14 de fevereiro de 2018

Capítulo 16. É meia-noite. Vamos começar...

Peggy acompanhava cada movimento de Chumbinho, junto dele, como se fosse sua sombra.
O menino colava o ouvido sobre as telhas. Lá embaixo, ouviam-se vozes masculinas abafadas, falando em inglês. Duas vozes diferentes. Eram dois os cães-de-guarda de Magrí.
Como tinha sido planejado, a coruja-Crânio piou longamente a uns vinte metros de distância dali. Só sendo um Kara para saber o que diziam os pios:
— M-a-g-r-í-e-s-t-a-m-o-s-s-o-b-r-e-v-o-c-ê-D-ê-s-i-n-a-l-d-e-v-i-d-a.
Imediatamente, Chumbinho ouviu algo mais, junto com as vozes. Era um som abafado, como se alguém estivesse tossindo com a boca fechada.
— A idiota da menina está resfriada! — riu-se um dos bandidos.
— Mas ela pode se engasgar, tossindo com aquela mordaça!
— Ora, deixa pra lá! Daqui a pouco, se o papaizinho dela não fizer o que o captain quer, minha faca vai curar o engasgo dela! Ah, ah!
No alto, Chumbinho aliviou-se. Era mesmo Magrí quem estava lá. Tinham sido três tossidinhas curtas, seguidas de mais duas também curtas e encerradas por duas mais longas: um “S-I-M” em código Morse. Sim! Sua amiga estava consciente!
Fez um sinal de positivo para Peggy. O sorriso da americaninha iluminou-se. Os dois engatinharam para um canto do telhado, no extremo oposto de onde tinham ouvido a tosse. Cuidadosamente, Chumbinho afastou uma telha. O forro estava iluminado por uma lâmpada vermelha, para que a luz não fosse vista de fora.
No canto oposto aos dois Karas, dois homens estavam sentados em cadeiras de armar. Entre aquele ponto do telhado e os bandidos, uma pequena barraca de camping estava armada.
“Magrí deve estar dentro dessa barraca... “, concluiu o garoto.
Logo abaixo de Chumbinho e Peggy, havia mais duas cadeiras de armar. Em uma delas, os sequestradores haviam pendurado seus coldres com pistolas automáticas.
A garrafa de cachaça do Alfredo fora envolvida por um laço de barbante. Miguel tinha encontrado um clipe no bolso que servira para fazer um gancho, agora amarrado a outro barbante. Com uma cautela imensa, Chumbinho baixou a cachaça do Alfredo pela fresta das telhas, bem devagar. A garrafa desceu suavemente e pousou entre as duas cadeiras. O garoto recolheu o barbante com o gancho, colocou a telha de volta e, com os nós dos dedos, deu-lhe uma pequena batida.
— O que foi isso? — surpreendeu-se um dos bandidos.
— Um maldito rato! — supôs o outro. — Deve haver ratos nessa porcaria de colégio brasileiro!
Do alto, Chumbinho ouvia um dos bandidos movimentar-se pelo forro.
— Ei! O que é isso? Como é que a gente não viu essa garrafa antes? Hum... tem cheiro da tal cachaça... E a garrafa está cheia!
A voz do outro agitava-se:
— Milagre! O que está esperando? Traga pra cá! Vamos poder esquentar os ossos antes do trabalho final!
Chumbinho pegou a mão de Peggy e imobilizou-se. Tinham mais de uma hora para esperar que a cachaça do Alfredo fizesse efeito. “Faltam dez para as onze...”, pensava o menino. “Espero que esses bandidos sejam rápidos na bebida...”
A distância, as outras duas “corujas” também se aquietaram. Desta vez, a estratégia era a paciência.
Grudado no corpinho de Peggy, abraçando seu próprio moletom, Chumbinho desejava que o tempo parasse. Assim, deitados, juntinhos, Peggy nem parecia mais alta do que ele... O celular do detetive Andrade vibrou dentro do bolso.
— Alô... Quem? Senhor Presidente?! A que devo a honra de...
Do outro lado da linha, a conhecidíssima voz de Rodrigues Lobo, o presidente da República, ordenava:
— Não há tempo para gentilezas, detetive! As investigações do nosso Serviço Secreto descobriram uma pista valiosa. Quero que você e seus homens invadam o colégio. Faça a confusão que for preciso na entrada, mas depois dê um jeito de agir em silêncio total. Vá direto para o vestiário feminino e arranje uma escada para subir pelo alçapão do teto até o forro. Lá talvez esteja a solução para este caso!
— Mas, Senhor Presidente, os homens da CIA...
— Não quero saber de CIA, detetive! Este país é nosso! Faça o que tem de ser feito. Não me importo se sua ação vier a criar um incidente diplomático. É a vida da menina Peggy que está em jogo! Não discuta as minhas ordens. Vá! Imediatamente!
Calú desligou o telefone público da lanchonete da italiana, mais aliviado. Sua parte tinha sido fácil. Para um ator como ele, imitar a voz do presidente era a coisa mais simples do mundo. “Dez para a meia-noite. Agora é com o Andrade. Ele precisa entrar no vestiário na hora certa, para que Peggy não corra nenhum risco nas mãos dos bandidos. Senão, de que terá adiantado tudo o que Chumbinho fez? A esta hora, a cachaça do Alfredo já deve ter causado o efeito que a gente precisa. Minha parte está resolvida. Para o telhado!”
Na lanchonete, ninguém prestou atenção ao rapaz que corria para os muros do Colégio Elite balançando uma esquisita cabeleira ao vento. Wilbur MacDermott pediu que o deixassem a sós no cenário do discurso, apenas com os técnicos da televisão. Sentou-se atrás da mesa, pronto para iniciar o tão esperado pronunciamento. Havia recusado os recursos do maquiador e agora estava pálido como se não mais houvesse sangue em suas artérias. Uma lágrima teimava em brotar-lhe dos olhos e o americano tentou contê-la.
— Pronto, senhores — disse aos operadores das câmeras. — É meia-noite. Vamos começar...
As luzes acenderam-se e as câmeras foram ligadas, transmitindo para os satélites a imagem do presidente americano. E essa imagem era a de um homem tenso, com os pensamentos divididos:
“Tenho de ir em frente... Sei que minhas palavras podem levar minha própria filha à morte... Mas eu não tenho escolha. Peggy, meu amor! Me perdoe... Eu te amo muito, minha filha... “
Tudo não tinha sido mais do que uma breve pausa. Seus olhos ergueram-se para o olho da câmera e ele começou:
— Senhoras e senhores, meus irmãos de todo o mundo. Este é o momento mais difícil de minha vida. Como se sabe, os sequestradores de minha filha exigem que eu não vá avante com as reformas que pretendo propor nesta noite. Sequestraram minha filha para que eu me veja obrigado a apoiar a sinistra proposta para a 25ª Emenda à Constituição do meu país...
Respirou fundo e retomou:
— Infelizmente, esses covardes não me deixam escolha. Não posso trocar a
vida da minha filha pela infelicidade do mundo. Tenho de prosseguir, custe o que custar...
A lágrima teimosa conseguiu escorrer por seu rosto, brilhando sob as luzes fortes da televisão e sendo transmitida para milhões de receptores espalhados pelo mundo.
Por todo o globo, sobrava oxigênio à vontade. A respiração da humanidade estava suspensa, à espera da continuação do discurso.
— Vamos! — ordenava o detetive Andrade, afobado, para seus homens da polícia civil. — Vamos arrebentar os portões, se for preciso. São ordens do presidente! Do próprio! À carga, homens!
Estendido de comprido sobre os telhados, Miguel acenou para Crânio e olhou o mostrador iluminado do relógio. Faltavam cinco minutos para a meia-noite. A hora combinada para o que Chumbinho tinha de fazer. Por trás do líder dos Karas, já sem a cabeleira horrorosa, Calú surgia sobre os telhados, fazendo o sinal de positivo.
Andrade já tinha sido devidamente enrolado. Os três Karas, agora somente espectadores, torciam em pensamento, assistindo de longe às duas sombras preparadas para os lances mais arriscados de suas vidas:
“Boa sorte, Chumbinho! Boa sorte, Peggy!”
A americana agia como tinha sido planejado por Miguel. Despiu-se completamente e dobrou o moletom de Chumbinho. Nua como tinha nascido suportava o frio como uma heroína.
De longe, dos portões da área esportiva, vinha uma gritaria confusa. Andrade e seus policiais tentavam romper o bloqueio dos homens de preto da CIA. Aquele era o momento mais crítico de toda a ação. Chumbinho afastava a telha novamente e espiava para dentro. Nesse instante, Peggy notou que ele gelava, mas não de frio: de puro pavor. Olhava-a com olhos de pânico. Com a mão fechada e o polegar em direção à boca, tentava imitar uma pessoa bebendo. Mas, sacudindo o indicador da outra mão, o menino lhe dizia que os bandidos não tinham bebido a cachaça do Alfredo! Peggy entendeu tudo e sobressaltou-se. Debaixo das telhas, a garota ouvia uma discussão:
— Puxa, deixa eu tomar ao menos um gole... Estou morrendo de frio!
A outra voz sussurrava, mas o que dizia era definitivo. E apavorante para os planos dos garotos:
— Não! Somos profissionais. Olha o que eu vou fazer com essa maldita bebida brasileira!
Do telhado, Chumbinho e Peggy sentiram o cheiro de álcool através das telhas. O plano da cachaça do Alfredo tinha sido derramado sobre o concreto do forro... E agora? O que eles iriam fazer? Os bandidos atirariam em qualquer pessoa que ousasse enfiar a cabeça para dentro do forro! Seria um massacre! Magrí seria atingida por alguma bala e...
Chumbinho espalmava a mão na direção de Peggy, pedindo para que ela esperasse. Mexeu nas telhas que havia levantado, lidando com o barbante. Peggy não conseguia ver o que o menino estava fazendo... Na ante-sala dos aposentos presidenciais, Rodrigues Lobo, J. Edgar Hooper, Sherman Blake e o Doutor Pacheco ouviam, tensos, com os olhos grudados em um monitor que transmitia a imagem do presidente americano. O celular de Hooper vibrou e o diretor da CIA, contrariado pela interrupção, abriu o aparelho.
— Mister Hooper! — dizia afobada a voz do agente que ficara no comando dos homens de preto dentro do Colégio Elite. — Um detetive brasileiro, gordo, parece que enlouqueceu! Está forçando a entrada pelos portões da área de esportes. Diz que são ordens pessoais do próprio presidente do Brasil. O que faremos? Eu sou obrigado a recuar! Não posso começar uma guerra contra os policiais deste país!
— Que miséria! Não atire, não faça nada. Estou indo para aí! — encerrou Hooper.
O presidente estranhou a conversa e perguntou:
— Não atirar? Senhor Hooper, o que está acontecendo?
— Ahn... desculpe, Mister President Lobo... Um detetive gordo... hum... mister Android... está abrindo caminho à força para entrar no colégio de onde miss Peggy foi sequestrada. Ele diz que são ordens suas...
— Minhas ordens?! Que história é essa?
Pacheco acudiu:
— Conheço muito bem o detetive Andrade, Senhor Presidente, e sei que ele jamais faria uma coisa dessas se não tivesse um palpite infalível!
— Você acha que ele tem uma pista? — perguntou Rodrigues Lobo. — Mas por que não ligou antes para cá?
— Vamos para o colégio, Pacheco. Imediatamente!
O delegado da Polícia Federal não acreditava no que estava ouvindo:
— Oh, Senhor Presidente! Não é seguro. Deixe que eu vá. O senhor não deve ir. Sua segurança...
— Vamos juntos, Pacheco! Quero saber por que esse detetive ousou meter-se nisso usando ordens que eu nunca dei! E quero saber que palpite infalível é esse. Depressa!
Agarrou o braço do policial de óculos escuros e os dois saíram com o diretor da CIA.
Quando Sherman Blake viu Hooper saindo apressado, imediatamente ligou para o andar térreo, pedindo um carro com o melhor motorista da embaixada que estivesse à disposição. “Não estou gostando nem um pouco disso! O que Hooper vai fazer lá? Tenho de agir depressa!”
Com Peggy a seu lado, Chumbinho havia escolhido as telhas um pouco atrás de onde estava a pequena barraca, num ponto em que o telhado era mais baixo. Afastou duas e olhou para dentro.
“O ângulo mais agudo do triângulo-retângulo...”, lembrou-se ele das aulas de geometria.
Estavam na parte de trás da barraca. Era naquele instante ou nunca mais! O automóvel presidencial era precedido por batedores de motocicleta que abriam caminho e furavam os sinais vermelhos, a toda velocidade. Rodrigues Lobo incitava o motorista:
— Mais depressa! Mais depressa!
A seu lado, o Doutor Pacheco ligava o rádio e as palavras de Wilbur MacDermott acompanhavam a louca corrida:
— ... A iniciativa privada e o lucro, sem dúvida, são bases sólidas da democracia. Mas a justiça vem antes dos interesses privados e do lucro, pois sem justiça a democracia não pode sobreviver. Por isso, temos de assumir a responsabilidade que nos cabe!...
Chumbinho estava dentro do forro e Peggy desceu em seguida. Agachado atrás da barraca, o menor dos Karas arranhou a lona com as unhas, em código:
— Roc-roc-roc-roooc... roc-roooc... roooc-roooc...
Do outro lado, arranhões semelhantes lhe disseram que Magrí entendera e estava pronta:
— Roc... roc-roc-roc... roooc... roooc-roooc-roooc...roc-roc-roooc...
Chumbinho sacou o canivete de Calú do bolso da calça xadrez e, com o cuidado de um cirurgião, cortou o pano. Enfiou a cabeça para dentro.
Mal iluminada pelas luzes vermelhas do ambiente, lá estava sua querida Magrí, nua, amordaçada e com as mãos amarradas atrás das costas! “Magrí! Afinal!”
Peggy entrava na barraca. Por um instante, os olhos dos três se encontraram. Exausta, machucada, Magrí sorria por trás da mordaça. A nova integrante do grupo dos Karas retirou a fita adesiva dos lábios de Magrí e apertou-a contra sua própria boca. Chumbinho desatava o nó da corda que prendia sua amiga e em seguida amarrava as mãos de Peggy.
“Pelos meus cálculos, Andrade e seus homens já devem estar entrando no vestiário. Tomara que ele tenha trazido uma escada!” O momento final estava próximo. “Depressa! Vamos embora!”, sinalizou Chumbinho.
Magrí sinalizou de volta para o amigo. “Esperar?!”, estranhou o menino. “Esperar o quê? Não há tempo!” Sem dar atenção à pressa do amigo, Magrí começou a gatinhar pelo lado da barraca, na direção em que estavam os bandidos...
Dois outros carros seguiam velozmente os batedores do automóvel da Presidência do Brasil. No banco traseiro, o ocupante ouvia a transmissão do discurso. “Ele não vai fazer o que eu mandei... Não vai! Desgraçado! A América está perdida!”
Pegou o celular e começou a teclar. O som do rádio invadia o carro com a voz inflamada do presidente americano:
— ... É chegada a hora de as nações ricas do mundo descobrirem que seu poder não terá o menor sentido enquanto houver outras nações à margem do progresso, outros povos mergulhados na fome, na ignorância e na miséria!... Magrí chegava à frente da barraca e espiava. Com um arranco, avançou mais um pouco e logo estava de volta, sem que os bandidos tivessem percebido seus movimentos. Em suas mãos, trazia um pequeno e ultramoderno aparelho de som a pilha, uma miniatura, dessas usadas por espiões. Trazia também um telefone celular.
Seus olhos diziam:
“Tudo pronto. Vamos!”
Por um último momento, os olhares dos três adolescentes se cruzaram de novo. O olhar de Peggy, agora novamente nua, mal amarrada e amordaçada, declarava: “Obrigada, Magrí. Obrigada, Chumbinho. Adeus...”
Os olhos de Chumbinho, ainda carregados pela tensão que o dominara durante as últimas horas, respondiam, começando a toldar-se de lágrimas: “Cuide-se, querida. Foi um prazer salvar sua vida”. O alçapão foi movido nesse instante.
— Ei! — rugiu o bandido. — Não é o captain! Fogo na menina! Idiota! Meta bala na garota! Eu pego quem entrar!
Os bandidos corriam para o canto onde estavam as armas e engatilhavam as pistolas automáticas...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!