho estaria fora. Chumbinho era ainda muito novo. Para ele, Magrí era apenas uma querida irmã mais velha.
“Magrí’! Você ama a humanidade, ama Miguel, ama Chumbinho, ama Calú e sei que você me ama. Você daria a vida por qualquer um de nós. Mas, quanto a mim... Quanto a mim, ah! Você demonstra um carinho que... sei lá! É muito, mas não parece nem um pouquinho maior do que o carinho que você dedica a Miguel, a Calú ou a Chumbinho...”.
Lembrou-se do que pensara antes daquela reunião decisiva: “Não aguento! Não aguento mais! Tenho de acabar com tudo isso! Com tudo isso!”.
Mas, agora, depois da reunião, depois que ele tinha agido para “acabar com tudo isso”, a solução amargava-lhe a alma. “Magrí...”
Crânio derramou suas lágrimas interiores na música muda que seu espírito compunha ao soprar inaudivelmente a gaitinha.

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