16 de fevereiro de 2018

Capítulo 1

Um ato rápido.
Eu havia achado que isso seria tudo o que se faria necessário. Uma faca nas entranhas.
Torcê-la com firmeza, por garantia.
Porém, enquanto Venda me engolia, enquanto as muralhas disformes e centenas de faces curiosas se aproximavam de mim, enquanto eu ouvia o ribombar de correntes e a ponte baixava atrás de mim, separando-me do restante do mundo, eu sabia que meus passos precisavam ser certeiros.
Impecáveis.
Seriam necessários muitos atos, e não apenas um, todos os passos renegociados. Mentiras teriam que ser contadas. Confianças, conquistadas. Limites desagradáveis, cruzados. Tudo isso pacientemente entremeado, e paciência não era o meu ponto forte.
No entanto, em primeiro lugar, mais do que tudo, eu tinha que encontrar uma forma de fazer com que meu coração parasse de esmurrar o meu peito. Encontrar meu fôlego. Parecer calma. Medo era farejado facilmente pelos lobos. Os curiosos aproximaram-se alguns centímetros, espiando-me com bocas semiabertas que revelavam dentes podres. Estariam eles se divertindo ou zombando de mim?
Então havia o tilintar de caveiras. O trepidar ruidoso de ossos secos reverberando pela multidão enquanto as pessoas se moviam para poder me ver melhor, com cordões de onde pendiam pequenos crânios, fêmures e dentes desbotados pelo sol, acenando de seus cintos enquanto eles faziam pressão para me enxergar. E a Rafe.
Eu sabia que ele caminhava algemado em algum lugar atrás de mim no fim da caravana, prisioneiros, nós dois... e Venda não fazia prisioneiros. Pelo menos nunca tinham feito antes. Nós éramos mais do que uma curiosidade. Éramos o inimigo que nunca tinham visto. E isso era exatamente o que eles eram para mim.
Nós caminhamos por infinitas e pequenas torres que se projetavam, camadas de muralhas de pedra retorcidas, enegrecidas com a fuligem e com a idade, arrastando-se como uma imunda fera viva, uma cidade construída de ruínas e caprichos. O bramido do rio esvanecia-se atrás de mim.
Eu juro que vou nos tirar dessa situação.
Agora Rafe deveria estar questionando a promessa que me fez.
Nós passamos por mais um conjunto de imensos portões irregulares, com suas barras dentadas de ferro misteriosamente se abrindo para nós, como se nossa chegada fosse prevista. Nossa caravana ficava cada vez menor conforme grupos de soldados enveredavam por ruas diferentes, agora que estavam em casa. Eles desapareciam por trilhas serpenteantes, sombreadas por altas muralhas. O chievdar conduzia o que sobrava de nós, e as carroças de espólio tiniam na minha frente enquanto adentrávamos nas entranhas da cidade. Será que Rafe ainda estava em algum lugar atrás de mim ou será que o haviam levado por uma daquelas ruelas miseráveis?
Kaden desceu de seu cavalo e caminhava ao meu lado.
— Estamos quase chegando lá.
Sou atingida por uma onda de náusea. Walther está morto, lembro a mim mesma. Meu irmão está morto. Não havia mais nada que eles pudessem tirar de mim. Exceto Rafe. Eu tinha mais em quem pensar agora além de mim mesma. Isso mudava tudo.
— Onde fica ? — tentei perguntar em um tom calmo, mas minhas palavras tropeçam, saindo roucas e soando rudes.
— Estamos indo até o Sanctum. Nossa versão de corte. Onde os líderes se encontram.
— E o Komizar.
— Deixe-me falar, Lia. Só dessa vez. Por favor, não diga uma palavra que seja.
Olhei para Kaden. Seu maxilar estava cerrado, e seu rosto, puxado para baixo, como se sua cabeça estivesse doendo. Será que ele estava nervoso para cumprimentar seu próprio líder? Será que estava com medo do que eu poderia dizer? Ou será que temia o que o Komizar faria? Será que seria considerado um ato de traição o fato de que ele não havia me matado conforme lhe havia sido ordenado? Seus cabelos loiros pendiam em mechas ensebadas e caíam bem além dos ombros agora. Seu rosto estava sujo com óleo e sujeira. Fazia um bom tempo desde que um de nós tinha visto um sabonete... mas este era o menor dos nossos problemas.
Nós nos aproximamos de mais um portão, este uma muralha plana e alta de ferro, com rebites e ranhuras através das quais olhos espiavam. Ouvi gritos vindos de trás da muralha, e o pesado clangor de um sino, que vibrou e me sacudiu com violência, cada ressoar fazendo meus dentes tremerem.
Zsu viktara. Permaneça forte. Forcei meu queixo para cima, quase sentindo as pontas dos dedos de Reena erguendo-o. Lentamente, a muralha separou-se em duas e os portões foram puxados para trás, permitindo a nossa entrada em uma imensa área aberta, tão disforme e desoladora quanto o restante da cidade. Essa área era ladeada, em todos os cantos, por paredes, torres e o início de ruas estreitas que desapareciam nas sombras. Passadiços serpenteantes guarnecidos com ameias agigantavam-se acima de nós, um se ligando ao outro e mesclando-se a ele.
chievdar seguia em frente, as carroças indo atrás. Guardas no pátio interno davam seus gritos de boas-vindas, e depois berravam, felizes, sua aprovação quanto ao estoque de espadas e selas e o emaranhado reluzente de espólios em pilhas alta nas carroças – tudo o que havia sobrado de meu irmão e de seus colegas. Minha garganta ficou apertada, pois eu sabia que logo um deles estaria usando a bainha ornamentada de Walther e carregando sua espada.
Meus dedos curvaram-se na palma da mão, mas eu nem mesmo tinha muita unha para perfurar a pele. Todas elas estavam quebradas até o talo. Esfreguei as pontas dos dedos em carne viva e meu peito foi abalado por uma dor feroz que me pegou de surpresa – era uma perda tão pequena em comparação a tudo mais o que perdi. Era quase um sussurro zombeteiro de que eu não tinha nada, nem mesmo uma unha que fosse para me defender. Tudo o que eu tinha era um nome secreto que me parecia tão inútil nesse exato momento quanto o título com o qual eu havia nascido. Torne isso real, Lia, falei a mim mesma. No entanto, até mesmo enquanto eu dizia as palavras em minha cabeça, sentia minha confiança baixando. Eu tinha muito mais em jogo agora do que tivera apenas umas poucas horas antes. Agora minhas ações também poderiam prejudicar Rafe.
Ordens foram dadas para que o tesouro conseguido com a desgraça de outros fosse descarregado e levado para dentro. Meninos mais novos do que Eben se aproximaram apressados da carroça com pequenos carrinhos de mão de duas rodas e ajudavam os guardas a enchê-los. Tanto o chievdar quanto sua guarda pessoal desmontaram de seus cavalos e subiram os degraus que davam para um longo corredor. Os meninos foram atrás deles, empurrando os carrinhos cheios por uma rampa próxima, os braços finos sendo forçados pelo peso. Nas cargas que eles levavam, alguns dos objetos ainda estavam manchados de sangue.
— Ali é o caminho para o Saguão do Sanctum — disse Kaden, apontando para os meninos. Sim, nervoso. Eu podia ouvir o nervosismo no tom da voz dele. Se até mesmo ele estava com medo do Komizar, que chance eu teria?
Parei e me virei, tentando avistar Rafe em algum lugar atrás, na fila de soldados que ainda vinha e passava pelo portão, mas tudo o que consegui ver foi Malich conduzindo seu cavalo bem atrás de nós. Ele abriu um largo sorriso, seu rosto ainda carregando as marcas do meu ataque.
 — Seja bem-vinda a Venda, princesa — disse ele em tom zombeteiro. — Juro a você que as coisas serão diferentes agora.
Kaden puxou-me para o outro lado, mantendo-me bem perto dele.
— Fique perto de mim — sussurrou ele — para o seu próprio bem.
Malich deu risada, regozijando-se em sua ameaça, mas, pelo menos dessa vez, eu sabia que o que ele disse era verdade. Tudo estava diferente agora. Mais do que Malich poderia imaginar.

6 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!