20 de fevereiro de 2018

Capítulo 18

Um rosnado leve veio de Griz. Rafe havia usurpado a reivindicação dele. Eu sabia que, para Griz, uma vez que ele ergueu minha mão para os clãs lá no Sanctum, eu era a rainha de um reino – apenas de um reino.
Desferi a ele um olhar pungente de relance, e ele agarrou a lateral do seu corpo, encolhendo-se como se aquela fosse a fonte do seu barulho fora de hora. Porém, aquele rosnado foi pouco em comparação à mortalha de silêncio que se seguiu. O escrutínio era sufocante.
Parecia que ser vendano dentro das muralhas deste posto avançado era preferível a ser a insolente realeza que havia abandonado o seu precioso príncipe no altar.
Endireitei os ombros e ergui o queixo, embora, com certeza, isso apenas expusesse mais anéis de terra em volta do meu pescoço. De repente, senti a dor de tentar, senti a vontade dolorida de pertencer a algum lugar, a qual sempre estivera fora do meu alcance, senti a dor da saudade de Pauline, de Berdi e de Gwyneth, querendo que elas estivessem do meu lado, para me abraçarem, em um círculo apertado de braços que eram invencíveis. Ansiava por mil coisas perdidas, coisas que nunca poderia conseguir de volta, inclusive Aster, que havia acreditado incondicionalmente em mim. Era uma dor tão profunda que eu queria me desfazer em sangue no chão e desaparecer.
No entanto, as provações nunca tinham fim. Enrijeci a coluna e ajustei o maxilar em uma boa forma real. Fiz minha voz ficar firme e uniforme, e ouvi minha mãe falando, embora fossem meus lábios se mexendo.
— Eu tenho certeza de que os senhores têm muitas perguntas, as quais espero poder responder depois, assim que tivermos nos limpado um pouco.
Uma mulher magra e talhada, com severas maçãs no rosto, deu um passo à frente, cutucando o coronel com o cotovelo e fazendo com que ele fosse para o lado. Seus cabelos negros e lustrosos tinham faixas prateadas e estavam puxados para trás em um coque implacável. Ela foi até Rafe.
— Serão preparados aposentos para Sua Alteza também. Nesse ínterim, ela pode ir para a minha câmara, e eu e as outras damas vamos cuidar das necessidades dela.
Ela me olhou de esguelha, com os lábios finos puxados em uma linha rígida e fulva.
Eu não queria ir. Preferia ter me limpado nos chuveiros dos soldados e pegado emprestado outra calça, mas Rafe agradeceu a ela e fui escoltada para longe dali com um aceno de mão.
Enquanto eu ia embora, ouvi Rafe ordenar que fosse duplicado o número de guardas no portão e que fossem mais curtos os revezamentos dos guardiões da torre, de modo que sempre ouvissem soldados novos ali. Ele não disse o motivo para isso, mas eu sabia que era porque ele temia que outros Rahtans pudessem ainda estar por aí. Depois de tantas semanas olhando por cima dos nossos ombros, eu me perguntava se algum dia seríamos capazes de não ficar alertas. Será que a paz voltaria a nós de novo?
Esforços delicados foram feitos para que as pessoas recuassem e evitassem encostar em mim. Seria por causa da minha imundice ou da minha posição? Eu não sabia ao certo, mas enquanto seguia essa mulher magra e angulosa, a multidão se separou, deixando uma ampla passagem para mim. Ela se identificou como sendo madame Rathbone. Olhei para trás por cima do meu ombro, mas a multidão já havia se reunido novamente, e Rafe não estava mais no meu campo de visão.
Foi-me oferecida uma estola na sala de estar de madame Rathbone enquanto esperávamos um banho ser preparado. Duas outras damas que haviam se apresentado como Vilah e Adeline haviam desaparecido para dentro dos seus próprios aposentos e começaram a voltar com roupas diversas, tentando encontrar alguma coisa adequada para eu vestir. Estava silencioso e desajeitado enquanto elas arrastavam os pés ao meu redor, colocando vestimentas em cima de mesas e cadeiras, olhando para elas para medir o tamanho em vez e erguê-las para mim, o que requereria mais intimidade, e eu estava imunda. Seus olhares eram cautelosos demais, e eu estava cansada de tentar ficar em conversa fiada.
Madame Rathbone sentou-se à minha frente em um amplo canapé tufado. Ela não tirou os olhos de mim nem por um instante.
— Tem sangue em você — disse por fim.
— Pelos deuses, o corpo todo dela está cheio de sangue! — disse Adeline, irritada.
Vilah, que provavelmente era apenas uns poucos anos mais velha do que eu, disse:
— Que diabos foi que fizeram com ela?
Observei meus braços e o meu peito ensanguentados, e então ergui a mão e senti a aspereza e o estalo de sangue seco no meu rosto. Muito sangue vendano. Fechei os olhos. Tudo em que eu conseguia pensar era em Aster. Todo aquele sangue parecia ser dela.
— Você esta machucada, criança?
Ergui o olhar para madame Rathbone. Havia uma ternura na sua voz que me pegou desprevenida, e um nó doloroso se alojou na minha garganta.
— Sim, mas os machucados não são recentes. Isso é sangue de outra pessoa.
As três mulheres trocaram olhares de relance, e madame Rathbone murmurou uma longa sequência de xingamentos ardentes. Ela notou que fiquei levemente de queixo caído, e ergueu as sobrancelhas.
— Com certeza ao viajar com soldados, você já ouviu coisas bem piores que isso.
Não. Na verdade, não. Eu não tinha ouvido tantas daquelas palavras desde os dias em que eu jogava cartas em salas obscuras com meus irmãos.
Ela torceu o nariz.
— Vamos tirar tudo isso de você — disse ela. — O banho já deve estar pronto agora.
Ela me conduziu para dentro de uma sala contígua. Aparentemente este era o bangalô de um oficial, pequeno e com aposentos quadrados, uma sala de estar, uma câmara de dormir e um vestíbulo. As paredes eram lisas, com uma cobertura de estuque, adornadas de forma elegante com tapeçarias. Um soldado colocou um último balde de água fumegante para me enxaguar, ao lado da banheira de cobre, e saiu rapidamente por outra porta. Madame Rathbone colocou uma barra cruzada por cima dessa porta.
— Nós podemos ajudá-la a se banhar ou deixá-la com sua privacidade. O que você prefere?
Fitei-a, sem que eu mesma soubesse ao certo o que queria.
— Nós vamos ficar — disse ela.

* * *

Chorei. Eu não conseguia explicar por quê. Não era eu. Mas agora eu era muitas coisas que não era antes. Lágrimas lentas rolaram pela minha face enquanto elas tiravam as minhas roupas, enquanto desamarravam os cadarços das minhas botas e as puxavam para fora dos meus pés, enquanto passavam a esponja no meu pescoço e ensaboavam meus cabelos, enquanto todo o sangue na minha pele era lavado com a água.
Você está exausta. Só isso, disse a mim mesma. Mas era como se uma veia tivesse sido aberta e se recusasse a ter o sangue coagulado. Até mesmo quando eu fechava os olhos, tentando fazer com que o fluxo de lágrimas parasse, a sensação salgada delas passava em um filete pelas minhas pálpebras em uma linha lânguida, encontrando-se com o canto da boca, e depois se espalhava pelos meus lábios.
— Beba isso — disse-me madame Rathbone, e colocou um grande cálice de vinho em uma mesa ao lado do meu banho. Sorvi o líquido como ela mandou, e coloquei a cabeça para trás na beirada alongada de cobre da banheira, fitando o teto de madeira acima. As mulheres pegaram punhados de cristais cítricos e esfregaram-nos na minha pele, deixando-a limpa, polindo e retirando a sujeira, o cheiro e a miséria de onde eu estivera.
Elas se demoraram mais nas minhas mãos e nos meus pés, e foram mais gentis em volta das feridas costuradas. Outro gole e círculos de uma quentura entorpecente espiralaram-se até as pontas dos meus dedos, enfraquecendo os meus músculos, deixando o meu pescoço solto, puxando para baixo as minhas pálpebras, até elas se fecharem.
Vilah ergueu o cálice junto aos meus lábios de novo.
— Tome mais um gole — disse ela baixinho. Familiaridade, um campo de vinhas, um céu sedoso, as peles das uvas manchando os meus dedos, veludo... lar.
— Morrighan — sussurrei.
Sim.
As caravanas o trazem.
O melhor.
O coronel Bodeen não perde uma garrafa.
Muito.
Eu não me lembrava de ter caído no sono, e apenas vagamente me lembrava de me levantar com a ajuda delas para que as mulheres enxaguassem meu corpo. Deitei nas espessas e macias cobertas, onde elas lidaram ainda mais comigo, massageando óleos na minha pele. Madame Rathbone examinou as marcas costuradas na minha coxa e nas minhas costas.
— Flechas — expliquei. — Tavish tirou-as daí.
Adeline sugou o ar entre os dentes.
Ouvi o baixo murmúrio das vozes delas.
Madame Rathbone esfregou um bálsamo amanteigado nas feridas, dizendo que ajudaria na cura. O cheiro de baunilha flutuava no ar.
Um hematoma púrpura havia aparecido no meu quadril onde o cabeçote da sela de Ulrix batera em mim. Os dedos delas eram gentis ao redor do meu machucado. Senti que eu estava apagando de novo, assim vozes ao meu redor ficando distantes.
— E isso? — perguntou-me Vilah, passando as pontas dos dedos pela tatuagem no meu ombro.
Aquilo não era mais o meu kavah de casamento. Talvez nunca tivesse sido. Ouvi Effiera descrevendo a promessa de Venda...  a garra, rápida e feroz; a vinha, lenta e firme; ambas igualmente fortes.
— Isso é...
A exigência de uma rainha louca.
Aquela que era fraca,
Aquela que era caçada...
Aquela nomeada em segredo.
— A esperança deles. — As palavras estavam tão finas e suaves nos meus lábios que eu nem mesmo tinha certeza de que eu as havia proferido em voz alta.

* * *

Acordei com sussurros vindos da sala de estar.
Talvez este e este juntos?
Não, algo menos detalhado, acho.
Você acha que ela sabe?
Provavelmente não.
Eu nunca achei isso certo.
Você acha que o príncipe sabia?
Ele sabia.
Os tolos.
Isso faz pouca diferença agora. Você viu o jeito como ele olhava para ela?
E o tom dele. Ninguém vai querer ficar contra ele.
Especialmente agora que ele é rei.
E os olhos dele. Eles podem cortar e derrubar um homem.
Exatamente como os do pai.
Isso não quer dizer que eles ainda não poderiam usá-la como uma forma de manobra.
Não, eu diria que não. Não mais, não depois de tudo que aconteceu.
Que tal este?
Acho esse tecido melhor.
E com este cinturão.
Eu me sentei ereta, puxando as cobertas ao meu redor. Por quanto tempo estivera dormindo? Olhei para o cálice vazio ao lado da mesa e depois para as minhas mãos. Macias. Havia um brilho nelas que não estava lá desde que eu deixara Civica meses atrás. Minhas unhas estavam cortadas e polidas, com um brilho natural. Por que elas fizeram isso por mim? Ou talvez fosse apenas para o rei delas... aquele cujos... o que foi que elas disseram mesmo? Cujos olhos eram cortantes?
Bocejei, tentando dissipar a nebulosidade do sono, e fui andando até a janela. O sol estava sumindo. Eu dormira por pelo menos algumas horas. Havia uma bruma cor-de-rosa sobre a parede branca que se erguia ao alto do posto avançado. Conseguia ver apenas uma pequena faixa dessa cidade de soldados, mas a calma do crepúsculo lhe concedia um brilho sereno. Acima da parede, vi um soldado caminhando pela extensão, mas até mesmo isso tinha uma estranha elegância que parecia deslocada. A luz dourada captava o brilho dos botões da sua roupa e reluzia no seu cinto e na sua bainha de ombro ornamentados. Tudo aqui parecia fresco e disposto com limpeza, até mesmo o bangalô branco. Embora estivesse longe da fronteira, este era o mundo de Dalbreck, e não se parecia nem um pouco com Morrighan. Ordem permeava o ar, e tudo que eu e Rafe tínhamos feito fora contra aquela ordem.
Eu me perguntava onde ele estaria. Será que finalmente tinha conseguido descansar um pouco também? Ou será que estava reunido com o coronel Bodeen e ouvindo sobre as circunstâncias das mortes dos pais dele? Será que os seus camaradas o perdoariam pela sua ausência? Será que me perdoariam?
— Você está acordada.
Eu me virei, segurando a coberta apertada junto ao meu peito. Madame Rathbone estava parada na entrada.
— O príncipe... Quero dizer, o rei... passou por aqui mais cedo para ver como você estava.
Meu coração deu um pulo.
— Ele precisa...?
As mulheres entraram uma atrás da outra no aposento, garantindo-me que ele não tinha qualquer necessidade imediata, e elas foram em frente e me ajudaram com as roupas. Madame Rathbone sentou-me à penteadeira, a Adeline escovou e soltou os meus cabelos emaranhados, seus dedos movendo-se com uma tranquilidade rápida, dedilhando cautelosamente os meus cabelos tão sem esforço quanto uma talentosa harpista, pegando várias mechas do meu cabelo de uma vez, trançando-os em um ritmo tão tranquilo quanto uma melodia associada, enquanto, ao mesmo tempo, os entrelaçava com um fio dourado e brilhante.
Quando ela terminou, Vilah ergueu um vestido soltinho por cima da minha cabeça, um vestido fino, fluido e cremoso como o cálido vento de verão. Agora eu sabia que o que eu ouvira sobre Dalbreck e seu caso de amor com tecidos e roupas finas era verdade. Em seguida veio um colete de couro que era fechado com cordões amarrados atrás, grafado com um desenho de filigrana de ouro. Era mais um gesto simbólico do que um peitoral, pois cobria pouco dos meus seios. Em seguida, madame Rathbone atou um simples cinturão de cetim preto nos meus quadris, de forma que ele quase chegava até o chão. Tudo aquilo parecia elegante demais para um posto avançado, e eu imaginava que, se os deuses usavam roupas, deviam ser como aquelas.
Achei que elas tivessem acabado e estava prestes a agradecer e pedir licença para que fosse me encontrar com Rafe, mas elas não estavam prontas para me deixar sair. Elas começaram a passar joias. Adeline colocou um intrincado anel enlaçado no meu dedo, que tinha pequeninas correntes em uma das extremidades e que se conectavam a um bracelete que ela prendeu em volta do meu pulso. Vilah aplicou perfume com batidinhas nos meus pulsos, e então Madame Rathbone prendeu um reluzente cinto de cota de malha dourada por cima do cinturão preto e, talvez o mais surpreendente de tudo, deslizou uma adaga afiada para dentro de sua bainha. Por fim, vinha uma ombreira que se estendia pelo meu ombro como se fosse uma asa. Todos os toques eram belos, mas claramente a armadura era mais decorativa do que útil. Isso tudo anunciava um reino cuja história era construída com base na força e na batalha. Talvez fosse um reino que nunca tivesse se esquecido de como começara, quando um príncipe fora jogado para fora de sua terra natal. Eles tinham a determinação de que ninguém questionaria a sua força novamente.
No entanto, tudo isso para um jantar em um posto avançado? Não mencionei a extravagância, temendo que fosse soar ingrata, mas Madame Rathbone era perceptiva e disse:
— O coronel Bodeen prepara uma mesa muito boa. Você vai ver.
Olhei para o resultado dos esforços delas no espelho. Eu mal me reconhecia. Isso ainda parecia estar bem longe de apenas fazer com que eu ficasse apresentável para um jantar... não importando quão bom fosse esse jantar.
— Eu não entendo — falei. — Entrei aqui cavalgando e preparada para me deparar com animosidade, e, em vez disso, vocês me mostram compaixão. Eu sou a princesa que deixou o príncipe de vocês no altar. Nenhuma de vocês guarda nenhum ressentimento em relação à minha pessoa?
Vilah e Adeline desviaram os olhares como se estivessem se sentindo desconfortáveis com a minha pergunta. Madame Rathbone franziu o rosto.
— Nós estávamos ressentidas com você, sim. E certamente uns poucos dos outros ainda se sentem assim, mas... — Ela voltou-se para Vilah e Adeline. — Moças, por que não vão se vestir para o jantar também? Eu e Vossa Alteza iremos depois.
Quando Adeline fechou a porta, madame Rathbone olhou para mim e soltou um suspiro.
— Para mim, tratou-se de uma pequena omissão de bondade que acumulou juros, imagino.
Olhei para ela, confusa.
— Eu conheci a sua mãe há muitos anos. Você se parece tanto com ela.
— Você esteve em Morrighan?
Ela balançou a cabeça em negativa.
— Não, isso foi antes de ela sequer chegar lá. Eu era uma empregada que trabalhava em uma estalagem em Cortenai, e ela era da nobreza de Gastineux, indo casar-se com o rei de Morrighan.
Eu me sentei a beirada da cama. Sabia tão pouco sobre a jornada da minha mãe, que nunca falava sobre isso.
Madame Rathbone cruzou o aposento, recolocando a tampa no perfume. Ela continuou a dar os últimos retoques na sua vestimenta enquanto falava.
— Eu tinha 21 anos na época, e a estalagem estava quase caótica com a chegada de Lady Regheena. Ela ficou lá apenas por uma noite, mas o dono da taverna me mandou ir até o quarto dela com um jarro de leite morno para ajudá-la a dormir.
Ela se olhou no espelho, soltando o coquetel e escovando os longos cabelos. Suas feições severas ficaram abrandadas, e ela estreitou os olhos, como se estivesse vendo a minha mãe novamente.
— Eu fiquei nervosa ao entrar na câmara dela, mas também estava ansiosa para vê-la. Eu nunca tinha visto ninguém da nobreza antes, muito menos a futura rainha do reino mais poderoso da região. No entanto, em vez de me deparar com uma mulher da realeza cheia de joias e coroada, vi apenas uma menina, mais jovem do que eu na época, cansada da estrada e aterrorizada. É claro que ela não disse que estava com medo e forçou-se a sorrir, mas vi o terror nos olhos dela e na forma como os seus dedos estavam entrelaçados no colo. Ela me agradeceu pelo leite, e eu pensei em dizer alguma coisa tranquilizadora ou animadora, ou até mesmo esticar a mão e dar um apertãozinho na dela. Fiquei lá, parada em pé por um tempão, e ela esperava, ansiosa, com os olhos fixos em mim como se desejasse desesperadamente que eu ficasse ali, mas eu não queria passar dos meus limites e, no fim das contas, apenas fiz uma reverência e saí do quarto.
Madame Rathbone franziu os lábios, pensativa, retirando um pequeno manto de peles do seu guarda-roupa. Ela envolveu os meus ombros com ele.
— Tentei não pensar nisso, mas aquela curta troca me assombrou por muito tempo depois que ela se fora. Pensei em uma dezena de coisas que poderia ter dito, mas que não disse. Coisas simples que poderiam ter tranquilizado a jornada dela. Coisas que eu gostaria que alguém tivesse me dito. Mas aquele dia e a minha oportunidade se foram e eu não podia consegui-los de volta. Jurei que nunca mais me preocuparia novamente com esse negócio de passar dos limites e que nunca permitiria que palavras que não foram ditas me atormentassem de novo.
Por ironia, isso era exatamente o que me corroía: todas as palavras que minha mãe nunca dissera. Todas as coisas que ela não confiara a mim. Coisas que poderiam ter facilitado a minha jornada. Quando eu voltasse a Morrighan, de uma forma ou de outra, não haveria mais nenhuma palavra escondida entre nós.

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