16 de fevereiro de 2018

Capítulo 18

KADEN

Tracei meu caminho através das tropas que estavam à vontade, rindo na base do Campo de Cadáveres, contentes por estarem liberados dos seus deveres ao meio-dia. Grupos de soldados me cumprimentaram, recebendo-me em casa. A maioria deles eu não conhecia, porque eu ficava fora mais do que aqui, mas todos eles me conheciam. Todos faziam questão de conhecer, ou saber sobre, o Assassino.
— Ouvi dizer que você trouxe um prêmio para casa — um deles falou.
A recompensa de guerra. Lembrei-me de mim mesmo chamando Lia de prêmio do Komizar quando Eben ameaçou cortar a garganta dela. Eu disse sem pensar, porque era verdade. Todas as recompensas pertenciam ao Komizar para distribuir ou utilizar pelo melhor benefício para Venda. Não era minha função questioná-lo quando ele disse Decidirei a melhor forma de fazer uso dela. Sem dúvida, não era apenas eu que lhe devia muito – toda Venda devia. Ele nos deu algo que não tínhamos antes. Esperança.
Continuei andando, acenando com a cabeça; esses eram os meus companheiros, afinal. Tínhamos uma causa em comum, uma irmandade. Lealdade acima de tudo. Nenhum dos homens por quem passei sofreram pouco, de uma forma ou de outra, alguns até mais do que eu, embora eu carregasse a prova na forma de cicatrizes em meu peito e costas. Algumas observações grosseiras de soldados eu poderia ignorar.
Olhe lá.
Outra chamada de algum lugar no meio da multidão.
O Assassino.
Sem dúvida enfraquecido depois de lutar com sua pombinha todo o caminho através do Cam Lanteux.
Parei e olhei friamente para um grupo de três soldados, sorrindo para cada um dos rostos. Encarei-os até que estavam mexendo os pés e seus sorrisos desbotaram.
— Três de seus companheiros estão prestes a morrer. Agora não é o momento para rir sobre prisioneiros.
Eles olharam um para o outro, seus rostos pálidos, então sumiram na multidão atrás deles. Afastei-me, minhas botas triturando o chão úmido.
O Campo de Cadáveres era uma colina no extremo do quadrante de Tomack. Os campos de treinamento se espalhavam no vale baixo para além dela, ocultos por um bosque cerrado. Onze anos atrás, quando o Komizar chegou ao poder, não havia soldados preparados, nem campos de treinamento, nem silos para armazenar os dízimos de grãos, nem arsenais para forjar armas, nem estábulos para criação de animais. Havia apenas guerreiros que aprendiam o ofício com o pai se eles tinham um, e se não tivessem, guiados por paixão bruta. Os ferreiros locais forjavam espadas brutas e machados para as poucas famílias que podiam pagar por eles. O Komizar tinha feito o que ninguém antes dele fizera, forçando maiores contribuições dos governadores, que por sua vez forçaram maiores dízimos dos lordes em suas próprias províncias. Enquanto Venda era pobre em plantações e caça, ela era rica em fome. Ele batia sua poderosa mensagem como um tambor de guerra, calculando os dias, meses e anos até que Venda seria mais forte do que o inimigo, forte o suficiente para que cada barriga estivesse cheia, e nada, especialmente três soldados covardes que tinham traído seu juramento e se desviado de seu dever, pudesse minar o que todos os vendanos tinham trabalhado e se sacrificado para conseguir.
Atravessei a curta trilha que levava ao topo da colina e dei a volta até chegar ao chievdars que esperavam por mim. Eles acenaram para uma sentinela que soprou um chifre de carneiro, três longas notas que pairaram no ar úmido. As tropas abaixo aquietaram-se. Ouvi o choro de um prisioneiro. Todos os três estavam de joelhos diante de blocos de madeira, as mãos amarradas para trás e capuzes negros cobrindo suas cabeças como se eles fossem repulsivo demais para se olhar por muito tempo. Eles estavam alinhados no alto da colina, à vista de todos os que assistiam na base. Um carrasco estava perto de cada um, e os machados curvos e polidos em suas mãos brilhavam ao sol.
— Removas os capuzes deles — ordenei.
O prisioneiro que soluçava gritou por ajuda quando o capuz foi removido. Os outros dois piscaram como se não entendessem muito bem por que estavam ali. Suas expressões se contorciam em confusão.
Certifique-se de que eles sofram.
Olhei para eles. Seus narizes não se encaixavam perfeitamente no rosto e seus peitos magros ainda não tinham alargado.
— Mantenedor? — o chievdar mais próximo chamou. Era o meu trabalho como Mantenedor prosseguir com a execução.
Andei para frente e me pus diante deles. Eles levantaram seus queixos, sábios o suficiente para terem medo, ainda mais sábios ao não pedirem por misericórdia.
— Vocês são acusados de abandonarem o seu dever, os seus postos, e traindo seu juramento de proteger seus companheiros. Os cinco que deixaram para trás morreram. Pergunto a cada um de vocês, vocês cometeram esses crimes?
O que chorava irrompeu em gritos angustiados. Os outros dois balançaram a cabeça, a boca entreaberta. Nenhum dos três tinha mais que quinze anos de idade.
— Sim — cada um respondeu obedientemente, por sua vez, mesmo através de seu terror.
Virei-me para os soldados abaixo.
— O que vocês dizem, camaradas? Sim ou não?
Um estrondo unânime tão denso como a noite rugiu no ar. O peso da palavra pressionou meus ombros, forte e derradeira. O rosto de nenhum conhecera uma navalha ainda.
Sim.
Todos os homens lá embaixo precisavam acreditar que seus camaradas estariam lá para ele, que nenhum medo ou impulso iria impedi-los de cumprir o seu dever. Um dos cinco que morreu poderia ter sido seu irmão, seu pai, seu amigo.
Era nesse momento que o Komizar ou o Mantenedor poderiam ter cortado uma linha, não muito profunda, na garganta de um deles. Apenas o suficiente para ele se engasgar com seu próprio sangue, para tirá-lo de seu tormento e fazer com que os outros prisioneiros sentissem ânsia de vômito por causa do medo, apenas profunda o suficiente para ficar queimada a ferro na memória de todas as testemunhas abaixo. Traidores não recebiam nenhuma misericórdia.
chievdar sacou a faca e ofereceu para mim.
Olhei para a faca, depois para os soldados abaixo. Se eles não tinham visto sofrimento suficiente até agora, teriam que encontrá-lo em outro lugar.
Voltei-me para os soldados condenados.
— Que os deuses possam lhes mostrar misericórdia.
E com um simples aceno, antes que o chievdar pudesse protestar pela morte rápida, as lâminas desceram e os choros soluçantes cessaram.

2 comentários:

  1. O pior é que agora, conhecendo Venda e o povo de lá, até entendo o objetivo do Komizar. Esses livros que fazem a gente amar e odiar todo mundo!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Né! Os vendanos têm uma vida muito dura, não dá pra culpá-los por querer algo melhor

      Excluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!