2 de fevereiro de 2018

Capítulo 18

Havia tantas coisas que eu queria ter dito a Pauline hoje. Tantas coisas que pareceram importantes na hora. Eu ia passar um sermão nela por espalhar histórias sobre o meu medo de coelhos. Provocá-la por seu eterno sentimento de iniciativa, mesmo quando estava doente. Contar a ela sobre Rafe, que levara as cestas para mim, e o tempo que passei com ele no cânion. Eu queria perguntar a ela o que achava que isso queria dizer e falar sobre todos os detalhes das nossas vidas, tal como sempre fazíamos ao fim do dia quando estávamos em nossos aposentos.
No entanto, lá estava eu, sozinha no escuro, incapaz de ficar cara a cara com ela, coçando atrás das orelhas de um asno, sussurrando para ele:
— O que devo fazer? O que devo fazer?
Eu chegara terrivelmente tarde no refeitório, e entrei voando na cozinha. Berdi estava fumegando tanto quanto sua caldeira de cozido. Eu havia pretendido contar a ela sobre o motivo pelo qual estava atrasada, mas tudo que consegui dizer foi Tenho notícias de Mikael, antes que minha garganta se fechasse e eu ficasse calada. Berdi parou de fumegar e assentiu, entregando-me um prato e, a partir daquele instante, a noite seguiu sua rotina, uma folga temporária do inevitável. Fiquei tão ocupada que não tive tempo de explicar mais nada. Sorri, dei boas-vindas, entreguei comida e bebida, fiz a limpeza, mas minhas palavras animadas eram poucas. Uma vez fui pega na pia olhando para o nada enquanto a caneca que eu estava enchendo de cidra transbordou.
Pauline pôs a mão no meu cotovelo e perguntou se estava tudo bem comigo.
— Só estou cansada — respondi. — Tomei muito sol hoje.
Ela tentou se desculpar por não ter me ajudado com a colheita das amoras silvestres, mas eu a interrompi para ir entregar a cidra a um freguês.
Kaden veio sozinho para o refeitório. Fiquei aliviada por Rafe não ter vindo. Eu estava perturbada o bastante sem ter que navegar pelos humores sombrios dele. Ainda assim, me vi olhando para a porta da taverna a cada vez que ela era aberta, pensando que, mais cedo ou mais tarde, ele teria que comer. Tentei sorrir e ofereci minha saudação padrão a todos, mas quando levei a refeição a Kaden, ele me interrompeu antes que eu saísse correndo.
— Seu fogo parece apagado essa noite, Lia.
— Sinto muito. Acho que estou um pouco distraída. Esqueci alguma coisa que você queria?
— O serviço está ótimo. O que foi que a chateou?
Fiz uma pausa, emocionada porque ele tinha percebido como eu estava abalada.
— É só minha cabeça que está latejando um pouco, vou ficar bem.
Os olhos dele permaneceram fixos em mim; aparentemente Kaden não estava convencido. Soltei um suspiro e me rendi.
— Receio ter recebido notícias desanimadoras hoje do meu irmão.
Ele ergueu as sobrancelhas como se aquela notícia o deixasse muitíssimo surpreso.
— Seu irmão está aqui?
Sorri. Walther. Eu havia me esquecido do quão feliz tinha ficado.
— Ele esteve aqui para uma breve visita essa noite. Fiquei mais do que animada ao vê-lo, mas, infelizmente, tivemos que nos despedir depois de algumas notícias difíceis.
— Um camarada alto? Cavalgando um cavalo tobiano? Acho que posso ter passado por ele na estrada hoje.
Fiquei surpresa por Walther ter pego a estrada principal de Luiseveque até aqui em vez de usar caminhos secundários.
— Sim, era ele — respondi.
Kaden assentiu e sentou-se relaxado em sua cadeira, como se já estivesse satisfeito com a refeição, embora não tivesse nem dado a primeira garfada.
— Posso ver a semelhança, agora que você me falou. Os cabelos escuros, as maçãs do rosto...
Ele havia observado muita coisa em uma rápida passagem na estrada, mas já tinha provado ser bem observador ao ter notado minha falta de fogo em uma taverna lotada.
Ele se inclinou para a frente.
— Há algo que eu possa fazer?
A voz dele estava cálida e lenta e me fez lembrar do ruído gentil de uma distante tempestade de verão, tão convidativa ao longe. E aqueles olhos de novo, olhos que faziam com que eu me sentisse nua, como se ele enxergasse sob a minha pele. Eu sabia que não podia me sentar e contar a ele sobre minhas preocupações, mas seu olhar firme queria que eu fizesse isso.
— Não — sussurrei. Ele esticou a mão e deu um pequeno aperto na minha.
Mais segundos em silêncio passaram-se entre nós.
— Tenho outras coisas para fazer, Kaden.
Olhando de relance para o outro lado do salão, vi que Berdi estava observando a cena da porta da cozinha, e me perguntei o que ela deveria estar pensando, e depois me perguntei quem mais tinha visto... e realmente, havia alguma coisa pela qual eu devesse me sentir culpada? Não era bom saber que alguém estava preocupado comigo enquanto havia outros que queriam colocar uma corda no meu pescoço? Eu estava grata pela bondade de Kaden, mas puxei minha mão da dele.
— Obrigada — sussurrei, com medo de que minha voz pudesse se partir, e fui embora dali rapidamente.
Quando nosso trabalho da noite estava terminado, deixei Pauline boquiaberta na porta da cozinha e saí correndo sozinha, dizendo que precisava de ar fresco e que daria uma caminhada. Mas não andei muito, fui apenas até a baia de Otto no estábulo. Lá estava escuro e deserto, e minhas preocupações ficariam a salvo com ele. Eu me equilibrei no corrimão da baia no estábulo, abraçando um poste com uma das mãos e coçando a cabeça do asno com a outra. O animal não questionou minhas atenções durante a madrugada. Ele as aceitou com gratidão, o que deixou meu peito ainda mais apertado. Eu lutei para conter as lágrimas e os soluços. O que eu deveria fazer? A verdade a mataria.
Ouvi um farfalhar, e uma pancada oca de metal. Fiquei paralisada, olhando na escuridão.
— Quem está aí?
Não houve resposta. E então ouvi mais ruídos, aparentemente vindos de uma outra direção. Eu me virei, confusa, dei um pulo do corrimão e perguntei de novo:
— Quem está aí?
Sob uma fatia de luar, o rosto pálido de Pauline apareceu.
— Sou eu. Precisamos conversar.

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