6 de fevereiro de 2018

Capítulo 17. Na pista do Doutor Q.I

Andrade ficou no hospital, comandando as investigações. Estava furioso, procurando pistas, interrogando todos os funcionários, enfermeiras e corpo médico. De que modo uma paciente poderia desaparecer assim, durante apenas os poucos minutos que Magrí levara para contar o que tinha descoberto no hospital?
— Para o esconderijo, Karas! — decidiu Miguel, quando ficaram sozinhos. — Vamos em táxis separados. Não quero que ninguém no Elite nos veja chegando juntos.
Magrí, exausta, com o vestido sujo de arrastar-se pelas paredes do hospital, deu uma rápida passada em casa para um banho e roupas limpas.

* * *

Numa esquina, na periferia da cidade, uma mulher esperava que um orelhão fosse desocupado. Tinha de ligar para o marido e estava com pressa. Quando viu quem estava ao telefone público, fez uma expressão de nojo:
“Nossa! Que anão horroroso!”

* * *

Reunidos no esconderijo secreto, os Karas estavam desolados.
— Nada! Não conseguimos nada! — lamentava-se Calú. — E ainda perdemos dona Iolanda...
Magrí sentia-se ainda pior do que os outros.
— A culpa é minha, Crânio. Se eu não tivesse me metido lá no quarto dela e trocado os soros, ela ainda estaria lá. E Andrade poderia protegê-la...
— Ora, Magrí... O que é isso? Se você não tivesse entrado lá, nós nem saberíamos que dona Iolanda precisava de proteção especial. Você não tem culpa nenhuma. Nós já sabemos que...
— O que sabemos é uma verdadeira bagunça! — reclamou Calú. — Cada coisa que acontece! Tenho certeza que aqueles dois que ficavam o tempo todo de pé, ao lado daquele carro escuro, são da quadrilha.
— Pareciam até sentinelas! — reforçou Miguel.
— E tem também o tal anão... — lembrou Crânio.
— Que anão? — perguntou Miguel.
— Um sujeitinho horroroso, que eu vi de relance, perto do hospital. Sinistro, suspeito demais. Desapareceu de repente, como se não quisesse ser visto. Não sei por quê, mas garanto que ele é o chefe de todo o esquema...
— Ora, Crânio! Quer dizer que o Doutor Q.I. encolheu? brincou Magrí. — O chefe de todo o esquema só pode ser o Doutor Q.I. !
Calú não queria saber de anões. Ali faltava um dos Karas e ele não podia conformar-se com isso:
— E Chumbinho, então? Até agora não encontramos nem um traço de Chumbinho...
Miguel, sério, interrompeu:
— Não temos tempo para choradeiras, Karas. Cabeça erguida. Conseguimos alguma coisa sim. E vamos nos agarrar ao que conseguimos. Magrí, repita o que ouviu de dona Iolanda.
— Ela disse claramente: “Ele apontou para mim. Ele mandou atirar em mim. No aeroporto...”
— Ele! — por um triz, Calú quase levantou a voz, esquecendo-se da segurança do esconderijo secreto. — Quem é esse “ele”? Será que o Doutor Q.I. estava no aeroporto e mandou atirar na professora? Mas por que ele faria isso?
— Não vamos perder o fio da meada, Karas — retomou Miguel. — Vamos voltar ao que informou Andrade. Tem uma coisa que me intriga. Ele disse que, por mais que procurassem, não foi possível descobrir como o Doutor Q.I. fugiu da Penitenciária de Segurança Máxima. Só sabem que ele não está lá. Isso não é estranho? Aquela penitenciária tem esquemas contra fugas tão sofisticados que, se alguém conseguisse neutralizá-los, na certa ficariam traços óbvios dessa fuga, como portas serradas, fios cortados e coisas assim!
Calú seguia o raciocínio de Miguel:
— Lembro perfeitamente das palavras de Andrade, repetindo o diretor da penitenciária: “Daquela prisão só se sai pela porta da frente, com um mandado de soltura”. Como nenhum dos homens que está lá poderá ser solto antes de mais ou menos cinquenta anos, a única maneira de sair é através de um ofício de transferência para outra penitenciária.
— Bem, pelo menos podemos estar certos de que o Doutor Q.I. nem foi solto nem transferido — disse Magrí.
Crânio sorriu:
— Assim, Karas, o problema fica mais fácil...
— Mais fácil? Como?
— Até agora só temos pistas mostrando que o Doutor Q.I. não fugiu da penitenciária, não é? Então, se a lógica vale alguma coisa, a conclusão é uma só.
— Qual?
— O Doutor Q.I. não fugiu da penitenciária, ora essa!
Os outros Karas entreolharam-se.
— Crânio, ficou maluco? O que você quer dizer com isso?
— Acho que já entendi aonde Crânio quer chegar: o Doutor Q.I. está fazendo a gente de idiotas — concluiu Miguel. — Não sei como, mas está. Não adianta especular agora. Precisamos novamente do Andrade. Ele vai ter de dar um jeito de nos levar até a Penitenciária Estadual de Segurança Máxima!
— Qual é o seu plano, Miguel?
— É possível que naquela penitenciária haja algum prisioneiro que, por influência do Doutor Q.I., conheça a nossa cara.
— E daí?
— Daí, Calú, precisamos dos seus serviços de maquilagem...

* * *

O furor informativo da imprensa foi realimentado pelo desaparecimento de dona Iolanda. Agora, eram três os desaparecidos.
— Um bilhão de dólares! — berravam as manchetes. — Os bandidos querem um bilhão de dólares para devolver a Droga do Amor e o doutor Bartholomew Flanagan. E quanto aos outros dois? Será que os sequestradores também vão pedir resgate pela professora ferida e pelo menino Chumbinho? Ou vão simplesmente livrar-se deles? A polícia, até agora, nada conseguiu apurar de concreto...

* * *

Magrí estava pronta para a visita à Penitenciária de Segurança Máxima. Numa mochila, colocou o vestido velho e os enchimentos que Calú pedira, para completar o disfarce que ele planejava para ela.
Ao mexer no armário, lá estava a bolsa de dona Iolanda, que ela trouxera para casa, no dia do sequestro do cientista americano. “A bolsa...”, pensava a menina. “Será que...”
Uma ideia começava a nascer. Ainda não estava clara mas. . . ,Magrí levou a bolsa na mochila.

* * *

Na direção do fusquinha, novamente lotado pelos quatro adolescentes, Andrade estava quase fora de si:
— Levar esses garotos à Penitenciária de Segurança Máxima! Não sei onde eu ando com a cabeça para aceitar as maluquices de vocês...
Um carro da polícia os acompanhava, trazendo também os dois agentes do FBI, o doutor Hector Morales e a intérprete. O presidente para a América Latina da Drug Enforcement tinha sido chamado a participar daquela fase da investigação. Ele era o único que poderia ajudar com os detalhes técnicos da Droga do Amor e com o conhecimento que possuía do doutor Bartholomew Flanagan.
No fusquinha, os quatro Karas estavam irreconhecíveis. Com pequenos toques, Calú tinha conseguido alterar a aparência de todos eles. Cores de cabelos mudadas, lentes de contato coloridas, um bigodinho ralo, uns óculos, um boné, um enchimento aqui e ali, tudo isso transformara os Karas em um grupo irreconhecível para quem não fosse íntimo de nenhum deles.
— Ainda não entendi por que vocês querem se apresentar como parentes de detentos! O que isso tem a ver com o caso?
— Confie em nós, Andrade, por favor. Jovens como a gente dão menos na vista. Se você levasse policiais disfarçados, para fazer esse serviço, na certa os prisioneiros desconfiariam.
— Mas que serviço é esse, afinal de contas?
— Crânio tem um palpite que as informações que precisamos estão com alguns prisioneiros — esclareceu Miguel. — Precisamos falar com eles não-oficialmente. Precisamos saber o que eles sabem. Se eles nos aceitarem como parentes distantes, de quem eles não se lembram por que estão na cadeia há anos, talvez a gente descubra alguma coisa. Confie na gente, Andrade.
O detetive calou-se. Realmente nunca tinha havido uma ocasião que ele lembrasse de ter se arrependido de confiar naqueles garotos.

* * *

O diretor da Penitenciária Estadual de Segurança Máxima estranhou a visita do detetive Andrade acompanhado por aqueles quatro adolescentes, pelos três gringos e pela intérprete, mas nada disse. Ele sentia-se sem jeito por causa da fuga de um dos mais perigosos sentenciados que estavam sob sua custódia. Além disso, a autoridade do detetive, naquele caso, não era para ser discutida.
— What the hell are we doing here, Doctor Morales? — perguntava o agente Patrick Lockwood. — What do we intend to find in this prison? The suspect has escaped! We must look for him somewhere else. We’re loosing precious time!  (— Que diabo estamos fazendo aqui, doutor Morales? (...) — O que pretendemos encontrar nesta prisão? O suspeito fugiu! Devemos procurar por ele em outro lugar. Estamos perdendo tempo precioso! )
— Don’t worry, agent Lockwood — acalmava o doutor Morales. — Detective Andrade is a fine policeman, our consul said. He knows what he’s doing. We’re here only to watch. Let’s wait and see what he intends to do… (— Não se preocupe, agente Lockwood (...) — Detetive Andrade é um ótimo policial; foi o que disse nosso cônsul. Ele sabe o que está fazendo. Estamos aqui só para observar. Vamos esperar e ver o que ele pretende fazer. )
— Vhat? Shtó? — perguntava Iúri Mikhailevich para a intérprete. — Shtó on skazal? Me not underrrstand… (— O quê? O quê? O que ele está falando? Mim não entender...)
O que a pobre da intérprete poderia fazer? Ela só falava inglês e português. Poderia traduzir uma língua para a outra e vice-versa. O que fazer, já que o russo não entendia nenhuma das duas?
Quando o detetive Andrade quis saber o que conversavam Lockwood e Morales, a intérprete sentiu-se mais útil:
— O agente Lockwood perguntou o que estamos fazendo aqui. E o doutor Morales elogiou o senhor. Disse que o senhor é um ótimo detetive, e que o agente Lockwood pode confiar...
Andrade estava gostando daquele doutor Hector Morales. Pelo jeito, o presidente da Drug Enforcement sabia reconhecer o valor de um policial como ele.
O diretor da penitenciária repetia com todos os detalhes as circunstâncias da fuga do Doutor Q.I.:
— Não encontramos nenhuma pista, mesmo. Só o que sabemos é que, na chamada da manhã, há três dias, o prisioneiro não apareceu. Simplesmente sumiu!
O detetive perguntou:
— Diretor, o senhor me disse que a única maneira de um sentenciado sair daqui é com um alvará de um juiz, libertando-o ou transferindo-o para outro presídio, não é?
— Isso mesmo, detetive Andrade. Alguns prisioneiros, depois de longo tempo de pena, quando apresentam ótimo comportamento, às vezes conseguem transferência para outra penitenciária...
— Outra penitenciária? — sussurrou Crânio para Calú. Uma de onde é mais fácil fugir?
— Como? — perguntou o diretor.
— Nada, desculpe — disse Crânio.
— Desculpa! Izvinítie! — sorriu o russo, que já andava pescando alguma coisa de português. — Me underrstand! Iá panimáiu! Me inténdó! (— Mim entenderr! Eu estou entendendo! Mim entende.)
Andrade continuou:
— Desde a fuga, ou o desaparecimento do Doutor Q.I., quantos prisioneiros saíram daqui com alvarás desse tipo?
— Nenhum, detetive. Quando soubemos da fuga do prisioneiro, mandei suspender o cumprimento dos quatro alvarás de transferência que tínhamos recebido...
— Quatro alvarás, senhor diretor? Pois é isso mesmo que eu peço que o senhor faça. Gostaria que o senhor anunciasse, a esses quatro prisioneiros, que foi permitido, excepcionalmente, que eles recebessem visitas, antes de serem transferidos...
— Visitas? Que visitas?
— Esses quatro jovens aqui. Eu gostaria que eles fossem anunciados como visitas a esses quatro detentos. Um de cada vez, por favor...
O diretor estava achando aquilo muito irregular. Mas ele já andava recebendo pressões de todos os lados, até do Ministério das Relações Exteriores, para ajudar em tudo que tivesse qualquer ligação com o sequestro do doutor Bartholomew Flanagan e com o roubo da Droga do Amor.
— Como quiser, detetive Andrade.

* * *

Além dos limites da cidade, os olhos de dona Iolanda examinavam cada canto do pequeno galpão onde se encontrava. Olhava apenas, pois sua boca estava amordaçada e seus pulsos amarrados atrás de uma cadeira.
Ainda sentia tontura da anestesia forçada, e seu ferimento doía um pouco. Estava lúcida. Era uma mulher valente. Solteira, sem parentes, sua vida eram seus alunos. Por eles, ela resistia.
A porta do galpão abriu-se lentamente. Dona Iolanda voltou a cabeça. Nesse momento, se não estivesse amordaçada, a professora teria dado o maior berro de sua vida.
Recortada contra a luz que entrava pela porta aberta, estava uma visão de pesadelo: o anão mais medonho que a imaginação de dona Iolanda poderia conceber!
A lâmina de um canivete brilhou ao abrir-se.

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