16 de fevereiro de 2018

Capítulo 17

Ela olhou para mim, sua cabeça inclinada para o lado, a expressão ilegível – tristeza, raiva, alívio? Eu não tinha certeza e, em seguida, ela balançou a cabeça. Gelo percorreu minhas veias. Ela me reconheceu. Seus lábios se moviam silenciosamente, murmurando meu nome, e então ela se virou e as sombras a engoliram.
— Espere! — eu gritei e corri atrás dela. Eu procurei, girando em todas as direções, mas a escada e o patamar estavam vazios. Ela se fora.
O vento, o tempo, ele circula, repete, alguns golpes mais profundos do que outros.
Eu apoiei na parede, minha cabeça latejando, as palmas das mãos úmidas, tentando explicar a presença dela, buscando as regras da razão, mas aquilo se assentou em mim como verdadeiro e real como o coro de gritos que ouvi nos céus do dia que enterrei meu irmão. Os séculos e lágrimas haviam girado com vozes que não podiam ser apagadas, nem mesmo com a morte, e a de Venda era uma canção que não podia ser silenciada, nem mesmo ao ser empurrado de um muro. Era tudo tão verdadeiro e real como um Komizar que agarrou meu pescoço e prometeu tomar tudo.
— As regras da razão — eu sussurrei, um cântico sem sentido que ainda saía de meus lábios. Eu nem sequer sabia mais o que significava.
Dei um passo vacilante para frente no escuro, e minha bota bateu em algo que estava exatamente onde Venda tinha desaparecido. Ele fez um som oco estranho. Meus dedos deslizaram ao longo da parede, e, em vez de mais pedra, encontrei um painel de madeira baixo. Com um empurrão suave, deslizei-o até abrir e encontrei-me sob a curva escura de uma escada no meio do Sanctum. Luz brilhante iluminava o corredor a minha frente, e fiquei grata por um mundo de arestas duras, passos pesados e carne quente. Todas as coisas sólidas. Olhei de volta para o painel de madeira atrás de mim, questionando minha breve descida na escada oculta, e me perguntei o que eu tinha realmente visto. Seria algo real e verdadeiro ou apenas o terror de estar aprisionada? Mas o nome que ela tinha boca, Jezelia, ainda ressoava através de mim. Guardas passaram e eu recuei furtivamente, escondida nas sombras. Eu tinha escapado de uma armadilha e caído em outra.
Este era o corredor cheio que levava à torre onde o Komizar disse ter um quarto seguro para Rafe. Eu estava prestes a sair quando três governadores se aproximaram e eu tive que me abaixar. Tudo o que eu precisava era de um momento livre para correr para fora e subir rapidamente a escada, e eu tinha certeza de que conseguiria encontrar o quarto de Rafe, mas o corredor parecia ser uma passagem principal. Os governadores passaram, em seguida, vários criados carregando cestos e, finalmente, o silêncio reinou. Puxei meu capuz sobre a cabeça e dei apenas um passo para fora quando dois guardas dobraram a esquina.
Eles pararam em surpresa quando me viram.
— Aí estão vocês! — falei, irritada. — Foram vocês que mandaram para deixar lenha do lado de fora do quarto do assassino? — Desferi aos dois um olhar acusatório.
O mais alto dos dois olhou para trás.
— Nós parecemos empurradores de carrinho de mão?
— Nós não somos imundos coletores de sujeira — o outro rosnou.
— É mesmo? — perguntei. — Nem para o Assassino? — coloquei a mão na queixo como se estivesse memorizando seus rostos.
Eles se entreolharam, em seguida, se voltaram para mim.
— Vamos mandar um menino.
— Vejam o que fazem! O tempo de esfriou, e o Assassino queria uma lareira vibrante no momento em que voltasse. — Eu me virei e fui embora bufando de raiva, subindo as escadas. Senti o sangue latejar em minhas têmporas enquanto esperava que eles percebessem, mas tudo o que ouvi por atrás de mim foram seus resmungos e gritos com um servo desafortunado no corredor.
Depois de um beco sem saída, dois quase desastres em quartos errados e uma saída rápida através de uma janela do corredor, fui andando ao longo de um peitoril que era suficientemente escondido da vista daqueles abaixo. Espreitar através das janelas ao invés de portas se abrem provou ser um caminho mais seguro para explorar, e apenas algumas janelas mais tarde, eu o encontrei.
Sua imobilidade me atingiu primeiro. O seu perfil. Ele estava largado em uma cadeira, olhando para fora de uma janela oposta. O olhar fixo e ardente, calculado, que ele lançou a mim e me deixou desconfortável na primeira vez que o vi me tornou apreensiva novamente. Ele transpirava ameaça e uma reserva assustadora, como um arco esticado, carregado, fazendo mira, esperando. Era o olhar que tinha feito minhas mãos tremerem enquanto segurava a bandeja diante dele na taberna. Até mesmo com a minha ligeira vista lateral, o gelo de seus olhos azuis cortava como uma espada. Nem agricultor nem príncipe. Estes eram os olhos de um guerreiro. Olhos criados com o poder. E ainda na noite passada ele havia ficado com os olhos cálidos para Calantha quando ela sentou-se perto dele e sussurrou algo em seu ouvido, fez com que os olhos dele tivessem centelhas com a intriga quando o Komizar lhe fazia perguntas... olhos que ele fez ficarem velados com desinteresse quando beijei Kaden.
Pensei na primeira vez que o fiz rir enquanto colhíamos amoras no Cânion do Diabo, do quão temerosa eu tinha ficado, mas então como sua risada tinha transformado seu rosto. Como ele tinha me transformado. Eu queria fazê-lo rir agora, mas aqui eu nada tinha para lhe oferecer que fosse minimamente divertido ou prazeroso.
Eu deveria ter me revelado imediatamente, mas uma vez que eu sabia que ele estava vivo e que tinha comida e água, fui atingida pela necessidade de algo a mais – alguns segundos para observá-lo invisível, para vê-lo com os novos olhos. Para vê-lo com o novo olhar que eu tinha acabado de obter. Que outras facetas este príncipe muito esperto tinha?
Seus dedos batiam uma batida tensa no braço da cadeira, lenta e constante, como se ele estivesse contando alguma coisa... horas, dias, ou talvez as pessoas que pagariam. Talvez ele estivesse mesmo pensando em mim. Sim! Você era um desafio e um constrangimento. Pensei em todas as vezes que ele tinha retribuído meus beijos em Terravin. Em cada uma delas, ele sabia que fui eu quem tinha quebrado um acordo entre dois reinos. E, antes que tivéssemos nos beijado, todas as vezes que eu olhara para ele com olhos sonhadores, esperando que ele me beijasse. Será que ele sentira justiça presunçosa observando-me apoiada em vassouras, pendurada em cada palavra sua? Melões. Ele me disse que cultivava melões. As histórias que ele inventou – apenas como as que ele tinha criado na noite passada para o Komizar – fluíam muito bem.
Sei que seus sentimentos em relação a mim podem ter mudado.
Meus sentimentos tinham mudado, sem dúvida, mas eu não tinha certeza de como. Eu não tinha certeza de como chamá-lo mais. O nome Rafe estava tão bem entranhado ao jovem homem que eu pensava ser um agricultor. Como eu deveria chamá-lo agora? Rafferty? Jaxon? Sua Alteza?
Mas então ele se virou. Só precisou isso e ele era Rafe outra vez, e meu coração saltou. Vi seu lábio sangrando, e me apertei pela abertura estreita, não me importando com o barulho. Ele ficou de pé quando me ouviu, assustado e pronto para lutar, não esperando alguém entrando no seu quarto por uma janela e ainda mais surpreso que fosse eu.
— O que eles fizeram? — perguntei.
Ele afastou a minha mão e a pergunta, e correu para trás de mim para ver pela janela. Olhou para fora para verificar se alguém tinha me visto, em seguida, virou-se, esmagando-me em seus braços, abraçando-me como se nunca fosse me deixar ir, até que de repente ele recuou como se não soubesse se seu abraço ainda era bem-vindo.
Se era prudência ou não, eu não me importei – fiquei ardente com o seu toque.
— Imagino que, se nós vamos nos apaixonar mais uma vez, beijos farão parte disso — eu gentilmente trouxe seu rosto para perto do meu, evitando seu lábio cortado, e minha boca vibrou através de sua pele, beijando do alto da maçã do seu rosto até o queixo, seguindo em frente ao canto da boca. Cada sabor, de repente novo. Suas mãos apertaram-se em volta da minha cintura, me puxando para mais perto, e rios de calor espalharam-se através de meu peito.
— Você ficou completamente louca? — ele perguntou entre respirações pesadas. — Como chegou aqui?
Eu sabia que isso ia acontecer. Isso não fazia parte do nosso plano. Afastei-me, me servindo um pouco de água da garrafa em uma mesa. — Não foi difícil — menti. — Uma caminhada fácil.
— Através de uma janela? — ele balançou a cabeça, suas pálpebras fechando-se brevemente. — Lia, você não pode sair por aí dançando em peitoris como uma...
— Dificilmente fico dançando. Estava me esgueirando, e tenho muita prática nisso. Alguns poderiam me chamar de habilidosa.
Sua mandíbula se contraiu.
— Eu aprecio suas habilidades, mas preferiria que você ficasse sentada quieta em seu lugar — argumentou. — Não quero ter que raspá-la dos paralelepípedos. Os meus homens virão. Existem estratégias militares para este tipo de situação quando as probabilidades não estão ao seu favor e, então, todos nós sairemos daqui juntos.
— Estratégias? Os seus soldados estão aqui, Rafe? — perguntei, olhando ao redor do quarto. — Não parece. Mas nós estamos. Você tem que aceitar que pode ser que eles não venham. Esta é uma terra perigosa, e eles podem ter...
— Não — disse ele. — Eu não conduziria meus amigos mais confiáveis para algo que eu pensasse que eles não possam sobreviver. Eu lhe disse que poderia demorar alguns dias.
Mas vi a dúvida em seus olhos. A realidade estava se assentando. Quatro homens em uma terra estrangeira. Quatro homens entre milhares de inimigos. Havia uma boa possibilidade de que eles estivessem mortos se tivessem tropeçado com um regimento como Walther e sua companhia tropeçaram. Eu nem sequer citei os perigos mais abaixo do rio sobre os quais Kaden me avisara, e as criaturas mortíferas que o habitavam. Havia uma boa razão pela qual Venda sempre fora tão isolada.
— Os guardas de novo? — perguntei, voltando ao assunto de seu lábio.
Ele assentiu, mas seus pensamentos ainda estavam em outro lugar. Seu olhar viajou pelo meu novo traje.
— Alguém trouxe a minha capa. Ela estava enrolada no meu saco de dormir — eu expliquei.
Ele estendeu a mão, puxando os cordões em meu pescoço e lentamente empurrou o manto para trás em meus ombros. Ele caiu no chão.
— E... isso?
— São de Kaden.
Seu peito subiu em uma respiração profunda e medida, e ele se afastou, passando os dedos pelos cabelos.
— Melhor as roupas dele do que aquele vestido, suponho.
Sem dúvida, os guardas não perderam tempo em espalhar suas historinhas sórdidas.
— Sim, Rafe — eu suspirei. — Eu as fiz por merecer. Em uma luta de espadas, e isso é tudo. Kaden tem um inchaço do tamanho de um ovo de ganso em sua canela para provar.
Ele se virou para mim, alívio visível em seu rosto.
— E o beijo na noite passada?
Minha raiva inflamou-se. Por que ele não podia deixar isso para lá? Mas percebi que muito ainda borbulhava perto da superfície. Todas as mágoas e mentiras que não tivemos tempo para resolver ainda estavam lá.
— Eu não vim aqui para ser interrogada — rebati. — E o que você diz de todas as suas atenções para com Calantha?
Ele endireitou os ombros.
— Suponho que nós dois estejamos interpretando os melhores papéis das nossas vidas.
Seu tom acusatório fez minha raiva inflamar em fogo.
— Interpretação? É assim que você se refere àquilo? Você mentiu para mim. Sua vida é complicada. Foi isso mesmo o que você me disse. Complicada?
— O que você está trazendo à tona? A noite passada ou Terravin?
— Você age como se tivesse acontecido há dez anos! Você tem um jeito tão interessante com palavras. Sua vida não é complicada. Você é o resplandecente príncipe herdeiro de Dalbreck! Você chama isso de uma complicação? Mas você ficou falando e falando sobre plantar melões e cuidar de cavalos e como seus pais estavam mortos. Você descaradamente me disse descaradamente que era um fazendeiro!
— Você alegou que era uma empregada de taberna!
— Eu era! Eu servia mesas e lavava pratos! Alguma vez você cultivou um melão em sua vida? No entanto, você empilhou mentira após mentira, e nunca lhe ocorreu me dizer a verdade.
— Que escolha eu tinha? Eu a ouvi me chamar de principezinho mimado minhas costas! Alguém que você nunca poderia respeitar!
Fiquei de boca aberta.
— Você ficou me espionando? — eu me virei, balançando a cabeça em descrença, atravessando o quarto, então virei de supetão para encará-lo. — Você me espionou? Suas duplicidades nunca terminam, não é?
Ele deu um passo intimidante mais perto.
— Talvez se certa empregada de taberna tivesse se preocupado em me contar a verdade em primeiro lugar, eu não tivesse sentido que deveria que esconder quem eu era!
Igualei um a um os passos raivosos dele.
— Talvez se um príncipe arrogante tivesse se dado ao trabalho de vir me ver antes do casamento, como eu tinha pedido, nós nem mesmo estivéssemos aqui!
— Então é assim? Bem, talvez se alguém tivesse pedido com um pingo de diplomacia, em vez de me dar uma ordem como uma vadia mimada da realeza, eu teria ido!
Eu tremia de raiva.
— Talvez alguém estivesse assustada demais para escolher devidamente as palavras para Vossa Pomposa Bunda Real!
Nós dois ficamos ali, nossos peitos subindo e descendo de fúria, tornando-nos algo que nenhum de nós tinha sido com o outro antes. O filho real e a filha real de dois reinos que só tinham confiança receosa entre si.
De repente, fiquei com nojo das minhas palavras. Eu odiei cada uma e queria retirá-las. Senti meu sangue indo com tudo para os pés.
— Eu estava com medo, Rafe — sussurrei. — Eu lhe pedi para vir porque nunca tinha sentido tanto medo na minha vida.
Observei a sua onda de raiva escorrer também. Ele engoliu em seco e gentilmente abraçou-se, em seguida, com ternura, seus lábios roçaram minha testa.
— Eu sinto muito, Lia — ele sussurrou contra minha pele. — Eu sinto muito.
Eu não tinha certeza se ele estava arrependido por suas palavras de raiva ou por não ter vindo para mim todos esses meses atrás, quando recebeu meu bilhete. Talvez ambos. Seu polegar tocou as elevações da minha espinha. Tudo o que eu queria era memorizar a sensação do seu corpo pressionado no meu e apagar cada palavra que tínhamos acabado de dizer.
Ele pegou minha mão e, lentamente, beijou meus dedos um de cada vez, assim como tinha feito em Terravin, mas agora eu pensava Este é o Príncipe Jaxon Tyrus Rafferty beijando minha mão , e percebi que não importava nem um pouco para mim. Ele ainda era a pessoa por quem eu tinha me apaixonado, fosse príncipe da coroa ou fazendeiro. Ele era Rafe, e eu era Lia, e tudo o mais o que éramos para outras pessoas não importa para nós. Eu não precisava me apaixonar por ele novamente. Eu nunca havia deixado de estar apaixonada.
Deslizei minhas mãos sob seu colete, sentindo os músculos de suas costas.
— Eles virão — sussurrei em seu peito. — Seus soldados virão, e nós vamos sair dessa. Juntos, como você disse.
Lembrei-me que ele havia dito que dois deles falavam o idioma vendano. Eu me inclinei para trás para que eu pudesse ver seu rosto.
— Você fala também vendano? — perguntei. — Esqueci de descobrir na noite passada.
— Apenas algumas palavras, mas estou captando algumas algumas rapidamente. Fikatande idaro, tabanych, dakachan wrukash.
Assenti.
— Palavras de uso comum sempre em primeiro lugar.
Ele riu, e o riso transformou seu rosto. Meus olhos ardiam. Eu queria que aquele sorriso ficasse ali para sempre, mas eu tinha que passar para detalhes mais urgentes, mais sombrios, que eu precisava compartilhar. Contei a ele coisas que eu tinha aprendido e que seus homens precisavam saber.
Nos sentamos de frente um para o outro na mesa que continha a bacia, e eu lhe contei tudo, desde as ameaças do Komizar para mim depois que todos saíram da sala, a carga roubada na Praça da Ala do Conselho, a minha conversa com Aster e até a minha suspeita de que as patrulhas estavam sendo sistematicamente abatidas pelo exército vendano. Eles estavam escondendo algo. Alguma coisa importante.
Rafe balançou a cabeça.
— Nós sempre tivemos escaramuças com bandos de vendanos, mas isto parece diferente. Nunca vi tropas organizados como a que encontramos, mas mesmo seiscentos soldados armados é algo que pode ser facilmente anulado por qualquer um dos nossos reinos, uma vez que saibamos com o que estamos lidando.
— E se houver mais de seiscentos?
Ele se recostou na cadeira e esfregou o queixo.
— Nós não vimos qualquer evidência disso, e é preciso algum nível de prosperidade para treinar e dar suporte a um grande exército.
Isso era verdade. Dar suporte ao exército morrighês era um dreno constante no tesouro. Mas mesmo que o pensamento de que podíamos lidar com o exército que encontramos me trouxesse algum alívio, eu ainda sentia dúvida empoleirando-se em minhas entranhas.
Eu segui em frente, contando-lhe sobre a jehendra, o homem que colocou o talismã no meu pescoço, e as mulheres que tomaram as minhas medidas para as roupas.
— Eles foram extraordinariamente prestativos, Rafe. Bondosos, até. Era diferente em comparação com todos os outros. Me pergunto se talvez eles...
— Gostassem de você?
— Não. É mais do que isso — falei, balançando a cabeça. — Acho que talvez eles quisessem me ajudar. Talvez nos ajudar? — Mordi o canto do meu lábio. — Rafe, há outra coisa que não te contei.
Ele se inclinou para frente, o olhar fixo em mim. Isso me lembrou de todas as vezes em que eu varri o pátio da estalagem em Terravin e ele escutava tão atentamente o que eu tinha a dizer, não importava quão grande ou pequeno fosse.
— O quê?
— Quando fugi de Civica, eu roubei uma coisa. Estava com raiva, e foi a minha maneira de me vingar de alguns membros do gabinete que tinham forçado o casamento.
— Joias? Ouro? Não acho que ninguém em Venda vá prendê-la por roubar algo de seu inimigo jurado.
— Não acho que o valor fosse financeiro. Acho que era algo que simplesmente não queriam que ninguém visse – especialmente eu. Roubei alguns documentos do gabinete do Erudito Real. Um deles era um antigo texto vendano chamado a Canção de Venda.
Ele balançou a cabeça.
— Nunca ouvi falar.
— Nem eu tinha. — Contei a ele que Venda foi a esposa do primeiro governante, e o reino tinha esse nome por causa dela. Expliquei-lhe que ela contara histórias e cantara canções dos muros do Santuário para as pessoas abaixo, mas disseram que ela enlouqueceu. Quando suas palavras transformaram em balbucios, o governante a empurrou dos muros para a morte abaixo.
— Ele matou a própria esposa? Parece que eles eram tão bárbaros nessa época quanto são agora, mas como isso é importante para nós?
Eu hesitei, quase com medo de dizer as palavras em voz alta.
— No meu caminho para cá atravessando o Cam Lanteux, eu traduzi o livro. Ele dizia que um dragão se ergueria, um que se alimentava das lágrimas das mães. Mas também dizia que alguém viria para desafiá-lo. Alguém chamado Jezelia.
Sua cabeça se moveu ligeiramente para o lado.
— O que você está tentando dizer?
— Talvez não seja por acaso que eu esteja aqui.
— Por causa de um nome mencionado em uma canção antiga por uma louca que morreu faz tanto tempo?
— É mais do que isso, Rafe. Eu a vi — soltei.
Sua expressão mudou quase que instantaneamente de curiosa para cautelosa, como se eu tivesse enlouquecido também.
— Você acha que viu uma mulher morta...
Eu o interrompi, contando-lhe sobre a mulher que vi no corredor, na cordilheira e, finalmente, na passagem. Ele estendeu a mão, os dedos delicadamente colocando uma mecha de cabelo atrás da minha orelha.
— Lia — disse ele — você passou por uma viagem horrível, e este lugar... — ele balançou a cabeça. — Qualquer um poderia ver coisas aqui. Nossas vidas estão em perigo a cada minuto. Nós não sabemos quando alguém virá e... — Ele apertou minha mão. — O nome Jezelia poderia ser tão comum quanto ar aqui, e um dragão? Poderia se tratar de qualquer um. Pode até mesmo ter significado um dragão literal. Você já pensou nisso? É apenas uma história. Todo o reino tem uma. E é compreensível que você tenha visto coisas em uma passagem escura. Poderia até mesmo ter sido uma serva de passagem. Graças aos deuses que ela não a expôs aos guardas. Mas você não está destinada a ser uma prisioneira neste lugar esquecido por Deus, disso tenho certeza.
— Mas há algo acontecendo aqui, Rafe. Sinto isso. Algo que se aproxima. Algo que vi nos olhos de uma velha mulher no Cam Lanteux. Algo que eu ouvi.
— Você está dizendo é o seu dom falando com você? — Havia uma estranha cadencia em seu tom, uma pitada de ceticismo, e percebi que talvez ele nem sequer acreditasse que eu tinha o dom. Nós nunca falamos sobre isso. Talvez os rumores em Morrighan sobre minhas falhas houvessem se espalhado por todo o caminho até Dalbreck. Sua dúvida aguilhoava-me, mas eu não podia culpá-lo. Falado em voz alta, soou ridículo até mesmo para mim.
— Eu não tenho certeza. — Fechei meus olhos com força brevemente, brava comigo mesma por não entender o meu próprio dom bem o bastante para dar mais respostas a Rafe.
Ele se levantou e puxou-me para seus braços.
— Eu acredito em você — ele sussurrou. — Há algo iminente, mas essa é mais uma razão por que precisamos sair daqui.
Descansei minha cabeça em seu peito, querendo abraçá-lo até...
Você acha que ele ia contar a você quando realmente iríamos embora?
Meus pensamentos congelaram à provocação de Finch. Kaden não me diria quando realmente voltaria também. Eu não confio em você, Lia. E ele nunca havia confiado, e com razão. Este era um jogo que eu odiava jogar com Kaden.
— Eu tenho que ir — falei, me afastando — antes que ele retorne e descubra que saí.
Peguei minha capa e corri para a janela.
Rafe tentou me impedir.
— Você disse que ele estaria fora o dia todo.
Eu não poderia me arriscar, e não tinha tempo para explicar. Eu estava pisando no parapeito da janela quando ouvi o som de chave na fechadura e a porta de Rafe se abriu. Pressionei o corpo contra a parede exterior, mas em vez de fugir, eu me demorei, tentando ouvir quem era. Ouvi a voz de Calantha, o tom muito mais agradável do que o que ela usava comigo. E então ouvi Rafe elogiando-a em seu vestido, transformando-se em uma única respiração de príncipe para emissário solícito.

6 comentários:

  1. As vezes eu quero entrar nesse livro e sacudir a Lia! Pra que ir atrás do Rafe, gente? Tem tudo pra dar merda isso

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  2. Só eu que tô achando o comportamento do Rafe estranho desde que chegou à Venda?
    Estou começando a desconfiar dele, não sei porquê.
    -Isa M.

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  3. Rafe é tão inteligente e confiante. Mas eu realmente gosto do jeitinho do Kaden.. N consigo escolher

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  4. Rafe é um neném,ele não tem culpa de nada!A culpa e da egoísta da Lia que trai os meninos pra se safar!

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  5. Não confio no Rafe, nao mais. E tá um tom meio Sara j. Mass "você deveria ficar sentada quieta no seu lugar" sério? Tamlin? Aaaa nn gostei, ela fez mais coisas do que ele ai e ele me vem com essa e com esse ceticismo

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  6. Parace que o Rafe duvida da capacidade da Lia, igual o Adam duvidava da Juliette.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!