6 de fevereiro de 2018

Capítulo 18. Quatro séculos de cadeia

O diretor da Penitenciária Estadual de Segurança Máxima levou os quatro Karas e o detetive Andrade para uma sala escura. Em uma das paredes, um vidro grande permitia que se visse perfeitamente outra sala, muito bem iluminada, com uma mesa e duas cadeiras. Era um vidro, quando visto da sala escura; mas, quando visto da sala iluminada, aquilo era apenas um grande espelho.
— Deste lado, podemos ver tudo o que acontece do lado de lá — explicou o diretor, apontando para a sala iluminada que se via através do vidro. — Mas, do outro lado, o prisioneiro só verá um espelho. Podemos também ouvir tudo, pois a sala tem microfones embutidos.
— Já conheço tudo isso, diretor... — resmungou Andrade, de mau humor.
— Eta zdiêss ani mútchaiút arestovanej? — perguntou Iúri Mikhailevich. Mas, como foi em russo, não houve resposta porque ninguém entendeu nada. O pobre Iúri sentia-se perdido...
— Muito bem, detetive — continuou o diretor. — Já mandei chamar os quatro sentenciados que aguardam transferência daqui. Juntos, eles ainda têm a cumprir mais de quatro séculos de cadeia. Pelo jeito, a periculosidade deles diminuiu muito. Apresentam bom comportamento há anos. Por isso estão sendo transferidos para outras penitenciárias. A junta de conselheiros decidiu que eles já podem cumprir suas penas em regime menos rígido do que o daqui.
— Vamos logo, diretor, vamos logo! — apressou Andrade.
— Certo, detetive Andrade. Separadamente, mandei avisar a cada um dos prisioneiros que um sobrinho veio visitá-lo. Qual de vocês vai ser o primeiro “sobrinho”?
— Eu — apresentou-se Miguel.
O diretor abriu a porta de comunicação entre as duas salas e Miguel ficou na sala iluminada, sozinho, sentado em uma das cadeiras.
O diretor deu uma ordem pelo telefone.

* * *

A porta da sala iluminada abriu-se e um negro enorme entrou algemado, com dois guardas como escolta.
Miguel, meio sem jeito, cumprimentou:
— Olá, tio...
O prisioneiro nem se sentou na cadeira que um dos guardas lhe apontava. Parou e olhou espantado para o rapazinho.
— Tio? Que negócio é esse de tio? Como é que eu posso ser seu tio? Que história é essa? Isso é uma armação? Uma armadilha para pegar aqui o pássaro preto? Quem te mandou, moleque? Foi o Nego Cão? Pois pode dizer pra ele que eu agora estou fora. Estou fora, está me ouvindo? Guarda, me leva daqui! Me leva daqui! Não quero mais negócios com o Nego Cão! Me leva daqui!

* * *

Na sala escura, depois que o prisioneiro foi levado pelos guardas, o diretor não estava nem um pouco animado.
— Isso não vai dar certo. O que o senhor pretende, detetive Andrade?
— Não se preocupe. Espere e verá. Mande entrar o próximo prisioneiro. O senhor já vai ver. . .
Andrade, porém, não tinha a menor ideia de onde aquilo tudo ia chegar.
A intérprete parecia cada vez mais excitada ao traduzir tudo o que ouvia para o agente Lockwood.
O agente Mikhailevich tentava pescar aqui e ali alguma coisa que conseguisse entender.

* * *

Magrí foi a segunda a ocupar a cadeira de visitante. E o segundo sentenciado a comparecer algemado era um sujeito baixinho, de cara encovada.
— Você é que é a minha sobrinha, é? — perguntou o homem, com cinismo. — Não me diga!
— Sou sim... não se lembra de mim, tio?
— Posso me lembrar, sobrinha. Mas você precisa me ajudar. Eu estou na cadeia há tanto tempo que nem fiquei sabendo que a minha velha teve mais filhos. Afinal, eu era filho único! Da parte do meu pai não pode ser, porque eu nunca soube quem era ele. Mas o impressionante, sobrinha, é que a minha velha já morreu há vinte e cinco anos. Como é que ela, depois de morta, conseguiu ter mais filhos, para eu arranjar uma sobrinha?

* * *

Do outro lado do espelho, na sala escura, o diretor informou: — É... com esse eu sabia que ia ser difícil. É o rei do cinismo.
Acho que foi isso que o ajudou a sobreviver à cadeia até agora...

* * *

Calú já estava sentado na sala iluminada, quando entrou o terceiro prisioneiro.
Ao ser apresentado ao seu “sobrinho”, o homem imobilizou-se. Sua expressão nada demonstrava.
Calú tentou ajudar:
— Oi, tio... o senhor não se lembra de mim, eu sei. Mas a gente soube que o senhor afinal conseguiu transferência para outro lugar, melhor do que este e...
— O que é isso? — perguntou o sentenciado, com uma voz muito baixa.
— Isso o quê? — devolveu Calú, com cara de ingênuo.
— É uma arapuca dos tiras, eu já percebi. Vocês querem me sujar, querem me impedir de sair daqui! Mas não me pegam, não! Eu luto há dezessete anos para conseguir esse alvará de transferência! Vocês não me pegam! Vão ter de cumprir direitinho o meu alvará. Vocês vão ter de me tirar daqui! Vocês não me pegam! Não me pegam!

* * *

Na sala escura, assistindo e ouvindo tudo, nem o diretor, nem Andrade conseguiam perceber onde aquela bobagem ia dar. O que os garotos esperavam conseguir com aquelas entrevistas idiotas? Nenhuma dava certo! Nem uma pergunta até agora eles tinham conseguido fazer para os prisioneiros! 
Andrade estava de cabeça baixa, tentando imaginar uma desculpa para o diretor da penitenciária. Uma desculpa que pudesse amenizar a vergonha que ele estava passando por sugerir uma encenação tão sem sentido, tão inútil...
— Sua vez, Crânio — disse Miguel.

* * *

O quarto prisioneiro entrou na sala iluminada, andando com dificuldade.
Era um velho. Magro como uma sombra. Devia estar na cadeia há um tempão, mais tempo talvez do que a própria idade dos pais de Crânio.

* * *

Na sala escura, vendo o pobre sentenciado do outro lado do vidro, o diretor comentou:
— Esse já está velho e doente. Vamos tirá-lo daqui, mas acho que ele não vai sobreviver muito mais tempo...
— Shhh... — fez Miguel. — Vamos ouvir o que acontece.

* * *

Crânio levantava-se da cadeira, com um ar tímido. — Boa tarde, tio.. .
O velho andou com esforço até a cadeira. Sentou-se, apertando os olhos. Como enxergava mal, não conseguia distinguir a fisionomia de quem estava a sua frente. Tossiu.
— Ahn? Que... quem é você?
— Não se lembra, não é, tio? É que quando eu nasci você já estava preso... Sou seu sobrinho-neto. Vim ver se o senhor precisa de alguma coisa, antes da transferência...
— Oh, obrigado... — disse o velho, meio alheado. — Obrigado... que bom que você veio!
— Sua irmã Benevinda não pôde vir, tio. Mas eu estou aqui. Lembra-se dela, tio? Ela escreveu para o senhor, lembra? Ela sempre escreve para o senhor. Ela disse que tem-Ihe mandado fotos das crianças. Ela disse que mandou até a minha fotografia...
O velho sorriu de leve, como se uma luz lhe iluminasse a lembrança:
— Ah, sim, é claro. Agora me lembro. Foi muito bom você ter vindo me visitar, sobrinho. Muito bom mesmo...
— O senhor se lembra de mim, então? Sou o Leovegildo, neto da sua irmã Benevinda. Sou filho da Clovildes, filha da vó Benevinda...
— Ora, é claro! Da Clovildes, filha da Benevinda...

* * *

Nesse momento, o susto do diretor e de Andrade só não foi maior do que o do prisioneiro:
Crânio levantava-se e estendia a mão para o velho, com um sorriso triunfante!
— Doutor Q.I., eu presumo!

* * *

O velho levantou-se de repente, abandonando o porte encurvado. Parecia vinte anos mais moço: 
— O quê?!
Com um gesto rápido, Crânio estendeu a mão para o velho e agarrou-lhe o rosto. Algemado, o homem deu um tranco para trás.
Na mão do garoto ficou um pedaço arrancado da cara do velho, como se pele e carne se desgrudassem da caveira.
Mas não era carne nem pele. Era um pedaço de uma máscara plástica!
— Ãhn? Me largue!
Recuando, Crânio arrancou o bigode nascente que Calú havia cuidadosamente lhe colado sob o nariz, tirou o velho paletó com enchimentos, o boné, e sorriu:
— Lembra-se de mim, Doutor Q.I.?
— Você! Maldito!
Ainda com pedaços da máscara colados na cara, o aspecto do homem era assustador. Mas sua expressão de ódio era pior ainda. — Maldito!
— Que decepção, Doutor Q.I.! — ria-se Crânio. — Eu acabei de inventar esses nomes todos! E o senhor caiu como um patinho... Se fosse quem está representando ser, o senhor tinha de estranhar o que eu estava dizendo, tinha de negar conhecer qualquer Leovegildo, qualquer Benevinda e qualquer Clovildes!
Da porta de comunicação com a sala escura ao lado, surgiram Magrí, Miguel, Calú, o diretor, Andrade, a intérprete e os dois agentes do FBI, enquanto os dois guardas que haviam trazido o velho tratavam de segurá-lo pelos braços.
— Vocês! ! Ah, não! Vocês todos de novo! Não! Não!
Enquanto os guardas o levavam, podia-se ainda ouvir os gritos do Doutor Q.I.:
— Eu vou conseguir sair daqui! Vocês não perdem por esperar! Eu ainda vou me vingar! Vou me vingar!

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!