20 de fevereiro de 2018

Capítulo 1

A escuridão era uma coisa bela. O beijo de uma sombra. Uma carícia tão suave quanto o luar. Sempre fora o meu refúgio, o meu local de fuga, quer eu estivesse entrando sorrateiramente em um telhado iluminado apenas pelas estrelas ou descendo uma viela à meia-noite para me juntar aos meus irmãos. A escuridão era a minha aliada. Ela fazia com que eu esquecesse ao mundo em que estava e me convidava a sonhar com outro lugar.
Afundei ainda mais, buscando conforto. Doces murmúrios me agitavam. Apenas uma fatia de lua dourada brilhava na escuridão liquida, flutuando, embalando, sempre se movendo, o tempo todo fora do meu alcance. Sua luz cambiante iluminava uma campina. Meus ânimos ficaram elevados. Vi Walther dançando com Greta. Logo adiante, Aster rodopiava ao som de uma música que eu não conseguia ouvir muito bem, os longos cabelos fluindo abaixo dos ombros. Será que já era o Festival da Libertação? Aster me dizia: Não demore agora, senhorita. Cores intensas giravam, um conjunto de estrelas ficou púrpura, as bordas da lua dissolviam como açúcar molhado no céu preto, a escuridão ficava mais intensa. Cálida. Acolhedora. Suave.
Exceto pelos solavancos.
O chacoalhar rítmico que ia e vinha... repetidas vezes. Exigente.
Fique.
A voz que não desistia. Fria, clara e pungente.
Aguente firme.
Um amplo peito rígido, respirações geladas quando eu rolava os olhos para abri-los, uma voz continuava puxando a coberta, a dor avançando sobre mim, tão entorpecedora que eu não conseguia respirar. O terrível brilho lampejado, apunhalando e por fim declinando quando eu não conseguia aguentar mais.
A escuridão outra vez. Convidando-me a ficar. Sem respirações. Sem o que quer que aquilo fosse.
Quando eu estava no meio do caminho, entre um e outro mundo, surgiu um momento de claridade.
Isso era morrer.

* * *

Lia.
Fui arrancada do conforto da escuridão mais uma vez. A suave calidez tornou-se insuportavelmente quente. Mais vozes vieram. Duras. Gritos. Graves. Vozes demais.
Sanctum. Eu estava de volta ao Sanctum. Soldados, governadores... o Komizar.
Minha pele estava pegando fogo ardendo, quente com o calor.
Lia, abra os olhos. Agora.
Ordens.
Eles tinham me encontrado.
— Lia!
Meus olhos se abriram com tudo. A sala girava com fogo e sombras, carnes e faces. Eu estava cercada. Tentei recuar, mas a dor causticamente arruinava a minha respiração. Minha visão estava confusa.
— Lia, não se mexa.
E então um turbilhão de vozes. Ela recobrou os sentidos. Mantenham-na abaixada. Não deixem que ela se levante.
Forcei uma respiração rasa a entrar nos meus pulmões, e a minha visão ganhou foco. Analisei as faces que estavam me encarando. O governador Obraun e seu guarda. Não era um sonho. Eles me capturaram. E então a mão de alguém virou a minha cabeça com gentileza.
Rafe.
Ele estava ajoelhado ao meu lado.
Voltei a observar os outros, lembrando. O governador Obraun e o guarda tinham lutado ao nosso lado. Eles nos ajudaram a fugir. Por quê? Jeb e Tavish também estavam lá.
— Governador — sussurrei, fraca demais para falar mais do que isso.
— Sven, Vossa Alteza — disse ele, prostrando-se no chão com um joelho só. — Por favor, me chame de Sven.
O nome era familiar. Eu já ouvira esse nome em momentos de um borrão frenético. Rafe o havia chamado de Sven. Olhei ao redor, com a intenção de me localizar. Estava deitada no chão em um saco de dormir. Pilhas de cobertas pesadas que cheiravam a cavalo estavam sobre mim. Cobertas feitas de selas.
Tentei me erguer apoiando-me em um dos braços, mas fui novamente dilacerada pela dor. Caí para trás, a sala girando.
Temos que tirar as farpas.
Ela está fraca demais.
A menina está ardendo em febre. Só vai ficar ainda mais fraca.
As feridas precisam ser limpas e costuradas.
Nunca costurei uma moça antes.
Carne é carne.
Ouvi enquanto eles discutiam, e então a memória se avivou. Malich atirara em mim. Uma flecha na minha coxa e outra em minhas costas. A ultima coisa de que me lembrava era que eu estava a margem de um rio e Rafe me pegara nos seus braços, e os lábios dele estavam frescos junto aos meus. Há quanto tempo isso havia acontecido? Onde estávamos agora?
Ela está forte o bastante. Vá em frente, Tavish.
Rafe segurou o meu rosto com as mãos em concha e inclinou-se perto de mim.
— Lia, as farpas estão bem fundas. Teremos que cortar as feridas para removê-las.
Assenti.
Os olhos dele brilhavam.
— Você não pode se mexer. Vou precisar segurar você.
— Tudo bem — sussurrei. — Como você mesmo disse, sou forte. — Ouvi a fraqueza da minha voz contradizendo as minhas palavras.
Sven encolheu-se.
— Eu gostaria de ter um pouco de uma bebida forte para você, menina. — Ele entregou algo a Rafe. — Coloque isso na boca de Lia para ela morder. — Eu sabia para que aquilo serviria: para que eu não gritasse. Será que o inimigo estava por perto?
Rafe colocou um pedaço de couro na minha boca. O ar fresco vinha para cima da minha perna desnuda enquanto Tavish dobrava para trás a coberta a fim de deixar minha costa exposta. Eu me dei conta de que estava com pouca roupa por baixo das cobertas. Uma camisola, no máximo. Eles deveriam ter tirado o meu vestido ensopado.
Tavish murmurou um pedido de desculpas para mim, mas não perdeu tempo. Rafe forcou os meus braços para baixo, e outra pessoa pressionou as minhas pernas. A faca cortava a coxa. Meu peito estremecia. Gemidos escapavam por entre dentes cerrados. Meu corpo recuava contra a minha vontade, e Rafe fazia mais pressão.
— Olhe para mim, Lia. Continue olhando para mim. Vai acabar logo.
Fitei os olhos dele, cujo azul ardia. Seu olhar contemplativo me prendia como se fosse fogo. O suor escorria da sua testa. A faca me feria, e perdi o foco. Ruídos gorgolhados saltaram da minha garganta.
Olhe para mim, Lia.
— Consegui! — gritou Tavish por fim.
Minha respiração veio engasgada, aos poucos. Jeb limpou o meu rosto com um pano fresco.
Bom trabalho, princesa. Quem dissera aquilo, eu não sabia.
Costurar foi fácil, em comparação a cortar e retirar as farpas. Contei cada vez que a agulha entrou. Catorze vezes.
— Agora, as costas — disse Tavish. — Essa vai ser um pouco mais difícil.

* * *

Acordei com Rafe dormindo ao meu lado. O braço dele repousava pesado em cima da minha barriga. Eu não conseguia me lembrar muito de Tavish cuidando das minhas costas, exceto que ele disse que a flecha havia ficado presa na costela e que provavelmente isso salvara a minha vida. Eu havia sentido o corte, as mãos dele mexendo na carne, e então senti uma dor tão intensa a ponto de não conseguir mais enxergar. Por fim, como se fosse a quilômetros de distancia, Rafe sussurrou no meu ouvido: A flecha saiu.
Uma pequena fogueira ardia em um círculo de pedras em torno de mim, iluminando uma parede ali perto; o restante de nosso abrigo, porém, permanecia nas sombras. Estávamos em uma espécie de caverna grande. Eu ouvia os cavalos relinchando. Eles estavam ali conosco. Do outro lado do anel de fogo, vi Jeb, Tavish, Orrin adormecidos em seus sacos de dormir, e bem à minha esquerda, sentado, encostado na parede da caverna, o governador Obraun... Sven.
Pela primeira vez, juntei dois mais dois. Esses eram os quatro homens de Rafe, os quatro em que eu não tinha depositado qualquer confiança: o governador, o guarda, o coletor de fezes e o construtor de jangadas. Eu não sabia onde estávamos, mas eles, de alguma forma, enfrentaram grandes adversidades e conseguiram fazer com que cruzássemos o rio. Todos nós vivos. Exceto por...
Minha cabeça doía, tentando discernir aquilo tudo. Nossa liberdade veio a um alto custo para outros. Quem havia morrido e quem sobrevivera ao banho de sangue?
Tentei tirar o braço de Rafe de cima da minha barriga para que eu pudesse me sentar direito, mas até esse pequeno movimento me fez sentir abalos ofuscantes nas minhas costas. Sven sentou-se direito, alertado pelos meus movimentos, e sussurrou:
— Não tente se levantar, Vossa Alteza. É cedo demais.
Assenti, medindo as minhas respirações até a dor diminui.
— Muito provavelmente sua costela está quebrada por causa do impacto da flecha. Você deve ter quebrado outros ossos no rio. Descanse.
— Onde estamos? — perguntei.
— Em um pequeno esconderijo no qual me enfiei há muitos anos atrás. Fiquei grato por ainda conseguir encontrá-lo.
— Quanto tempo eu permaneci desmaiada?
— Dois dias. É um milagre que esteja viva.
Eu me lembrei de ter afundado no rio, de me debater e então ser cuspida para cima, com uma rajada de ar enchendo os meus pulmões, e depois ser puxada para baixo de novo. E de novo. Minhas mãos agarrando penedos, toras e tudo deslizando dos meus dedos, e então a vaga lembrança de Rafe se inclinando acima de mim. Virei a cabeça na direção de Sven.
— Rafe me encontrou na margem do rio.
— Ele carregou você por quase vinte quilômetros antes de nós os encontrarmos. Essa é a primeira vez que ele dorme desde então.
Olhei para Rafe, cujo rosto estava abatido e machucado. Ele tinha um corte acima da sobrancelha esquerda. O rio também o havia ferido. Sven explicou como ele, Jeb, Orrin e Tavish manobraram a jangada para chegar ao destino planejado. Eles haviam deixado os próprios cavalos, além de meia dúzia de outros cavalos vendandos que tinham tomado na batalha, em um cercado improvisado, mas muitos acabaram fugindo. Eles reuniram quantos lhe fossem possível, pegaram as provisões e as selas que tinham escondido em ruínas ali por perto e começaram a voltar, procurando por nós nas margens do rio e da floresta. Por fim, avistaram algumas trilhas e seguiram-nas. Assim que nos encontraram, cavalgaram a noite toda até este abrigo.
— Se vocês conseguiram encontrar nossas trilhas, então...
— Não se preocupe, Vossa Alteza. Escute... — ele inclinou a cabeça para o lado.
Um pesado chiado vibrava pela caverna.
— Uma nevasca — disse ele. — Não haverá trilha alguma a ser seguida.
Eu não sabia ao certo se a tempestade era uma bênção ou uma maldição... Isso também nos impediria de seguir viagem. Lembrei-me da minha tia Bernette contando a mim e aos meus irmãos sobre as grandes tempestades brancas da sua terra natal, que bloqueavam o céu e a terra e deixavam pilhas tão altas de neve a ponto de ela e suas irmãs só poderem se aventurar lá fora do segundo andar da fortaleza. Cachorros com patas membranosas puxavam os trenós pela neve.
— Mas eles vão tentar nos seguir — falei. — Em algum momento.
Ele assentiu.
Eu tinha matado o Komizar. Griz erguera a minha mão para os clãs, que eram a espinha dorsal de Venda. Ele me declarara rainha e Komizar de uma só vez. Os clãs me aclamaram. Apenas com meu cadáver seria provada a existência do direito a um sucessor na regência. Eu imaginava que tal sucessor seria Malich. Tentei não pensar sobre o que tinha acontecido com Kaden. Eu não poderia permitir que a minha mente vagasse para lá, mas, ainda assim, o rosto dele agigantava-se na minha frente, assim como sua última expressão de mágoa e traição. Será que Malich o derrubara? Ele tinha lutado contra eles por mim. No final das contas, ele escolhera a mim e não ao Komizar. Será que ter visto o corpo de uma criança na neve finalmente deixara Kaden fora de controle? Pois foi isso que aconteceu comigo.
Eu tinha matado o Komizar. Foi fácil. Não hesitei, não tive qualquer remorso. Será que a minha mãe pensaria sobre mim como sendo algo um pouco acima de um animal? Eu nada senti quando enfiei a faca nele. Não senti o que quer que fosse quando enfiei a faca nele de novo, exceto pelo leve puxão de carnes e tripas. Nada senti quando matei mais três vendanos depois daquilo. Ou foram cinco? Os rostos deles, marcados pelo choque, mesclavam-se em um movimento distante.
No entanto, nada daquilo acontecera a tempo de salvar Aster.
Agora era o rosto dela que se agigantava à minha frente, uma imagem que eu não conseguia suportar. Sven segurava uma xícara de caldo junto aos meus lábios, dizendo que eu precisava comer, mas eu já sentia a escuridão se fechando diante de mim outra vez, e deixei, grata, que ela me tomasse.

13 comentários:

  1. Não consigo me envolver com Rafe e Lia assim como eu gostaria que fosse Lia e Kaden. Espero que ele esteja bem.

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  2. Amei amei ameiii !!!! Obrigada karina, amo esse blog fiquei esperando um tempão até lançar esse livro jkkk (desde que saiu o resultado da votação ����)

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  3. Meu Rafe, sempre tão perfeito. Lia é tão forte, eu não suporto sentir dor kk logo desmaio.

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  4. #TeamKaden ❤❤❤

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  5. Nossa a Lia até agora vem se tornando alguém fortee a cada dia. E eu amo ver esse dois,para mim não vejo a hora de poder ler e Lia e Rafe se casaram, tiveram 3 filhos e foram felizes e reinando em todos os reunião junto seu amigo Kaven e Pauline. FIM KKKK

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  6. Achei a sinopse do livro demais!! Na vdd o livro todo né??! Eirieri

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  7. Eu também não consigo me envolver com lia Rafe .Eu acho esse romance dos dois tão frio sem graça.

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  8. Não consigo superar a morte de Aster, ela devia ter matado o Komizar antes

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  9. Bonitinho. Legal. Mas não sinto aquela paixão avassaladora neles. Se ela não vai ficar om o Kaden, melhor ficar sozinha. Ela é muito a Aelin. Ela se mantem sozinha. Não precisa de macho para isso.

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  10. Karina anja salvadora dos leitores lisos como eu!! Obrigado pelo maravilhoso trabalho. Só quero avisar desse erro aqui ó: e conseguiram fazer e conseguiram fazer com que cruzássemos o rio. Todos nós vivos. Exceto por...

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  11. Como não conseguem se envolver com o Rafe e a Lia ù.ú

    Só aceitem que eles foram feitos pra ficarem juntos! O que me lembra que tenho que ir comentar no primeiro livro quando ele foi com metade de um plano para NÃO DEIXA-LA atravessar a ponte para Venda sozinha ù____Ú Os dois são perfeitos um para o outro. Que o Kaden fique com a Pauline que gsotou mais dele mesmo do que do meu príncipe perfeito 💙

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Boa leitura, E SEM SPOILER!