24 de fevereiro de 2018

Capítulo 15

Para: SreSraBernardClark@yahoo.com
De: AbelhaAtarefada@gmail.com
Oi, mãe,
Sim, o Halloween é um grande evento aqui. Andei pela cidade e foi muito legal. Uma porção de fantasminhas e bruxinhas passava carregando cestas de doces, com os pais acompanhando-os de longe com lanternas. Alguns dos pais também estavam fantasiados. E as pessoas aqui realmente parecem entrar no espírito da coisa, não é como na nossa rua, onde metade dos vizinhos apaga as luzes ou se esconde no quarto dos fundos para evitar que as crianças batam na porta. Todas as janelas ficam cheias de abóboras de plástico ou fantasmas de mentirinha, e todo mundo parece adorar se fantasiar. Ninguém nem de longe reclamou, pelo que vi.
Mas não apareceu ninguém pedindo “doces ou travessuras” no nosso prédio. Não estamos exatamente no tipo de vizinhança em que as pessoas batem na porta dos outros. Talvez elas tivessem que chamar os motoristas umas das outras. E também teriam que passar pelo porteiro da noite, que pode ser meio assustador.
A próxima festa é o Dia de Ação de Graças. Mal sumiram com todos os fantasmas e os anúncios de peru já começaram. Não tenho certeza do que se trata o Dia de Ação de Graças — acho que é principalmente para comer. A maioria dos feriados aqui parece servir para isso. Estou bem. Desculpe não estar telefonando com frequência. Mande um beijo para o papai e para o vovô.
Saudades.
Lou

* * *

O Sr. Gopnik, que nos últimos tempos ficara sentimental em relação a reuniões familiares, da maneira como acontecia com homens recém-divorciados, determinara que queria uma ceia de Ação de Graças no apartamento com a presença de seus parentes mais próximos, tirando proveito do fato de Kathryn ter ido para Vermont com a irmã. A perspectiva desse evento festivo — junto com o cronograma de dezoito horas de trabalho por dia dele — foi o suficiente para deixar Agnes em um estado constante de pavor.
Sam me mandou uma mensagem de texto ao voltar — vinte e quatro horas depois de chegar em casa, na verdade — para dizer que estava cansado e que aquilo era mais difícil do que ele pensara. Respondi com um mero sim porque, na realidade, eu também estava cansada.
Eu corria com Agnes e George de manhã cedo. Quando não ia, acordava no quartinho com os sons da cidade e uma imagem de Sam, de pé na porta do banheiro. Eu ficava deitada ali, me mexendo e me virando, até me enroscar nos lençóis, com o humor arruinado. O dia inteiro perdia o viço antes mesmo de começar. Quando tinha que me levantar e sair com os tênis de corrida, já acordava embalada, forçada a contemplar a vida de outras pessoas, o impulso em minhas coxas, o ar frio no peito, o som da respiração nos ouvidos. Sentia-me rija, forte, pronta para rebater qualquer coisa ruim que o dia provavelmente usaria como forma de me receber.
E, naquela semana, houve um bocado de coisas ruins. A filha de Garry largou a faculdade, deixando-o com um humor horrível, de modo que toda vez que Agnes saía do carro ele se lamentava sobre filhos ingratos que não entendiam o sacrifício ou o valor do dinheiro de um trabalhador. Ilaria estava reduzida a uma constante e muda fúria pelos hábitos mais bizarros de Agnes, como pedir comida e depois resolver que não queria comer ou trancar o quarto de vestir quando não estava lá, para que Ilaria não pudesse guardar suas roupas.
— Ela quer que eu coloque as calcinhas dela no corredor? Quer que seus trajes sensuais fiquem em exibição para o quitandeiro? Afinal, o que ela está escondendo lá dentro?
Michael entrava no apartamento como um fantasma, com a expressão exausta e aniquilada de um homem com dois empregos — e até mesmo Nathan perdeu parte de sua tranquilidade e falou de uma maneira ríspida com a japonesa especialista em gatos quando ela sugeriu que a surpresa inesperada que Nathan havia encontrado no sapato era consequência de sua “energia ruim”.
— Vou passar para ela uma bendita energia ruim — rosnou ele, jogando os tênis de corrida no lixo.
A Sra. De Witt bateu à nossa porta duas vezes em uma semana para reclamar do piano e, em retaliação, Agnes colocava a gravação de uma peça musical intitulada A Escada do Diabo, aumentando o volume logo antes de sairmos.
— Ligeti — resmungou ela, verificando a maquiagem no estojo de pó compacto enquanto descíamos no elevador, as notas atonais martelando, crescendo e retrocedendo acima de nós.
Em silêncio, mandei uma mensagem para Ilaria pedindo que desligasse o som depois que saíssemos do prédio.
A temperatura caiu, as calçadas ficaram ainda mais congestionadas e as vitrines de Natal começaram a aparecer nas lojas, como uma erupção vistosa e cintilante. Reservei o voo para casa com pouca ansiedade, sem saber que tipo de recepção eu teria. Telefonei para minha irmã, na esperança de que ela não fizesse muitas perguntas. Eu não precisava ter me preocupado. Ela estava mais tagarela do que nunca, conversando sobre os projetos escolares de Thom, os novos amigos que ele fizera no condomínio, sua destreza no futebol. Perguntei sobre o namorado e ela ficou atipicamente quieta.
— Vai nos contar alguma coisa sobre ele? Você sabe que isso está enlouquecendo a mamãe.
— Você ainda vem para casa no Natal?
— Vou.
— Então talvez eu apresente a você. Se você conseguir não ser uma idiota completa por algumas horas.
— Ele já conheceu o Thom?
— Neste fim de semana — respondeu ela, a voz subitamente um pouco menos segura. — Eu mantive os dois separados até agora. E se não der certo? Quer dizer, Eddie ama crianças, mas e se eles não...
— Eddie!
Ela suspirou.
— Sim. Eddie.
— Eddie. Eddie e Treena. Eddie e Treena sentados numa árvore. B-E-I-J-A-ND-O.
— Você é tão infantil.
Foi a primeira vez que eu ri a semana toda.
— Eles vão se dar bem — falei. — E, depois que você tiver feito isso, pode apresentá-lo para o papai e a mamãe. Então é para você que ela vai ficar dando indiretas sobre casamento e eu vou poder tirar umas Férias de Culpa Materna.
— “Férias de Culpa Materna”... Você está falando feito uma americana. E até parece que isso vai acontecer. Sabia que ela está preocupada que você esteja esnobe demais para falar com eles no Natal? Ela acha que você não vai querer entrar na van do papai saindo do aeroporto porque se acostumou a andar de limusine.
— É verdade, me acostumei.
— Sério, como você está? Não contou nada do que está acontecendo com você.
— Amando Nova York — respondi, suave como um mantra. — Trabalhando bastante.
— Ah, droga. Tenho que ir. Thom acordou.
— Depois me conte como foi.
— Vou contar. A não ser que tudo corra mal. Nesse caso, vou sair do país sem falar mais com ninguém pelo resto da vida.
— Essa é a nossa família. Sempre uma reação razoável.

* * *

O sábado foi servido frio, com acompanhamento de vendavais. Eu não sabia que os ventos podiam ser tão brutais em Nova York. Era como se os edifícios altos afunilassem qualquer brisa, polindo-a com força e rapidez e transformando-a em algo gelado, feroz e sólido. Com frequência, eu me sentia como se estivesse andando em algum túnel sádico de vento. Mantendo a cabeça baixa, o corpo a um ângulo de quarenta e cinco graus e, de vez em quando, o braço estendido para agarrar hidrantes ou postes de luz, peguei o metrô para o Vintage Clothes Emporium, onde tomei um café para me aquecer e comprei um casaco com estampa de zebra na promoção por meros doze dólares. Na verdade, demorei lá. Não queria voltar para meu quartinho silencioso, com o noticiário da TV de Ilaria balbuciando no corredor, os ecos fantasmagóricos de Sam e a tentação de checar meu e-mail a cada quinze minutos. Cheguei em casa depois que já anoitecera e eu estava com frio e cansada o suficiente para não ficar inquieta  ou submergida naquela persistente sensação de Nova York: que, ao ficar em casa, eu estava perdendo algo.
Acomodei-me e assisti à TV no meu quarto. Pensei em escrever um e-mail para Sam, mas continuava zangada o suficiente para não agir de forma conciliadora e não estava segura de que o que tinha para falar melhoraria alguma coisa. Peguei um romance de John Updike emprestado das prateleiras do Sr. Gopnik, mas era sobre as complexidades dos relacionamentos modernos, e todos pareciam infelizes ou desejavam alguém ardentemente, então, por fim, apaguei a luz e dormi.

* * *

Na manhã seguinte, quando desci, Meena estava no saguão do prédio. Dessa vez sem os filhos, mas acompanhada de Ashok, que não usava o uniforme. Fiquei um pouco surpresa ao vê-lo em trajes normais, vasculhando embaixo da mesa.
De repente, ocorreu-me como era bem mais fácil para os ricos se recusarem a saber qualquer coisa sobre nós quando não estávamos vestidos como indivíduos.
— Oi, Srta. Louisa — disse ele. — Esqueci meu chapéu. Precisei passar aqui antes de ir para a biblioteca.
— Aquela que eles querem fechar?
— É — confirmou Ashok. — Quer vir junto?
— Venha nos ajudar a salvar nossa biblioteca, Louisa!
Meena deu um tapinha em minhas costas com a mão coberta por uma luva que deixava os dedos de fora.
— Precisamos de toda ajuda que pudermos conseguir!
Eu havia planejado ir a um café, mas não tinha mais nada para fazer, e o domingo se estendia à minha frente como uma terra estéril, então concordei.
Eles me entregaram um cartaz que dizia “UMA BIBLIOTECA É MAIS DO QUE LIVROS” e verificaram se eu tinha gorro e luvas.
— Você está bem para uma ou duas horas, mas vai congelar na terceira — disse Meena quando saímos.
Ela era o que meu pai teria chamado de intrépida — uma nova-iorquina voluptuosa, sexy, com cabelão, que tinha uma resposta inteligente para tudo o que o marido falava e adorava zombar dele por causa do cabelo, de sua maneira de cuidar das crianças, de sua destreza sexual. Tinha uma gargalhada alta e rouca e não levava desaforo para casa. Ashok a adorava. Eles se chamavam de “meu bem” com tanta frequência que de vez em quando eu me perguntava se haviam esquecido o nome um do outro.
Pegamos o metrô em direção a Washington Heights e conversamos sobre como ele havia arranjado aquele emprego como uma medida temporária quando Meena engravidou pela primeira vez, e como, quando as crianças tivessem idade para ir à escola, ele começaria a procurar outra coisa, um trabalho em horário comercial, para que pudesse ajudar mais. (“Mas os benefícios de plano de saúde são bons. Torna mais difícil sair.”) Os dois tinham se conhecido na faculdade — fiquei envergonhada de admitir que eu tinha suposto que fora um casamento arranjado.
Quando contei isso, Meena começou a gargalhar. Garota? Você não acha que eu teria feito meus pais escolherem coisa melhor para mim?
Ashok: Você não disse isso na noite passada, meu bem.
Meena: Foi porque eu estava concentrada na TV.
Quando finalmente subimos, rindo, os degraus da estação de metrô na 163rd Street, de repente me vi em uma Nova York bem diferente.

* * *

Os prédios nessa parte de Washington Heights pareciam esgotados: vitrines tapadas por tábuas de madeira com escadas de incêndio envergadas, lojas de bebidas, lanchonetes de frango frito e salões de beleza com fotos gastas e enrugadas de penteados fora de moda. Um homem xingando baixinho passou por nós, empurrando um carrinho de compras cheio de sacos plásticos. Grupos de adolescentes relaxavam nas esquinas, passando cantadas, e o meio-fio era pontuado por sacos de lixo dispostos em pilhas desarrumadas ou com seu conteúdo jogado na rua. Não havia nada do brilho da parte sul de Manhattan, nada da pretensão proposital que era transmitida no ar da área central da cidade. A atmosfera ali tinha cheiro de comida frita e desilusão. Meena e Ashok pareciam não notar. Eles caminhavam lado a lado, as cabeças juntas, checando os telefones para se certificar de que a mãe de Meena não estava tendo problemas com as crianças. Meena se virou para ver se eu ainda estava com eles e sorriu. Dei uma olhada para trás, enfiei a carteira mais fundo dentro do casaco e me apressei para alcançá-los.
Ouvimos o protesto antes de vê-lo, uma vibração no ar que gradativamente foi se tornando distinta, um canto ao longe. Viramos uma esquina e lá, na frente de um prédio de tijolos vermelhos sujo de fuligem, havia cerca de cento e cinquenta pessoas, empunhando cartazes e cantando, a maioria direcionando a voz para uma pequena equipe de filmagem. Quando nos aproximamos, Meena empunhou seu cartaz no ar.
— Educação para todos! — gritou. — Não tirem os espaços seguros dos nossos filhos!
Entramos na multidão e fomos rapidamente engolidos por ela. Eu achava que Nova York era multiforme, mas agora percebia que tudo o que tinha visto era a cor da pele das pessoas, os estilos de suas roupas. Ali havia outra variedade de pessoas. Havia mulheres velhas com gorros de tricô, hipsters com bebês presos nas costas, rapazes negros com o cabelo cuidadosamente trançado e indianas idosas de sári. Todos estavam animados, reunidos com um propósito comum e a intenção total e compartilhada de se fazerem ouvir. Eu me juntei ao canto, vendo o sorriso radiante de Meena, a maneira como ela abraçava os outros manifestantes conforme se movimentava pela multidão.
— Eles disseram que vai passar no noticiário da noite.
Uma mulher idosa se virou para mim, aquiescendo de satisfação.
— É a única coisa que a câmara municipal leva em conta. Todos eles querem estar nos noticiários.
Sorri.
— Todo ano é a mesma coisa, certo? Todo ano temos que lutar um pouco mais arduamente para manter nossa comunidade unida. Todo ano temos que nos apegar mais ao que é nosso.
— D... Desculpe. Eu não sei. Só estou aqui com amigos.
— Mas você veio nos ajudar. É isso que importa.
Ela colocou uma das mãos em meu braço.
— Sabia que o meu neto tem um programa de orientação aqui? Pagam para ele ensinar computação para outros jovens. Realmente pagam para ele. Ele ensina adultos também. Ajuda a se candidatarem a empregos.
Ela bateu as mãos enluvadas uma na outra, tentando se manter aquecida.
— Se a câmara fechar a biblioteca, todas essas pessoas não vão ter para onde ir. E pode apostar que os vereadores vão ser os primeiros a reclamar dos jovens zanzando por aí pelas esquinas. Você sabe.
Ela sorriu para mim como se eu soubesse.
Adiante, Meena ergueu seu cartaz novamente. Ashok, do lado dela, curvou-se para cumprimentar o filhinho de um amigo, pegando-o no colo e levantando-o até acima da multidão para que ele visse melhor. Ashok parecia completamente diferente na multidão, sem a roupa de porteiro. Por mais que tivéssemos conversado, eu só o tinha visto através do prisma de seu uniforme. Não imaginara sua vida além da mesa da portaria, como ele sustentava a família, quanto tempo levava para chegar ao trabalho ou quanto ganhava. Examinei a multidão, que havia silenciado um pouco mais desde que a equipe de filmagem fora embora, e me senti estranhamente envergonhada pelo pouco que havia explorado Nova York. Esse lugar representava a cidade tanto quanto as torres brilhantes do centro.
Continuamos a cantoria por mais uma hora. Os carros e caminhões buzinavam em apoio quando passavam, e gritávamos de volta. Duas bibliotecárias saíram e ofereceram bandejas com bebidas quentes ao máximo de gente que conseguiram. Eu não peguei. A essa altura, já tinha notado as costuras rasgadas do casaco da senhora, as roupas gastas e surradas à minha volta. Uma indiana e seu filho passaram pela rua com grandes bandejas prateadas de pakoras quentes e nós corremos para pegá-las, agradecendo em profusão.
— Vocês estão fazendo um trabalho importante — disse ela. — Nós agradecemos.
Minha pakora estava cheia de ervilhas e batata, apimentada o suficiente para me fazer engasgar, mas absolutamente deliciosa.
— Eles trazem para nós toda semana, Deus os abençoe — disse a idosa, limpando pedaços de massa que caíram em seu cachecol.
Uma viatura de polícia passou duas, três vezes, o rosto do policial inexpressivo enquanto esquadrinhava a multidão.
— Nos ajude a salvar nossa biblioteca, senhor! — gritou Meena para ele.
O homem virou o rosto para o outro lado, mas seu colega sorriu.
Em algum momento, Meena e eu entramos na biblioteca para usar o banheiro, e tive a oportunidade de ver o lugar pelo qual eu aparentemente estava lutando. O prédio era velho, com teto alto, tubulações visíveis e ar abafado; as paredes eram cobertas por cartazes oferecendo educação para adultos, sessões de meditação, ajuda com currículos e pagamentos de seis dólares por hora para turmas de orientação. Mas estava cheio de gente, a área das crianças lotada de jovens famílias, a seção dos computadores zumbindo com adultos digitando cuidadosamente nos teclados, ainda não confiantes no que estavam fazendo. Vários adolescentes estavam sentados conversando baixo em um canto, alguns lendo livros, vários usando fones de ouvido. Fiquei surpresa de ver dois seguranças parados perto da mesa da bibliotecária.
— É. Temos algumas brigas. É grátis para todo mundo, sabe? — sussurrou Meena. — Drogas, geralmente. Sempre tem alguma encrenca.
Na volta, quando descemos a escada, passamos por uma idosa. O chapéu dela estava imundo, seu casaco de náilon azul amarrotado e surrado, com rasgos nos ombros, feito ombreiras. Eu a observei enquanto ela subia, degrau após degrau, seus chinelos gastos mal ficando nos pés, carregando uma bolsa na qual um único livro sobressaía.
Ficamos lá fora por mais uma hora — tempo suficiente para um repórter e outra equipe de notícias parar e fazer perguntas, prometendo se esforçar para divulgar a história. E então, de uma só vez, a multidão começou a se dispersar. Meena, Ashok e eu voltamos para o metrô, os dois conversando animadamente sobre as pessoas com quem tinham falado e sobre os protestos planejados para a semana seguinte.
— O que vocês vão fazer se realmente fechar? — perguntei a eles, quando estávamos no trem.
— Sinceramente? — disse Meena, empurrando a bandana para trás no cabelo. — Não tenho ideia. Mas é provável que feche no fim das contas. Tem outro prédio, mais bem-equipado, a três quilômetros de distância, e eles vão dizer que podemos levar nossos filhos lá. Porque obviamente todos por aqui têm carro. E é bom para os idosos andarem três quilômetros com um calor de mais de trinta graus. — Ela revirou os olhos. — Mas até lá continuamos lutando, certo?
— Precisamos ter lugares para a comunidade. — Ashok levantou a mão em um movimento enfático, cortando o ar. — Precisamos ter lugares onde as pessoas possam se encontrar, conversar e trocar ideias, e isso não pode ser só sobre dinheiro, sabe? Os livros nos ensinam sobre a vida. Os livros ensinam sobre empatia. Mas não dá para comprar livros se você mal tem o suficiente para pagar o aluguel. Então aquela biblioteca é um recurso vital! Ao fechar uma biblioteca, Louisa, você não acaba só com uma instalação, você acaba com a esperança.
Houve um breve silêncio.
— Eu amo você, meu bem — disse Meena, e o beijou na boca.
— Eu amo você também, meu bem.
Eles se entreolharam e eu tirei com as mãos migalhas imaginárias do meu casaco, tentando não pensar em Sam.

* * *

Ashok e Meena foram para o apartamento da mãe dela pegar as crianças, me abraçando e me fazendo prometer voltar na semana seguinte. Eu me arrastei até a lanchonete, onde tomei um café e comi um pedaço de torta. Eu não conseguia parar de pensar na manifestação, nas pessoas na biblioteca, nas ruas encardidas e esburacadas que a circundavam. Continuava visualizando os rasgos no casaco daquela mulher, na idosa do meu lado e seu orgulho pelo pagamento que o neto recebia pelas aulas. Pensei no apelo apaixonado de Ashok pela comunidade. Lembrei-me de como minha vida tinha mudado por causa de nossa biblioteca perto de casa, da maneira como Will havia insistido que “conhecimento é poder”. Pensei em como cada livro que eu lia agora — e quase toda decisão que tomava — remetia àquela época.
Pensei em como cada um dos manifestantes na multidão conhecia outra pessoa, ou estava ligado a outra pessoa, ou trazia comida ou bebida para os outros, ou conversava com eles; como eu sentira a energia fluir e o prazer advindo de um objetivo compartilhado.
Pensei em meu novo lar, em um prédio silencioso de talvez trinta pessoas, onde ninguém falava com ninguém, a não ser para reclamar sobre alguma pequena violação de sua própria paz, onde ninguém parecia gostar de ninguém nem se preocupar em conhecer os outros o suficiente para descobrir.
Fiquei sentada até que a torta esfriou na minha frente.

* * *

Quando voltei, fiz duas coisas: escrevi um bilhete curto para a Sra. De Witt agradecendo pelo lindo lenço, dizendo que o presente salvara a minha semana e que, se algum dia ela precisasse de ajuda com o cachorro, eu adoraria aprender mais sobre cuidados caninos. Coloquei em um envelope e o enfiei por baixo da porta dela.
Bati na porta de Ilaria, tentando não ficar intimidada quando ela a abriu e me fitou com uma desconfiança evidente.
— Passei no café onde vendem os biscoitos de canela de que você gosta, então trouxe alguns para você. Aqui.
Entreguei a bolsa para ela.
Ela olhou, desconfiada.
— O que você quer?
— Nada! — respondi. — Só... obrigada pela coisa toda com as crianças no outro dia. E, sabe, nós trabalhamos juntas e tal, então... — Dei de ombros. — São só uns biscoitos.
Eu os segurei a alguns centímetros dela, para que fosse obrigada a pegá-los.
Ilaria olhou para a sacola, depois para mim, e tive a sensação de que ela estava a ponto de devolvê-los, então, antes que pudesse fazer isso, dei tchau e corri de volta para o meu quarto.
Nessa noite, entrei na internet e li tudo o que encontrei sobre a biblioteca: as notícias sobre os cortes de orçamento, ameaças de fechamento, pequenas histórias de sucesso — Adolescentes locais creditam bolsa na faculdade a biblioteca —, imprimindo as partes mais importantes e salvando todas as informações úteis em um arquivo.
E, às 08h45, um e-mail pipocou na minha caixa de entrada. O título era DESCULPE.

Lou,
Eu estive ocupado a semana toda e queria escrever quando tivesse mais de cinco minutos e soubesse que não ia piorar as coisas ainda mais. Não sou bom com palavras. E acho que só uma palavra é importante de verdade agora. Desculpe. Sei que você não me trairia. Fui um idiota por pensar isso.
O fato é que é difícil estar tão longe e não saber o que está acontecendo na sua vida. Quando nos encontramos, é como se o peso de tudo aumentasse. Não conseguimos simplesmente relaxar um com o outro.
Sei que seu tempo em Nova York é importante para você e não quero que fique estagnada.
Desculpe de novo.
Seu Sam

Foi a coisa mais próxima de uma carta que ele já me mandara. Fitei aquelas palavras por alguns instantes, tentando distinguir meus sentimentos.
Finalmente, abri uma nova mensagem e digitei:

Eu sei. Amo você. Quando nos virmos no Natal, espero que possamos ter tempo só para relaxar um com o outro. Beijos, Lou

Enviei, depois respondi a um e-mail de mamãe e escrevi outro para Treena. Digitei tudo no piloto automático, pensando em Sam o tempo inteiro. Sim, mãe, vou olhar as fotos novas do jardim no Facebook. Sim, sei que a filha de Bernice faz aquele bico em todas as fotos. É para sair bonita.
Entrei na minha conta do banco, depois no Facebook e acabei sorrindo, mesmo sem querer, com as intermináveis fotos da filha de Bernice e seu bico emborrachado. Vi as fotos de minha mãe em nosso pequeno jardim, as cadeiras novas que ela tinha comprado do centro de jardinagem. Depois, como em um capricho, entrei no perfil de Katie Ingram. Quase imediatamente desejei não ter feito isso. Lá, em cores gloriosas, havia sete fotos recentes de uma saída noturna dos paramédicos, possivelmente aquela para a qual eles estavam a caminho quando liguei.
Ou, pior, talvez não.
Lá estava Katie, usando uma camisa cor-de-rosa que parecia de seda, o sorriso escancarado, um olhar astuto, inclinando-se sobre a mesa para defender seu ponto de vista, seu pescoço exposto ao jogar a cabeça para trás enquanto ria. Lá estava Sam, com seu casaco surrado e uma camiseta cinza, sua grande mão segurando um copo do que parecia ser refresco de limão, alguns centímetros mais alto que todo mundo. Em todas as fotos, o grupo estava feliz, rindo com as piadas compartilhadas. Sam parecia totalmente relaxado e à vontade. E, em todas as fotos, Katie Ingram aparecia grudada nele, aninhada embaixo do braço dele enquanto os dois estavam sentados em volta da mesa do pub, ou olhando para ele, uma das mãos encostando de leve em seu ombro.

4 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!