14 de fevereiro de 2018

Capítulo 17. Matem a garota!

No chão, junto à parede, bem à frente da barraca, um alçapão era aberto e um facho de luz branca era projetado para cima, impondo-se ao ambiente vermelho-inferno que ali havia imperado. Do quadrado de luz, despontava uma careca.
Um dos bandidos enfiava o braço armado para dentro da barraca e o outro mirava o alvo fácil que era aquela careca iluminada de branco por baixo e de vermelho por cima. Apertaram os gatilhos ao mesmo tempo...
Plec!
Plec!
— O que é isso? — gritou um deles.
Subindo mais um pouco, a careca agora era o meio corpo de um homem gordo, com um braço esticado que empunhava uma pistola que não estava descarregada e nem faria plec.
— Parem aí! Nem mais um passo! Nem pensem em respirar, seus canalhas, senão eu atiro!
Mesmo sem entender português, os bandidos estacaram, intimidados pelo tom agressivo da voz.
— Parados! Larguem as armas!
Como se um hipopótamo conseguisse subir em árvore, com uma agilidade e uma força de que nem ele mesmo sabia ser capaz, o detetive Andrade invadia o forro da metade feminina do vestiário do Colégio Elite. E, enquanto algemava os bandidos, nem prestou atenção ao ruído das telhas que deslizavam de volta para seus lugares.
— Que barraca é essa?
Com um safanão, o detetive abriu o zíper da barraca. E perdeu completamente a respiração: lá dentro, nua, amarrada e amordaçada, estava... a filha do presidente dos Estados Unidos!
— E ela! Nós achamos a meniiiiinaaaa!!
Se Andrade não estivesse tão alterado, tão feliz com a descoberta daquela adolescente, teria notado que a libertada estava com a expressão mais marota do mundo.
Wilbur MacDermott já não conseguia impedir as lágrimas. Mas continuava o discurso, como o pai de um condenado que vê o filho caminhando para o patíbulo e ainda mantém a certeza de que sua causa merece o sacrifício.
— Nosso sonho de paz...
Nesse instante, no monitor que havia atrás das câmeras, sua própria imagem
foi substituída por uma menina que sorria confiante, encolhida dentro de um paletó larguíssimo e sendo carregada no colo por um homem gordo e careca, que parecia ainda mais feliz do que ela.
E a menina dirigia-se a ele, a seu pai, a seu presidente, quase gritando:
— Go ahead, daddy! Vá em frente, papai! Diga tudo o que tem a dizer. Eu estou bem. Nunca estive melhor! Manda braaaasaaa!
O presidente americano retornou o olhar cheio de alívio para as lentes das câmeras. Reprimiu o grito que gostaria de dar e retomou o discurso, inflamadamente, unindo sua força à força daquela filha maravilhosa que se preocupava com ele, depois de ter vivido um pesadelo de verdade:
— Meus irmãos do mundo inteiro! Nosso sonho de paz nunca será possível enquanto um país poderoso como os Estados Unidos ainda insistirem em manter um arsenal nuclear, capaz de arrasar o planeta milhares de vezes, uma depois da outra, e enquanto conservarmos um estoque de armas químicas e biológicas capazes de impor epidemias mortais às populações inocentes de outros países. Por isso, precisamos ter a coragem de, unilateralmente, destruir por completo essas armas, antes que elas nos destruam! Proponho um desmantelamento total das armas nucleares, químicas e biológicas do mundo inteiro, a começar pelas nossas, as armas dos Estados Unidos. Nesse momento, meus assessores estão distribuindo à imprensa um mapa do meu país, com a localização de todos os arsenais, laboratórios e fábricas de artefatos nucleares, químicos e biológicos. Convido a Organização das Nações Unidas para que envie comissões de fiscalização para testemunhar a destruição das armas do Juízo Final. O Apocalipse, nunca!!
Magrí ainda não tivera tempo de vestir o moletom de Chumbinho, mas já estava em ação. Nos telhados, reunidos em torno da caixa preta do alto-falante, Miguel, Crânio, Calú e Chumbinho estavam atentos às instruções que a menina transmitia com a linguagem de sinais dos Karas.
Miguel entendeu o plano. Era mais uma jogada maluca como ela só, mas poderia dar certo, se eles fossem rápidos. Calú logo entendeu o que tinha de fazer e pegou o telefone celular, que foi ligado por Crânio ao aparelho de som.
Não demorou quase nada e o celular vibrou. Imitando sotaque americano, o ator dos Karas atendeu:
— Hello...
Do outro lado, uma voz desconhecida ordenava:
— Kill the girl! Mate a garota!
— What?— perguntou Calú. — O quê?
— I said you have to kill Peggy MacDermott. Kill her! Disse que você tem de matar Peggy MacDermott! Mate-a! Já!
Com a ajuda do canivete, Crânio fazia uma ligação improvisada do aparelho de som com o alto-falante. Sem uma chave de fenda e um aparelho de solda, aquilo era quase impossível. E, para o geninho dos Karas, o impossível levava tempo... No Colégio Elite, uma barulheira incrível assinalava a libertação de Peggy MacDermott. O pátio à frente dos vestiários estava lotado por inúmeros homens de preto e policiais civis brasileiros, falando aos berros e ao mesmo tempo.
Todo mundo cercava Peggy, agora coberta até os pés pelo enorme paletó de Andrade, que procurava protegê-la, afastando quem pretendesse tocá-la:
— Pra trás! A menina precisa respirar!
-— Parabéns, detetive! Como descobriu?
— Você está bem, garota? Não fizeram nada com você?
— Quem são esses bandidos?
— Recusam-se a falar! São dois falsos agentes da CIA! Esses malditos parecem preferir a morte a abrir a boca! Pelo jeito, estão com mais medo do chefe deles do que da cadeia!
— Mas que danado, esse detetive Andrade! Resolveu um caso que nem mesmo a polícia americana conseguiu chegar perto!
— Um banho! A polícia brasileira deu um banho nos americanos!
Precedidos por soldados, quatro homens surgiam para encabeçar a confusão: três policiais de alta patente, um de óculos escuros e dois de terno preto, logo atrás do presidente da República, o próprio Augusto Rodrigues Lobo.
— Peggy! Você está salva!
Eufórico, o guarda-costas Sherman Blake atirava-se na direção de Peggy, querendo abraçá-la. Foi detido pelo braço de Andrade:
— Deixe a menina em paz! Ela está muito cansada e nervosa!
Peggy, que não demonstrava estar nem um bocadinho nervosa, tocou-lhe o rosto, delicadamente:
— Pode deixar, detetive Andrade. Este é Sherman Blake. É praticamente da nossa família.
— Hein? — perguntou Andrade, surpreendido ao distinguir seu nome muito bem pronunciado no meio de um monte de palavras naquela língua que ele não entendia. Na confusão, nem achou estranho o fato de aquela menina reconhecê-lo e ainda por cima saber o seu nome direitinho.
Nessa altura, Blake já envolvia o paletó de Andrade, com sua querida Peggy dentro, num forte abraço, levantando-a do chão.
— Peggy! Peggy! Que bom!
Hooper aproximava-se:
— Você está bem, miss Peggy?
Blake girou o corpo, tirando a garota do alcance do diretor da CIA:
— Tire as mãos sujas de cima dela, Hooper!
Sem paletó, com a camisa suada, o detetive Andrade avançou, espalmando a mão no peito de Hooper:
— Não sei o que ele disse, mas é isso mesmo, seu Hooper! Quero ter uma conversinha com o senhor!
Pacheco adiantou-se, segurando o braço de Andrade:
— O que é isso? Você ficou louco, Andrade? Isso é jeito de falar com o diretor da CIA?
Rodrigues Lobo entrou no meio, exigindo explicações:
— O que está acontecendo aqui, detetive?
— O que está acontecendo é que eu quero saber por que esse Hooper ficou o dia inteiro impedindo meus homens de entrar na escola! Eu acho que ele estava tentando impedir que eu descobrisse a menina, presa o tempo todo no forro do
vestiário!
Um agente já tinha se juntado ao grupo, para servir como intérprete. Quando Hooper ouviu as acusações do detetive de quem ele nunca conseguira pronunciar o nome, ficou fora de si:
— O quê?! O senhor está me acusando de ter participado desse sequestro?
A mim, mister Android? O diretor da CIA?
— Por enquanto estou acusando de pouca coisa, seu Hooper — respondeu Andrade depois de ouvir a tradução. — Mas, como fui eu quem descobriu o cativeiro da filha do seu presidente, tenho o direito de continuar com essa investigação. E ela está apontando para o seu lado!
Sherman Blake, de cenho franzido, acompanhando o raciocínio do detetive brasileiro, continuou:
— Espere aí, Hooper. Pelo jeito, o helicóptero só veio para cá para descarregar esses dois sequestradores, enquanto nós ficamos pensando que a menina Peggy tinha sido levada nele para longe daqui. Mas agora eu acho que o detetive brasileiro tem razão: por que você não procurou por pistas dentro do colégio e ainda impediu a policia brasileira de procurar?
Hooper não estava admitindo as acusações:
— Você ficou louco, Blake? Você acha que eu seria capaz de trair a confiança do meu presidente? Você acha que enquanto eu tivesse vida eu permitiria que alguém fizesse algum mal a miss Peggy?
— Confesse logo, Hooper! — exigia Blake. — Você sempre esteve do lado dos políticos mais reacionários do nosso país! Sempre ficou do lado da indústria de armas, não é?
Hooper defendia-se com raiva:
— Mas o que têm as minhas posições políticas com isso, Blake? Eu sabia que não adiantava ficar fazendo investigações aqui dentro enquanto a menina Peggy estava sendo levada pelo ar para longe! Deixei meus homens controlando o local do crime e fui para junto do presidente, acompanhar a perseguição do helicóptero!
Blake agarrou-o pela gola do paletó:
— Confesse, desgraçado! Foi você quem sequestrou Peggy!
Rodrigues Lobo interveio, com autoridade:
— Chega! Aqui é o meu país e crimes cometidos aqui, aqui serão julgados.
Detetive! Prenda o senhor Hooper! Andrade não titubeou:
— Seu Hooper! O senhor está preso como suspeito do sequestro da senhorita Peggy MacDermott. Está preso como suspeito do assassinato de dois agentes americanos. E, se eu pudesse, eu iria prendê-lo também por não saber pronunciar o meu nome direito!
— Me larguem! Let go off me!
Nesse momento, o ruído ensurdecedor das hélices de um helicóptero superou todas as vozes...
— O que é isso? O helicóptero voltou?
Até as paredes vibravam com o som altíssimo do motor do helicóptero, mas logo o barulho foi diminuindo e, antes que desaparecesse por completo, o grupo reunido no pátio em frente aos vestiários ouviu, boquiaberto:
— Hello...
— Kill the girl!
— What?
— I said you have to kill Peggy MacDermott. Kill her! Now!
O Presidente Rodrigues Lobo, o Doutor Pacheco e J. Edgar Hooper reconheceram a voz na mesma hora. Mas foi Peggy que deu um salto para a frente, fuzilando Sherman Blake com o olhar enfurecido:
— Você?! Você, tio Sherm?
Sherman Blake não deu tempo para que ninguém se recuperasse da surpresa. Estendeu o braço e agarrou Peggy, fazendo cair o larguíssimo paletó do detetive Andrade. Em um décimo de segundo, a faca de guerra dos fuzileiros navais americanos estava encostada na garganta de Peggy!
— Quietos! Senão eu degolo a menina!
Mais uma vez nua, num segundo, passaram pela cabeça de Peggy a coragem e o heroísmo daqueles garotos ao lado de quem ela havia lutado nas  últimas horas. Reviveu com a velocidade do estourar de uma lâmpada o momento do juramento que fizera com a mão sobre o coração de Miguel, enquanto ele também punha a mão sobre o coraçãozinho dela. Agora, Peggy era um Kara!
E Sherman Blake mal tinha acabado de pronunciar “menina”, quando os dentes de Peggy ferraram-se em sua mão, obrigando-o a largar a faca.
— Ai!
Tlin!
Quem estava mais perto era o presidente brasileiro, para surpresa de todos, sua perna subiu no ar, atingindo em cheio o peito de Blake! Foi um golpe espetacular e o enorme americano estatelou-se no chão!
— Canalha! Eu sou pernambucano! Já ouviu falar em “capoeira”, desgraçado?
Uma montanha de homens de ternos de todas as cores, liderados por um gordo em mangas de camisa, empilhava-se em cima do guarda-costas do presidente dos Estados Unidos, imobilizando-o.
Enquanto era carregado por cerca de oito policiais brasileiros, Sherman Blake gritava:
— Perdoe-me, Peggy! Perdoe-me! Mas você precisa compreender. A América está acima de tudo! Está acima da minha própria vida! Está acima até de sua vidinha preciosa, querida, que eu tanto amo! Compreenda que não há sacrifícios que a grandeza da América não justifique! Até mesmo a sua morte, minha querida Peggy, até mesmo a sua morte! Você é a pessoa que eu mais amo no mundo! Eu te amo, Peggy! Eu te amo!
E desapareceu dos olhos emocionados de todos. Abraçada ao detetive Andrade, Peggy MacDermott inundava-se em lágrimas...
No alto dos telhados, cinco sombras se reuniam numa só. No centro, estava o incrível Chumbinho, que tinha conseguido pescar com o gancho as armas dos bandidos, descarregando-as e entregando os sequestradores indefesos nas mãos de Andrade!
Ninguém saberia do heroísmo daqueles cinco adolescentes, nem de tudo o que tinham realizado naquela noite. Ou seis, já que Peggy agora era um deles e tinha agido com a coragem de um verdadeiro Kara. Agarraram-se num só abraço. Numa mistura de alívio, de carinho, de amizade eterna, os cinco Karas choravam em silêncio.
Nada, coisa alguma nesse mundo seria capaz de separá-los... Imundos, exaustos, famintos, os cinco Karas foram para suas casas. Magrí vestindo o moletom e os tênis de Chumbinho e Chumbinho descalço, de camiseta e com calças de palhaço enroladas nas pernas.
Tinham combinado que a desculpa para o inexplicável atraso seria uma festa junina, que teria terminado tarde demais. Mas nada disso adiantou. Em cada uma das casas, foram recebidos com as broncas mais monumentais de suas vidas!
Na de Calú...
— E por que você ao menos não telefonou? Para o chuveiro e pra cama, já! Na de Crânio...
— O que você está pensando, menino? Quase me mata do coração! Você nunca ouviu falar da violência desta cidade? Já pensou se você fosse envolvido em alguma confusão?
Na de Chumbinho...
— O que houve com você, meu filho? E as suas roupas? Sujou no pau-de-sebo? E onde você arranjou essas calças horrorosas? Uma semana sem videogame, é isso que você merece!
Na de Miguel...
— Onde já se viu uma coisa dessas? Você não tem consideração pelos seus pais? Você pensa que já é grande, é? Pois vai ficar um mês sem mesada!
Na de Magrí...
— Menina! Isso são horas? Ainda vou ter um enfarte por sua causa! Cheguei até a pensar que você tinha sido sequestrada!
Depois de um banho demorado, a garota estava na cozinha, tomando um copo de leite quente oferecido pela velha Joana, a governanta que tinha sido sua babá no passado.
— Você estava na festa, é, queridinha? — perguntou Joana carinhosamente.
— É
— Então você nem sabe do que aconteceu nessa noite?
— Não, Joana. O que foi?
— A filha do presidente americano foi sequestrada justo no seu colégio!
Magrí levantou para a governanta os olhos mais inocentes deste mundo:
— Não diga?!

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