20 de fevereiro de 2018

Capítulo 19

PAULINE

Era a primeira vez em que eu quebrava os sacramentos. Rezei para que os deuses fossem entender enquanto todas as Primeiras Filhas eram chamadas para irem à frente acender uma lanterna de vidro vermelho e colocá-la na base da pedra memorial. Então, elas entoaram as Memórias Sagradas dos Mortos pelo príncipe e pelos seus companheiros falecidos, a mesma prece que eu tinha entoado para Mikael, dia após dia, lá em Terravin. Será que todas as preces haviam sido desperdiçadas, já que Mikael estava vivo?
Afundei as unhas na carne da palma da minha mão. Eu não sabia ao certo nem mesmo de quem deveria sentir raiva. Dos deuses? De Lia? De Mikael? Ou do fato de que certa vez eu tive uma posição de honra na corte da rainha e agora era pouco mais do que uma fugitiva que se esgueirava nas sombras de uma faia, incapaz de mostrar o rosto para alguém, nem mesmo capaz de dar um passo à frente e erguer minha voz aos deuses? Eu havia caído mais do que jamais julgara ser possível.
Quando a última prece foi entoada e os sacerdotes dispensaram as Primeiras Filhas para que elas voltassem para suas famílias, as multidões começaram a ficar menores. Eu não esperava ver minha tia ali, ela permanecia ao lado da rainha, mas procurei-a mesmo assim. Eu tinha ficado com medo de perguntar a Bryn ou Regan sobre ela, que era apegadíssima às regras e tentava instigá-las em mim de tempos em tempos desde quando vim morar na cidadela. Eu nem mesmo queria ponderar como minha tia havia reagido à minha completa violação de protocolo ou ao meu novo status como cúmplice em traição ao reino. Vi Bryn e Regan falando com uma viúva com um véu, e depois, com mais uma, até que por fim eles haviam trilhado o caminho até nós, com cautela, de modo que ninguém fosse suspeitar de que não passávamos de pessoas em luto.
A princípio, eles ficaram em silêncio, desferindo olhares de relance e questionadores para Berdi.
— ’Vocês podem falar livremente — disse a eles. — Berdi é de confiança. Ela ama Lia tanto quanto nós e está aqui para ajudar.
Regan continuou a olhar para ela com ares de suspeita.
— E ela é boa em guardar segredos?
— Sem sombra de dúvida — disse Gwyneth.
Berdi apertou os olhos para olhar para Regan, inclinando a cabeça para o lado enquanto o escrutinizava.
— A pergunta é... podemos confiar em você?
Regan ofereceu a ela um sorriso marcado pelo cansaço e um rosto levemente franzido.
— Perdoe-me. Esses últimos dias foram difíceis.
Berdi assentiu para ele, tranquilizando-o.
— Entendo. Minhas condolências pela perda do seu irmão. Lia falava muitíssimo bem dele.
Bryn engoliu em seco, e Regan assentiu. Ambos pareciam perdidos sem seu irmão e sua irmã.
— Vocês conseguiram falar com seus pais a respeito de Lia? — perguntei.
— Não antes da chegada da notícia sobre a morte de Walther — respondeu Bryn. — E então nosso pai ficou doente. Entre Walther e nosso pai, nossa mãe está devastada. Ela não sai do quarto para nada além de cuidar do pai, mas o médico disse que não há o que a rainha possa fazer, e pediu que ela se afastasse. Ele disse que as visitas dela só deixavam o pai mais agitado.
Berdi perguntou sobre a saúde do rei, e Bryn disse que ele estava meio que na mesma, fraco, ainda que estável. O médico disse que era o coração dele, e que com descanso ele acabaria se recuperando.
— Você disse que tinha novidades? — quis saber Gwyneth.
Bryn soltou um suspiro e tirou seus cachos de cabelos escuros da sua testa.
— O soldado que trouxe a notícia da traição de Lia está morto.
Fiquei ofegante.
— Ouvi dizer que ele não estava ferido. Apenas exausto. Como isso pôde acontecer?
— Nós não sabemos ao certo. Fizemos mil perguntas. Tudo que o médico disse foi que a morte provavelmente se deve à desidratação — respondeu Regan.
— Desidratação? — ponderou Gwyneth. — Ele deve ter cruzado vários riachos e rios até chegar aqui.
— Sei disso — disse Regan. — Mas ele morreu antes que qualquer um além do Chanceler pudesse questioná-lo.
Berdi estreitou os olhos.
— Você acha que eles mentiram em relação ao que o soldado disse?
— O mais importante — acrescentou Gwyneth — é você achar que eles tiveram algo a ver com a morte dele.
Regan esfregou a lateral do seu rosto, com a frustração evidente nos olhos.
— Nós não estamos afirmando isso. Só estamos dizendo que tem muita coisa acontecendo, e rápido demais, e não parece haver respostas para as nossas perguntas. Vocês precisam agir com cautela até voltarmos.
— Voltarem?
— Essa era outra coisa que precisávamos dizer a vocês. Estamos sendo despachados para a Cidade dos Sacramentos na semana que vem, e depois que terminarmos as coisas por lá, meu esquadrão seguirá até Giros, enquanto o de Bryn vai para Cortenai. Faremos paradas em cidades ao longo do caminho.
— Vocês dois estão de partida? — falei, um pouco alto demais, e Gwyneth pigarreou, como lembrete. Baixei o tom de voz. — Como isso é possível com Walther morto e o seu pai doente? Você é o príncipe da coroa agora, e Bryn é o próximo. Vocês não podem sair de Civica. Pelo protocolo, pelo menos um de vocês deve...
Bryn esticou a mão e deu um apertãozinho nas minhas.
— Esses são tempos difíceis, Pauline. As fundações de Morrighan estão abaladas. Os Reinos Menores viram as querelas entre nós e Dalbreck; o príncipe da coroa foi assassinado junto com os filhos de grandes nobres e lordes; meu pai está doente e se presume que minha irmã tenha unido forças aos inimigos. O Capitão da Vigília disse que agora não é hora de se entrincheirar e se acovardar, mas sim de mostrarmos a nossa força e a nossa confiança. Isso foi decidido pelo gabinete. Eu e Regan também questionamos a ordem, mas meu pai confirmou que era isso que ele queria.
— Foi você mesmo que falou com ele? — questionou Berdi.
Regan e Bryn olharam um para o outro por um breve instante, e alguma coisa não dita se passou entre eles.
— Sim — foi a resposta de Regan. — Ele assentiu afirmativamente quando o questionamos sobre essa ordem.
— Ele não está bem! — disse Gwyneth, com descrença. — Ele não estava pensando com clareza. Isso deixará o trono em risco caso ele piore.
— O médico nos garantiu que é seguro partimos, e, como disse o Capitão da Vigília, nada pode fortificar mais a confiança das tropas e dos reinos vizinhos do que a presença dos filhos do rei.
Olhei para Bryn e Regan, cujas expressões transmitiam mensagens confusas. Eles estavam dilacerados. Isso não tinha a ver somente com a restauração de confiança.
— Isso é para provar que vocês ainda são leais à coroa, mesmo que sua irmã não seja.
Regan assentiu.
— Uma família dividida instala medo e anarquia. Essa é a última coisa que precisamos agora.
E havia medo. Em alguns aspectos, a missão deles fazia sentido, mas eu sentia que ainda era errada. Vi a preocupação nos olhos deles.
— Vocês dois ainda acreditam em Lia, não é?
A expressão nos olhos de Bryn se suavizou.
— Você nem precisa perguntar, Pauline. Nós amamos nossa irmã e a conhecemos. Por favor, não se preocupe. Confie entre nós quanto a isso.
Havia alguma coisa na forma como ele disse aquilo, também notado por Gwyneth, que olhou para eles com ares de suspeita.
— Vocês não estão nos contando tudo.
— Não estamos deixando de lhes contar nada — disse Regan em tom firme. Ele olhou para minha barriga, que mal ficava disfarçada mesmo com um manto folgado. — Prometam a nós que vocês vão se esconder. Fiquem longe da cidadela. Voltaremos assim que possível.
Eu, Berdi e Gwyneth trocamos olhares de relance, e depois as sentimos.
— Que bom — disse Bryn. — Nós vamos até o portão com vocês.
O cemitério estava quase vazio. Apenas algumas pessoas de luto permaneciam por ali. O restante havia voltado para as suas casas a fim de se preparar para as memórias sagradas da noite. Um homem jovem, trajando uma armadura completa e com as armas nas laterais do corpo, permanecia de joelhos diante da pedra memorial, com a cabeça curvada, todos os ângulos de seu corpo suportando uma profunda agonia.
— Quem é aquele? — perguntei.
— Andrés, filho do Vice-Regente — disse Regan. — Ele é o único do pelotão de Walther que ainda está vivo. Ele estava doente, com febre, quando os soldados saíram em cavalgada, e não pôde seguir com eles. Ele vem todos os dias aqui, desde que a pedra foi colocada, para acender uma vela. O Vice-Regente disse que Andrés está atormentado pela culpa por não ter estado lá com seus companheiros soldados.
— Para que pudesse morrer também?
Bryn balançou a cabeça.
— Para que talvez todos eles pudessem ter vivido.
Todos ficamos com nossos olhares fixo nele, provavelmente cada um se perguntando a mesma coisa: um soldado a mais poderia ter feito a diferença? Quando os irmãos foram embora, falei para Gwyneth e Berdi esperarem por mim, que logo eu estaria de volta. Eu entendia a culpa de Andrés, a angústia de reviver momentos que poderiam ter corrido de forma diferente. Naquelas semanas depois que Lia desaparecera, revivi milhares de vezes aquela manhã em Kaden me arrastou para um arbusto, pensando que eu deveria ter pego a faça dele, que deveria tê-lo chutado, feito alguma coisa que pudesse ter  mudado tudo, mas, em vez disso, havia somente tremido, paralisada com o terror, enquanto ele pressionava o rosto junto ao meu e ameaçava nos matar. Se eu tivesse uma segunda chance, teria feito tudo bem diferente...
Quando voltei, Andrés ainda estava ajoelhado na pedra do memorial. Talvez eu pudesse extrair desse momento dois propósitos que ajudariam a nós dois. Se ele amava o pelotão e Walther tão profundamente, também sabia o quão chegados eram Walther e Lia. Ele podia ser um daqueles que ajudaram Walther a plantar falsas pistas quando eu e Lia fugimos. Quando me aproximei dele, o soldado ergueu o olhar, procurando nas sombras o meu capuz.
— Eles eram bons homens — falei.
Ele engoliu em seco e assentiu, concordando.
— Ninguém pensava isso mais do que Lia. Tenho certeza de que ela nunca os teria traído.
Observei-o com atenção para ver se ele se recuava ao ouvir o nome dela. Ele não o fez.
— Lia — disse ele, pensativo, como se estivesse se lembrando de alguma coisa. — Só os irmãos dela a chamavam assim. Você a conhecia bem?
— Não — falei, percebendo o meu erro. — Mas encontrei o príncipe Walther certa vez, e ele falou com carinho dela. Ele me informou sobre a devoção que eles tinham uns pelos outros.
O soldado assentiu.
— Sim, todos os irmãos reais eram próximos. Sempre invejei isso neles. Meu único irmão morreu quando eu era pequeno, e meu meio-irmão... — ele balançou a cabeça. — Bem, isso não vem ao caso.
O rapaz ergueu o olhar para mim, olhando-me com mais atenção, como se estivesse tentando me ver melhor.
— Não acho que tenha escutado o seu nome. Como você se chama?
Busquei rapidamente por um nome, e o da minha mãe me veio à cabeça.
— Marisol — respondi. — Meu pai tem uma mercearia no próximo vilarejo. Vim prestar meus respeitos e ouvi algumas das outras pessoas que estavam aqui de luto mencionarem que você era o único sobrevivente. Espero que não tenha invadido sua privacidade. Apenas desejava oferecer-lhe um pouco de conforto. Isso foi obra de bárbaros impiedosos e de ninguém mais. Não havia nada que você pudesse ter feito.
Ele esticou a mão e, com audácia, apertou a minha.
— Assim me disseram outros também, inclusive o meu pai. Estou tentando acreditar. — Senti-me recompensada quando um pouco de agonia que estava na expressão dele se foi.
— Manterei-os nas minhas memórias sagradas. E você também — prometi. Deslizei e soltei a minha mão da dele e beijei dois dedos, erguendo-os aos céus antes de me virar e ir embora.
— Obrigado, Marisol — ele me respondeu. — Espero que nos vejamos de novo.
Muito definitivamente você me verá, Andrés.
Os olhos de Gwyneth lampejo ramo com raiva quando me juntei a ela de novo.
— Falando com o filho do Vice-Regente? Como isso é ficar escondida?
Respondi a ela com um sorriso presunçoso.
— Tenha um pouco de fé em mim, Gwyneth. Não foi você que disse que eu tinha que parar de bancar a boa menina? Ele pode saber de alguma coisa que acharemos útil. Talvez agora eu tenha me tornado uma espiã.

7 comentários:

  1. O Kaden é o filho do Vice-Regente! Eu falei que esse homem tava na maracutaia! E essa historia de mostrar ao Reino os herdeiros é tudo balela pra eles serem mortos tambem

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  2. Ohhhhhh Karen só pode ser filho do vice-regente kkkkkkk e esse andreas parece ser o traidor que Lia falou hauahauah

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  3. Meu único irmão morreu quando eu era pequeno, e meu meio-irmão... — ele balançou a cabeça. — Bem, isso não vem ao caso. irmaaaao!!! :O

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    1. Kadeeeeen, o meio-irmão dele é Kadennnn

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  4. Essa história está mau contada..pra mim estão mandando os irmãos da lia pra uma armadilha...confesso q estou meio irritada com eles..se amam msm a irmã vão ficar esperando sentados enqto ela enfrenta td sozinha? Queria ver mais ação deles

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  5. Os irmãos da lia vão morre so pra lia vira rainha dos tres reinos...

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Boa leitura, E SEM SPOILER!