6 de fevereiro de 2018

Capítulo 19. Horror

Foi um pandemônio na Penitenciária de Segurança Máxima. O diretor estava satisfeito pela solução da fuga do Doutor Q.I., que afinal nunca acontecera. Mas estava também envergonhado pelo problema ter sido resolvido pelos garotos. Sorriu, desculpou-se algumas vezes e saiu, tomando providências para esclarecer os detalhes que faltavam.
Andrade, Hector Morales, Patrick Lockwood, Iúri Mikhailevich, a intérprete e os quatro Karas foram levados para o refeitório dos guardas, enquanto os carcereiros e funcionários da prisão inteira corriam de um lado para o outro no cumprimento das ordens do diretor.
Vieram onze sanduíches “americanos” e nove sucos de laranja, porque Andrade pedira três sanduíches.
— Uma brilhante encenação, detetive Andrade! — cumprimentava o doutor Hector Morales. — Uma brilhante conclusão!
— Não tão brilhante assim, doutor Morales — contradisse Miguel. — O que nós conseguimos? Desmascaramos o esquema de fuga do Doutor Q.I. E depois? Aonde isso nos leva? O que tem isso a ver com o sequestro do doutor Bartholomew Flanagan, do meu amigo Chumbinho e de dona Iolanda Negri? O que isso tem a ver com o roubo da Droga do Amor?
— Ora, mas vocês solucionaram o caso!
Magrí deu um sorriso amargo:
— Solução, doutor Morales? Que solução nós encontramos? Tudo o que conseguimos foi eliminar nosso único suspeito! Se o sequestro do doutor Bartholomew Flanagan e o roubo da Droga do Amor não foi um plano do Doutor Q.I., de quem foi então?
— E o Chumbinho, Magrí? Você está se esquecendo do Chumbinho?
— Não, Miguel. É claro que não!
Calú estava desanimadíssimo.
— Ah, estamos na estaca zero!
— Ora, rapaz! — sorriu Morales. — Vocês foram brilhantes! É claro que estamos na pista certa. Esse Doutor Q.I., de dentro da penitenciária, é a cabeça que está comandando todo o esquema! É só vocês conseguirem que ele fale, e tudo estará resolvido! A maior prova do envolvimento dele é a assinatura “Q.I.” no bilhete que foi deixado depois do sequestro do menino!
Magrí estava nervosa:
— Ah, essa assinatura não tem nada a ver!
— É claro que tem a ver, menina! — discordou o doutor Morales. — Apertem o homem. Ele vai confessar!
Andrade, às voltas com seus sanduíches, balançou a cabeça:
— Talvez, doutor Morales, mas eu não confiaria tanto numa confissão. Esse homem não falará nada. Por enquanto, só sabemos que ele tentou fugir. Não temos nenhum indício que o ligue com o caso da Droga do Amor, além da assinatura no bilhete. Mas isso é muito pouco. Precisamos de provas mais concretas...
Depois que a intérprete, de boca cheia, traduziu o que estava sendo dito, Patrick Lockwood deu seu palpite, sorrindo, e a mulher traduziu de volta:
— O agente diz que vocês, policiais brasileiros, demonstraram grande capacidade de dedução. Ele diz que agora é só continuar na mesma linha de raciocínio.
Hector Morales aproveitou a pergunta do agente e acrescentou a sua:
— Por falar nisso, como é que vocês descobriram que esse Doutor Q.I. estava preparando um esquema de fuga tão original?
Andrade apontou Crânio com a cabeça.
— Foi uma ideia deste garoto aqui...
Os olhares voltaram-se todos para Crânio, menos o do russo, que não estava entendendo nada. O rapaz explicou:
— Bem, a pista principal era justamente a falta de indícios que demonstrassem como o Doutor Q.I. tinha conseguido fugir. Ele havia desaparecido simplesmente porque não estava mais entre os detentos, mas nada havia que caracterizasse uma fuga. Ora, nem mesmo ele, com as suas manhas, conseguiria evaporar como água. E eu me coloquei no lugar dele. Se eu quisesse sair daqui, naturalmente tentaria a única maneira possível: conseguir ser transferido para uma penitenciária menos fechada, de onde, aí sim, eu poderia tentar escapar com mais chances de sucesso.
— Mas essa transferência ainda poderia demorar uns vinte anos para um criminoso como o Doutor Q.I., mesmo que ele se comportasse como um anjinho... — observou Andrade.
— É verdade. Como então apressar a transferência? É claro que só tomando o lugar de algum outro detento que estivesse para sair!
Andrade não escondia o orgulho pelo raciocínio de Crânio, um dos seus garotos.
— Só mesmo a cabeça do Doutor Q.I. para imaginar uma coisa dessas!
Hector Morales brincou:
— Como só a cabeça do Doutor Q.I.? E este rapaz? Não pensou exatamente a mesma coisa?
Andrade acariciou os cabelos de Crânio:
— Ah, meu querido menino! Ainda bem que você está do meu lado!
Crânio não estranhou quando Andrade deu-lhe um beijo estalado na bochecha. Só não gostou muito porque o beijo estava sujo de mostarda...
Iúri Mikhailevich adorou aquela história de beijo, porque beijo é coisa de russo:
— Potselúi! Potselúi! Meh russkie otchen liubin tselavátsa! We russian like kisses vééérry much! (— Beijo! Beijo! Nós os russos gostamos muito de nos beijar!)
E pespegou o maior beijo no rosto surpreso de Patrick Lockwood.

* * *

Um guarda veio chamá-los no refeitório. O diretor queria falar com eles.
Quando aquele grupo de nove pessoas entrou na sala, o diretor estava sentado atrás de sua ampla mesa, com uma expressão horrorizada. Parecia ter acabado de ver um filme do Drácula.
— Sentem-se, por favor. Obrigado, detetive Andrade, por ter nos ajudado a resolver esse problema.
— Às ordens, diretor...
— Depois que o Doutor Q.I. foi desmascarado, os outros presos resolveram falar e não foi difícil levantar a história toda...
— Ele se fez passar por um dos detentos que iam ser transferidos, não é? — adiantou o doutor Hector Morales. — Mas como conseguiu isso? É uma loucura! Parece impossível...
— Para qualquer sentenciado, talvez, mas não para o Doutor Q.I. Ele é o prisioneiro mais inteligente que eu jamais conheci. Se conseguisse ser transferido para uma prisão com menor segurança, seus contatos externos tornariam muito mais fácil sua fuga. Principalmente se fugisse fazendo-se passar pelo velho e não com sua própria identidade...
— Tem razão. Em outra prisão qualquer, ele acabaria arranjando um meio de escapar — concordou Andrade.
— Com isso em mente, o Doutor Q.I. elaborou um plano ousadíssimo. Os prisioneiros acabaram de contar que ele decidiu tomar o lugar do velho e fez um regime brutal, até tornar-se tão magro como ele. Aos poucos, estudando o velho, aprendeu a andar como ele, a falar como ele, a ser o velho. Fabricou com plástico uma máscara perfeitamente adaptável ao rosto e uma cabeleira. E o Doutor Q.I. transformou-se em uma cópia do velho...
Andrade ainda estava comendo um sanduíche que trouxera do refeitório. Interrompeu a refeição e a fala do diretor:
— Espere aí, diretor. Mas esse plano tem uma falha. Vocês pensaram que ele tinha fugido porque faltava um prisioneiro na hora da chamada. Como isso aconteceu? O Doutor Q.I. tomou o lugar do velho, mas o número de prisioneiros continuou o mesmo. E o velho? Onde está o velho?
A expressão de horror do diretor aumentava:
— O Doutor Q.I. assassinou o velho...
Andrade fixava-se na falha que tinha descoberto.
— Ah! Mas como ele conseguiu fazer sumir o cadáver dentro de uma penitenciária como esta?
Ao horror da expressão do diretor acrescentou-se o nojo:
— O maldito mandou esquartejá-lo e...
— E... ? O que ele fez com os pedaços?
— Ele subornou os detentos que trabalham na cozinha dos prisioneiros! Eles misturaram os pedaços na carne moída!!
O sanduíche voou das mãos do detetive Andrade.
Tapando desesperadamente a boca com as mãos, o pobre detetive correu para o banheiro da diretoria da Penitenciária de Segurança Máxima.

* * *

O diretor, preocupadíssimo, falava através da porta do banheiro:
— Detetive Andrade! Não se assuste! O senhor só comeu sanduíches de ovo frito, com presunto, queijo e alface! Os meninos e os outros também. Não se preocupe, detetive!

6 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!