16 de fevereiro de 2018

Capítulo 16

As trancas em casa tinham sido brincadeira de criança comparadas a esta. Eu havia lutado com esta tranca por quase uma hora. Quantas vezes eu tinha aberto as portas do Chanceler ou do Erudito ou, o que era especialmente divertido para mim, do Guardião do Tempo para redefinir os seus relógios? Isso havia enraivecido sobretudo meu pai, mas eu só tinha feito isso na esperança de que criar uma hora extra no seu dia para mim. Pensei que ele poderia até mesmo apreciar a minha desenvoltura. Ele não sabia, mas meus irmãos sorriram secretamente a cada vez que ele me repreendeu. O orgulho em seus rostos por só fazia valer a pena.
Mas essa tranca enferrujada era teimosa, e um simples grampo de cabelo não a fazia se mexer, muito menos uma lasca de estopim, que eram as únicas ferramentas que consegui encontrar. Retorci a lasca no buraco da fechadura novamente, desta vez forçando um pouco a mais, e ela se partiu.
— Droga!
Atirei a lasca quebrada no chão. Então, a porta não era uma opção. Havia outras maneiras de se sair de um quarto, talvez um pouco mais arriscadas, mas não impossíveis. Fui até a janela novamente. Dava para andar tranquilamente pelo parapeito exterior, com seus bons vinte e cinco centímetros de largura. Era uma queda angustiante até o chão, mas apenas uns metros adiante ele se ligava ao topo de uma larga parede que dividia dois caminhos diferentes que poderiam conduzir a qualquer lugar. Infelizmente, as minhas três janelas estavam à vista dos soldados no pátio abaixo, e eles pareciam ter um interesse incomum em olhar aqui para cima. Eu tinha acenado para eles duas vezes.
— Será mais seguro para você ficar aqui — Kaden me dissera antes de sair. Ele tentou fazer parecer que estava apenas tentando manter os outros fora, mas era claro que ainda não confiava que eu fosse ficar no lugar.
Eu me larguei cair na cama. Ele me deixara com comida e água e a promessa de voltar ao anoitecer. O que demoraria horas, e eu ainda não tinha informações sobre Rafe. Onde ele estava? Pensei sobre como os guardas tinham batido nele antes, mas certamente não bateriam agora que ele tinha feito um acordo com o Komizar. Ou pelo menos era o que eu esperava. Eu deveria ter arriscado perguntar a Kaden. Poderia ter formulado a pergunta de uma maneira casual, desinteressada.
— Não — suspirei, e rolei, aninhada no calor da cama.
Havia tantas coisas que eu poderia disfarçar com segurança no meu rosto e tom de voz. Para mim, Rafe não era uma delas. Era mais seguro não falar dele. Eu só despertaria as suspeitas de Kaden.
Fiquei olhando distraidamente pelo quarto, perguntando-me que tipo de assunto poderia ocupar tanto do tempo de Kaden, mas então notei algo escondido ao lado de um dos baús. Algo que não estivera lá antes. Sentei-me, curiosa. Um saco de dormir empoeirado? Levantei-me e me aproximei. Era meu! Meu saco de dormir! E abaixo dele, meu alforje!
Como eles chegaram aqui? Teria Eben também os recolhido secretamente antes de serem vendidos no mercado? Peguei meu alforje e joguei-o sobre a cama, o conteúdo voando. O lenço de pescoço de contas que Reena me deu, a minha escova, minha caixa de fósforos, os restos esmigalhados da erva chiga... tudo, incluindo os textos antigos que eu tinha roubado, ainda enfiados em sua capa de couro. Meu humor transformou-se de frustração para júbilo em um instante. Mesmo o item mais simples como a corda de couro para prender meu cabelo me trouxe alegria, as coisas que eram minhas e não emprestadas ou comprados com as moedas do Komizar. Mas especialmente os livros. Eu rapidamente os enfiei debaixo do colchão da cama para o caso de alguém pensar em levá-los de volta.
Balancei o meu saco de dormir e ergui o manto, ainda atado com o fio que as mulheres nômades tinham me dado caso o tempo virasse. Os dias e as noites tinham sido tão quentes por toda a savana não tive necessidade de usá-lo, exceto ocasionalmente como travesseiro. Puxei o fio e joguei a capa sobre os ombros, saboreando seu calor, mas especialmente valorizando aqueles que me deram, lembrando as bênçãos que enviaram comigo, mesmo o pequeno desejo raivoso de Natiya por danos vindouros aos dentes de Kaden. Eu sorri. O manto era como seus braços à minha volta outra vez. Peguei um punhado de tecido e o segurei contra minha bochecha, macio e da cor de uma floresta à meia-noite...
E da cor da pedra escura.
Havia mais uma janela – uma no armário da câmara. Corri para ela. Talvez com a cobertura escura de um manto, aquela janela poderia estar longe o suficiente da vista dos guardas para que eu pudesse escapar despercebida. Em minha pressa, escorreguei no tapete trançado no cômodo minúsculo e caí contra a parede de pedra áspera. Esfreguei meu ombro dolorido, amaldiçoando o rasgo que fiz na camisa de Kaden. Fui até a janela e olhei para fora. Um guarda olhou para cima e balançou a cabeça, como se esperasse minhas aparições recorrentes. Kaden deve tê-los avisado para manter um olhar atento em todas as janelas do seu quarto. Resmunguei um praguejar irritado enquanto sorria e acenava de volta. Abaixei-me para esticar o tapete amarfanhado e notei uma lacuna ligeiramente maior entre as tábuas do piso. Ar frio veio pela fresta. Empurrei o tapete de lado e vi que a linha continuava em torno de um quadrado perfeito. Em uma extremidade, um anel de ferro estava incorporado. O Sanctum está repleto de passagens abandonadas.
Era assim que ele fazia isso.
Eu não tinha dormido enquanto as dobradiças da porta gritavam. Ele saíra silenciosamente por este caminho. Meu coração batia forte quando peguei o anel. Puxei, e o piso se levantou. Alavancas de ferro desdobraram-se suavemente sob as tábuas para revelar um buraco negro e o início pouco visível de uma escada. Ar pesado, empoeirada e velho, se arrastou para cima, gelando a pequena sala.
Uma rota de fuga. Mas para onde? Inclinei-me, olhando para o buraco negro, mas as escadas desapareciam na escuridão. Algumas com quedas mortais.
Balancei a cabeça e comecei a fechar o alçapão, depois parei.
Se Kaden podia descer e sair do outro lado, eu poderia fazer o mesmo. Puxei o manto para cima e coloquei meus pés no primeiro degrau. Posicionei o sobre o alçapão de modo que ele caísse de volta no lugar quando eu o fechasse, mas encontrar a vontade de fechá-lo atrás de mim levou algum tempo. Eu finalmente respirei fundo e deixei a portinhola cair.
As escadas eram íngremes e estreitas. Minhas mãos deslizavam ao longo das paredes de pedra de ambos os lados para me ajudar a sentir o caminho para baixo, às vezes passando pelo o que eu só podia imaginar serem enormes teias de aranha. Reprimi um arrepio e me lembrei de todas as teias que eu tinha varrido na pousada. Inofensivas, Lia. Pequenas, Lia. Em comparação com os Komizar, pequenas criaturas inocentes. Continue.
Degrau depois de degrau, não vi nada, apenas preto sufocante e profundo. Pisquei, quase sem tem certeza se os meus olhos estavam abertos. Senti a escada se curvando, meu pé esquerdo encontrando mais espaço no degrau do que o direito, e depois de uma dúzia de degraus, luz abençoada apareceu. Fraca no início, e então aumentando. Era apenas uma lacuna na espessura de um dedo entre os blocos de pedra da parede exterior, mas na escuridão, brilhou como uma lanterna abençoada. Ela iluminou o caminho abaixo de mim, e fui capaz de me mover em um ritmo mais rápido. Alguns dos degraus de pedra tinham desmoronado, e eu tive que apoiar o peso com cuidado por um terceiro ou mesmo um quarto degrau. Finalmente cheguei a um patamar que levou a um corredor escuro e relutantemente entrei na escuridão completa novamente. Depois de apenas alguns passos, dei com uma parede sólida. Um beco sem saída. Tem que levar a algum lugar, eu pensei, mas depois me lembre da construção aleatória de toda a cidade.
Encontrei meu caminho de volta para a escada, desci mais alguns degraus para outro patamar, outro corredor escuro e mais um beco sem saída. Minha garganta ficou apertada. O ar mofado estava subitamente me sufocando, e os meus dedos estavam duros de frio. E se Kaden não tivesse saído por este caminho? E se esta fosse uma daquelas passagens bloqueadas e esquecidas da qual eu nunca mais encontraria meu caminho de volta?
Fechei os olhos, embora isso fizesse pouca diferença na escuridão. Respire, Lia. Você não chegou até aqui por nada. Meus dedos se fecharam em punhos. Havia uma saída, e eu a encontraria.
Eu ouvi um barulho e me virei.
Uma mulher estava na outra extremidade da passagem.
Fiquei tão chocada que não tive o bom senso de ter medo no início. Seu rosto estava nebuloso nas sombras, e seus longos cabelos caíam em mechas torcidos até o chão.
E então eu soube. No fundo do meu âmago, eu sabia quem ela era, apesar de todas as regras da razão me dizerem que era impossível. Esta era a mulher que eu tinha visto nas sombras do Saguão do Sanctum. A mulher que me observava da cordilheira. A mesma mulher que tinha cantado meu nome em cima de um muro milhares de anos atrás. A que foi empurrada para a morte, e xará de um reino determinado a esmagar o meu.
Esta era Venda.

8 comentários:

  1. caraaaaaaaaaacaaaaaa meeeeeeuuuu!!!!

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  2. Ela ta parecendo a celaeba (acho que é assim que se escreve kk) com essas passagens secretas e um espírito antigo

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  3. E da cor da pedra escura.
    LembruL das pedras de Wyrd


    Esta era Venda
    Oi Venda

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Boa leitura! E SEM SPOILER!