24 de fevereiro de 2018

Capítulo 17

Voei para casa no dia 22 de dezembro, carregada de presentes e usando meu novo casaco vintage com estampa de zebra — que, como mais tarde eu viria a descobrir, foi estranhamente afetado pelo ar reciclado no 767 e, quando cheguei ao Heathrow, passou a feder feito uma carcaça.
Na verdade, era para eu ter pegado o avião só na véspera do Natal, mas Agnes insistira para que eu viajasse antes, já que ela decidira ir à Polônia para ver a mãe, que não estava bem — por isso não havia por que eu ficar em Nova York sem ter o que fazer quando poderia estar com a minha família. O Sr. Gopnik pagou a taxa de remarcação de voo. Agnes havia ficado ao mesmo tempo extremamente gentil e distante desde o jantar do Dia de Ação de Graças. De minha parte, fui profissional e receptiva. Às vezes, minha cabeça ficava rodando com tantas informações. Mas então pensava no que Garry me dissera no outono, quando cheguei: Não veja nada, não ouça nada, esqueça tudo.
Algo mudou com a proximidade do Natal. O meu humor ficou mais leve. Talvez eu estivesse apenas aliviada por sair daquele lar disfuncional. Ou quem sabe o ato de comprar presentes de Natal tivesse ressuscitado o senso de diversão no meu relacionamento com Sam. Afinal, fazia muito tempo que eu não tinha um namorado para quem comprar presentes de Natal. Nos dois últimos anos do nosso relacionamento, Patrick simplesmente me mandava e-mails com links para equipamentos de ginástica específicos que ele queria. Não precisa embrulhar, gata, para o caso de você comprar errado e eu ter que trocar. Tudo o que eu fazia era clicar em um botão. Eu nunca havia passado o Natal com Will. Dessa vez, fui às compras lado a lado com outros clientes na Saks, tentando imaginar meu namorado nos blusões de caxemira, encostando o rosto neles, as camisas xadrez macias que ele gostava de usar no jardim, meias grossas da REI.
Comprei brinquedos para Thom, ficando ligadona de açúcar com o cheiro da loja da M&M na Times Square. Comprei artigos de papelaria para Treena na McNally Jackson e um lindo roupão de banho para o vovô na Macy’s.
Empolgada, tendo gastado tão pouco nos meses anteriores, comprei uma pulseirinha da Tiffany para a mamãe e um rádio para o papai usar na cabana. E então, de última hora, comprei uma meia natalina para Sam e a enchi de presentinhos: loção pós-barba, chicletes diferentes, meias e um porta-cerveja no formato de uma mulher de calça jeans bem justa. Finalmente, fui à loja de brinquedos onde comprara os presentes de Thom e saí com alguns móveis de casa de boneca — uma cama, uma mesa com cadeiras, um sofá e um banheiro. Embrulhei tudo e escrevi na etiqueta: Até a verdadeira estar pronta. Também achei um kit médico minúsculo e o incluí, encantada com a riqueza de detalhes.
De repente, o Natal pareceu real e empolgante, e a perspectiva de quase dez dias longe dos Gopnik e da cidade também pareceu um presente.

* * *

Cheguei ao aeroporto, rezando para que os presentes não ultrapassassem o limite de peso da bagagem. A mulher no balcão de check-in pegou meu passaporte, pediu que eu colocasse a mala na balança e franziu a testa ao olhar para a tela.
— Algum problema? — perguntei, quando ela olhou meu passaporte e depois para trás.
Calculei de cabeça quanto teria que pagar pelo peso extra.
— Ah, nenhum, senhora. É que a senhora não deveria estar nesta fila.
— Você está brincando — falei, sentindo o coração ficar apertado ao olhar para as filas que só aumentavam atrás de mim.
— E em qual fila eu deveria estar?
— A senhora está na classe executiva.
— Executiva?
— Sim. A senhora ganhou um upgrade. Deveria ter feito o check-in lá. Mas não tem problema, posso fazer por aqui também.
Fiz que não com a cabeça.
— Ah, acho que não. Eu...
E então meu celular apitou. Olhei para a tela.

Você deve estar no aeroporto agora! Espero que isso torne a sua viagem para casa um pouco mais agradável. Um presentinho de Agnes. Nos vemos no Ano-Novo, colega! Bj, Michael

Pisquei.
— Está bem. Obrigada.
Observei minha mala imensa desaparecer na esteira e guardei o celular na bolsa.

* * *

Mesmo com o aeroporto lotado, tudo estava tranquilo e silencioso na classe executiva do avião, um pequeno oásis de presunção coletiva à parte do caos relacionado às festas de fim de ano do lado de fora. A bordo, fuxiquei meu nécessaire de cortesia para passar a noite, calcei as meias do kit e tentei não tagarelar com o homem na poltrona ao lado, que acabou colocando a máscara nos olhos e se deitando. Tive apenas um imprevisto com o assento reclinável, pois meu sapato ficou preso no apoio para pés, mas a comissária foi um amor e me mostrou como tirá-lo. Jantei pato com molho de xerez e torta de limão e agradeci a cada um dos tripulantes que me levaram alguma coisa. Assisti a dois filmes e me dei conta de que seria melhor tentar dormir um pouco. No entanto, era difícil dormir com toda a experiência sendo tão prazerosa. Era exatamente o tipo de coisa sobre a qual eu contaria para o pessoal de casa, só que, pensei, sentindo um friozinho na barriga, agora eu poderia contar a todos pessoalmente.
A mulher que estava voltando para casa era uma Louisa Clark diferente. Foi isso que Sam me disse, e decidi acreditar. Eu me tornara mais confiante, mais profissional, muito distante da pessoa triste, confusa e fisicamente abalada de seis meses antes. Imaginei a expressão de Sam quando eu o surpreendesse, assim como ele havia me surpreendido. Ele tinha me mandado uma cópia da rota dele pelos próximos quinze dias, para eu poder planejar as visitas aos meus pais, e de acordo com meus cálculos eu poderia deixar as minhas coisas em casa, passar algumas horas com a minha irmã, depois ir ao apartamento dele e ficar por lá para recebê-lo quando terminasse seu turno.
Eu achava que dessa vez faríamos a coisa do jeito certo. Tínhamos um tempo decente para ficarmos juntos. E entraríamos em uma rotina — uma maneira de existir sem traumas ou mal-entendidos. Os primeiros três meses sempre seriam os mais difíceis. Eu me cobri com o cobertor e, já tendo percorrido boa parte do Atlântico, tentei em vão dormir, com um nó no estômago e a cabeça zumbindo enquanto observava o aviãozinho piscando deslizar lentamente pela tela pixelada.

* * *

Cheguei ao meu prédio logo depois do almoço e entrei em casa após me atrapalhar um pouco com as chaves. Treena estava no trabalho, Thom, ainda na escola, e o tom cinza de Londres era permeado por luzes piscantes de Natal e pelo som das lojas tocando canções natalinas que eu já havia escutado um milhão de vezes. Subi a escada do prédio, sentindo o cheiro familiar de aromatizador de ambiente barato e da umidade londrina. Então abri a porta da frente, larguei logo a mala no chão e suspirei.
Meu lar. Ou coisa parecida.
Tirei o casaco no hall e entrei na sala de estar. Eu estava com um pouco de medo de voltar ali — lembrando-me dos meses que passei afundada na depressão, bebendo demais, os cômodos vazios e largados funcionando como uma censura autoinfligida pelo meu fracasso em salvar o homem que havia me proporcionado o apartamento. Mas na hora me dei conta de que aquele não era o mesmo apartamento: em três meses, ele fora totalmente transformado. O interior antes vazio agora estava repleto de cores, com pinturas de Thom coladas em todas as paredes. Havia almofadas bordadas no sofá, uma nova poltrona estofada, cortinas e uma estante cheia de DVDs. A cozinha estava repleta de pacotes de comida e louça de cerâmica nova. Uma tigela de cereal e uma caixa de Coco Pops em cima de um jogo americano de arco-íris denunciavam o abandono de um café da manhã apressado.
Abri a porta do quarto de hóspedes — agora de Thom — e sorri ao ver os pôsteres de futebol e o edredom com estampa de desenho animado. Um guarda-roupa novo estava abarrotado de roupas dele. Então, fui ao meu quarto — agora de Treena — e encontrei uma colcha amarrotada, uma nova estante de livros e persianas. Ainda não tinha muitas roupas, porém ela havia acrescentado uma cadeira e um espelho, e a pequena penteadeira estava coberta com hidratantes, cosméticos e escovas de cabelo, o que revelou que minha irmã realmente devia ter mudado muito nos poucos meses em que eu estive fora. As leituras de cabeceira eram a única coisa que deixava claro que aquele era o quarto de Treena: Subsídios de capital de Tolley Introdução à folha de pagamento.
Eu sabia que estava cansadíssima, mas me sentia péssima mesmo assim. Era desse jeito que Sam estava se sentindo quando chegou a Nova York e me viu pela segunda vez? Eu havia parecido ao mesmo tempo uma conhecida e uma desconhecida?
Meus olhos estavam ardendo de cansaço, e meu relógio interno, bagunçado. Ainda faltavam três horas para eles voltarem para casa. Lavei o rosto, tirei os sapatos e me deitei no sofá, suspirando com o barulho do trânsito de Londres se distanciando aos poucos.

* * *

Acordei com uma mão grudenta dando tapinhas no meu rosto. Pisquei, tentando afastá-la, mas havia um peso sobre o meu peito. Ele se mexeu. Uma mão me deu tapinhas de novo. Então abri os olhos e encarei Thom.
— Titia Lou! Titia Lou!
— Oi, Thom — resmunguei.
— O que você trouxe para mim?
— Deixe sua tia pelo menos abrir os olhos primeiro.
— Você está em cima do meu peito, Thom. Ai.
Liberta, eu me endireitei e pisquei para meu sobrinho, que estava saltitando no lugar.
— O que você trouxe para mim?
Minha irmã se abaixou e me deu um beijo no rosto, depois apertou meu ombro. Cheirava a perfume caro, e eu recuei um pouco para observá-la melhor.
Estava maquiada — uma maquiagem adequada, sutil, em vez do único delineador azul que ela havia ganhado de brinde em uma revista em 1994 e guardado na gaveta para ser usado em todas as ocasiões que pediam uma “produção” pelos dez anos seguintes.
— Então você conseguiu. Não pegou o avião errado e foi parar em Caracas. O papai e eu fizemos uma aposta.
— Olhe só. — Levantei o braço e segurei a mão dela por uns segundos a mais do que nós duas esperaríamos. — Nossa. Você está bonita.
E estava mesmo. Treena havia cortado o cabelo na altura do ombro e o tinha escovado e deixado solto, em vez de usá-lo preso no habitual rabo de cavalo. Isso, somado à camisa bem-cortada e o rímel, realmente a deixava muito bonita.
— Olha, é por causa do trabalho, na verdade. A gente tem que se forçar a andar arrumada aqui na City.
Como Treena se virou ao dizer isso, eu não acreditei nela.
— Acho que preciso conhecer esse tal de Eddie — brinquei. — Eu nunca consegui influenciar dessa forma a maneira como você se arruma.
Ela encheu a chaleira e acendeu o fogo.
— Isso porque você só se veste como se tivesse ganhado um voucher de duas libras para um bazar e tivesse comprado logo tudo.
Estava escurecendo lá fora. De repente, meu cérebro atordoado com o jet lag registrou o que isso queria dizer.
— Ah, nossa. Que horas são?
— Hora de você me dar os presentes?
O sorriso banguela de Thom surgiu diante de mim, com as mãos postas em oração.
— Está tudo bem — respondeu Treena. — Você ainda tem uma hora até Sam sair do trabalho. Thom, a Lou vai dar o que trouxe para você assim que tomar uma xícara de chá e encontrar o desodorante. Ah, e que diabo é aquele casaco listrado que você deixou no hall? Está fedendo a peixe podre.
Agora sim eu estava em casa.
— Está bem, Thom — falei. — Deve ter alguns presentinhos pré-Natal para você naquela bolsa azul. Traga até aqui.

* * *

Precisei tomar banho e me maquiar para me sentir humana de novo. Vesti uma minissaia prateada, uma camisa polo preta e sapato de camurça anabela que comprara no brechó, a echarpe Biba da Sra. De Witt e uma borrifada do La Chasse aux Papillons — o perfume que Will me convencera a comprar e que sempre me dava confiança. Thom e Treena estavam jantando quando fiquei pronta. Ela me ofereceu um pouco de macarrão com queijo e tomate, porém meu estômago começou a embrulhar, e meu relógio interno estava bagunçado.
— Gostei do que você fez nos olhos. Ficou muito sedutor — falei para Treena, que reagiu com uma careta.
— Você está bem para dirigir? É que você não está enxergando direito.
— Não é longe. E eu tirei um cochilo e tanto.
— E quando você deve estar de volta? Este novo sofá-cama é incrível, caso você esteja se perguntando. Colchão de mola. Nada da sua porcaria de cinco centímetros de espuma.
— Espero não precisar usar o sofá-cama por um ou dois dias — respondi, dando um sorriso malicioso.
— O que é isso? — perguntou Thom, depois de engolir o que estava mastigando e apontando para o pacote embaixo do meu braço.
— Ah. É uma meia de Natal. O Sam vai trabalhar no dia do Natal, então só vou vê-lo à noite. Por isso pensei em dar logo um presente para ele poder abrir na hora em que acordar.
— Humm. Não peça para ver o que tem ali dentro, Thom.
— Não tem nada que eu não poderia dar ao vovô. São só umas coisinhas divertidas.
Treena piscou para mim. E silenciosamente agradeci a Eddie e seus milagres.
— Depois me manda uma mensagem, ok? Só para eu saber se coloco a trava na porta.
Dei um beijo nos dois e segui para a porta da frente.
— Não vá assustá-lo com o seu terrível sotaque americano capenga!
Mostrei o dedo do meio ao sair do apartamento.
— E não se esqueça de dirigir pela esquerda! E não use o casaco que fede a bacalhau!
Ouvi a risada dela ao fechar a porta.

* * *

Nos últimos três meses, eu havia andado a pé, pegado táxi ou sido levada por Garry na imensa limusine preta. Me acostumar a ficar atrás do volante do meu pequeno carro hatch com o câmbio duvidoso e migalhas de biscoito no banco do carona exigiu uma concentração surpreendente. Peguei o final do trânsito da hora do rush, liguei o rádio e tentei ignorar o coração batendo forte, sem saber se era pelo medo de dirigir ou pela perspectiva de ver Sam novamente.
O céu estava escuro, as ruas, cheias de pessoas fazendo compras e iluminadas por luzinhas de Natal, e meus ombros aos poucos começaram a murchar enquanto eu freava e acelerava a caminho do subúrbio. A largura das calçadas diminuiu e a multidão desapareceu, com poucas pessoas olhando por janelas iluminadas enquanto eu passava. E então, pouco depois das oito, diminuí bem a velocidade, espiando por cima do volante para ver se estava na altura certa da rua escura.
O vagão brilhava no meio do campo escuro, lançando uma luz dourada através das janelas sobre a lama e o gramado. Vislumbrei a moto dele na outra ponta do portão, sob o abrigo atrás da cerca. Havia até algumas luzinhas de Natal no espinheiro da frente. Sam já tinha chegado em casa.
Parei o carro, desliguei os faróis e fiquei olhando. Então, num ímpeto, peguei o celular. Muito ansiosa para ver você, digitei. Falta pouco agora! Bj
Depois de alguns segundos veio a resposta: Eu também. Bom voo. Bj
Sorri. Então saí do carro, percebendo tarde demais que havia estacionado em uma poça, por isso a água fria e lamacenta entrou no meu sapato.
— Ah, valeu, universo — sussurrei. — Belo toque.
Coloquei meu chapéu de Papai Noel escolhido com esmero e peguei a meia de Sam no banco do carona, então fechei a porta devagarzinho, trancando-a manualmente para não fazer o barulho do alarme e denunciar que eu já havia chegado.
Meus passos fizeram barulho enquanto caminhei na ponta dos pés pela lama, e me lembrei da primeira vez que estivera ali — eu fiquei ensopada por causa de uma tromba d’água e acabei usando as roupas dele, deixando as minhas para secar no banheirinho abafado. Aquela foi uma noite extraordinária, como se ele tivesse retirado toda as camadas que a morte de Will havia criado ao meu redor.
Tive um flashback do nosso primeiro beijo, da sensação das imensas meias dele nos meus pés gelados, e um arrepio quente percorreu meu corpo.
Abri o portão, percebendo, aliviada, que ele havia feito um caminho rudimentar de lajes de pavimento até o vagão desde a última vez que eu estivera ali. Um carro passou por mim e, com a breve iluminação dos faróis, vi a casa parcialmente construída de Sam à minha frente, agora com o telhado e algumas janelas já instalados. Onde ainda faltava uma janela, uma lona azul se mexia de leve na abertura, de modo que a casa, de forma repentina e espantosa, parecia algo real. Um lugar onde poderíamos morar um dia.
Dei mais alguns passos na ponta dos pés e então parei perto da porta. Por uma janela aberta senti um cheiro intenso de comida — seria um cozido? —, de tomate com um toque de alho. Fiquei inesperadamente com fome. Sam nunca comia macarrão de pacote ou feijão enlatado: tudo era preparado do zero, como se ele tivesse prazer em fazer as coisas metodicamente. Aí eu o vi — ainda de uniforme —, com um pano de prato pendurado no ombro, parando para conferir uma panela e, por apenas um instante, eu fiquei ali parada no escuro, sem ser vista, e me senti absolutamente tranquila. Ouvi a brisa distante nas árvores, o cocoricar baixinho das galinhas trancadas no galinheiro, o zumbido longínquo do tráfego em direção à cidade. Senti o ar fresco na pele e o sabor da expectativa natalina no ar que eu respirava.
Tudo era possível. Era o que eu tinha aprendido naqueles últimos meses. A vida podia ter sido complicada, porém, no fim, éramos apenas eu e o homem que eu amava, o vagão dele e a perspectiva de uma noite divertida. Respirei fundo, me permitindo saborear o pensamento, dei um passo à frente e coloquei a mão na maçaneta da porta.
E então eu a vi.
Ela atravessou o vagão dizendo algo que não entendi, a voz abafada pelos vidros, o cabelo preso para cima, os cachos macios caindo ao redor do rosto. Ela estava usando uma camiseta masculina — dele? — e com uma garrafa de vinho na mão, eu vi Sam balançando a cabeça. E então, quando ele se inclinou sobre o fogão, ela se aproximou por trás e colocou as mãos em seu pescoço, se inclinando na direção dele e esfregando os músculos com os polegares, um movimento que parecia uma consequência da intimidade. As unhas dos polegares dela tinham sido pintadas de rosa-escuro. Enquanto eu estava parada ali, sem ar, ele jogou a cabeça para trás, com os olhos fechados, como que se rendendo às mãozinhas intensas dela.
E então ele se virou para encará-la, sorrindo, com a cabeça inclinada, e ela recuou, dando risada, erguendo a taça para ele.
Não vi mais nada. Meu coração estava batendo tão forte nos meus ouvidos que achei que fosse desmaiar. Cambaleei para trás, então me virei e voltei correndo pelo caminho, ofegante e com os pés gelados nos sapatos molhados.
Embora meu carro estivesse a uns cinquenta metros de distância, escutei a risada repentina dela ecoar através da janela aberta, como vidro estilhaçando.

* * *

Fiquei dentro do carro no estacionamento atrás do meu prédio até ter certeza de que Thom já tinha ido dormir. Eu não conseguiria esconder o que estava sentindo e não suportaria explicar a situação a Treena na frente dele. Olhei para cima algumas vezes, vendo a luz do quarto dele se acender e, então, meia hora mais tarde, ser apagada. Desliguei o motor e deixei que parasse de fazer barulho. Enquanto ele morria, o mesmo acontecia com todos os sonhos a que eu vinha me apegando.
Eu não deveria estar surpresa. Por que estaria? Katie Ingram havia colocado as cartas na mesa desde o início. O que me chocou foi a cumplicidade de Sam.
Ele não a havia dispensado. Ele tinha respondido a minha mensagem e depois cozinhado para ela e a deixado massagear seu pescoço, e isso era uma preparação para... para o quê?
Toda vez que imaginava os dois juntos, meu estômago se revirava, meu corpo se curvava, como se tivesse levado um soco. Eu não conseguia esquecer aquela imagem. A maneira como ele inclinou a cabeça com a pressão dos dedos dela. A risada dela confiante, provocadora, como se aquela fosse uma piada interna dos dois.
O mais estranho era eu não conseguir chorar. O que estava sentindo era maior do que dor. Eu estava entorpecida, com a cabeça zumbindo de perguntas — Há quanto tempo? Até que ponto? Por quê? —, e então me curvava de novo, querendo vomitar, pensando naquela nova informação, naquele golpe pesado, naquela dor, naquela dor, naquela dor.
Não sei bem por quanto tempo fiquei ali sentada, mas, por volta das dez da noite, subi devagar a escada e entrei no apartamento. Tinha esperança de Treena já estar dormindo, porém ela estava assistindo ao noticiário de pijama, com o laptop no colo. Estava sorrindo para a tela e levou um baita susto quando abri a porta.
— Meu Deus, você quase me matou de susto... Lou? — perguntou ela, empurrando o laptop para o lado. — Lou? Ah, não...
É sempre a gentileza que acaba com a gente. Minha irmã, uma mulher que considerava o contato físico entre adultos algo mais desconfortável do que um tratamento dentário, me envolveu com os braços e, de algum lugar inesperado que parecia estar no fundo de mim, brotaram soluços e lágrimas imensos, sem fôlego e pesados. Chorei de um jeito que não chorava desde a morte de Will, soluços que continham a morte dos sonhos e o pavor da mágoa que eu encararia pelos próximos meses. Afundamos lentamente no sofá, e eu enterrei o rosto no ombro dela e a abracei. Dessa vez, minha irmã encostou a cabeça na minha e não me soltou.

12 comentários:

  1. Mas Sam seria tão cara de pau assim? Mandando a mensagem pra ela, sabendo que ela estava vindo, e com Katie ainda aí? Talvez Lou tenha interpretado errado, não sei...

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    1. Pelo que eu entendi Madallyn, ele achava que ela ia chegar no outro dia, pq ela queria fazer uma surpresa a ele.

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  2. Haaa tendo interpretado mal ow n, ninguem gostaria de ver o namoraro assim c outra...
    N eu pelo menos

    Eríneas Graças

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    1. Eu tô me sentindo assim ela pelo menos nem amiga do josh e ela deixou isso claro pra ele mas essa Katie usando a blusa dele toda essa seninha eu não iria gostar eu teria fica possessa da vida

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  3. aiii, que raiva do Sam.

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  4. Eu teria descido o barraco na hora!!! Para no minimo ele se sentir muito mal! Se ela estivesse de intimidade com outro ele nao ia gostar!

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  5. Exatamente, tendo interpretado mal ou não a situação, ver o namorado sendo massageado por outra enquanto cozinha para os dois é dose! Meu estômago tá revirando de raiva dele.
    Eu teria entrado, gritado e saído da forma mais dramática possível do vagão dele.

    Mari Matias

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  6. Nao acrediteiiii!!! Eu teria ficado e esperado sair o beijo e entraria no vagao na hora certa. Ela saiu sem mtas provas... ele pode querer contornar a situação. Aí que raiva de San!

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    1. Eu esperaria ver se rola um bj,se não rolasse entrava lá e faziam passar uma vergonha. Se por acaso rolasse bj entrava lá e rodava a baiana com ele.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!