24 de fevereiro de 2018

Capítulo 18

Nem Sam nem meus pais esperavam me ver pelos dois dias seguintes, então foi fácil ficar escondida no apartamento e fingir que eu não estava lá. Não me sentia pronta para ver ninguém. Não estava pronta para falar com ninguém. Quando Sam me mandou mensagens de texto, eu ignorei, imaginando que ele acreditaria que eu estava trabalhando feito louca em Nova York. Fiquei olhando várias vezes para as duas mensagens dele — “O que você quer fazer no Natal? Ir à igreja? Ou está cansada demais?” e “Vamos nos ver no dia 26?” — e fiquei espantada com o fato de aquele homem, aquele homem completamente direto e respeitável, ter adquirido uma capacidade tão descarada de mentir para mim.
Durante aqueles dois dias, eu abria um sorriso forçado nos momentos em que Thom estava no apartamento, fechando o sofá-cama enquanto ele conversava durante o café da manhã e desaparecendo para tomar banho. No instante em que ele saía, eu voltava para o sofá e ficava deitada ali, olhando fixamente para o teto, lágrimas escorrendo dos cantos dos olhos, ou remoendo friamente as várias maneiras como eu parecia ter entendido tudo errado.
Será que eu tinha mergulhado de cabeça em um relacionamento com Sam porque ainda estava de luto por Will? Será que eu chegara a conhecê-lo de verdade? Nós vemos o que queremos ver, afinal, ainda mais quando somos cegados pela atração física. Ele fez o que fez por causa de Josh? Por causa do teste de gravidez de Agnes? Na realidade, precisava haver um motivo? Eu não confiava mais em minha própria capacidade de julgamento para saber.
Pela primeira vez na vida, Treena não ficou insistindo para que eu levantasse da cama ou fizesse algo construtivo. Ela balançava a cabeça, incrédula, e xingava Sam quando Thom não estava por perto. Mesmo nas profundezas de minha infelicidade, eu me via pensando na aparente capacidade de Eddie de incutir algo semelhante a empatia em minha irmã.
Nem uma vez ela disse que aquilo não era uma grande surpresa, considerando que eu estava morando a tantos quilômetros de distância, nem que eu com certeza tinha feito algo para empurrá-lo para os braços de Katie Ingram ou que tudo aquilo era inevitável. Treena me ouviu quando contei sobre os acontecimentos que haviam levado até aquela noite e se certificou de que eu comesse, tomasse banho e me vestisse. E, embora não fosse muito de beber, ela levou duas garrafas de vinho para casa, dizendo que achava que eu tinha direito a uns dias de drama (mas acrescentou que, se eu vomitasse, eu mesma teria que limpar).
Quando a véspera de Natal chegou, eu havia desenvolvido uma casca dura, uma carapaça. Estava me sentindo uma estátua de gelo. Sabia que precisaria conversar com ele em algum momento, mas ainda não estava pronta. Não tinha certeza se algum dia estaria.
— O que você vai fazer? — perguntou Treena, sentada no vaso sanitário enquanto eu tomava banho de banheira.
Ela só veria Eddie no dia do Natal e estava pintando as unhas dos pés de um tom claro de cor-de-rosa para se preparar, embora não admitisse. Na sala de estar, Thom estava com a televisão ligada em um volume ensurdecedor, pulando no sofá com um entusiasmo pré-natalino.
— Eu estava pensando que podia simplesmente dizer a ele que perdi o voo. E que a gente se falaria depois do Natal.
Ela fez uma careta.
— Não é melhor você simplesmente falar com ele? Ele não vai acreditar nisso.
— Neste exato momento, não estou muito preocupada com o que ele acredita. Só quero passar o Natal com minha família e sem drama.
Afundei na água para não escutar Treena gritando para Thom baixar o volume da TV.
Ele não acreditou em mim. A mensagem de texto dizia: O quê? Como você perdeu o voo?
Simplesmente perdi, digitei. Vejo você no dia 26.
Notei tarde demais que eu não tinha incluído nenhum beijo na mensagem.
Houve um longo silêncio, e então uma resposta monossilábica: Ok.

* * *

Treena nos levou de carro até Stortfold, com Thom pulando no banco traseiro durante toda a hora e meia que demoramos para chegar lá. Ouvimos canções natalinas no rádio e falamos pouco. Estávamos a menos de dois quilômetros da cidade quando eu agradeci pela consideração e ela sussurrou que não era por mim: Eddie também ainda não havia conhecido a mamãe e o papai, então o estômago dela estava se revirando só de pensar no dia de Natal.
— Vai dar tudo certo — falei.
O sorriso dela não foi muito convincente.
— Ah, deixa disso. Eles gostaram daquele contador com quem você saiu no começo do ano. E, para ser sincera, Treen, você está solteira há tanto tempo que acho que pode trazer qualquer um que não seja Átila, o Huno, que eles vão adorar.
— Bem, essa teoria está prestes a ser testada.
Paramos antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa. Conferi meus olhos, que ainda estavam do tamanho de ervilhas de tanto que eu havia chorado, e saí do carro. Minha mãe apareceu na porta da frente, veio correndo em nossa direção como uma velocista no início da corrida. Jogou os braços ao meu redor, abraçando-me com tanta força que senti seu coração batendo forte.
— Olhe para você! — exclamou ela, segurando-me à sua frente antes de me puxar para perto de novo.
Ela afastou uma mecha de cabelo do meu rosto e se virou para meu pai, que estava parado na entrada, os braços cruzados, sorrindo.
— Que linda que você está! Bernard! Veja como ela está incrível! Ah, nós sentimos tanto a sua falta! Você perdeu peso? Parece ter emagrecido. Está com cara de cansada. Precisa comer alguma coisa. Entre. Aposto que não lhe deram café da manhã no avião. Ouvi dizer que é tudo ovo em pó, de qualquer maneira.
Mamãe abraçou Thom e, antes que meu pai se aproximasse, ela pegou minhas bolsas e voltou marchando pelo caminho, pedindo que a seguíssemos.
— Oi, querida — disse papai, baixinho, e eu me deixei envolver pelos braços dele.
Enquanto ele me abraçava, finalmente me permiti soltar o ar.

* * *

Vovô não conseguira chegar até a porta da casa. Tivera outro pequeno derrame, mamãe sussurrou, e agora estava com dificuldade para se levantar ou caminhar, então passava a maior parte do dia na poltrona de espaldar reto da sala de estar. (“Não queríamos preocupar você.”) Ele estava elegante, com uma camisa e um pulôver em homenagem à ocasião, e deu um sorriso torto quando entrei. Ergueu uma das mãos, trêmula, e eu o abracei, percebendo que ele parecia menor. Mas, para ser sincera, tudo parecia menor. A casa dos meus pais, com o papel de parede de vinte anos antes, os quadros escolhidos menos por motivos estéticos e mais porque eram presentes de alguém querido ou porque serviam para cobrir defeitos nas paredes, as poltronas e o sofá combinando, a pequena área de jantar, onde as cadeiras batiam nas paredes se empurradas muito para trás, e um lustre no teto que ficava a poucos centímetros da cabeça de meu pai.
Distraída, eu me peguei comparando a casa ao grandioso apartamento, com seus muitos metros de pisos polidos, os tetos imensos e ornamentados, o movimento intenso de Manhattan do lado de fora. Pensara que talvez me sentisse reconfortada por estar em casa. Em vez disso, senti-me sem chão, como se de repente me ocorresse que, naquele momento, eu não pertencia a lugar algum.

* * *

Comemos um jantar leve: rosbife, batatas, pudding de Yorkshire e torta inglesa, apenas uma coisinha que mamãe tinha “dado um jeitinho” de preparar antes do evento principal do dia seguinte. Papai estava mantendo o peru na cabana, já que não cabia na geladeira, e saía a cada meia hora para verificar se não havia acabado nas garras de Houdini, o gato do vizinho. Mamãe nos fez um resumo de todas as diversas tragédias que haviam se abatido sobre nossos vizinhos:
— Bem, é claro, isso foi antes da herpes-zóster do Andrew. Ele me mostrou a barriga. Fiquei enjoada de olhar. E eu falei para a Dymphna que ela precisa colocar os pés para o alto antes de o bebê nascer. Sinceramente, as varizes dela parecem um mapa das estradas secundárias dos Chilterns. Eu contei que o pai da Sra. Kemp morreu? Foi ele que ficou preso por quatro anos por assalto à mão armada antes de descobrirem que, na verdade, o culpado era o homem dos correios que usava a mesma peruca.
Mamãe continuou tagarelando sem parar.
Foi só quando começou a tirar a mesa que papai se inclinou na minha direção e disse:
— Acredita que ela está nervosa?
— Nervosa por quê?
— Por você. Tudo o que você conquistou. Ela estava com um pouco de medo de que você não quisesse voltar para cá. Que passasse o Natal com seu namorado e voltasse direto para Nova York.
— Por que eu faria isso?
Ele deu de ombros.
— Não sei. Ela achou que você poderia ter se afastado de nós, ficado importante demais. Eu disse que ela estava sendo boba. Não entenda isso errado, querida. Ela tem muito orgulho de você. Imprime todas as suas fotos, coloca em um álbum e enche a paciência dos vizinhos para mostrá-las. Para ser sincero, até eu fico meio entediado de tanto ver as fotos, e olha que sou seu pai.
Ele sorriu e apertou meu ombro.
Senti um pouco de vergonha com o tanto de tempo que eu pretendera passar na casa de Sam. Eu havia planejado deixar a mamãe cuidando de todas as coisas do Natal, da minha família e do meu avô, como sempre fiz.
Deixei Treena e Thom com papai e levei o resto dos pratos até a cozinha, onde mamãe e eu lavamos tudo em um silêncio amigável por um tempo. Então ela se virou para mim.
— Você parece cansada, querida. É por causa do voo, da mudança de fuso horário?
— Um pouco.
— Vá sentar com os outros. Eu cuido disto.
Forcei-me a endireitar os ombros.
— Não, mamãe. Faz meses que não nos vemos. Por que você não conta o que está acontecendo? Como vão as suas aulas noturnas? E o que o médico disse sobre o vovô?

* * *

A noite se estendeu, a televisão ficou ligada no canto da sala, e a temperatura subiu até estarmos todos semicomatosos, acariciando a barriga feito grávidas, como era inevitável depois de um dos jantares leves da minha mãe. A ideia de que faríamos aquilo de novo no dia seguinte fez meu estômago se revirar um pouco em protesto. Vovô caiu no sono na poltrona, e o deixamos lá enquanto fomos à missa da meia-noite. Fiquei de pé na igreja, cercada por pessoas que conhecia desde pequena acenando e sorrindo para mim, cantei as canções natalinas de que me lembrava, apenas mexi a boca durante as que não lembrava e tentei não pensar no que Sam estava fazendo naquele exato momento — o que eu fazia aproximadamente cento e dezoito vezes por dia. De vez em quando, os olhos de Treena cruzavam com os meus e ela me dava um sorrisinho encorajador, que eu respondia com outro, como que dizendo Estou bem, está tudo bem, embora não estivesse. Foi um alívio me retirar para o quarto quando voltamos. Talvez tenha sido por eu estar na casa da minha infância, ou por estar exausta após três dias de grandes emoções, mas dormi profundamente pela primeira vez desde que chegara à Inglaterra.

* * *

Eu tinha a vaga consciência de que Treena havia acordado às cinco da manhã e de que eu ouvira batidas empolgadas e, em seguida, papai gritando para Thom que ainda estava de madrugada e que, se não voltasse para a cama, ele diria para o Papai Noel levar todos os presentes de volta. Da próxima vez que acordei, minha mãe estava colocando uma caneca de chá na minha mesa de cabeceira e me pedindo para eu me vestir, porque íamos começar a abrir os presentes. Eram onze e quinze.
Peguei o relógio ao lado da cama, apertei os olhos e o chacoalhei.
— Você estava precisando — disse ela, acariciando minha cabeça e saindo para cuidar das coisas.
Desci vinte minutos depois usando o suéter de rena com focinho iluminado que havia comprado na Macy’s porque sabia que Thom iria gostar. Todos já tinham descido, estavam arrumados e haviam tomado café da manhã. Dei um beijo em cada um e desejei um feliz Natal, acendi e apaguei o focinho da rena e distribuí meus presentes, sempre tentando não pensar no homem que deveria ganhar o suéter de caxemira e a camisa de flanela xadrez muito macia que estavam no fundo da minha mala.
Eu não ia pensar nele hoje, disse a mim mesma com firmeza. O tempo com minha família era precioso, e eu não iria estragá-lo me sentindo triste.
Todos gostaram de meus presentes, que aparentemente se tornaram mais atrativos por serem de Nova York, mesmo que eu tivesse certeza de que era possível comprar basicamente as mesmas coisas na Argos.
— De Nova York! — dizia mamãe, maravilhada, depois de cada item ser desembrulhado, até Treena revirar os olhos e Thom começar a imitá-la.
É claro que o presente mais apreciado foi o mais barato: um globo de neve de plástico que comprei em uma banca para turistas na Times Square. Eu tinha certeza de que ele estaria vazando na cômoda de Thom antes de a semana terminar.
Em troca, ganhei:
Meias do vovô (99% de certeza de que haviam sido escolhidas e compradas por minha mãe).
Sabonetes do papai (idem).
Um pequeno porta-retratos prateado com uma foto de nossa família (“Para você poder nos levar aonde for”, disse mamãe. Papai: “Por que ela iria querer fazer isso? Ela foi para Nova York para ficar longe da gente”.)
Um aparelho para tirar pelos do nariz, de Treena. (“Não olhe para mim desse jeito. Você está chegando nessa idade.”)
Um desenho de uma árvore de Natal com um poema escrito embaixo de Thom. Ao questionar, descobri que ele não havia realmente feito aquilo. “Nossa professora disse que não colocamos os enfeites nos lugares certos, então ela fez a árvore e nós só assinamos nossos nomes.”
Ganhei também um presente de Lily, deixado no dia anterior, antes que ela e a Sra. Traynor fossem esquiar. (“Ela parece bem, Lou. Embora deixe a Sra. Traynor exausta, pelo que ouvi falar.”) Um anel vintage, com uma pedra verde imensa em uma estrutura de prata que serviu perfeitamente no meu dedo mindinho. Eu tinha mandado para ela um par de brincos de prata que pareciam algemas, que a vendedora da loja assustadoramente moderna do SoHo havia garantido serem perfeitos para uma adolescente. Ainda mais para uma adolescente que agora parecia gostar de piercings em lugares inesperados.
Agradeci a todos e fiquei observando vovô cair no sono. Sorri e acho que passei a impressão de estar gostando do dia. Mas mamãe não se deixou enganar.
— Está tudo bem, querida? Você parece muito desanimada.
Ela derramou gordura de ganso em cima das batatas e deu um passo para trás por causa dos respingos quentes.
— Ah, olha só isso! Vão ficar muito crocantes.
— Eu estou ótima.
— Ainda o fuso horário? O Ronnie, que mora a três casas daqui, disse que quando foi à Flórida levou três semanas para parar de dar com a cara na parede.
— É basicamente isso.
— Não acredito que tenho uma filha com problemas de fuso horário. Todo mundo no clube está morrendo de inveja, sabia?
Ergui os olhos.
— Vocês voltaram para lá?
Depois que Will pôs fim à própria vida, meus pais foram banidos do clube do qual eram sócios fazia anos, sendo indiretamente culpados por minha decisão de concordar com o plano dele. Era uma das muitas coisas pelas quais eu me sentia culpada.
— Bem, aquela Marjorie se mudou para Cirencester. Você sabe que ela era a maior fofoqueira. Então Stuart, da oficina mecânica, disse a seu pai que ele deveria aparecer para jogar sinuca um dia. Assim, casualmente. E deu tudo certo.
Ela deu de ombros.
— E, sabe, já faz alguns anos que tudo aquilo aconteceu. As pessoas têm outras coisas em que pensar.
As pessoas têm outras coisas em que pensar. Não sei por que esse comentário inocente causou um nó na minha garganta, mas foi o que aconteceu. Enquanto eu tentava engolir uma onda súbita de dor, mamãe enfiou a forma cheia de batatas de volta no forno. Fechou a porta com um movimento satisfeito e então se virou para mim, tirando as luvas térmicas.
— Quase esqueci. Uma coisa esquisita. Seu namorado ligou de manhã para perguntar o que íamos fazer sobre o seu voo no dia 26 e se nos importávamos de ele ir buscar você no aeroporto.
Congelei.
— O quê?
Ela levantou a tampa de uma panela, deixou sair bastante vapor e a fechou de novo.
— Bem, eu disse que ele devia estar enganado, que você já estava aqui. Então ele falou que apareceria mais tarde. Sinceramente, os plantões devem estar deixando o homem maluco. Ouvi no rádio uma matéria dizendo que trabalhar à noite pode fazer muito mal para o cérebro. Talvez você deva dizer isso a ele.
— O quê... quando ele vem?
Mamãe olhou para o relógio.
— Hum... acho que ele disse que ia estar liberado no meio da tarde e que viria para cá depois. Toda aquela estrada no dia do Natal! Aliás, você conheceu o namorado da Treena? Já notou como ela está se vestindo ultimamente?
Mamãe olhou para trás, para a porta, e falou, com a voz encantada:
— É quase como se ela estivesse virando uma pessoa normal.

* * *

Passei todo o almoço de Natal em alerta máximo, tranquila por fora, mas ficando tensa toda vez que alguém passava por nossa porta. Cada garfada da comida da minha mãe virava pó em minha boca. Cada piada ruim do meu pai passava reto pela minha cabeça. Eu não conseguia comer, não conseguia escutar, não conseguia sentir. Estava presa em uma redoma de expectativa infeliz. Olhei para Treena, mas ela também parecia preocupada, e me dei conta de que estava esperando a chegada de Eddie. Quão difícil poderia ser?, pensei, irritada. Pelo menos o namorado dela não a estava traindo. Pelo menos ele queria estar com ela.
Começou a chover, e as gotas batiam com força nas janelas, o céu escurecendo para combinar com meu humor. Nossa casinha, enfeitada com fios brilhosos e cartões cheios de glitter, encolheu ao nosso redor, e eu alternava entre a dificuldade de respirar e o pânico do que poderia haver do lado de fora.
De vez em quando, notava o olhar de mamãe se voltar para mim, como se estivesse se perguntando o que estava acontecendo, mas ela não disse nada, e eu também não.
Ajudei a lavar a louça e conversei — de maneira convincente, em minha opinião — sobre as alegrias da entrega de compras em Nova York. Finalmente, a campainha tocou, e minhas pernas viraram geleia.
Mamãe se virou para mim.
— Você está bem, Louisa? Ficou muito pálida.
— Depois eu conto para você, mãe.
Ela me encarou com firmeza, e então sua expressão suavizou.
— Vou estar aqui. — Ela estendeu a mão e colocou uma mecha de cabelo atrás de minha orelha. — O que quer que seja, vou estar aqui.

* * *

Sam estava de pé no degrau da entrada, usando um casaco azul macio que eu não conhecia. Perguntei-me quem teria dado aquele presente a ele. Sam exibiu um meio sorriso, mas não se aproximou para me beijar nem jogou os braços ao meu redor como em nossos encontros anteriores. Ficamos olhando cautelosamente um para o outro.
— Quer entrar?
Minha voz pareceu estranhamente formal.
— Obrigado.
Segui na frente dele pelo corredor estreito, esperei enquanto ele cumprimentava meus pais pela porta da sala de estar e então o levei até a cozinha, fechando a porta atrás de nós. Eu estava absolutamente ciente de sua presença, como se nós dois estivéssemos um pouco eletrificados.
— Aceita um chá?
— Claro... bonito suéter.
— Ah... obrigada.
— Você... deixou seu focinho aceso.
— Ah, é.
Desliguei o focinho, sem querer ceder a qualquer coisa que pudesse aliviar o ânimo entre nós.
Ele se sentou à mesa, o corpo meio que grande demais para as cadeiras da cozinha, os olhos ainda fixos em mim, e estendeu as mãos sobre o tampo, como alguém à espera de uma entrevista de emprego. Na sala de estar, ouvi papai rindo de algum filme e a voz aguda de Thom querendo saber qual era a graça. Tratei de me ocupar preparando o chá, mas senti os olhos dele em minhas costas o tempo todo.
— Então — disse Sam quando entreguei a caneca a ele e me sentei —, você está aqui.
Quase baixei a guarda nesse momento. Olhei para o rosto lindo dele do outro lado da mesa, para os ombros largos, as mãos envolvendo a caneca, e pensei: não vou suportar se ele me deixar.
Mas então me vi de novo parada no frio, na frente da casa dele, os dedos magros dela no pescoço dele, meus pés gélidos nos sapatos molhados, e esfriei de novo.
— Voltei dois dias atrás — falei.
Uma pausa muito breve.
— Está bem.
— Pensei em fazer uma surpresa para você. Na quinta à noite. — Raspei uma mancha na toalha de mesa. — Acontece que quem foi surpreendida fui eu.
Vi a compreensão tomando conta do rosto dele: a testa ligeiramente franzida, os olhos se distanciando, e então a conclusão, quando ele se deu conta do que eu podia ter visto.
— Lou, eu não sei o que você viu, mas...
— Mas o quê? “Não é o que você está pensando”?
— Bem, é e não é.
Aquilo foi como um soco.
— Não vamos fazer isso, Sam.
Ele ergueu o olhar.
— Sei muito bem o que eu vi. Se você tentar me convencer de que não era o que eu acho que era, vou querer tanto acreditar em você que talvez realmente acredite. E o que eu percebi nesses últimos dois dias é que isto... isto não é bom para mim. Não é bom para nenhum de nós dois.
Sam apoiou a caneca na mesa. Passou a mão pelo rosto e olhou para o lado.
— Eu não a amo, Lou.
— Eu não me importo com o que você sente em relação a ela.
— Bom, eu quero que você saiba. Sim, você tinha razão a respeito de Katie. Talvez eu tenha interpretado errado os sinais. Ela realmente gosta de mim.
Dei uma risada amarga.
— E você gosta dela.
— Não sei o que acho dela. É você quem está na minha cabeça. É em você que eu acordo pensando. Mas acontece que você não...
— Eu não estou aqui. Não coloque a culpa disso em mim. Não ouse colocar a culpa disso em mim. Você me disse para ir. Você me disse para ir.
Ficamos sentados em silêncio por alguns instantes. Observei as mãos dele — os nós dos dedos fortes e calejados, a forma como pareciam tão duras, poderosas, mas eram capazes de tanta ternura. Fiquei olhando com determinação para a mancha na toalha.
— Sabe, Lou, eu achei que ficaria bem sozinho. Afinal, estou sozinho há muito tempo. Mas você despertou alguma coisa em mim.
— Ah, então é culpa minha.
— Eu não estou dizendo isso! — explodiu ele. — Estou tentando explicar. Estou dizendo que não sou mais tão bom em ficar sozinho quanto pensei que fosse. Depois que minha irmã morreu, eu não queria sentir mais nada por ninguém de novo, está bem? Eu tinha espaço para me importar com o Jake, mais ninguém. Tinha meu emprego e minha casa inacabada, minhas galinhas, e tudo bem. Eu estava apenas... seguindo em frente. E aí você apareceu, caiu daquele maldito prédio e, literalmente, na primeira vez que segurou na minha mão, eu senti alguma coisa ceder dentro de mim. E de repente havia alguém com quem eu tinha vontade de conversar. Alguém que entendia como eu me sentia. Entendia de verdade. Eu podia passar de carro pelo seu apartamento e saber que, no fim de um dia horrível, ia poder ligar para você ou fazer uma visita e me sentir melhor. E, sim, sei que tivemos alguns problemas, mas eu simplesmente senti que, no fundo, havia algo certo lá, sabe? — Ele estava com a cabeça abaixada sobre o chá, o maxilar tenso. — E aí, justamente quando estávamos próximos... mais próximos do que eu jamais havia me sentido em relação a outra pessoa... você... você simplesmente foi embora. E eu me senti como... como se alguém tivesse me dado um presente, uma chave para todas as coisas, e depois tirado de mim.
— Então por que você me deixou ir?
A voz dele explodiu na cozinha:
— Porque... porque eu não sou esse tipo de cara, Lou! Eu não sou o cara que vai insistir para você ficar. Não sou o cara que vai impedir você de ter suas aventuras, de crescer e de fazer todas as coisas que está fazendo lá. Eu não sou esse cara!
— Não... você é o cara que se envolve com outra assim que eu vou embora! Alguém do mesmo CEP!
— É código postal! Você está na Inglaterra, pelo amor de Deus.
— É, e você não faz ideia de como eu gostaria de não estar.
Sam se virou de costas para mim, claramente se esforçando para se conter. Para além das portas da cozinha, embora a televisão ainda estivesse ligada, notei o silêncio absoluto na sala.
Depois de alguns minutos, falei baixinho:
— Eu não posso fazer isso, Sam.
— Não pode fazer o quê?
— Não posso ficar me preocupando com Katie Ingram e as tentativas dela de seduzir você... porque, seja o que for que tenha acontecido naquela noite, eu vi o que ela queria, mesmo que eu não saiba o que você queria. E isso está me enlouquecendo, me deixando triste e, pior... — Engoli em seco. — Está me fazendo odiar você. E eu não consigo imaginar como cheguei a esse ponto em apenas três meses.
— Louisa...
Houve uma batida discreta na porta. O rosto de minha mãe apareceu.
— Desculpem incomodar, mas vocês se importariam muito se eu preparasse um pouco de chá? O vovô está sem ar.
— Claro.
Mantive o rosto virado.
Ela entrou e encheu a chaleira, de costas para nós.
— Eles estão vendo um filme sobre alienígenas. Nada muito natalino. Eu me lembro quando, no Natal, só passava O Mágico de Oz ou Noviça Rebelde ou alguma coisa que todos pudessem ver juntos. Agora, eles estão assistindo a essa coisa cheia de tiros e explosões, e o vovô e eu não conseguimos entender nada do que estão dizendo.
Minha mãe continuou tagarelando, simplesmente aflita por precisar estar ali, batucando a superfície de trabalho com os dedos enquanto esperava que a água da chaleira fervesse.
— Sabe que ainda nem assistimos ao discurso da rainha? Seu pai colocou para gravar. Mas não é a mesma coisa quando vemos depois, não é? Eu gosto de ver junto com todo mundo. A pobre senhora, trancada naquelas caixas de vídeo até todo mundo ter acabado de ver os alienígenas e os desenhos animados. Era de imaginar que, depois de mais de sessenta anos de serviço... Há quanto tempo ela está naquele trono? O mínimo que podíamos fazer era assistir ao discurso na hora em que ela o faz. Mas seu pai me disse que estou sendo ridícula, porque ela provavelmente gravou a mensagem semanas atrás. Sam, quer um pedaço de bolo?
— Não, obrigado, Josie.
— Lou?
— Não. Obrigada, mamãe.
— Vou deixar vocês em paz.
Ela sorriu, constrangida, colocou na bandeja um bolo de frutas do tamanho de uma roda de trator e saiu apressadamente. Sam se levantou e fechou a porta atrás dela.
Ficamos sentados em silêncio, escutando o tique-taque do relógio da cozinha, o clima pesado. Eu estava me sentindo esmagada sob o peso das coisas que não haviam sido ditas entre nós.
Sam tomou um longo gole do chá. Eu queria que ele fosse embora. Mas achava que talvez morresse se ele fosse.
— Desculpe — disse Sam, afinal. — Sobre aquela noite. Eu nunca quis... bem, eu interpretei errado.
Balancei a cabeça. Não conseguia mais falar.
— Eu não dormi com ela. Se você não quer ouvir mais nada, preciso que ouça pelo menos isso.
— Você disse...
Ele ergueu o olhar.
— Você disse... que ninguém mais me magoaria. Você disse isso. Quando foi a Nova York. — Minha voz surgiu inesperadamente de algum lugar dentro do meu peito. — Eu nunca pensei nem por um instante que seria você quem faria isso.
— Louisa...
— Acho que eu quero que você vá embora agora.
Ele se levantou pesadamente e hesitou, as mãos na mesa à sua frente. Eu não conseguia olhar para ele. Não conseguia ver o rosto que eu amava prestes a desaparecer da minha vida para sempre. Ele se endireitou, suspirou alto e se virou de costas para mim.
Tirou um pacote do bolso e o colocou na mesa.
— Feliz Natal — disse ele.
E então caminhou até a porta.
Eu o acompanhei de volta pelo corredor, onze longos passos, até chegarmos à varanda. Não podia olhar para ele, ou estaria perdida. Pediria para ele ficar, prometeria abrir mão do meu trabalho, imploraria para ele mudar de emprego, para não ver Katie Ingram novamente. Eu me tornaria patética, o tipo de mulher de quem sentia pena. O tipo de mulher que ele nunca quisera.
Fiquei de pé, os ombros tensos, e me recusei a olhar para além dos pés estúpidos e imensos dele. Um carro parou. Uma porta bateu em algum ponto da rua. Passarinhos cantaram. E eu fiquei ali parada, prisioneira de minha própria infelicidade particular em um instante que teimosamente se recusava a terminar.
E então, de repente, Sam deu um passo à frente e seus braços se fecharam ao meu redor. Ele me puxou para perto e, naquele abraço, senti tudo o que havíamos significado um para o outro, o amor, a dor e a maldita impossibilidade de tudo. E meu rosto, que ele não estava vendo, franziu.
Não sei por quanto tempo ficamos ali. Provavelmente apenas segundos. Mas o tempo parou, estendeu-se e desapareceu. Éramos apenas ele, eu e aquele terrível sentimento morto indo da cabeça aos pés, como se estivéssemos nos transformando em pedra.
— Não. Não me toque — falei, quando não consegui mais suportar.
Minha voz estava engasgada e diferente, e eu o empurrei para trás, para longe de mim.
— Lou...
Só que não era a voz dele. Era a da minha irmã.
— Lou, você pode só... desculpe... sair do caminho, por favor? Eu preciso passar.
Pisquei e virei a cabeça. Minha irmã, com as mãos erguidas, estava tentando passar por nós na porta estreita para ir até a entrada da casa.
— Desculpem — disse ela. — Eu só preciso...
Sam me soltou de um jeito abrupto e foi embora com passos largos, os ombros caídos e tensos, fazendo uma pequena pausa apenas enquanto o portão se abria. Não olhou para trás.
— É o novo rapaz da nossa Treena chegando? — perguntou mamãe atrás de mim.
Ela estava alisando o avental e endireitando o cabelo em um único movimento fluido.
— Achei que ele fosse chegar às quatro. Nem passei batom... Você está bem?
Treena se virou e, através do borrão de minhas lágrimas, vi um sorrisinho cheio de esperança em seu rosto.
— Mamãe, papai, esta é Eddie — disse ela.
E uma mulher negra e magra usando um vestido florido curto acenou para nós, hesitante.

16 comentários:

  1. ah ,entendi pq ela estava tao hesitante em relaçao a familia

    ResponderExcluir
  2. Tadinhavda Lou.... #chorandolitros

    Nooss a irmã da Lou é lesbica o.O

    ResponderExcluir
  3. Cara me senti exatamente como a Lou se sentiu, to tremendo até agora! To chorando como se fosse comigo. Que maluco, nunca encorporei tanto o personagem. E essa supresa no final? Esse livro ta demais!

    ResponderExcluir
  4. Parte de mim está sofrendo pela Lou, mais a outra (bem maior por sinal ) está surtando pela Treen #ameiameiamei

    ResponderExcluir
  5. decepção!:( #raivadosam

    ResponderExcluir
  6. Meu Deus, assim como Erika, to totalmente dentro da personagem. Triste. Decepcionada com Sam. Com raiva.

    e... surpresa com a Treena. Feliz por ela.

    ResponderExcluir
  7. Ai, nossa cara, de verdade to sofrendo aqui, preciso de um minuto...
    Ta doendo de verdade, parece que foi comigo, ta loco!
    Não sei como me sinto a respeito, só sei que o pau já tinha fechado no capitulo anterior, e ainda tinha dito " Se a coisa, parece pato e grasna como pato, certamente é um pato!"

    - Lila'

    ResponderExcluir
  8. Senti a dor da Lou porque já passei por isso. Doi muito!

    ResponderExcluir
  9. Sou só eu, ou tem mais alguém sofrendo com a Lou!? lagrimas.....

    ResponderExcluir
  10. se fosse eu já tinha feito um escândalo naquele vagao miniiiiiinu

    ResponderExcluir
  11. Me sentindo traída junto com a Lou..

    ResponderExcluir
  12. Sofri junto com a Lou.. mas eu teria me escondido no vagão p ver tudo.

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!