2 de fevereiro de 2018

Capítulo 16

Sua mordida será cruel, mas sua língua é afiada,
Seu hálito, sedutor, mas mortal é sua pegada.
O Dragão conhece apenas a fome, nunca saciada, Apenas a sede, nunca aliviada.
— Canção de Venda —



Encontre-me nas ruínas do templo a leste da cabana. Venha sozinha.

Eu revirei o pedaço de papel rasgado nas minhas mãos. A escrita era quase ilegível — com certeza, a mensagem tinha sido redigida às pressas. Quem era esse lunático que achava que eu era louca o bastante para fazer uma viagem floresta adentro e encontrar-me com ele sozinha apenas por causa de um bilhete rabiscado e enfiado no meu guarda-roupa?
Quando me deparei com a porta da cabana escancarada ao voltar, eu sabia que havia algo errado. Pauline era cuidadosa com essas coisas e nunca deixava nada fora do lugar. Com cautela, empurrei a porta aberta até o fim, e quando me certifiquei de que a cabana estava vazia, fiz uma busca nela. Não havia nada faltando, embora as joias reais remanescentes pudessem ser facilmente encontradas em uma bolsinha no meu alforje. Não tínhamos sido visitadas por um ladrão. A porta do guarda-roupa também estava escancarada, e foi lá que encontrei o bilhete enfiado em um gancho, era impossível não vê-lo, na verdade. A ordem Venha sozinha era o que mais me inquietava.
Olhei para o bilhete de novo e inspirei com pungência. Não havia nome. Talvez nem fosse para mim. Talvez fosse para Pauline. Talvez Mikael tivesse finalmente retornado! Ela ficaria tão...
Eu me virei rapidamente e olhei para fora pela porta aberta que dava para a floresta. Mas por que ele deixaria um bilhete? Por que ele simplesmente não iria direito até a taverna e a tomaria em seus braços? A menos que tivesse um motivo para se esconder. Balancei a cabeça e fiquei pensando no que fazer, em uma batalha mental. Eu não podia mostrar o bilhete a Pauline. E se não fosse de Mikael?
Mas e se fosse... e eu ignorasse isso? Especialmente agora com...
Escancarei a porta do guarda-roupa e vesti o manto preto de minha amiga. Já estávamos quase na hora do crepúsculo. O tecido escuro me dava alguma cobertura na mata. Eu tinha esperanças de que não fosse uma caminhada tão longa até as ruínas e que elas pudessem ser facilmente encontradas.
Desembainhei minha faca e segurei-a com firmeza na mão debaixo do manto, só para o caso de não ter sido Mikael o autor do bilhete.
Segui minha jornada diretamente para o leste, até onde o terreno permitia. As árvores foram ficando mais densas, e o musgo a norte delas se tornava mais espesso enquanto menos luz era filtrada para o chão da floresta. Não havia esquilos correndo e nem pássaros voando de um lado para o outro. Era como se algo tivesse passado por esse caminho muito recentemente.
O último vislumbre de Terravin desapareceu atrás de mim. Pensei nos Antigos e nos lugares inesperados em que as ruínas deles ficavam espalhadas.
Eu e meus irmãos nos referíamos às ruínas como templos ou monumentos, porque não fazíamos ideia de quais eram seus usos originais. As poucas inscrições que haviam sobrevivido às eras estavam escritas em idiomas antigos, mas os fragmentos de edificações deixados para trás emanavam grandeza e opulência, como as imensas ruínas que eu e Rafe havíamos contemplado. Seja lá o que eu tenha dito quando estávamos olhando para elas, algo havia deixado Rafe perturbado. Fora aquilo de eu me abster das tradições? Ou a comparação entre artesãos a bárbaros rosnadores? Será que o pai dele era um artesão? Ou pior, um bárbaro? Dispensei essa possibilidade, porque Rafe era bem-articulado quando queria, e contemplativo também, como se houvesse um grande peso sobre seus ombros. As coisas que importam. Ele tinha um lado terno também, que tentava esconder. Que fraqueza havia feito com que partilhasse aquele lado comigo?
Meus passos ficaram mais lentos. Bem à minha frente havia uma parede de musgo, cujas bordas irregulares eram atenuadas por uma folhagem de trepadeira. Samambaias nasciam de fissuras, deixando a parede quase irreconhecível como sendo algo feito pelo homem. Eu dei a volta, tentando avistar algum vislumbre de cor além de verde adiante da parede, procurando pelo calor e o bronzeado da carne humana.
Ouvi o que pensei ter sido algo raspando e, então, uma rajada de ar. Um cavalo. Em algum lugar além das paredes, meu amigo misterioso estava escondendo sua montaria, o que queria dizer que ele também estava lá.
Empurrei meu manto para trás de modo que meu braço ficasse livre e ajustei a faca na minha mão.
— Olá? — chamei.
Ouvi passadas esmagando pedrinhas e alguém surgiu de trás da parede. Soltei um grito e saí correndo em sua direção antes que ele até mesmo pudesse falar. Abracei-o, beijei-o e girei-o em meus braços, tão cheia de alegria que tudo que consegui dizer foi seu nome, repetidas vezes.
Por fim, ele deu um passo para trás e segurou meu rosto em suas mãos em concha.
— Se eu soubesse que você ficaria tão feliz em me ver, teria vindo antes! Venha, vamos entrar.
Ele me conduziu para dentro das ruínas como se estivesse me levando para dentro de uma grande mansão, e então fez com que eu me sentasse em um bloco de pedra. Olhou para mim, avaliando minha saúde, virando meu rosto para um lado e depois para o outro. Por fim, assentiu, julgando-me saudável, e abriu um sorriso.
— Você se saiu bem, irmãzinha. Os melhores batedores reais estão tentando rastreá-la há semanas.
— Aprendi com o melhor, Walther.
Ele deu uma risada.
— Sem sombra de dúvida. Eu sabia que, quando o menino do estábulo disse que viu você indo em direção ao norte, isso significaria que estava indo para o sul. — Ele ergueu uma sobrancelha, divertindo-se. — No entanto, oficialmente, eu tive que conduzir um grupo para o norte para acompanhar seu estratagema. Não queria direcionar ninguém até você, e lá no norte consegui deixar ainda mais traços de sua presença. Quando o tempo me permitiu, vim para o sul com alguns dos meus melhores homens para procurá-la.
— Você confia neles?
— Gavin, Avro, Cyril. Você não precisava nem perguntar.
Estes eram os amigos mais próximos de Walther em sua unidade. Cyril era um sujeito desmazelado e magro. Deve ter sido ele quem Pauline avistara na taverna noite passada.
— Então você aprova o que eu fiz? — perguntei, hesitante.
— Digamos que não fiquei muito surpreso.
— E quanto a Bryn e Regan?
Ele se sentou ao meu lado e envolveu meu ombro com um dos braços, puxando-me para perto dele.
— Minha querida e doce Lia, todos os seus irmãos a amam tanto quanto sempre amaram, e nenhum de nós a culpa por querer mais do que um casamento, embora estivéssemos preocupados com o seu bem-estar. É só uma questão de tempo até que alguém a descubra.
Levantei-me em um pulo e me virei na direção dele.
— É mesmo? Olhe para mim. Se você já não soubesse quem eu era, teria imaginado que eu fosse a Princesa Arabella, Primeira Filha de Morrighan?
Ele franziu o rosto.
— Roupas esfarrapadas? — Ele segurou a minha mão e examinou-a. — Unhas lascadas? Isso não é o bastante para disfarçar o que está dentro de você. Você sempre será você, Lia. Não há como fugir disso.
Puxei minha mão da dele.
— Então você não aprova o que fiz.
— Eu só me preocupo. Lá em Civica, você deixou gente poderosa muito enfurecida.
— A mãe e o pai?
Ele deu de ombros.
— A mãe não fala sobre isso, e o pai, por dever, divulgou uma recompensa pela sua prisão e seu retorno.
— Apenas por dever?
— Não me entenda errado. Ele está humilhado e furioso, e isso é só metade da situação. Já faz quase um mês que você fugiu, e ele ainda está fazendo ameaças, mas é apenas um pequeno papel na praça do vilarejo, e, até onde eu saiba, nenhum outro anúncio foi feito. Talvez isso seja o mais longe que o gabinete dele consiga forçá-lo a ir. É claro que eles tiveram que lidar com outras questões urgentes.
— Outros problemas além de mim?
Ele assentiu.
— Saqueadores vêm criando todo tipo de caos. Achamos que se trata de apenas um ou dois bandos, mas eles desaparecem na noite como se fossem espíritos de lobos. Destruíram pontes importantes no norte, onde a maior parte das nossas tropas estão posicionadas, e criaram certo pânico nos outros vilarejos pequenos.
— Você acha que é Dalbreck? Será que uma aliança rompida criaria tanta animosidade assim?
— Ninguém sabe ao certo quais seriam os motivos. As relações com Dalbreck certamente deterioraram-se desde que você partiu, mas suspeito de que isso seja obra dos vendanos, que estão tirando vantagem de nossa situação atual. Eles estão tentando diminuir nossa capacidade de mobilizar a Guarda, o que pode significar que estejam planejando uma ofensiva maior.
— Para dentro de Morrighan? — Não consegui esconder meu choque.
Quaisquer escaramuças com Venda sempre tinham ocorrido no Cam Lanteux, quando tentaram estabelecer postos militares lá, e nunca no nosso próprio território.
— Não se preocupe — disse ele. — Vamos mantê-los fora das nossas terras. Nós sempre fazemos isso.
— Mesmo que eles se multipliquem como coelhos?
Ele abriu um sorriso.
— Coelhos são bons de comer, sabia? — Ele se levantou e deu alguns passos, para depois se voltar e ficar cara a cara comigo outra vez, colocando seus cabelos rebeldes para trás com os dedos. — Mas as preocupações e a fúria do pai não são nada em comparação com as do Erudito. — Ele balançou a cabeça e abriu um largo sorriso. — Ah, minha irmãzinha. O que foi que você fez?
— O quê? — perguntei, inocentemente.
— Parece que alguma coisa de grande valor para o Erudito desapareceu. Exatamente no mesmo dia em que você fugiu. Ele e o Chanceler reviraram a cidadela de ponta a ponta procurando o que sumiu. Tudo por baixo dos panos, é claro, porque seja lá o que tenha sido roubado, não é uma peça catalogada da coleção real. Pelo menos esse é o rumor entre a criadagem.
Pressionei as mãos uma na outra e abri um largo sorriso. Eu não conseguia esconder meu júbilo. Ah, como eu gostaria de ver a cara do Erudito quando ele abriu o que achava ser sua gaveta secreta e se deparou com ela vazia. Quase vazia, quero dizer. Eu tinha deixado uma coisinha para ele.
— Então você está se deleitando com seu roubo?
— Ah, muitíssimo, meu querido irmão.
Ele deu risada.
— Então eu também me divirto. Me conte um pouco sobre isso. Eu trouxe algumas das suas coisas prediletas. — Ele me levou até um canto onde estirou uma coberta. De uma cesta, tirou um barril lacrado de moscatel espumante de cereja, o espumante de safra antiga dos vinhedos de Morrighan que eu adorava, mas que só me era permitido tomar em ocasiões especiais. Ele também desembrulhou meia roda de queijo de figo e os biscoitos tostados de gergelim do padeiro do vilarejo. Estes eram os sabores de casa, dos quais nem mesmo havia me dado conta de que sentia falta. Nós nos sentamos sobre a coberta, e comi, bebi e narrei os detalhes do meu roubo.
Era o dia anterior ao casamento, e o Erudito estava na abadia oficializando a assinatura dos últimos documentos. Eu ainda não tinha tomado minha decisão final de fugir, mas, enquanto estava sentada na escuridão do meu vestíbulo, morrendo de calor, minha afiada animosidade com o Chanceler e o Erudito chegara ao seu ápice. Eles nem mesmo tinham tentado esconder a euforia que sentiam com a minha iminente partida quando fui mais cedo naquele dia ao escritório do Chanceler entregar meus artefatos reais de volta à coleção. Minha coroa, meus anéis, meu selo, até mesmo os menores ornamentos de cabelo que estavam sob minha posse; o Chanceler deixou claro que nada disso poderia seguir comigo quando eu fosse para Dalbreck. Ele disse que meu propósito não era o de aumentar o tesouro de outro reino.
O Erudito estava lá, na função de testemunha e contador. Notei que ele parecia especialmente ansioso para que eu saísse logo, apressando-se em seu livro de registros, nervoso, mexendo os pés. Achei curioso, visto que o Erudito era geralmente rígido e assertivo toda vez que lidava comigo. Logo antes de eu passar pela porta, um pensamento me atingiu com tudo: Vocês têm segredosE dei meia-volta. Vi a surpresa nos rostos deles dois.
— Por que vocês sempre me odiaram? — perguntei.
O Erudito ficou paralisado, deixando que o Chanceler se pronunciasse, e nem mesmo se deu ao trabalho de olhar para mim e responder, voltando a revisar o livro de registros. O Chanceler cacarejou, como se eu fosse uma tola ridícula, e depois, com sua voz cortada e desdenhosa, falou:
— Você sempre fez as perguntas erradas, Princesa. Talvez devesse perguntar por que eu teria algum motivo para gostar de você? — No entanto, o Erudito não tinha se mexido em nenhum momento e não tirou os olhos de mim nem por um instante, como se estivesse esperando para ver o que eu faria em seguida.
Walther me ouvia com atenção. Expliquei a ele como eu revirara aquele encontro mentalmente repetidas vezes enquanto eu suava no meu vestíbulo naquela tarde, e as palavras me vieram à mente de novo, com tudo. Vocês têm segredos. É claro que eles tinham segredos, e eu fui direto ao escritório do Erudito, pois sabia que ele estava na abadia.
— Não foi difícil de encontrar... uma gaveta falsa em uma escrivaninha... e um dos meus longos pinos de prender cabelo abriu a tranca com facilidade.
— Você vai me deixar esperando com esse suspense todo? O que foi que roubou?
— Essa é a parte estranha. Não sei ao certo.
Meu irmão abriu um sorriso forçado, como se eu estivesse sendo tímida.
— É verdade, Walther. Eram uns poucos papéis soltos e dois livros pequenos, que estavam embrulhados em uma capa de couro macio e colocados dentro de uma caixa de ouro, mas não consigo ler nenhum dos dois. Eles estão escritos em idiomas antigos ou estrangeiros.
— Por que ele haveria de escondê-los? Ele tem seu conjunto de lacaios que poderiam traduzir os livros.
— A menos que já tenham feito isso. — O que queria dizer que eles deveriam fazer parte da coleção oficial. Todos os artefatos recuperados das ruínas pertenciam ao Reino, até mesmo aqueles encontrados por soldados em terras distantes. Era um crime guardá-los em segredo.
Nós dois sabíamos que o Erudito Real tinha esse cargo por um bom motivo. Ele não era apenas especialista no Livro dos Textos Sagrados de Morrighan, mas também era versado na tradução de outros idiomas antigos, embora talvez não tão talentoso quanto alguns supunham. Eu o tinha visto tropeçar em alguns dos dialetos mais simples, e, quando corrigido por mim, ele ficava desvanecido, de tanta raiva que sentia.
— Por que você não tenta traduzi-los?
— E em que momento eu poderia ter esse prazer, meu caro Príncipe Walther? Entre ser uma princesa fugitiva, cuidar de três asnos, varrer aposentos e servir refeições, tenho sorte se conseguir tempo para tomar banho. Nem todos podem levar uma vida de realeza. — Usei o meu mais arrogante tom nobre para dizer isso, o que o fez dar risada. Eu não mencionei minhas outras atividades, como colher amoras com jovens e belos homens. — Além disso, traduzir não é uma tarefa pequena quando uma pessoa não tem conhecimento algum do idioma. As únicas pistas que eu tenho são anotações de catalogação nos papéis soltos. Um dos volumes é intitulado Ve Feray Daclara au Gaudrel, e outro é de Venda.
— Um volume de Venda? Os bárbaros leem?
Abri um sorriso.
— Bem, pelo menos em algum momento eles leram. Pode ser que o Chanceler sinta falta mesmo é da caixa dourada ornamentada com joias em que os livros estavam guardados. Só o valor dela provavelmente permitiria que ele acrescentasse outra ala à sua gigantesca mansão.
— Ou talvez essa seja uma descoberta recente, e o Erudito esteja com medo de que você os traduza primeiro e roube o lugar dele. O homem realmente tem que garantir sua posição.
— Talvez — respondi. No entanto, de alguma forma eu tinha certeza de que os volumes não eram novos, estava certa de que eles tinham ficado escondidos naquela gaveta escura por muito, muito tempo, talvez por tanto tempo que o Erudito havia se esquecido deles.
Walther deu um pequeno apertão em minha mão.
— Tome cuidado, Lia — disse ele em tom solene. — Por qualquer que seja o motivo, eles querem isso de volta. Quando voltar, vou fazer uma sondagem discreta para ver se a mãe ou o pai sabem de alguma coisa sobre isso. Ou talvez o Vice-Regente.
— Não deixe que eles saibam que você me viu!
— Discreta — ele repetiu.
Assenti.
— Mas chega de falar do Erudito — falei. A conversa estava começando a ficar sombria e eu queria desfrutar essa dádiva do tempo passado com Walther. — Conte-me outras notícias de casa.
Ele baixou o olhar por um instante e depois abriu um sorriso.
— O que foi? — exigi saber. — Conte-me!
— A Greta está... Eu vou ser pai.
Encarei-o, incapaz de falar alguma coisa. Eu nunca tinha visto o meu irmão tão feliz, nem mesmo no dia de seu casamento, quando ele, nervoso, não parava de puxar o seu casaco, e Bryn teve que ficar cutucando-o para que ele parasse de fazer aquilo. Walther estava radiante como uma futura mãe. Walther, um pai. E que pai excepcional ele seria!
— Você não vai falar nada? — ele me perguntou.
Caí na risada de alegria e o abracei, fazendo a ele uma pergunta atrás da outra. Sim, Greta estava indo muito bem. O bebê deveria nascer em dezembro. Ele não se importava se seria menino ou menina — talvez eles tivessem sorte e teriam os dois. Sim, ele estava tão feliz, tão apaixonado, tão pronto para começar uma família com Greta, sim! Agorinha mesmo, eles estavam fazendo uma parada em Luiseveque, razão pela qual ele fora capaz de vir até Terravin. Eles estavam a caminho da mansão dos pais de Greta no sul, onde ela ficaria enquanto meu irmão partia para realizar sua última patrulha. Então, antes de o bebê nascer, eles voltariam a Civica, e então, e então, e então...
Eu me esforcei para ocultar a tristeza inesperada que crescia em mim quando me dei conta de que não seria incluída em nenhum dos eventos que ele mencionara. Por causa da minha nova vida, com a fuga e a necessidade de permanecer escondida, eu nunca poderia conhecer a minha sobrinha ou o meu sobrinho, embora, se eu tivesse sido despachada para as longas distâncias de Dalbreck, minhas chances de algum dia ver essa criança não teriam sido nem um pouco maiores.
Observei meu irmão, seu nariz levemente torto, seus olhos profundos e suas bochechas com covinhas de alegria — vinte e três anos de idade e mais homem do que menino agora, com seus fortes ombros largos para segurar uma criança, já se tornando um pai diante dos meus olhos. Eu olhei para ele com alegria, e a minha felicidade voltou. Sempre tinha sido assim. Walther sempre me animava quando ninguém mais conseguia.
Ele continuou falando, e eu mal notara a floresta escurecendo ao nosso redor, até que ele se ergueu de um pulo.
— Nós dois precisamos ir. Você vai ficar bem sozinha?
— Eu quase cortei você ao meio assim que cheguei — disse, dando tapinhas de leve na minha faca embainhada.
— Continua praticando?
— Infelizmente, não.
Eu me curvei para baixo para pegar a coberta, mas ele me interrompeu, segurando-me pelo braço com gentileza e balançando a cabeça.
— Não é certo que você tenha tido que praticar escondida, Lia. Quando eu for rei, as coisas vão ser diferentes.
— E você planeja assumir o trono em breve? — perguntei, provocando-o.
Ele abriu um sorriso.
— A hora chegará. Mas me prometa que, nesse meio-tempo, você vai continuar praticando.
Assenti.
— Prometo.
— Apresse-se então antes que escureça.
Nós pegamos a coberta e a cesta, e ele me beijou na bochecha.
— Você está feliz com sua vida aqui?
— Eu só poderia estar mais feliz se você, Bryn e Regan estivessem em Terravin comigo.
— Paciência, Lia. Nós vamos pensar em alguma coisa. Tome, pegue isso — disse ele, empurrando a cesta para as minhas mãos. — Tem um pouco de comida no fundo. Eu vou dar uma parada aqui de novo antes de sair em patrulha. Fique em segurança até então.
Assenti, contemplando a constatação de que ele tinha agora muitas responsabilidades: marido, pai, soldado, e, por fim, herdeiro do trono. Ele não deveria ter que me tornar uma preocupação também, mas ficava feliz por ele ter feito isso.
— Dê a Greta meu votos de amor e boa sorte.
— Farei isso. — Ele se virou para ir, mas falei sem pensar e fiz outra pergunta a ele, incapaz de deixar que meu irmão partisse.
— Walther, quando foi que você soube que amava Greta?
A expressão que sempre recaía sobre ele quando falava sobre a esposa assentou-se como uma nuvem sedosa. Walther soltou um suspiro.
— No minuto em que pus os olhos nela.
Meu rosto deve ter demonstrado desapontamento. Ele esticou a mão e beliscou o meu queixo.
— Eu sei que o casamento arranjado plantou sementes de dúvida em você, mas alguém haverá de aparecer, alguém que seja digno de você, Lia. E você saberá disso no minuto em que o vir.
Mais uma vez, não era a resposta pela qual eu esperava, mas assenti e então pensei em Pauline e suas preocupações.
— Walther, juro que essa é a minha última pergunta, mas você tem alguma notícia de Mikael?
— Mikael?
— Ele é um soldado da Guarda. Estava em patrulha. Um jovem homem loiro. A essa altura, já deveria ter voltado.
Observei enquanto meu irmão vasculhava as memórias, balançando a cabeça em negativa.
— Eu não conheço nenhum...
Acrescentei mais alguns detalhes esparsos que Pauline havia me passado sobre seu namorado, incluindo uma tola echarpe vermelha que ele às vezes usava quando não estava trabalhando. Walther voltou imediatamente o olhar para mim.
— Mikael. É claro. Eu sei quem é. — Suas sobrancelhas uniram-se de um jeito raro, ameaçador, deixando todo seu rosto sombrio. — Você não está envolvida com ele, está?
— Não, é claro que não, mas...
— Que bom. Fique longe desse tipo. O pelotão dele voltou faz duas semanas. Na última vez em que o vi, ele estava em um bar, mais bêbado do que um gambá, com uma moça sentada em cada perna. Aquele patife tem uma língua açucarada e uma menina desmaiando por ele em todas as cidades daqui até Civica... Ele é conhecido por se gabar disso.
Olhei para Walther boquiaberta, incapaz de falar alguma coisa.
Ele franziu o rosto.
— Ah, bons deuses, se não é você, então é Pauline. Ela estava de olho nele?
Assenti.
— Então é muito melhor que ela esteja livre dele agora e aqui com você. Aquele homem não trará nada de bom. Certifique-se de que ela fique longe dele.
— Você tem certeza, Walther? Mikael?
— Ele se gaba de suas conquistas e dos corações partidos que deixou para trás como se fossem medalhas presas no peito. Tenho certeza disso.
Ele se despediu rapidamente, com os olhos atentos à escuridão que aumentava, mas parti em grande medida num estado de estupor, mal me lembrando dos passos que me levavam de volta à cabana.
Agora ela está livre dele.
Não, não está agora — e não estará nunca.
O que eu diria a ela? Seria mais fácil se Mikael estivesse morto.

13 comentários:

  1. Na última vez em que o vi, ele estava em um bar, mais bêbado do que um gambá, com uma moça sentada em cada perna. Aquele patife tem uma língua açucarada e uma menina desmaiando por ele em todas as cidades daqui até Civica...

    COMO EU FUI INGÊNUA!
    E EU PENSANDO QUE ELE ERA HONRADO!!

    ai vem aquela famosa frase:
    -TODO MUNDO PODE TRAIR TODO MUNDO.

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  2. Caramba mikael, coitada da pauline

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  3. AAAAH MIKAEL, FILHO DA MÃE! QUE DECEPÇÃO! :(

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  4. CARAMBAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
    TÁ FICANDO BOM DEMAIS

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  5. Primeiro: MIKAAELLLLLLLLLLLLL SEU PATIFE DISGRAÇADO COMO PODE FAZER ISSO COM A PAULINE? PIOR COMO PODE FAZER ISSO COMIGO ? COM OS LEITORES? Segundo : só eu acho q o Mikael e da Venda ? Terceiro ; Acho q o irmao da Lia vai morrer. Quarto: todo mundo pode trair todo mundo

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    1. Não fala isso não... já estou apaixonada pelo Whalter

      Várias teorias se formando aqui...

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  6. Safadinho ele merece tudo com te palavrao q exista q vacu ele não merece viver
    Tadinha da p ela não merecia.
    Acho que ela não disse q não tinha beijado ele ele não negou nem disse q sim então não Conteceu nada mais nada menos que tivesse acabado com uma criança

    Mirtiz .

    Sabia que era o assassino ou um dos irmãos dela

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Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!