24 de fevereiro de 2018

Capítulo 1

Foi o bigode que me lembrou de que eu não estava mais na Inglaterra: uma centopeia sólida e cinzenta escondendo bem o lábio superior do homem; um bigode à la Village People, de caubói, uma miniatura de vassoura que passava muita seriedade. Na Inglaterra não se vê esse tipo de bigode. Eu simplesmente não conseguia tirar os olhos dele.
— Senhora?
A única pessoa que eu já tinha visto com um bigode daqueles na Inglaterra foi o Sr. Naylor, nosso professor de matemática, que colecionava migalhas de biscoito nele — a gente costumava contá-las durante a aula de álgebra.
— Senhora?
— Ah. Desculpe.
O homem de uniforme fez um gesto com o dedo atarracado para que eu me aproximasse. Não tirou os olhos da tela. Aguardei no guichê, o suor da espera secando lentamente no meu vestido. Ele estendeu a mão, flexionando quatro dedos gordos. Depois de vários segundos, percebi que estava pedindo meu passaporte.
— Nome.
— Está aí — retruquei.
— Seu nome, senhora.
— Louisa Elizabeth Clark.
Espiei por cima do balcão.
— Mas eu nunca uso o Elizabeth. Porque minha mãe percebeu depois de me registrarem que meu apelido ficaria Lou Lizzy. E, se você disser isso rápido, soa como tolice. Embora meu pai diga que é meio apropriado. Não que eu seja tola. Quer dizer, você não iria querer pessoas tolas no seu país. Ha!
Minha voz reverberou nervosamente no painel de acrílico.
O homem olhou para mim pela primeira vez. Tinha ombros firmes e um olhar capaz de imobilizar você feito uma arma de eletrochoque. Não sorriu. Ele esperou até que o meu sorriso se esvaísse.
— Desculpe — falei. — Pessoas de uniforme me deixam nervosa.
Olhei para o saguão da imigração, atrás de mim, para a fila que serpenteava com tantas voltas que se tornara um mar agitado e impenetrável de pessoas.
— Acho que estou me sentindo meio estranha por ter passado tanto tempo na fila. Sinceramente, foi a fila mais demorada que já encarei. Já estava me perguntando se deveria começar a fazer minha lista de compras de Natal.
— Coloque a mão no escâner.
— É sempre desse tamanho?
— O escâner?
Ele franziu o cenho.
— A fila.
Mas, ele não estava mais prestando atenção. Observava algo na tela. Coloquei os dedos no aparelho e então meu celular apitou.
Mãe: Já pousou?
Comecei a digitar uma resposta com a mão livre, mas ele se virou abruptamente para mim.
— Senhora, o uso de aparelhos celulares não é permitido nesta área.
— É só a minha mãe. Ela quer saber se cheguei.
Discretamente mandei o emoji do polegar erguido enquanto escondia o telefone dele.
— Motivo da viagem?
O que é isso? A resposta de minha mãe chegou na mesma hora. Ela tinha se adaptado incrivelmente bem ao universo das mensagens de texto e agora digitava mais depressa do que falava — ou seja, fazia isso na velocidade da luz.
Você sabe que meu celular não mostra as imagenzinhas. É um SOS? Louisa, me diga que você está bem.
— Motivo da viagem, senhora? — O bigode se remexeu com irritação e ele acrescentou lentamente: — O que você veio fazer nos Estados Unidos?
— Tenho um emprego novo.
— Que é…?
— Vou trabalhar para uma família em Nova York. No Central Park.
As sobrancelhas do homem talvez tenham brevemente se erguido um milímetro. Ele olhou o endereço no meu formulário, confirmando a informação.
— Que tipo de emprego?
— É um pouco complicado. Eu sou uma espécie de acompanhante remunerada.
— Uma acompanhante remunerada.
— É assim: eu costumava trabalhar para um homem. Era a acompanhante dele, mas também dava remédios e comida para ele, além de levá-lo para passear. Aliás, não é tão estranho quanto parece: ele não mexia as mãos. Não era algo pervertido. Na verdade, acabou virando mais do que isso, porque é difícil não se aproximar das pessoas de quem você cuida, e o Will, o homem, era maravilhoso e a gente… Bem, a gente se apaixonou.
Tarde demais, tive a sensação familiar dos olhos se enchendo de lágrimas. Limpei-os rapidamente.
— Então acho que vai ser mais ou menos igual. Menos a parte de se apaixonar. E de dar comida.
O funcionário da imigração estava me encarando. Tentei sorrir.
— Na verdade, eu não costumo chorar quando falo de trabalho. Não sou uma tola de verdade, apesar do meu nome. Ha! Mas eu o amava. E ele me amava. Aí ele… Bem, ele escolheu dar fim à própria vida. Então isto é meio que minha tentativa de recomeço.
As lágrimas agora escorriam implacável e vergonhosamente dos cantos dos meus olhos. Não conseguia contê-las. Não conseguia conter nada.
— Desculpe. Deve ser o jet lag. São tipo duas da manhã no horário normal, certo? Além disso, eu não falo mais sobre ele. Quer dizer, estou namorando. E meu namorado é ótimo! É paramédico! E um gato! É como ganhar na loteria dos namorados, não é? Um paramédico gato!
Vasculhei minha bolsa em busca de um lenço. Quando levantei a cabeça, o homem estava estendendo uma caixa para mim.
— Obrigada. Enfim, de qualquer forma, meu amigo Nathan, que é da Nova Zelândia, trabalha aqui e me ajudou a arranjar esse emprego, e não sei bem do que se trata ainda, além de cuidar da esposa de um homem rico que fica deprimida. Mas decidi que desta vez vou fazer o que Will queria que eu fizesse, porque antes eu não fiz direito. Acabei indo trabalhar em um aeroporto.
Congelei na hora.
— Não… hum… que haja algo de errado em trabalhar em um aeroporto! Com certeza atuar na imigração é um trabalho muito importante. Muito importante. Mas eu tenho um plano: vou fazer algo novo a cada semana que passar aqui e vou dizer sim.
— Dizer sim?
— Para coisas novas. Will sempre dizia que eu me fecho para novas experiências. Então esse é meu plano.
O funcionário examinou a minha papelada.
— A senhora não preencheu direito a parte do endereço. Preciso do código postal.
Ele empurrou o formulário na minha direção. Olhei o número no papel que havia imprimido e o escrevi com dedos trêmulos. Olhei para minha esquerda, onde as pessoas da fila para o meu guichê estavam ficando impacientes. À frente da fila ao lado, uma família chinesa era questionada por dois funcionários. Quando a mulher protestou, foram todos levados para uma sala. De repente, eu me senti muito sozinha.
O funcionário da imigração deu uma olhada nas pessoas que aguardavam na fila. Então do nada carimbou meu passaporte.
— Boa sorte, Louisa Clark — disse.
Eu o encarei.
— É só isso?
— É só isso.
Sorri.
— Ah, obrigada! É muita gentileza sua. Quer dizer, é bem estranho estar do outro lado do mundo sozinha pela primeira vez, e agora sinto que conheci a primeira pessoa legal e…
— A senhora precisa prosseguir.
— Ah, sim. Desculpe.
Reuni meus pertences e afastei do rosto uma mecha suada de cabelo.
— E, senhora…
— Sim?
Fiquei me perguntando o que havia feito de errado desta vez. Ele não tirou os olhos da tela.
— Tenha cuidado para o que diz sim.

* * *

Nathan estava esperando no setor de desembarque do aeroporto, como havia prometido. Varri a multidão com os olhos, me sentindo estranhamente constrangida, certa de que ninguém viria, mas lá estava ele, com a mão imensa acenando acima dos corpos que se moviam ao seu redor. Ele ergueu o outro braço, com um sorriso largo no rosto, e abriu caminho até mim, me levantando do chão com um abraço apertadíssimo.
— Lou!
Ao vê-lo, algo dentro de mim se contraiu de forma inesperada — algo ligado a Will, à perda e à emoção crua que vêm de ficar sentada em um voo um pouco turbulento demais por sete horas — e fiquei feliz por ele estar me abraçando com força, dando-me um instante para me recompor.
— Bem-vinda a Nova York, baixinha! Pelo visto você não perdeu sua noção de estilo.
Nathan me afastou de si, sorrindo. Ajeitei o vestido dos anos setenta com estampa de tigre. Achei que ele me deixaria parecida com Jackie Kennedy, nos Anos Onassis. Isto é, se Jackie Kennedy tivesse derramado no colo metade do café servido no avião.
— É tão bom ver você.
Ele pegou as minhas malas de chumbo como se estivessem repletas de plumas.
— Vamos embora. Vamos para a casa. O Prius está no conserto, então o Sr. G me emprestou o carro dele. O trânsito está horrível, mas você vai chegar lá com classe.

* * *

O carro do Sr. Gopnik era preto e lustroso, do tamanho de um ônibus, e as portas se fecharam com aquele tum enfático e discreto que indicava um preço de seis dígitos. Nathan colocou a bagagem no porta-malas e eu me instalei no banco do passageiro com um suspiro. Olhei o celular, respondi as quatorze mensagens da minha mãe com uma, dizendo simplesmente que estava no carro e ligaria para ela no dia seguinte, depois respondi à de Sam, na qual ele dizia que estava com saudades, com Pousei. Bjs.
— Como vai o cara? — perguntou Nathan, olhando para mim.
— Ele está bem, obrigada.
Acrescentei mais alguns bjs, só para garantir.
— Ele não ficou muito chateado por você ter vindo para cá?
Dei de ombros.
— Ele achou que eu precisava vir.
— Todos nós achamos. Você só demorou um pouco para encontrar seu caminho, só isso.
Guardei o celular, recostei-me no assento e olhei os nomes desconhecidos que surgiam ao longo da estrada: Loja de Pneus Milo, Academia Richie, as ambulâncias e os caminhões de mudança, as casas maltratadas com a tinta descascando e os degraus instáveis, as quadras de basquete, os motoristas com copos de plástico gigantescos. Nathan ligou o rádio e ouvi alguém chamado Lorenzo falar sobre um jogo de beisebol, então tive a breve impressão de estar em uma espécie de realidade suspensa.
— Então, você tem o dia de amanhã para se organizar. Quer fazer alguma coisa? Acho que seria bom deixar você dormir, depois arrastá-la para um brunch. Você tem que ter a experiência completa de uma lanchonete em Nova York no primeiro fim de semana aqui.
— Acho ótimo.
— Eles só vão voltar do clube amanhã à noite. Houve um pouco de conflito esta semana. Contarei os detalhes depois que você tiver dormido.
Eu o encarei.
— Sem segredos, ok? Isso não vai ser…
— Eles não são como os Traynor. São só uma família multimilionária e disfuncional comum.
— Ela é legal?
— É ótima. Ela… dá trabalho. Mas é ótima. Ele também.
Era o máximo de informação sobre o caráter de alguém que eu poderia arrancar de Nathan. Ele ficou em silêncio — não era muito de fofoca — e eu fiquei sentada no ar condicionado do Mercedes GLS macio, lutando contra as ondas de sono que ameaçavam tomar conta de mim. Pensei em Sam, que àquela altura devia estar no décimo sono, a vários quilômetros, no vagão de trem. Pensei em Treena e Thom, acomodados no meu pequeno apartamento de Londres. Então a voz de Nathan interrompeu meus devaneios:
— Aí está.
Ergui os olhos com determinação e lá estava, do outro lado da Brooklyn Bridge: Manhattan, brilhando feito um milhão de cacos de luz, estonteante, atraente, impossivelmente compacta e linda, uma visão tão familiar por causa da televisão e dos filmes que meio que não consegui assimilar que via a versão real. Eu me endireitei no assento, abismada, enquanto nos aproximávamos dela, a metrópole mais famosa do planeta.
— Essa vista nunca cansa, não é? É um pouco mais grandiosa do que Stortfold.
Acho que eu não tinha me dado conta de fato até aquele instante. Meu novo lar.

* * *

— Oi, Ashok. Como vai?
Nathan arrastou minhas malas pelo saguão de mármore enquanto eu analisava os azulejos pretos e brancos, os corrimões de bronze, tentando não tropeçar, com os passos ecoando no espaço cavernoso. Parecia a entrada de um grandioso hotel um tantinho antiquado: o elevador de cobre envelhecido, o chão coberto de carpete estampado nos tons vermelho e dourado, a recepção um pouco mais escura do que seria confortável. Tinha cheiro de cera de abelha, de sapatos engraxados e de dinheiro.
— Eu estou bem, cara. Quem é essa?
— Esta é Louisa. Ela vai trabalhar para a Sra. G.
O porteiro uniformizado saiu de trás da mesa e estendeu a mão para que eu a apertasse. Tinha um sorriso amplo e olhos que pareciam já ter visto de tudo.
— É um prazer, Ashok.
— Uma inglesa! Um primo meu está em Londres. Em Croydon. Você conhece Croydon? Mora perto de lá? Ele é um sujeito grande, se é que me entende.
— Não conheço Croydon muito bem — respondi.
Quando a expressão dele murchou, acrescentei:
— Mas vou ficar de olho na próxima vez que estiver lá.
— Bem-vinda ao Lavery, Louisa. Se precisar de algo, ou quiser saber alguma coisa, é só me falar. Estou aqui vinte e quatro horas por dia, todos os dias.
— Ele não está brincando — observou Nathan. — Às vezes acho que ele dorme embaixo dessa mesa.
Ashok indicou o elevador de serviço, as portas de um cinza fosco, localizado perto dos fundos do saguão.
— Três filhos com menos de cinco anos, cara — disse ele. — Acredite em mim, ficar aqui é o que me mantém são. Já não posso dizer o mesmo sobre a minha mulher.
Ele sorriu.
— Sério, Srta. Louisa. Qualquer coisa de que precisar, estou ao seu dispor.
— Ele está falando de drogas, prostitutas, bordéis? — sussurrei para Nathan quando as portas do elevador de serviço se fecharam à nossa frente.
— Não. Está falando de ingressos para o teatro, mesas em restaurantes, os melhores lugares para mandar lavar suas roupas a seco. Estamos na Quinta Avenida. Meu Deus. O que você andou fazendo em Londres?

* * *

A residência dos Gopnik ocupava seiscentos e cinquenta metros quadrados no segundo e terceiro andares de um prédio gótico de tijolos vermelhos, um raro duplex naquela área de Nova York, resultado do empenho das gerações ricas da família Gopnik. Segundo Nathan, aquilo, o Lavery, era uma imitação em escala reduzida do famoso edifício Dakota, e era um dos edifícios administrados por cooperativas mais antigos do Upper East Side. Ninguém podia comprar ou vender um apartamento ali sem a aprovação de um conselho de moradores muito avesso a mudanças. Enquanto os condomínios chiques do parque abrigavam os novos-ricos — oligarcas russos, estrelas do pop, magnatas do aço chineses e bilionários do mundo tecnológico —, com restaurantes comunitários, academias, creches e piscinas de borda infinita, os moradores do Lavery gostavam das coisas à moda antiga.
Os apartamentos eram passados de geração em geração; seus ocupantes aprendiam a tolerar o sistema de encanamento dos anos trinta, travavam batalhas demoradas e labirínticas em busca de permissão para alterar qualquer coisa maior do que um interruptor e olhavam para o outro lado educadamente enquanto a cidade mudava em torno deles, da mesma forma como se ignora um pedinte com um cartaz de papelão.
Eu mal prestei atenção na grandiosidade do duplex em si, com seu piso parquê, seu pé-direito alto e suas cortinas de damasco até o chão, enquanto nos encaminhamos para os aposentos dos funcionários, escondidos na extremidade do segundo andar, ao final de um longo corredor estreito que partia da cozinha — uma anomalia de uma época longínqua. Os edifícios mais novos ou reformados não dispunham de aposentos para funcionários: empregadas domésticas e babás saíam do Queens ou de Nova Jersey no trem da madrugada e voltavam para casa após o anoitecer. Mas a família Gopnik tinha aqueles quartos minúsculos desde que o prédio fora construído. Não podiam ser modificados nem vendidos, porém estavam ligados à residência principal e eram cobiçados como despensas. Não era difícil entender por que podiam ser considerados despensas com tanta naturalidade.
— Pronto.
Nathan abriu uma porta e largou as minhas malas.
Meu quarto tinha uns treze metros quadrados. Possuía uma cama de casal, uma televisão, uma cômoda e um armário. No canto, havia uma pequena poltrona com forro bege, o assento murcho como prova de exaustos ocupantes anteriores. Uma janelinha dava para o sul, acho. Ou o norte. Ou o leste. Era difícil saber, já que o cômodo ficava a dois metros de distância da parte traseira de um edifício de tijolos tão alto que só era possível ver o céu pressionando o rosto contra o vidro e virando o pescoço.
Havia uma cozinha comunitária ali perto, no corredor, a ser compartilhada entre Nathan, eu e a empregada doméstica, cujo quarto ficava bem em frente ao meu.
Na cama havia uma pilha perfeita de camisas polo verde-escuras e o que pareciam ser calças pretas com o brilho barato de Teflon.
— Não avisaram sobre o uniforme?
Peguei uma das camisas polo.
— São só uma camisa e uma calça. Os Gopnik acham que uniformes facilitam as coisas. Assim cada um sabe qual é o seu lugar.
— Se você quer ficar igual a um jogador de golfe profissional.
Espiei o pequeno banheiro anexo ao quarto, o piso de azulejos de mármore marrom cravejado de calcário. Dispunha de privada, uma pia pequena que parecia remontar aos anos quarenta e chuveiro. No canto, um sabão embalado e uma lata de inseticida.
— Na verdade, é bem generoso pelos padrões de Manhattan — explicou Nathan. — Sei que parece um pouco caído, mas a Sra. G disse que podemos dar uma demão de tinta. Mais alguns abajures e uma passada na loja Crate and Barrel e vai…
— Eu adorei.
Virei-me para ele e disse com um tremor súbito na voz:
— Estou em Nova York, Nathan. Estou aqui de verdade.
Ele segurou meu ombro.
— É. Está mesmo.

* * *

Consegui ficar acordada por tempo suficiente para desfazer as malas, comprar comida com Nathan, zapear por alguns dos 859 canais da minha televisãozinha — a grande maioria parecia passar uma sequência ininterrupta de jogos de futebol americano, comerciais sobre problemas digestivos ou séries mal-iluminadas sobre crimes das quais eu nunca tinha ouvido falar. Então apaguei.
Acordei com um susto às 4h45. Por alguns minutos atordoantes, fiquei confusa com o ruído distante de uma sirene desconhecida, o gemido grave de um caminhão dando ré, então acendi a luz, me lembrei de onde estava e senti uma onda de empolgação.
Peguei o laptop na bolsa e digitei uma mensagem para Sam. Está aí? Bjs.
Esperei, mas não obtive resposta. Ele tinha dito que estaria trabalhando, e estava atordoada demais para calcular a diferença de fuso horário. Deixei o laptop de lado e tentei voltar a dormir (Treena dizia que quando eu não dormia o bastante ficava parecendo um cavalo triste). No entanto, os ruídos estranhos da cidade eram como um canto de sereia, e às seis da manhã levantei da cama e tomei banho, tentando ignorar a ferrugem na água barulhenta que explodia da ducha. Eu coloquei uma roupa (um vestido jeans salopete e uma blusa azul-turquesa vintage de manga curta com uma foto da Estátua da Liberdade) e saí em busca de café.
Avancei pelo corredor tentando lembrar onde ficava a cozinha dos funcionários que Nathan mostrara na noite anterior. Abri uma porta e uma mulher se virou, me encarando. Era atarracada, de meia-idade, com o cabelo arrumado em perfeitas ondas escuras, feito uma estrela de cinema dos anos trinta. Os olhos eram lindos e escuros, porém a boca era caída nos cantos, como se estivesse em permanente desaprovação.
— Hum… bom dia!
Ela continuou me encarando.
— Eu… sou a Louisa. A nova funcionária. A… assistente da Sra. Gopnik.
— Ela não é a Sra. Gopnik.
A mulher deixou que a declaração pairasse no ar.
— Você deve ser…
Vasculhei meu cérebro cansado, mas nenhum nome veio à tona. Ah, vamos lá, implorei a mim mesma.
— Sinto muito. Meu cérebro está que nem mingau esta manhã. Jet lag.
— Meu nome é Ilaria.
— Ilaria. É claro, é isso. Desculpe.
Estendi a mão. Ela não a apertou.
— Sei quem você é.
— Hum… você poderia me mostrar onde Nathan guarda o leite dele? Só queria um café.
— Nathan não bebe leite.
— É mesmo? Ele costumava beber.
— Você acha que estou mentindo?
— Não. Não foi isso que eu di…
Ela deu um passo para a esquerda e indicou um armário na parede que tinha a metade do tamanho dos outros e ficava um pouco fora de alcance.
— Esse é seu.
Então abriu a geladeira para guardar o suco e eu vi a garrafa de leite de dois litros, cheia, na prateleira dela. Ilaria fechou a porta e me olhou, implacável.
— O Sr. Gopnik estará em casa às seis e meia hoje à noite. Vista o uniforme para recebê-lo.
E saiu pelo corredor, com os chinelos batendo na sola dos pés.
— Foi um prazer conhecê-la! Tenho certeza de que vamos nos ver muitas vezes! — gritei atrás dela.
Olhei para a geladeira por um instante, então concluí que provavelmente não estava cedo demais para comprar leite. Afinal, estava na cidade que nunca dorme.

* * *

Nova York talvez estivesse acordada, mas o Lavery estava mergulhado em um silêncio tão denso que sugeria doses cavalares de sedativo. Atravessei o corredor, fechando a porta com cuidado atrás de mim, e verifiquei oito vezes se tinha pegado a bolsa e as chaves. Como era muito cedo e os moradores estavam dormindo, achei que podia dar uma olhada melhor no lugar onde eu tinha ido parar.
Enquanto eu seguia na ponta dos pés, com o carpete aveludado abafando meus passos, um cachorro começou a latir do outro lado de uma das portas — um protesto estridente e indignado — e uma voz idosa gritou algo que não compreendi. Saí correndo, para não acordar os outros moradores, e, em vez de pegar a escadaria principal, desci pelo elevador de serviço.
Não havia ninguém no saguão, então abri a porta e fui para a rua, deparando com uma explosão de barulhos e luzes tão intensa que tive de ficar parada um instante, só para não cair. Diante de mim, o oásis verde do Central Park se estendia pelo que me pareciam quilômetros. À minha esquerda, as ruas secundárias já estavam movimentadas — homens enormes de macacão tiravam caixas de uma van aberta na lateral, sendo observados por um policial com braços que pareciam pernis de porco cruzados diante do peito. Um gari atarefado cantarolava. Um taxista conversava com um homem pela janela aberta do carro. Enumerei de cabeça as atrações da Big Apple. Carruagens a cavalo! Táxis amarelos! Prédios incrivelmente altos! Enquanto eu observava, dois turistas cansados com crianças em carrinhos passaram por mim segurando copos de isopor com café, talvez ainda operando em um fuso horário distante. Manhattan se estendia em todas as direções, fervilhante, enorme, ensolarada e brilhante.
Os efeitos do jet lag sumiram quando o sol despontou por completo. Respirei fundo e saí andando, consciente do meu sorriso, porém incapaz de contê-lo.
Percorri oito quarteirões sem encontrar uma única loja de conveniência. Virei na Avenida Madison, passando por lojas de luxo com vitrines de vidro enormes e portas trancadas e, de vez em quando entre elas, um restaurante, com as janelas escurecidas como olhos fechados, ou um hotel luxuoso cujo porteiro uniformizado não olhava para mim quando eu passava.
Percorri mais cinco quarteirões, aos poucos me dando conta de que aquele não era o tipo de região em que se podia dar um pulo no mercadinho. Eu havia imaginado Nova York com lanchonetes em cada esquina, servidas por garçonetes ousadas e homens com chapéus-panamá brancos, porém tudo era imenso e luxuoso e não dava a mais remota impressão de que poderia haver uma omelete de queijo ou uma xícara de chá atrás das portas. A maioria das pessoas por quem passei eram turistas ou então atletas determinados correndo vestidos de lycra, alheios ao entorno com seus fones de ouvido, desviando com destreza dos moradores de rua que espiavam com o rosto enrugado cor de chumbo. Finalmente dei de cara com um grande café, que pertencia a uma rede, dentro do qual metade dos madrugadores de Nova York parecia se reunir, debruçados sobre os celulares em mesas isoladas ou alimentando crianças pequenas extraordinariamente animadas enquanto uma música ambiente genérica saía dos alto-falantes na parede.
Pedi um cappuccino e um muffin, que, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, o barista partiu ao meio, esquentou e cobriu com manteiga, tudo isso sem interromper a conversa sobre beisebol com o colega.
Paguei, sentei-me com o muffin embrulhado em papel-alumínio e dei uma mordida. Mesmo descontando a fome voraz causada pelo jet lag, foi a coisa mais deliciosa que eu já tinha comido na vida.
Eu me acomodei perto da janela e fiquei observando a rua de Manhattan de manhã cedo por cerca de meia hora, com a boca ora cheia de muffin amanteigado macio, ora escaldada pelo café quente e forte, deixando correr solto o meu constante monólogo interior (Estou bebendo café nova-iorquino em um café de Nova York! Estou andando por uma rua de Nova York! Como Meg Ryan! Ou Diane Keaton! Estou em Nova York de verdade!), e, por um instante, entendi exatamente o que Will tinha tentado me explicar dois anos antes: durante aqueles poucos minutos, com a boca cheia de comida estrangeira, os olhos repletos de visões desconhecidas, eu existi apenas naquele momento.
Fiquei totalmente presente, com os sentidos em alerta, todo o meu ser receptivo às novas experiências ao meu redor. Eu estava no único lugar do mundo onde poderia estar.
Então, do nada, duas mulheres na mesa ao lado começaram a trocar socos, lançando café e pedaços de doces por cima das mesas, e os baristas correram para apartar a briga. Tirei as migalhas do meu vestido, fechei a bolsa e concluí que talvez já fosse hora de voltar à paz do Lavery.

13 comentários:

  1. ♥️📖♥️

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  2. Adorei os dois primeiros livros e esse também vou adorar

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  3. Minha primeira leitura on line. Estou achando muito interessante.

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  4. Karina parabéns pelo blog tem ótimos livros,amei os 2 primeiros e tenho certeza que esse não vai ser diferente,essa escritora é o máximo e cada livro é uma bela surpresa.

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  5. Ahhhhh eu tava louca pra ler esse livro ❤
    Fazia tempo que não vinha no blog, tô feliz de ter voltado❤

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  6. Aí... Que emoção. Começou ótimo!

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  7. Depois que descobri o blog, estou viciada li os outros livros e tenho certeza que vou amar esse também parabéns Karina.

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Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!