24 de fevereiro de 2018

Capítulo 16

— Tenho uma missão para você.
Eu estava sentada no canto do salão de cabeleireiro supermoderno onde Agnes ia pintar o cabelo e depois fazer escova. Estava vendo o noticiário local que cobria o protesto contra o fechamento da biblioteca e larguei depressa o celular quando ela se aproximou, com o cabelo cuidadosamente separado em camadas de papel-alumínio. Ela se sentou ao meu lado, ignorando a colorista, que claramente queria que ela voltasse para sua cadeira.
— Quero que você encontre um piano muito pequeno. Para eu mandar para a Polônia.
Ela disse isso como se estivesse me pedindo para comprar um pacote de chiclete no supermercado.
— Um piano muito pequeno — repeti.
— Um piano pequeno muito especial para uma criança aprender a tocar. É para a filhinha da minha irmã — explicou ela. — Mas precisa ser de ótima qualidade.
— Não tem como comprar pianos pequenos na Polônia?
— Não um tão bom. Quero um Hossweiner and Jackson. Eles fazem os melhores pianos do mundo. E você tem que arranjar um envio especial, com controle ambiental, para ele não ser afetado pelo frio ou pela umidade, já que isso altera a afinação. Mas a loja deve ajudar com isso.
— Qual é mesmo a idade da filha da sua irmã?
— Quatro anos.
— Ahn... está bem.
— E precisa ser o melhor, para que ela possa identificar a diferença. Sabe, existe uma imensa diferença entre as afinações. É como tocar um Stradivarius em comparação com um violino qualquer.
— Claro.
— Só que tem uma coisa.
Agnes se virou de costas, ignorando a colorista, que, agora frenética, gesticulava para ela do outro lado do salão, dando tapinhas em um relógio de pulso imaginário.
— Eu não quero que isto apareça na fatura do cartão de crédito. Então, você terá que sacar dinheiro toda semana para pagar o piano. Aos poucos. Está bem? Já tenho algum dinheiro.
— Mas... o Sr. Gopnik certamente não se importaria...
— Ele acha que eu gasto demais com a minha sobrinha. Ele não entende. E, se Tabitha descobrir, vai distorcer tudo para me fazer parecer uma pessoa má. Você sabe como ela é, Louisa. E então... pode fazer isso?
Ela me encarou avidamente sob as camadas de papel-alumínio.
— Ahn, posso sim.
— Você é maravilhosa. Fico muito feliz por ter uma amiga como você.
Agnes me abraçou do nada, amassando as folhas de papel-alumínio ao encostá-las na minha orelha. Na mesma hora a colorista veio correndo para ver o estrago provocado pelo meu rosto.

* * *

Liguei para a loja e pedi que me mandassem o orçamento de dois modelos de pianos em miniatura, mais o custo do envio. Quando me recuperei do susto, imprimi a relação dos valores e mostrei a Agnes em seu quarto de vestir.
— É um presente e tanto — comentei.
Ela fez um gesto de menosprezo.
Engoli em seco.
— Com a taxa de entrega, são mais dois mil e quinhentos dólares.
Eu hesitei. Agnes não. Ela foi até a cômoda e a abriu com uma chave guardada na calça jeans. Diante dos meus olhos, pegou um maço desorganizado de notas de cinquenta dólares da grossura do seu braço.
— Pronto. Aqui tem oito mil e quinhentos. Preciso que você saia todas as manhãs para sacar o restante no caixa eletrônico. Quinhentos de cada vez. Está bem?
Eu não me senti totalmente confortável com a ideia de tirar tanto dinheiro da conta sem o conhecimento do Sr. Gopnik. No entanto, sabia como Agnes era apegada à família, e eu conhecia melhor que ninguém a vontade de se sentir perto de quem está longe. Quem era eu para questionar como ela gastava o seu dinheiro? Afinal, com certeza ela tinha vestidos mais caros do que o pianinho.
Nos dez dias seguintes, em algum momento do dia, eu ia obedientemente a pé ao caixa eletrônico na Lexington Avenue e sacava o dinheiro, enfiando as notas no sutiã antes de voltar, preparada para enfrentar assaltantes que nunca se materializaram. Entregava o dinheiro a Agnes quando ficávamos a sós, então ela o juntava ao maço na cômoda e trancava a gaveta novamente. Enfim, levei todo o bolo de notas à loja de pianos, assinei o formulário de compra e contei o dinheiro diante de um vendedor perplexo. O piano seria entregue na Polônia a tempo para o Natal.
Essa era a única coisa que parecia dar alguma alegria a Agnes. Toda semana, a deixávamos no ateliê de Steven Lipkott para a aula de arte, e Garry e eu tomávamos uma overdose silenciosa de cafeína e açúcar no Best Doughnut Place ou eu concordava com murmúrios com suas opiniões sobre filhos adultos ingratos e donuts com confeitos de caramelo. Buscávamos Agnes umas duas horas mais tarde e tentávamos ignorar o fato de que ela não trazia nenhum desenho da aula.
Seu ressentimento em relação ao implacável circuito beneficente havia aumentado ainda mais. Ela havia parado de tentar ser gentil com as outras mulheres, segundo Michael me contou aos cochichos enquanto tomávamos café na cozinha. Ela simplesmente ficava sentada, linda e emburrada, esperando o evento terminar.
— Acho que não se pode culpá-la, considerando como foram umas vacas com ela. Mas isso está tirando o Sr. Gopnik um pouco do sério. Para ele é importante ter, se não uma esposa troféu, alguém que esteja pelo menos preparada para sorrir de vez em quando.
O Sr. Gopnik parecia exausto por causa do trabalho e da vida como um todo. Michael me contou que as coisas no escritório estavam difíceis. Uma imensa negociação para resgatar um banco em alguma economia emergente dera errado e todos estavam trabalhando dia e noite para tentar salvá-la. Ao mesmo tempo — ou talvez por causa disso — Nathan disse que a artrite do Sr. Gopnik tinha piorado, e os dois estavam fazendo sessões extras para que ele conseguisse se movimentar normalmente. Ele estava tomando muitos remédios e um médico particular vinha vê-lo duas vezes por semana.
— Eu odeio esta vida — reclamou Agnes enquanto atravessávamos o parque a pé. — Todo esse dinheiro que ele dá, e para quê? Para ficarmos sentados quatro vezes por semana, comendo canapés secos com pessoas secas. E para essas mulheres secas poderem falar mal de mim.
Ela parou por um instante, olhou para o prédio atrás de nós, e notei que seus olhos estavam cheios d’água.
— Às vezes, Louisa, acho que não vou mais aguentar — disse baixinho.
— Ele ama você — falei.
Eu não soube o que mais poderia dizer.
Ela secou os olhos com a palma da mão e balançou a cabeça, como se tentasse se livrar da emoção.
— Eu sei.
Ela então me deu o sorriso menos convincente que já vi.
— Mas faz muito tempo que deixei de acreditar que o amor resolve tudo.
Por impulso, me adiantei e a abracei. Mais tarde, me dei conta de que não sabia se tinha feito isso por ela ou por mim mesma.

* * *

Tive a ideia pouco antes do jantar de Ação de Graças. Agnes havia se recusado a sair da cama o dia inteiro, por causa de um evento beneficente em prol da saúde mental agendado para aquela noite. Ela alegou que estava deprimida demais para ir, aparentemente ignorando a ironia da desculpa.
Pensei nisso enquanto tomava uma caneca de chá e então decidi que tinha pouco a perder.
— Sr. Gopnik? — chamei, batendo na porta do escritório dele e esperando que me convidasse a entrar.
Ele levantou a cabeça — a camisa azul-clara estava imaculada e os olhos, caídos de cansaço. Na maioria dos dias, eu sentia um pouco de pena dele, da forma como sentimos pena de um urso enjaulado ao mesmo tempo que mantemos um respeito saudável e ligeiramente temeroso por ele.
— O que foi?
— Eu... eu sinto muito por incomodá-lo. Mas tive uma ideia. Algo que acho que pode ajudar Agnes.
Ele se recostou na cadeira de couro e fez sinal para que eu fechasse a porta. Reparei no copo de conhaque na mesa — ele tinha começado a beber mais cedo do que o normal.
— Posso falar com franqueza? — perguntei.
Me senti um pouco enjoada de tão nervosa que estava.
— Por favor.
— Está bem. Bom, não pude deixar de notar que Agnes não está tão... ahn... feliz como poderia.
— Isso é um eufemismo — retrucou ele baixinho.
— Me parece que muitas das questões dela têm a ver com o fato de ter sido arrancada de sua vida antiga e não ter realmente se integrado à nova. Ela me contou que não sai com as amigas antigas porque elas não entendem sua vida nova e, pelo que reparei, bem, muitas das pessoas da vida nova não parecem dispostas a serem suas amigas. Acho que elas consideram que isso seria... desleal.
— Com a minha ex-mulher.
— Isso. Então, ela não tem um trabalho nem uma comunidade. E este prédio não é uma comunidade de verdade. O senhor tem seu trabalho e pessoas que conhece há anos e que gostam do senhor e o respeitam. Mas Agnes não tem. Eu sei que ela considera os eventos beneficentes especialmente difíceis, porém a filantropia é algo realmente importante para o senhor. Então, eu tive uma ideia...
— Diga.
— Bem, há uma biblioteca em Washington Heights que está ameaçada de fechar. Tenho todas as informações aqui. — Empurrei a minha pasta pela mesa. — É uma biblioteca comunitária de verdade, utilizada por pessoas de diferentes nacionalidades, idades e tipos. E é absolutamente vital para os moradores da área que permaneça aberta, eles estão lutando muito para salvá-la.
— Isso é um problema da câmara municipal.
— Bem, talvez. Mas conversei com uma das bibliotecárias, e ela contou que, no passado, eles receberam doações particulares que ajudaram a biblioteca a continuar funcionando. — Me inclinei na direção dele. — Se fosse até lá, Sr. Gopnik, veria que há programas de orientação para jovens e mães mantendo os filhos abrigados e seguros, além de pessoas de fato tentando melhorar as coisas. Melhorar de verdade. Sei que não é tão glamouroso quanto os eventos que o senhor frequenta... quer dizer, não vai haver um baile lá, mas ainda assim é beneficente, certo? E pensei que talvez... bom, talvez o senhor pudesse se envolver. E, melhor ainda, se Agnes se envolvesse, ela faria parte de uma comunidade. Poderia tornar isso um projeto dela. O senhor e ela fariam algo incrível.
— Em Washington Heights?
— O senhor deveria ir até lá. É uma região com bastante diversidade. Bem diferente... daqui. Quer dizer, algumas partes estão gentrificadas, mas essa em especial...
— Eu conheço Washington Heights, Louisa. — Ele tamborilou os dedos na mesa. — Você conversou com Agnes sobre isso?
— Eu achei que deveria conversar com o senhor primeiro.
Ele pegou a pasta e a abriu. Franziu o cenho diante da primeira folha — um recorte de jornal sobre os primeiros protestos. A segunda era um demonstrativo orçamentário que eu pegara do site da câmara municipal, que mostrava o balanço financeiro do último ano.
— Sr. Gopnik, eu realmente acho que o senhor poderia fazer a diferença. E não apenas para Agnes, mas para uma comunidade inteira.
Foi a essa altura que percebi que ele parecia impassível, indiferente até. Não foi uma mudança notável em sua expressão, mas um leve enrijecimento, o olhar para baixo. E me ocorreu que, por ser tão rico, ele provavelmente recebia uma centena de pedidos de dinheiro todo dia, além de sugestões sobre o que fazer com ele. E que talvez, ao também pedir isso, eu houvesse ultrapassado uma fronteira invisível da relação empregado/empregador.
— Enfim, é apenas uma ideia. Provavelmente uma não muito boa. Desculpe se falei demais. Vou voltar ao trabalho. Não se sinta obrigado a olhar isso tudo se estiver ocupado. Posso levar comigo se o senhor...
— Está tudo bem, Louisa.
Ele pressionou as têmporas com a ponta dos dedos, os olhos fechados. Eu me levantei, sem saber ao certo se estava sendo dispensada.
Então ele finalmente olhou para mim.
— Pode falar com Agnes, por favor? Descubra se eu terei que ir a esse jantar sozinho?
— Posso sim, claro.
Saí do escritório.

* * *

Agnes foi ao jantar beneficente. Não ouvimos nenhuma briga quando os dois chegaram em casa, mas, no dia seguinte, descobri que ela havia dormido no quarto de vestir.

* * *

Nas duas semanas antes de eu ir para casa no Natal, desenvolvi um hábito quase obsessivo com o Facebook. Passei a conferir a página de Katie Ingram de manhã e à noite, lendo suas conversas públicas com os amigos e procurando fotos novas. Uma amiga perguntou o que ela estava achando do emprego, e Katie escreveu “Estou AMANDO!” com uma carinha piscando (era irritante como ela gostava de carinhas piscando). Em outro dia, ela postou: “Dia difícil hoje. Grata por ter um parceiro incrível! #abençoada”. E postou mais uma foto de Sam, ao volante da ambulância. Ele estava rindo, com a mão levantada como que para fazê-la parar, e a visão do rosto dele, a intimidade da foto, a maneira como a imagem me colocava como uma mera espectadora dos dois me deixou sem ar.
Nós tínhamos combinado de conversar por telefone na noite anterior — a vez era dele —, porém, quando liguei, ele não atendeu. Tentei mais duas vezes e nada. Duas horas depois, quando eu estava começando a ficar preocupada, recebi uma mensagem de texto: Desculpe. Ainda está aí?
— Você está bem? Estava trabalhando? — perguntei, quando ele me ligou.
Houve uma brevíssima hesitação antes que ele respondesse.
— Não exatamente.
— Como assim?
Eu estava no carro com Garry, esperando Agnes sair da pedicure, e tinha consciência de que ele devia estar prestando atenção, independentemente do quanto parecesse estar entretido no caderno de esportes do New York Post.
— Eu estava ajudando Katie com uma coisa.
Senti um nó na garganta ao ouvir o nome dela.
— Ajudando com o quê? — questionei, tentando manter a voz descontraída.
— Com um guarda-roupa. Um desses baratinhos. Ela comprou e não conseguiu montar sozinha, então fiquei de ajudá-la.
Eu me senti enjoada.
— Você foi à casa dela?
— Apartamento. Foi só para ajudá-la com um móvel, Lou. Ela não tem mais ninguém. E eu moro na mesma rua.
— Você levou a sua caixa de ferramentas.
Lembrei como ele costumava fazer pequenos consertos no meu apartamento. Isso foi uma das primeiras coisas que me atraíram nele.
— Sim. Eu levei a minha caixa de ferramentas. E tudo o que fiz foi ajudá-la com um guarda-roupa — explicou com a voz cansada.
— Sam?
— O que foi?
— Você se ofereceu para ajudá-la ou foi ela quem pediu?
— Que diferença isso faz?
Tive vontade de dizer que tinha diferença, sim, porque era evidente que Katie estava tentando roubá-lo de mim. Ela estava alternando entre bancar a mulher indefesa, a festeira divertida, a melhor amiga compreensiva e a colega de trabalho. Ou ele estava cego, ou — pior — não estava. Das fotos postadas por ela nas redes sociais, não havia uma sequer em que não estivesse grudada nele, feito uma sanguessuga de batom. Às vezes eu me perguntava se ela sabia que eu xeretaria as fotos e se gostava de imaginar o desconforto que elas me provocavam. Será que isso era parte do plano: me deixar triste e paranoica? Tenho minhas dúvidas se os homens um dia compreenderão a artilharia infinitamente sutil que as mulheres usam umas contra as outras.
O silêncio entre nós ao telefone se prolongou e se tornou um sumidouro. Eu sabia que não tinha como vencer. Se tentasse alertá-lo sobre o que estava acontecendo, eu pagaria de bruxa ciumenta. Se não falasse nada, ele continuaria caindo cegamente na armadilha dela. Até o dia em que de repente Sam se daria conta de que sentia tanto a falta dela quanto um dia sentiu a minha. Ou descobrisse a mão macia de Katie em cima da sua no pub, buscando conforto depois de um dia difícil. Ou os dois se conectassem por causa de um pico de adrenalina, uma experiência de quase morte, e acabassem se beijando e...
Fechei os olhos.
— E então? Quando você volta? — perguntou ele.
— Na véspera do Natal.
— Ótimo. Vou tentar trocar uns plantões. Mas terei que trabalhar durante parte do feriado do Natal, Lou. Você sabe como é. O trabalho não para nunca. — Então suspirou. Houve uma pausa antes de ele voltar a falar: — Olha, eu estive pensando. Talvez fosse uma boa ideia você e Katie se conhecerem. Aí você vai ver que ela é uma pessoa legal. Ela não está tentando ser nada além de minha amiga.
Não está é o cacete.
— Ótimo! Parece uma boa — retruquei.
— Acho que você vai gostar dela.
— Se você acha, com certeza eu vou.
Da mesma forma que eu gostaria do vírus ebola. Ou de arranhar os cotovelos. Ou talvez comer aquele queijo com insetos vivos dentro.
Ele pareceu aliviado ao dizer:
— Mal posso esperar para ver você. Vai ficar uma semana, certo?
Baixei a cabeça, tentando abafar um pouco a voz.
— Sam, a... a Katie realmente quer me conhecer? Vocês conversaram sobre isso?
— Sim. — E, então, como eu não disse nada, ele acrescentou: — Quer dizer, não de um jeito... nós não conversamos sobre o que aconteceu com você e comigo ou coisa parecida. Mas ela entende que deve ser difícil para nós.
— Entendi.
Senti o maxilar ficar tenso.
— Ela acha que você parece ser ótima. Claro que eu disse que ela entendeu tudo errado.
Eu ri e fiquei na dúvida se o pior ator do mundo conseguiria ter soado menos convincente.
— Você vai ver quando conhecê-la. Mal posso esperar...
Quando Sam desligou, levantei a cabeça e flagrei Garry me observando pelo retrovisor. Mantemos contato por um instante, até que ele desviou o olhar.

* * *

Considerando que moro em uma das metrópoles mais movimentadas do planeta, passei a compreender que o mundo como eu o conhecia era na verdade muito pequeno, encolhido em torno das demandas dos Gopnik das seis da manhã até tarde da noite. Minha vida havia se tornado completamente entrelaçada à da deles. Assim como ocorrera com Will, eu havia me tornado sensível a cada humor de Agnes, conseguindo detectar pelos sinais mais sutis se ela estava triste, com raiva ou simplesmente precisando de comida. Agora eu sabia quando ela ia ficar menstruada e marcava seus ciclos na minha agenda para me preparar para cinco dias de emoção exacerbada ou de piano sendo tocado com empatia extra. Sabia como me tornar invisível durante conflitos familiares e ficar totalmente presente quando necessário. Eu me tornei uma sombra, de tal forma que às vezes me sentia quase evanescente — útil apenas em relação a outra pessoa.
Minha vida antes dos Gopnik se tornou algo distante, indistinto e espectral, vivenciado através de poucos telefonemas (quando a agenda dos Gopnik permitia) e e-mails esporádicos. Fiquei duas semanas sem ligar para a minha irmã e chorei quando minha mãe me mandou uma carta escrita à mão com fotos dela e de Thom em uma matinê de teatro “apenas para o caso de você ter esquecido a nossa aparência”.
A coisa toda podia ficar pesada demais. Então, para equilibrar, mesmo estando exausta, eu ia todos os fins de semana à biblioteca com Ashok e Meena — até cheguei a ir sozinha uma vez, quando os filhos deles estavam doentes.
Aprendi a me vestir melhor para o frio e fiz meu próprio cartaz “Conhecimento é poder!” — uma referência específica a Will. Voltava de trem e depois ia ao East Village tomar café no Vintage Clothes Emporium e dar uma olhada nos novos itens do estoque de Lydia e da irmã.
O Sr. Gopnik nunca mais voltou a falar da biblioteca. Um pouco decepcionada, eu me dei conta de que caridade podia significar algo muito diferente em Nova York: não bastava doar, era preciso ser visto doando. Os hospitais exibiam os nomes de seus beneméritos em letras de três metros de altura acima das portas. Bailes eram batizados com o nome dos financiadores. Até os ônibus divulgavam listas de nomes nas janelas traseiras. O Sr. e a Sra. Leonard Gopnik eram conhecidos como doadores generosos porque a sociedade os via fazendo isso.
Uma biblioteca antiga em um bairro decadente não oferecia esse tipo de reconhecimento.

* * *

Ashok e Meena haviam me convidado para passar o Dia de Ação de Graças no apartamento deles, em Washington Heights, depois de ficarem horrorizados quando revelei que não tinha planos para o feriado.
— Você não pode passar o Dia de Ação de Graças sozinha! — argumentou Ashok, e preferi não comentar que pouca gente na Inglaterra entendia o significado da data.
— Minha mãe faz o peru. Mas não espere que seja ao estilo americano — explicou Meena. — Não suportamos toda essa comida sem gosto. Vai ser um peru bem tandoori.
Não foi difícil dizer sim para algo novo: eu estava muito empolgada. Comprei uma garrafa de champanhe, alguns chocolates finos e flores para a mãe de Meena, então coloquei o vestido azul com mangas de pele, achando que um Dia de Ação de Graças indiano seria uma estreia adequada para ele — ou, pelo menos, uma estreia sem dress code definido. Como Ilaria estava concentrada na preparação do jantar em família dos Gopnik, preferi não incomodá-la. Saí do apartamento e conferi se não tinha esquecido as anotações do caminho dadas por Ashok.
No corredor, percebi que a porta do apartamento da Sra. De Witt estava aberta. Ouvi a televisão ligada lá dentro. A poucos metros da porta, Dean Martin estava de pé no corredor, me encarando com o olhar furioso. Fiquei na dúvida se ele não estava prestes a fugir mais uma vez para a liberdade e toquei a campainha.
A Sra. De Witt surgiu no corredor.
— Sra. De Witt? Acho que Dean Martin está prestes a sair para uma caminhada.
O cachorro foi para trás dela, que se apoiou na parede. Ela parecia frágil e cansada.
— Você poderia fechar a porta, querida? Acho que não a fechei direito.
— Claro, pode deixar. Feliz Dia de Ação de Graças, Sra. De Witt.
— É hoje? Eu nem reparei.
Ela desapareceu de novo na sala, com o cachorro atrás, e eu fechei a porta da frente. Nunca a havia considerado mais do que uma mera conhecida, porém senti uma pontada de tristeza ao imaginá-la passando o Dia de Ação de Graças sozinha.
Estava me virando para sair quando Agnes passou pelo corredor vestindo roupa de ginástica. Pareceu espantada em me ver.
— Aonde você vai?
— Jantar…
Preferi não contar com quem ia jantar, pois não sabia como os patrões do prédio se sentiriam se achassem que os empregados se reuniam na ausência deles. Agnes me encarou horrorizada.
— Mas você não pode ir, Louisa. A família do Leonard está vindo para cá. Eu não consigo fazer isso sozinha. Eu disse a eles que você estaria aqui.
— Você disse? Mas...
— Você precisa ficar.
Olhei para a porta. Senti um aperto no peito.
E então ela disse baixinho:
— Por favor, Louisa. Você é minha amiga. Eu preciso de você.

* * *

Liguei para Ashok e contei que não iria mais. Meu único consolo foi o fato de que, por causa do seu emprego, ele compreendeu na hora a situação.
— Eu sinto muito — sussurrei ao telefone. — Eu queria muito jantar com vocês.
— Nah. Você precisa ficar. Ei, a Meena está aqui gritando, falando para avisar que ela vai guardar um pouco de peru para você. Te entrego amanhã... Amor, eu avisei a ela! Eu avisei! Louisa, ela mandou você tomar todo o vinho caro deles, está bem?
Por um instante, eu me senti à beira das lágrimas. Tinha esperado ansiosamente por uma noite cheia de crianças alegres, comida deliciosa e risos. Em vez disso, eu seria uma sombra mais uma vez, um objeto cenográfico silencioso em um ambiente gelado.
Meus receios se provaram justificados.
Três outros membros da família Gopnik compareceram ao Dia de Ação de Graças celebrado no apartamento: o irmão dele, uma versão mais velha, mais grisalha e mais anêmica do Sr. Gopnik, que pelo visto trabalhava com algo relacionado a direito. Provavelmente comandava o Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Ele trouxe a mãe dos dois, que ficou em uma cadeira de rodas, se recusou a noite toda a tirar o casaco de pele e reclamou em voz alta que não conseguia escutar o que os outros estavam dizendo. O terceiro convidado era a mulher do irmão do Sr. Gopnik, uma ex-violinista aparentemente de certo renome. Ela foi a única que se preocupou em me perguntar com o que eu trabalhava. Cumprimentou Agnes com dois beijinhos e o sorriso profissional que poderia ser direcionado para qualquer um.
Tabitha completou o grupo, chegando tarde e dando a impressão de ter passado a corrida de táxi conversando intensamente ao celular sobre o quanto não queria estar ali. Logo depois de ela chegar, todos nos acomodamos para comer na sala de jantar — que ficava fora da sala de estar principal e era dominada por uma longa mesa oval de mogno.
Pode-se dizer que a conversa foi artificial. O Sr. Gopnik e o irmão logo iniciaram uma discussão sobre as restrições jurídicas no país onde ele estava fazendo negócios no momento, e as duas esposas trocaram algumas perguntas básicas, como quem pratica conversação em um idioma estrangeiro.
— Como tem passado, Agnes?
— Bem, obrigada. E você, Veronica?
— Muito bem. Você está ótima. Seu vestido é muito bonito.
— Obrigada. Você também está muito bonita.
— Fiquei sabendo que você viajou para a Polônia. Leonard disse que você foi visitar a sua mãe.
— Fui para lá duas semanas atrás. Foi ótimo ver minha mãe. Obrigada.
Eu me sentei entre Tabitha e Agnes, observando Agnes beber vinho branco demais e Tabitha ficar insolentemente no celular, revirando os olhos de vez em quando. Tomei a sopa de abóbora com sálvia, assenti, sorri e tentei não pensar com muita melancolia no apartamento de Ashok e no caos alegre que estaria rolando lá. Eu teria perguntado a Tabitha sobre como havia sido sua semana — qualquer coisa para fazer a conversa claudicante se desenrolar —, mas ela tinha feito tantos comentários ácidos sobre o horror de ter “empregados” em eventos de família, que não tive a audácia.
Ilaria trouxe um prato após o outro.
— A puta polonesa não cozinha. Então, alguém tem que abrir mão do próprio Dia de Ação de Graças — resmungou ela mais tarde.
Havia preparado um banquete de peru, batata assada e uma porção de coisas que eu nunca tinha visto serem servidas como acompanhamento, mas suspeitei que me deixariam com diabetes tipo 2 na mesma hora: caçarola de batata-doce caramelizada com cobertura de marshmallow, vagem com mel e bacon, abóbora-bolota assada com bacon e calda de bordo, pão de milho amanteigado e cenoura assada com mel e condimentos. Havia também bolinhos — parecidos com o Yorkshire pudding —, e eu disfarçadamente os analisei para ver se também estavam cobertos de calda.
É claro que apenas os homens comeram boa parte da comida. Tabitha ficou empurrando a dela de um lado para outro no prato. Agnes comeu um pouco de peru e quase mais nada. Eu comi um pouco de tudo, grata por ter o que fazer e também por Ilaria ter parado de jogar vários pratos diante de mim. Na verdade, ela me fitou de rabo de olho algumas vezes, como que para expressar solidariedade pelo meu martírio. Os homens continuaram falando de negócios, sem perceber ou sem querer reconhecer o clima constrangedor na outra ponta da mesa.
Às vezes, o silêncio era interrompido pela idosa Sra. Gopnik exigindo que alguém lhe servisse batata ou perguntando em voz alta, pela quarta vez, o que afinal tinham feito com a cenoura. Mais de uma pessoa lhe respondia ao mesmo tempo, como que aliviada por ter um foco, sem se importar com a situação irracional.
— Que vestido peculiar, Louisa — comentou Veronica, após um silêncio especialmente longo. — Bem inusitado. Você o comprou em Manhattan? Não se veem muitas mangas de pele hoje em dia.
— Obrigada. Comprei no East Village.
— É um Marc Jacobs?
— Ahn, não. É vintage.
— Vintage — repetiu Tabitha em tom de deboche.
— O que foi que ela disse? — perguntou a Sra. Gopnik, em voz alta.
— Ela está falando do vestido da moça, mamãe — explicou o irmão do Sr. Gopnik. — Disse que é vintage.
— Vintage o quê?
— Qual é o problema com “vintage”, Tab? — questionou Agnes friamente.
Eu me endireitei na cadeira.
— É um termo tão sem sentido, não? É apenas outra forma de dizer “de segunda mão”. Um jeito de glamourizar algo, fazendo com que pareça ser o que não é.
Tive vontade de dizer que vintage significava muito mais do que isso, porém não soube como colocar em palavras — e suspeitei que não deveria falar nada. Só queria que a conversa fosse redirecionada para outro assunto, para longe de mim.
— Acho que as roupas vintage estão muito na moda agora — interveio Veronica, se dirigindo diretamente a mim com uma habilidade diplomática. — Mas é óbvio que estou velha demais para compreender as tendências dos jovens de hoje.
— E educada demais para dizer esse tipo de coisa — alfinetou Agnes.
— Desculpe? — disse Tabitha.
— Ah, agora você se desculpa?
— Não, eu quis dizer “o que você acabou de falar?” — explicou Tabitha.
O Sr. Gopnik desviou a atenção do prato. Seu olhar cansado foi da mulher para a filha.
— Por que você é tão grossa com Louisa? Ela é minha convidada aqui, mesmo sendo minha funcionária. E você foi grossa ao falar da roupa dela.
— Eu não fui grossa. Só fiz um comentário.
— É assim que as pessoas são grossas hoje em dia. Eu digo o que penso. Só estou sendo sincera. A desculpa de quem faz bullying. Todos sabemos como é.
— Do que você acabou de me chamar?
— Agnes. Querida.
O Sr. Gopnik estendeu o braço pela mesa e colocou a mão sobre a da mulher.
— O que elas estão dizendo? — perguntou a Sra. Gopnik. — Peça para falarem mais alto.
— Eu disse que Tab está sendo muito grossa com a minha amiga.
— Ela não é sua amiga, pelo amor de Deus. Ela é sua assistente assalariada. Embora eu ache que seja o mais próximo que você chegará em termos de amizade agora.
— Tab! — exclamou o pai dela. — Que coisa horrível de se dizer.
— Mas é verdade. Ninguém quer se aproximar dela. Você não pode fingir que não vê isso aonde quer que vá. Você sabia que a nossa família é motivo de chacota, papai? Você se tornou um clichê. Ela é um clichê ambulante. E para quê? Todo mundo sabe qual é o plano dela.
Agnes tirou o guardanapo do colo e o amassou em uma bola.
— Meu plano? Você poderia me dizer qual é o meu plano?
— É o mesmo de todas as outras imigrantes espertas e ambiciosas. De alguma forma, você convenceu o papai a se casar com você. Agora com certeza está fazendo o possível para engravidar e ter um ou dois filhos e, em cinco anos, vai se divorciar dele. E aí vai estar com a vida feita. Bum! Nada de massagens. Só Bergdorf Goodman, um motorista e almoços com o seu povo polonês.
O Sr. Gopnik se inclinou para a frente.
— Tabitha, nunca mais quero ouvir você dizer a palavra “imigrante” em tom pejorativo nesta casa. Seus bisavós eram imigrantes. Você é descendente de imigrantes...
— Não desse tipo de imigrante.
— O que isso quer dizer? — questionou Agnes, com o rosto vermelho.
— Você quer que eu desenhe? Tem os que conquistam seus objetivos com trabalho duro e os que fazem isso deitando...
— Como você? — atacou Agnes, gritando. — Como você, que vive de mesada mesmo tendo uns vinte e cinco anos? Você, que mal teve um emprego na vida? Eu devo considerar você como exemplo? Eu pelo menos sei o que é trabalhar duro...
— Ah, é. Montando em cima de desconhecidos nus. Grande emprego.
— Já chega! — berrou o Sr. Gopnik, que agora estava de pé. — Você está muito, muito errada, Tabitha, e tem que se desculpar.
— Por quê? Porque consigo enxergá-la de forma objetiva? Papai, lamento dizer, mas você está completamente cego para o que essa mulher é de verdade.
— Não. É você quem está errada!
— Então ela não quer ter filhos? Ela tem vinte e oito anos, papai. Acorda!
— Sobre o que eles estão falando? — perguntou a Sra. Gopnik, em tom rabugento, para a nora, e Veronica sussurrou algo em seu ouvido. — Mas ela falou sobre homens nus. Isso eu escutei.
— Não que seja da sua conta, Tabitha, mas não haverá mais crianças nesta casa. Agnes e eu concordamos quanto a isso antes de nos casarmos.
Tabitha fez uma careta.
— Aaaah. Ela concordou. Como se isso significasse algo. Uma mulher como ela diria qualquer coisa para se casar com você! Papai, eu odeio ter que dizer isso, mas você está sendo absurdamente ingênuo. Em um ano mais ou menos haverá um pequeno “acidente”, e ela vai convencê-lo...
— Não haverá acidente! — berrou o Sr. Gopnik, batendo na mesa com tanta força que os copos tilintaram.
— Como você pode garantir?
— Porque eu fiz uma maldita vasectomia! — disparou o Sr. Gopnik, voltando a se sentar na cadeira. Suas mãos estavam trêmulas. — Dois meses antes de nos casarmos. No Mount Sinai. Com total concordância de Agnes. Está satisfeita agora?
A sala mergulhou em silêncio. Boquiaberta, Tabitha ficou encarando o pai.
A idosa olhou para os lados e então perguntou, observando o Sr. Gopnik:
— Leonard fez uma apendicectomia?
Um zumbido baixo começou a soar no fundo da minha cabeça. Bem longe, ouvi o Sr. Gopnik insistir que a filha pedisse desculpas, então vi Tabitha empurrar a cadeira para trás e sair da mesa sem fazer isso. Percebi Veronica trocando olhares com o marido e tomando um longo gole da bebida. E então me virei para Agnes, que estava olhando fixamente para o próprio prato, onde a comida esfriava em porções cobertas por mel e bacon. Quando o Sr. Gopnik estendeu a mão e apertou a dela, senti o coração acelerado reverberar nos ouvidos.
Ela não olhou para mim.

12 comentários:

  1. Se ele não podia ter filhos, pra que o teste de gravidez então...? Será que...

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  2. o artista,tem q ser ,ela esta traindo el e com o artista
    pq? se ela amava tanto o marido? será q ela é falsa mesmo?

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    1. Acredito que ela ainda gosta do marido, mas a sociedade colocou muita pressão nela e o artista seria tipo uma válvula de escape, entende?
      -Be

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  3. Sabia q essa Agnes n era boa coisa....
    E no final ela vai jogar tdo para cima da Low 😑

    Eríneas Graças

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  4. acho que ela engravidou do pintor gente que bisca essa Agnes

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  5. Eita que agora são muitas revelações bombásticas.

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  6. Concordo,Agnes pode amar o marido,mas é uma carga muito pesada e não acho que ele a defenda tanto,só quer estar bem "na foto",deveria ser mais companheiro e apoia-la mais,afinal nem a empregada ele mandou embora,mesmo sabendo que a Agnes é mal tratada por ela!Tipo,nem na casa "dela" ele deixa ela mandar!

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  7. É...a vida da Agnes não está nada fácil.
    E a Lou está numa situação e tanto..Muitos segredos alheios pra guardar .
    É sufocante.
    Tô amando o livro.
    Confesso que comecei sem muita expectativa.

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    1. Também comecei sem expectativas, porque o segundo achei chatinho...

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  8. Mas no fim a Agnes era mesmo uma quebra, chocada.

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  9. Então deve está rolando algo com o artista... chocadaaaaa

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Boa leitura, E SEM SPOILER!