20 de fevereiro de 2018

Capítulo 17

O momento se prolongou, tão longo e frágil quanto uma teia sedosa de aranha soprada e esticada no vento, mais longo, impossível. Os olhos de Sven se encheram de água. Tavish olhou para baixo. Orrin e Jeb trocaram um olhar de relance, sabendo o que tinha acontecido. Até mesmo Kaden e Griz ficaram paralisados no lugar, como se não estivessem certos de que haviam entendido o que as palavras do capitão queriam dizer. Os jovens soldados, um de cada lado do capitão, pareciam confusos. Nem mesmo eles sabiam daquilo. Uma dor feroz se apossou do meu coração enquanto todo mundo esperava para ver o que Rafe faria. Um momento cruel – mas que era dele e somente dele para nele pôr um fim.
Majestade.
Eu só conseguia ver um quarto do rosto de Rafe, mas era o bastante. Ele estava com o olhar fixo voltado para o capitão, como se não o estivesse vendo de fato. Apenas o cerrar do seu maxilar, ainda marcado com faixas de terra e sangue, revelava alguma coisa. E o lento curvar da sua mão em punho. Todos os gestos pequenos e controlados me diziam que a notícia o atingira em cheio, mas ele fora bem-treinado. Preparado. Sven provavelmente o vinha preparando para este momento desde que era criança. Rafe faria o que fosse exigido dele, exatamente como fizera quando viera a Morrighan para se casar comigo. Depois de duas respirações calculadas, ele assentiu para o capitão.
— Então você cumpriu com o seu dever.
Um príncipe, na virada de um momento e com umas poucas palavras, agora era um rei.
Rafe fez um movimento para que o capitão se erguesse e perguntou, baixinho:
— Quando?
Foi nesse instante que Sven colocou uma das mãos no ombro de Rafe.
O capitão ficou hesitante, olhando para o restante de nós, não sabendo ao certo se poderia falar livremente.
Rafe olhou para Kaden e Griz e depois pediu que Tavish e Orrin os levassem para dar uma volta. Eles podiam ter confiado uma espada a eles, mas não confiariam os segredos de um reino.
A morte do rei ocorrera havia semanas, explicou o capitão, apenas uns poucos dias depois que a rainha falecera. A corte interna estava em polvorosa, e fora decidido que o passamento do rei seria mantido em segredo. Sem uma pessoa no trono e com o príncipe da coroa desaparecido, o gabinete queria segurar a notícia, não deixando que os reinos vizinhos soubessem que Dalbreck estava sem um monarca.
Eles explicaram a falta do aparecimento em público do rei como luto pela rainha. Os ministros do gabinete governavam com discrição enquanto uma busca desesperada pelo príncipe tinha sido empreendida. Com seus altos oficiais também desaparecidos, eles presumiam que ele estivesse vivo, mas preso em uma retaliação não autorizada, ainda que merecida, contra Morrighan. O reino inteiro estava enfurecido com a quebra do contrato, e eles queriam vingança. Quando fizeram uma busca no escritório de Sven, encontraram mensagens enviadas do príncipe para Sven sobre uma reunião em Luiseveque, mas não conseguiram achar algo além de ordens de Sven para que Tavish, Orrin e Jeb também se encontrassem com eles lá. Temiam que todos tivessem sido encontrados e jogados em uma das prisões de Morrighan. No entanto, investigações cuidadosas não tiveram resultados. Era como se todos eles tivessem desaparecido em pleno ar, mas a esperança nunca foi perdida. Suas habilidades eram conhecidas.
Quando o capitão terminou de falar, foi a vez de Rafe se explicar.
— Vou atualizá-lo quanto ao que aconteceu enquanto cavalgamos — Rafe disse a ele, informando que estávamos cansados, com fome e que alguns de nós precisavam de cuidados médicos.
— E aqueles dois? — perguntou-lhe o capitão, assentindo em direção a Griz e Kaden ao longe.
O canto da boca de Rafe se repuxou. Fiquei tensa, esperando para ver como ele iria se referir a eles. Bárbaros? Prisioneiros? Ele mesmo parecia incerto quanto a isso. Rezei para que não dissesse nem Rahtan, nem Assassino.
— Vendanos — foi a resposta dele. — Em quem podemos confiar com moderação, por ora. Manteremos uma guarda atenta neles.
Confiar com moderação? Eles tinham acabado de salvar nossas vidas! Pela segunda vez. Mas eu sabia que os dois não tinham feito isso por causa de Rafe nem de Dalbreck. Fizeram apenas por mim. Então, relutante, eu compreendi a cautela.
A expressão do capitão ficou endurecida, e uma linha profunda se assomou entre as suas sobrancelhas.
— Um pelotão seu está desaparecido há semanas. Nós estivemos caçando homens como...
— Esse pelotão está morto — disse Rafe, sem rodeios. — Todos eles. Vi as suas armas e os seus objetos de valor cheios de sangue serem levados para o Komizar. Aqueles dois não estiveram envolvidos nisso. Como falei, explicarei enquanto cavalgamos.
O capitão ficou pálido. Um pelotão inteiro, morto? Mas ele não fez outro comentário, aquiescendo ao desejo de Rafe de explicar tudo conforme cavalgassem. Ele desferiu um olhar de esguelha para mim, mas foi educado demais e não perguntou quem eu era. Certamente ele havia me visto cavalgando na frente de Rafe no seu cavalo e provavelmente presumia alguma coisa desagradável. Eu não queria envergonhar Rafe ou o capitão com a verdade a essa altura dos acontecimentos. Todos nós tínhamos ouvido o que ele dissera sobre a raiva que ainda nutriam em relação a Morrighan, mas, quando o capitão voltou para o seu cavalo, os soldados dele também me olharam com curiosidade. Com o que restava do meu vestido de clã, e com a pele ainda manchada de sangue, certamente eu parecia uma bárbara selvagem aos olhos deles. Que diabos estaria seu rei fazendo ao cavalgar comigo?
Os olhares trocados de relance não escaparam a Rafe, que baixou os olhos e balançou a cabeça.
Sim, ele tinha muito a explicar.

* * *

Não consegui sequer um momento que fosse para abraçar Rafe. Para dizer a ele o quanto eu sentia. Para expressar qualquer forma de tristeza. A escolta foi retomada de imediato. Talvez fosse bom para Rafe ter uma oportunidade de absorver essa notícia sem que palavras minhas agitassem ainda mais as emoções dele.
Eu encontrara o pai dele certa vez. Por um breve momento. Ele era um velho que subia pelos degraus da cidadela, mancando enquanto andava, precisando de ajuda. Aquela visão havia feito com que o terror pulsasse por mim. Ele era velho o bastante para ser pai do meu pai. Eu presumira o pior em relação à idade do príncipe, embora soubesse agora que não teria me importado o quão velho ou jovem fosse o rei de Dalbreck.
Meu terror estava enraizado na realidade desse homem chegando em Civica para assinar os contratos de casamento. Ao vê-lo, vi minhas escolhas esmagadas, minha voz sendo silenciada para sempre em um reino estranho do qual eu pouco sabia. Eu era uma propriedade a ser trocada de mãos como uma carroça cheia de vinho, embora talvez fosse menos preciosa e certamente bem menos apreciada. Cale-se, Arabella, o que você tem a dizer não importa.
Eu sabia que esse rei precisava ter alguma qualidade que o redimisse para que Rafe o amasse e para que Sven ficasse arrasado com a notícia, mas eu não conseguia esquecer que esse rei também tinha dito a seu filho: Arrume uma amante depois do casamento se ela não for adequada para você. Somente em nome de Rafe eu podia vivenciar o luto pela morte dele.
Com trinta soldados nos escoltando agora, eu havia sugerido que cavalgasse sozinha no meu próprio cavalo bem atrás da nossa caravana. Sei que a cavalgada seria mais confortável para todos os envolvidos se eu não estivesse lá enquanto Rafe e Sven tentavam explicar onde estiveram pelos últimos meses. Qual seria o tamanho da raiva de Dalbreck sendo eu a causa do desaparecimento do seu príncipe? Eu já tinha ouvido o tom com que o capitão dissera Morrighan, como se fosse um veneno a ser cuspido.
O vento ficou mais forte, fresco e revigorante. Eu sentia falta do calor de Rafe nas minhas costas, o conforto dos seus braços em mim, o cutucão de seu queixo na lateral da minha cabeça. Meus cabelos fediam a óleo, fumaça e terra, e até mesmo ao rio que quase havia matado nós dois, e ainda assim Rafe havia colocado o nariz neles, como se cheirasse a flores, como se ele não se importasse se eu fosse ou tivesse sido uma princesa adequada.
— Rafe parecia chocado. Presumo que a saúde do rei fosse uma das mentiras dele também, não?
Eu não havia notado que Kaden se aproximara até ficar ao meu lado. Provavelmente ele vinha mantendo um registro das mentiras desde que eu o deixara lá no terraço.
Olhei para ele, cujos ombros estavam caídos. Kaden estava exausto. No entanto, o cansaço que vi nos seus olhos tinha origem em algum outro lugar, de palavras que haviam arrancado pedaços da carne dele, um dia calculado atrás do outro. Palavras minhas. Lutei para pensar em uma defesa, mas não havia mais raiva na expressão dele, e isso me deixou um vazio. Não me dava algo contra o que me opor. Eu não tinha mais peças daquele jogo para jogar.
— Sinto muito, Kaden.
Ele ergueu o lábio em uma expressão dolorida, e balançou a cabeça, como se para dispensar mais pedidos de desculpas vindos de mim.
— Eu tive tempo para pensar a respeito — disse ele. — Não existe nenhum motivo pelo qual eu deveria ter esperado a verdade de você. Não quando fui eu que menti e a traí primeiro, lá em Terravin.
Isso era verdade. Ele havia mentido e me traído. No entanto, de alguma forma, minha mentira parecia ser um crime maior. Eu havia brincado com a necessidade que Kaden tinha de ser amado. Eu o havia escutado, empática, enquanto ele me contava os seus segredos mais profundos e dolorosos, os quais ele nunca partilhara com ninguém. Ele permitiu que eu entrasse em uma parte profunda da sua alma, e usei isso para ganhar a confiança dele.
Soltei um suspiro, fraca demais para separar as culpas como se fossem fichas em um jogo de cartas. Importava se a minha pilha fosse maior que a dele?
— Isso foi uma vida atrás, Kaden. Nós dois éramos pessoas diferentes na época. Nós dois usávamos mentiras e a verdade para os nossos próprios propósitos.
— E agora?
Eu o vi estirando para mim, hesitante, a verdade, um tratado escrito no ar entre nós. Seria a verdade até mesmo possível? Eu não sabia mais ao certo o que era a verdade, nem se agora seria hora para ela.
— O que você quer, Kaden? Nem mesmo sei ao certo por que você está aqui.
Seus cabelos loiros eram chicoteados ao vento. Ele apertou os olhos para olhar o longe, mas nenhuma palavra vinha. Eu vi a luta, sua busca pela falsa calma que ele sempre estampava no rosto. Calma esta que estava fora do seu alcance agora.
— Foi você quem propôs a verdade — falei a Kaden, lembrando-o.
Um sorriso cheio de angústia repuxou a boca dele.
— Durante todos aqueles anos... Eu não queria ver o Komizar como ele realmente era. O Komizar me salvou de um monstro, e eu me tornei tão compulsivo quanto ele. Eu estava pronto para fazer com que um reino inteiro pagasse pelos pecados do meu pai... um homem que eu não via há mais de uma década. Passei metade da minha vida esperando pelo dia em que ele morreria. Bloqueei a bondade de todas as pessoas de Morrighan que já conheci, dizendo que não importava. Que era o custo da guerra. Minha guerra. Nada mais importava.
— Se você o odiava tanto assim, por que simplesmente não matou seu pai há muito tempo? Você é um assassino. Para você, essa teria sido uma tarefa fácil.
Ele pigarreou e apertou a mão nas rédeas.
— Porque não era o bastante. Toda vez que eu imaginava minha faca cortando a garganta dele, isso não me dava aquilo que eu precisava. A morte era uma coisa rápida demais. Quanto mais tempo eu planejava o grande dia, mais eu queria. Eu queria que ele sofresse. Que soubesse. Eu queria que ele visse tudo que havia me negado morrer de mil maneiras diferentes, devagar, agonizando dia após dia da forma como havia acontecido comigo quando eu pedia esmola nas esquinas das ruas, aterrorizado com a possibilidade de que não fosse trazer o suficiente para satisfazer os animais a quem ele havia me vendido. Eu queria que ele sentisse isso de forma tão pungente quanto senti quando ele me chicoteou.
— Você disse que tinha sido os mendigos.
— Sim, foram eles, mas apenas depois que ele deixara as primeiras marcas, e aquelas foram as mais profundas.
Eu me encolhi ao ouvir as crueldades que ele havia sofrido, mas o horror pelo quão longamente ele planejara e ansiara por vingança deixava um nó na minha garganta. Engoli em seco.
— Você ainda deseja isso?
Ele assentiu sem hesitar.
— Sim, eu ainda quero que ele morra, mas agora existe outra coisa que quero até mesmo mais do que isso. — Ele se virou para ficar cara a cara comigo, com linhas de preocupação formando-se em leque em torno dos seus olhos. — Eu não quero que mais gente inocente morra. O Komizar não vai poupar ninguém, nem Pauline, nem Berdi, nem Gwyneth... ninguém. Eu não quero que elas morram, Lia... e eu não quero que você morra.
Ele olhou para mim como se já pudesse ver a palidez da morte no meu rosto.
Meu estômago se revirou. Pensei nas últimas palavras que Venda havia falado para mim, nos versos que faltavam e que alguém havia arrancado do livro: Jezelia, cuja vida será sacrificada. Eu não havia partilhado aquele verso com nenhuma pessoa. Algumas coisas precisavam ser mantidas guardadas e em segredo por ora. A verdade ainda estava bem longe para mim.
— É todo um reino que está em perigo, Kaden. Não apenas essas poucas pessoas que você conhece.
— Dois reinos. Existem inocentes em Venda também.
Meus olhos ardiam, pensando em Aster e naqueles que haviam sido assassinados na praça. Sim, dois reinos em perigo. A raiva borbulhava dentro de mim com os esquemas do Komizar e do Conselho.
— Os clãs merecem mais do que o que lhes foi dado — falei — mas uma terrível ameaça cresce em Venda, ameaça esta que tem que ser impedida. Não sei como fazer com que tudo isso dê certo, mas vou tentar.
— Então você vai precisar de ajuda. Eu não tenho nada para que voltar, Lia, não enquanto o conselho estiver no poder. E sou tão odiado quanto na minha terra natal, em Morrighan. Não posso sequer voltar para os acampamentos nômades. Se eu estiver com você...
— Kaden...
— Não faça disso mais do que é, Lia. Nós queremos a mesma coisa. Estou lhe oferecendo ajuda. Nada mais.
E havia a verdade em que Kaden estava tentando acreditar. Nada mais. Porém, eu via nos olhos dele que havia mais. Ainda havia tanta necessidade nele... Seria difícil navegar nesse caminho. Eu não queria iludi-lo nem magoá-lo de novo. Ainda assim, Kaden estava me oferecendo uma coisa que eu não podia recusar. Ajuda. E um Assassino vendano agindo em meu nome seria algo de inquestionável valor. Como eu amaria ver a reação do gabinete com isso... especialmente as reações do Chanceler e do Erudito. Nós queremos a mesma coisa.
— Então me conte o que você sabe dos planos do Komizar. Com quem mais no gabinete morrighês ele estava conspirando além do Chanceler e do Erudito Real?
Ele balançou a cabeça.
— O único de que tenho conhecimento é o Chanceler. O Komizar guardava esses detalhes para si... partilhar seus contatos essenciais cederia poder demais. ele só me contou sobre o Chanceler porque tive que entregar uma carta à mansão dele uma vez. Eu tinha treze anos e era o único vendano que sabia falar morrighês sem sotaque. Eu me parecia com qualquer outro menino mensageiro para a empregada que atendeu à porta.
— O que dizia essa carta?
— A carta estava selada. Eu não a li, mas acho que era uma solicitação por mais eruditos. Poucos meses depois, vários deles chegaram no Sanctum.
Cada vez mais eu vinha ponderando sobre quantos exatamente haviam conspirado com o Komizar além do Chanceler e do Erudito. Eu vinha pensando na morte do meu irmão e tinha certeza de que aquele não era um encontro fortuito. Para começo de conversa, o que um batalhão inteiro de vendanos estava fazendo tão longe da fronteira deles? Eles não estavam marchando para um posto avançado ou reino, e tão logo a companhia do meu irmão estava morta, eles deram a volta e retornaram para casa. Eles estavam esperando, talvez sem saberem ao certo quando o encontro ocorreria; de alguma forma, porém, eles sabiam que o pelotão do meu irmão estava a caminho. Será que alguém em Morrighan os tinha entregado? O assassinato foi planejado. Até mesmo quando me deparei com o chievdar no vale, ele, em momento algum, expressou surpresa ao se deparar com um pelotão de homens. Poderia a traição em Morrighan ter chegado até mesmo aos militares?
Um repentino e duro galopar cortou o ar subitamente. Um soldado andou em círculo com seu cavalo e parou ao meu lado.
— Madame? — A palavra estava dura na língua dele como se o homem não estivesse muito certo de como me chamar. Ele esforçou-se para manter o tom livre de insinuações. Estava óbvio que Rafe não havia contado tudo ao capitão.
— Sim?
— O rei deseja que você vá cavalgar ao lado dele. Nós já estamos quase chegando.
O rei. Essa nova realidade espancava minhas costelas. Os dias vindouros seriam difíceis para Rafe. Além de lidar com o seu pesar pelo luto, ele ainda estaria sob tanto escrutínio quanto eu. Isso poderia mudar tudo. Nossos planos. Meus planos. Não havia como nos esquivarmos disso.
Olhei de relance de volta para Kaden.
— Conversamos mais depois.
Ele assentiu, e acompanhei o soldado até a frente da caravana.

* * *

Olhei para Rafe, mas não conseguia imaginá-lo sentado em um trono. Eu podia apenas vê-lo nas costas de um cavalo, um soldado, com os cabelos beijados pelo sol e soprados pelo vento, com fogo nos olhos, intimidação no olhar e uma espada na mão. Esse era o Rafe que eu conhecia. No entanto, ele era mais do que isso agora. Era o regente de um reino poderoso, e não mais o herdeiro aparente do trono. Suas pálpebras estavam pesadas, como se todos os seus dias de sono perdido estivessem por fim tomando conta dele. Nenhum homem, nem mesmo um tão forte quanto Rafe, conseguiria ficar eternamente vivendo à base de uns punhadinhos de descanso.
O capitão cavalgava do outro lado dele, conversando com um soldado. Eu não sabia como Rafe havia explicado a longa ausência. Eu estava certa de que a maioria dos detalhes de Terravin havia sido deixada de fora. Que importância teria para um capitão uma criada de taverna servindo a um fazendeiro?
Rafe virou-se, sabendo que eu estava olhando para ele, e sorriu.
— A primeira coisa será banhos quentes para todo mundo.
Seria errado que eu desejasse um banho quente e único para nós dois? Umas poucas e abençoadas horas em que pudéssemos esquecer que o restante do mundo existia? Depois de tudo pelo que passamos, será que nós não tínhamos direito nem desse pouco? Eu estava cansada de esperar por amanhãs, por esperanças e dúvidas.
— Lá está! — ouvi Orrin dizer de algum lugar à nossa frente.
Olhei e vi a estrutura que se erguia em uma suave colina arredondada ao longe. Dois soldados galopavam à frente do nosso grupo para anunciar a nossa chegada. Esse seria um posto avançado?
— Ali é Marabella? — perguntei a Rafe.
— Não era o que você estava esperando?
Nem um pouco. Talvez algumas barricadas de madeira. Talvez uma fortificação de terra coberta com grama. Afinal de contas, esse era o Cam Lanteux, e nenhuma estrutura permanente era permitida aqui. Não se tratava apenas de um entendimento... isso fazia parte de um tratado muito antigo.
Em vez disso, o que vi foi uma estrutura de pedra com paredes brancas reluzentes, ágeis e graciosas, espalhando-se como belas asas de um cisne de uma alta torre de um portão. Conforme nos aproximávamos da estrutura, eu via vagões e tendas juntos uns dos outros em grupos do lado de fora daquelas paredes. Uma cidade em si.
— O que é aquilo tudo? — perguntei.
Rafe me explicou que o perímetro externo do posto avançado seria como um porto seguro e como um ponto de parada para mercadores a caminho de outros reinos. Nômades também buscavam refúgio perto das suas paredes, especialmente no inverno, quando os climas do norte eram duros demais, Aqui eles podiam se estabelecer nos terrenos e plantar vegetais invernais. E havia aqueles que vinham para vender mercadorias para os soldados também, oferecendo comida, bugigangas e diversões de diferentes tipos. Essa era uma cidade que estava sempre mudando, conforme os mercadores iam e vinham.
O sol ainda estava alto no céu, e a crescente extensão da parede de pedra brilhava em contraste com a terra escura, fazendo com que eu me lembrasse de alguma coisa mágica de uma história infantil. O portão se abriu, e as pessoas passavam em grandes números por ele. Nem todos eram soldados. Mais pessoas se reuniam nas paredes da torre acima, ansiosas para conseguir ver alguma coisa. As novidades haviam chegado, e provavelmente nenhum deles podia acreditar naquilo. O príncipe perdido fora encontrado. Mercadores curiosos dos vagões que estavam por perto vieram andando, mais próximos do portão, para ver do que se tratava toda aquela comoção. Uma fileira de soldados manteve as pessoas para trás, de modo que a estrada estivesse livre para que andássemos.
Parecia que, se havia alguma coisa para a qual eu estava destinada, era causar primeiras impressões pouco impressionantes e imundas. Tal coisa aconteceu na primeira vez que pus os pés na taverna de Berdi, na minha entrada no Saguão do Sanctum e hoje, encontrando os compatriotas de Rafe.
Senti meu pescoço pegajoso mais uma vez, com sujeira atrás dos lóbulos das orelhas, e desejei que pelo menos tivesse uma bacia na qual pudesse me lavar. Tentei alisar os cabelos para trás, mas meus dedos ficaram emaranhados em nós.
— Lia — disse Rafe, esticando a mão e voltando para o meu lado — estamos em casa. Estamos em segurança. Isso é tudo o que importa.
Ele lambeu o polegar e o esfregou no meu queixo, como se isso fizesse alguma diferença, e então sorriu.
— Pronto. Perfeito. Exatamente como você.
— Você borrou a minha sujeira — falei, fingindo que estava irritada.
Os olhos dele brilhavam com uma tentativa de me tranquilizar. Assenti, Sim. Estávamos em segurança... e juntos. Isso era tudo o que importava.
Exceto pelos ribombos dos cascos dos cavalos, o silêncio que reinava quando nos aproximamos. Era como se as respirações estivessem presas, todos incrédulos com o que viam, certos de que o soldado havia cometido um erro na mensagem, mas então murmúrios de reconhecimento ergueram-se, e alguém no alto da parede da torre gritou:
— Bastardos! Realmente são vocês!
Rafe sorriu, e Sven acenou. Fiquei alarmada a princípio, e depois me dei conta de que aquilo era um cumprimento, e não uma zombaria, de soldado para soldado, e não de soldado para rei. Jeb, Orrin e Tavish responderam a chamados de outros companheiros. Fiquei surpresa ao ver que havia mulheres em meio à multidão. Mulheres belamente vestidas. Mulheres que estavam um tanto boquiabertas e cujos olhares contemplativos repousavam em mim, e não no seu novo rei. Uma vez que havíamos passado pelos portões, soldados que estavam esperando para conduzir nossos cavalos tomaram nossas rédeas, e Rafe me ajudou a descer. Minha perna machucada ainda estava rígida com o primeiro passo, e cambaleei. Rafe me segurou, mantendo o braço em volta da minha cintura. As atenções dele para mm não passaram despercebidas, e seguiu-se um temporário silêncio em meio aos cumprimentos. Com certeza os soldados que seguiram cavalgando na frente com a mensagem apressada do retorno do príncipe não haviam incluído o detalhe da presença de uma moça na escolta.
Um homem alto e arrumado seguia caminho em meio à multidão e todo mundo rapidamente se moveu para o lado para que ele passasse. Seu passo era deliberado, e seu couro cabeludo descoberto reluzia ao sol. Um dos seus ombros tinha uma distinta e larga trança dourada. Ele parou na frente de Rafe e balançou a cabeça, com o queixo marcado por covinhas como uma laranja, e então, exatamente como o capitão havia feito quanto estávamos na planície, o homem se prostrou com um joelho só no chão e disse, alto, para que todo mundo pudesse ouvir:
— Sua Majestade, o rei Jaxon Tyrus Rafferty de Dalbreck. Saúdem o seu soberano.
Seguiu-se um silêncio coletivo. Uns poucos prostraram-se com um joelho no chão de imediato também, com mais oficiais ecoando rei Jaxon, mas a maioria dos soldados ficou hesitante, chocada com a notícia. Isso havia sido um segredo: o velho rei deles estava morto. Lentamente, a percepção disso se enraizou, e a multidão, em ondas, prostrou-se de joelhos.
Rafe reconheceu-os com um simples assentir de cabeça, mas estava óbvio para mim que, além de qualquer coisa, ele desejava poder se abster dessas formalidades. Embora honrasse as tradições e o protocolo mais do que eu, naquele momento ele era apenas um jovem cansado que precisava de descanso, sabão e uma refeição decente.
O oficial se pôs de pé e ficou analisando Rafe por um instante, depois esticou a mão e deu um abraço vigoroso nele, não se importando com o fato de que as roupas imundas de Rafe estivessem sujando sua túnica impecável e sua camisa engomada.
— Sinto muito, rapaz — disse baixinho. — Eu amava os seus pais, — Ele o soltou e o manteve à distância de um braço. — Mas, que diabos, soldado. Sua noção de tempo é um terror. Onde diabos você esteve?
Rafe cerrou os olhos por um breve momento, pois seu cansaço havia retornado. Ele era rei e não tinha que explicar coisa alguma, mas era um soldado em primeiro lugar, leal aos seus companheiros do exército.
— O capitão pode responder a algumas das suas perguntas. Primeiramente nós precisamos...
— É claro — disse o homem, percebendo o erro que tinha cometido, e virou-se para um soldado que estava parado ao seu lado. — Nosso rei e seus oficiais precisam de banhos e roupas limpas. E aposentos preparados! E... — os olhos dele caíram em mim, talvez notando pela primeira vez que eu era uma mulher. — E... — ele ficou sem saber ao certo o que dizer.
— Coronel Bodeen — disse Rafe — esta foi a causa da minha ausência. — Ele olhou para a multidão, dirigindo-se não somente ao coronel, mas a eles também. — Uma ausência digna — acrescentou com uma ponta de austeridade. Ele ergueu a mão na minha direção. — Permitam-se lhes apresentar a princesa Arabella, a Primeira Filha da Casa de Morrighan.
Todos os olhos se voltaram para mim. Eu me sentia nua como uma uva descascada. Seguiu-se uma risada abafada de alguns soldados, mas então eles perceberam que Rafe estava falando sério. Seus sorrisos desapareceram. O capitão Azia ficou me olhando, boquiaberto e ruborizado, talvez se lembrando de todas as palavras vulgares que havia dito sobre Morrighan.
O coronel Bodeen curvou repentinamente a boca para o lado, desajeitado.
— E ela é... sua prisioneira?
Considerando as circunstâncias, a atual animosidade entre os nossos reinos e a minha aparência miserável, essa não era uma conclusão improvável.
Orrin soltou uma bufada.
Sven tossiu.
— Não, coronel — respondeu Rafe. — A princesa Arabella é a sua futura rainha.

14 comentários:

  1. Caramba eles sabem fazer uma bela entrada hein.

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    1. O coronel Bodeen curvou repentinamente a boca para o lado, desajeitado.
      — E ela é... sua prisioneira?

      Kkkkkkkkkkkkkk quase morri de tanto rir aqui!!!
      Isso sim que é uma entrada e apresentação impactante!!!!

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  2. Lia tentando alisar o cabelo kk mulher sempre vai ser mulher kk 😂😂
    Será que existe um rei mais fofo que o Jaxon? Tô apaixonada.

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  3. havia alguma coisa para a qual eu estava destinada, era causar primeiras impressões pouco impressionantes e imundas.. kkkkk

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  4. kkkkkkkkkkkkkkkkkk MELHOR PARTE !!!! EVEEEEER.

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  5. Que valorizada Rafe deu em sua princesa Lia. São tão apaixonados

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  6. Amoooo muito rdde casal, fico triste pela história do Kaden e por ele amar Lia, mas o lugar dela é com o Rafe

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  7. Meta de vida é encontrar um Rafe perdido por aí

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  8. Gente eu to pirandooooo. Eu amo quando personagens chegam em algum lugar novo!! Rafe😍😍😍

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  9. Aaaaaaahhhh... AMO esse casal 😍😍😍😍

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  10. — Não, coronel — respondeu Rafe. — A princesa Arabella é a sua futura rainha.
    Melhor parte do capítulo ...

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Boa leitura, E SEM SPOILER!