2 de fevereiro de 2018

Capítulo 19

RAFE

Não era minha intenção testemunhar aquilo. Se fosse possível, eu teria me afastado em silêncio, mas estava encurralado. Parecia que, em um só dia, eu havia testemunhado bem mais coisas por acaso do que intencionalmente. Eu tinha ido a um bar na cidade para comer a minha refeição noturna. Não queria encontrar a Princesa de novo. Eu já tinha tido o suficiente dela por um dia. O bastante de suas farsas ardilosas de realeza. Já havia dito a mim mesmo que ela era uma arrogante dor na alma. Melhor para mim. Dessa forma, ficaria mais fácil manter distância dela. No entanto, enquanto eu bebia a minha terceira cidra e mal tinha tocado na comida, percebi que ainda estava tentando discernir o que havia acontecido, e, a cada gole que tomava, eu a amaldiçoava de novo.
O problema era que, durante a manhã, quando eu a tinha visto no cânion, fiquei de boca calada. Ela simplesmente se parecia com qualquer outra menina colhendo amoras silvestres. Com os cabelos trançados para trás, mechas soltas roçando seu pescoço, bochechas ruborizadas com o calor. Sem fingimentos. Sem ares de realeza. Nada de segredos que eu já não conhecesse. Palavras passaram pela minha cabeça tentando descrevê-la, mas nenhuma delas me pareceu exatamente certa. Eu permaneci sentado como um grande tolo no dorso do meu cavalo, apenas fitando-a. E então ela me convidou a ficar.
Enquanto caminhávamos, eu sabia que estava seguindo uma trilha perigosa, mas isso não me impediu. A princípio, mantive todas as minhas palavras controladas, cuidadosamente medidas, mas então, de um jeito excepcional, ela as arrancou de mim. Tudo parecia muito fácil e inocente. Até que não era mais. Eu deveria saber disso.
Em cima do penhasco, onde não havia nenhum outro lugar para ir, quando nossas palavras pareciam importar menos, e nossa proximidade, mais, quando eu não conseguiria forçar meu olhar contemplativo a se desviar dela nem para salvar minha vida, minha mente estava a mil com uma possibilidade — e uma possibilidade apenas. Aproximei-me dela. Houve um instante, um longo instante em que prendi a respiração, mas então, com umas poucas palavras venenosas dela — erro terrível, as marcas de bárbaros rosnadores! — fui nocauteado com a verdade.
Ela não era simplesmente qualquer menina de dezessete anos de idade, e eu não era nenhum jovem ajudando-a a colher frutas. Nossos mundos não eram nem um pouco similares. Lia tinha uma meta. Eu tinha outra. Ela praticamente cuspira suas palavras de condenação, e senti uma onda de veneno irromper por mim também. Lembrei-me do quão diferentes éramos, e que nenhuma caminhada para longe poderia mudar isso.
Quanto mais eu bebia, mais nebulosa minha raiva ficava — para, logo depois, lampejos do encontro clandestino dela na floresta virem à tona para aguçar minha ira novamente. O que me levara a seguir Kaden? Enquanto eu dava água para meu cavalo, eu o vi passando sorrateiramente pela trilha em direção a ela, e logo eu estava atrás dele. O que esperava? Não o que vi. Ela tem um amante. Eu sabia que estava acalentando uma fantasia perigosa.
Depois de quatro cidras, paguei a conta e voltei para a estalagem. Estava tarde, e eu não pensei que fosse me deparar com ninguém. Fui pela última vez ao banheiro depois de tirar a sela do meu cavalo e estava indo para o celeiro quando ela apareceu, descendo toda resoluta pelo caminho, com o gorro apertado em seu punho cerrado como se fosse uma arma e os cabelos esvoaçando atrás dela. Entrei em um canto cheio de sombras perto das cabines no estábulo, esperando que Lia seguisse seu caminho. Parou apenas a pouco mais de um metro de mim, subindo no corrimão onde o asno estava alojado.
Era óbvio que ela estava perturbada. Mais do que isso — estava com medo. Eu chegara a pensar que Lia não tinha medo de nada. Permaneci observando-a, com seus lábios semiabertos, sua respiração irregular, enquanto ela falava com o asno, acariciando suas orelhas, passando os dedos pela crina do animal, sussurrando palavras tão tensa e baixas que eu não conseguia ouvi-las, nem mesmo estando a pouco mais de um metro de distância. Eu poderia ter esticado a mão e encostado nela.
Olhei para seu rosto, gentilmente iluminado pela luz distante da taverna. Até mesmo cabisbaixa e com o rosto franzido, ela era tão bela. Aquilo era algo estranho de se pensar no momento. Eu tinha evitado deliberadamente esse pensamento toda vez que havia olhado para Lia. Eu não podia me dar ao luxo de ter esses pensamentos, mas agora a palavra veio, espontânea, inexorável.
Sei que presenciei mais do que ela queria que qualquer um visse. Ela chorava. Lágrimas escorriam por suas bochechas, e Lia, com raiva, as limpava, mas depois, qualquer que fosse o motivo que a fizesse sofrer, as lágrimas dela se tornaram insignificantes e voltaram a fluir livremente.
Eu queria sair da escuridão, perguntar a ela o que havia de errado, mas suprimi rapidamente esse impulso e questionei minha própria sanidade, ou talvez, sobriedade. Não podia confiar nela, flertando comigo em um instante, encontrando-se com um amante no momento seguinte. Tive que lembrar a mim mesmo de que eu não me importava com quaisquer que fossem os problemas dela. Eu precisava ir embora. Tentei passar por ali sorrateiramente, despercebido, mas a cidra no bar era bem forte, e eu não estava me sentindo muito seguro dos meus passos. Minha bota derrubou um balde que eu não tinha visto.
— Quem está aí? — ela gritou. Pensei que o engodo haveria de acabar e que ela estava prestes a saber que eu estava ali quando a outra menina apareceu, encobrindo minha presença.
— Sou eu — disse ela. — Precisamos conversar.
Eu estava paralisado no mundo delas, em meio às suas preocupações, suas palavras. Eu estava aprisionado, e ouvir era tudo que podia fazer.

7 comentários:

  1. Que saco! Esse livro já me deixou viciada! Era p eu dormir cedo hj kkkk

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  2. Senhor Deus é muita emoçao pro meu core

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  3. Tenho ctz q Rafe é o assassino pq ele ficou td bravinho por ela falar dos bárbaros

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  4. Ou ele pode ter ficado bravo por ela comparar o kavah que representa o reino do príncipe com marcas de barbaros.. So saberemos ao final do livro..

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  5. Adoro os capítulos narrados pelo Rafe,pena que são tão curtinhos

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Boa leitura, E SEM SPOILER!