16 de fevereiro de 2018

Capítulo 15

RAFE

A água na bacia correu vermelha. Peguei o pano e o apertei contra a minha boca novamente.
Ulrix parecia ser o que mais me odiava. Estremeci quando limpei meu lábio onde ele foi partido, em seguida, pressionei forte tentando parar o sangramento. Dor irradiou por meu rosto.
Após a Komizar dar sua despedida para mim esta manhã, ele enviou o seu brutamontes com um pouco de comida, mas Ulrix e seus capangas me deram um prato adicional. Se cada refeição viesse com um bônus assim, eu estava em apuros. Pelo menos eles não tinham se voltado para as minhas costelas novamente. Eu tinha certeza que pelo menos uma estava quebrada. Eu não poderia me dar ao luxo de quebrar outra.
Era irônico que tudo que eu queria era a chance de me provar como um soldado, e agora era forçado a fazer o papel de um emissário destreinado e inepto quando dava de cara com brutos idiotas. Combate corpo a corpo não era o meu forte, mas eu poderia tê-los derrubado em apenas alguns movimentos sem muitas dificuldades. Poupar o meu lábio não valia arriscar o plano, apesar de tudo. Dois anos atrás, quando Tavish e eu desobedecemos ordens e resgatamos o seu irmão de um campo inimigo, havíamos fingido estar bêbados, atrapalhados e sem armas. Aquele papel durou apenas alguns minutos antes de revelarmos o nosso verdadeiro propósito. Este teria que durar muito mais. Desta vez não havia cavalos à espera. Não havia fuga rápida. Minha história nos dera tempo, e eu tinha que continuar fazendo-os acreditar.
O Komizar a havia comprado por enquanto. A minha proposta mexera com o seu ego. Ele queria acreditar que um reino poderoso estava finalmente reconhecendo-o como um aliado digno e que o príncipe realmente viria até ele para negociar uma aliança. Ele acreditava estar finalmente recebendo o grande respeito que merecia, e quem melhor para conseguir isso do que o futuro rei de Dalbreck? Ele podia ter fingido suspeita, mas vi a fome em seus olhos quando expus o plano. Havia apenas uma coisa que alguém com grande poder queria. Mais poder.
Eu sabia disso em primeira mão.
A aliança de casamento com Morrighan não fora sobre proteção e força, apenas. Essas questões poderiam muito bem ter sido as de menor peso. Meu pai e seus generais tinham pouco respeito pelo exército morrighês. Consideravam-nos fracos e favorecidos apenas por algumas posições estratégicas e recursos. A aliança também tinha sido um lance por posição dominante.
Meu pai e seu gabinete acreditavam que uma vez que tivéssemos a amada Primeira Filha de Morrighan dentro das nossas fronteiras, limites poderiam ser forçados. Depois de adquirir a Princesa Arabella, o porto ao sul de Piadro em Morrighan seria o próximo em sua mira, embora o gabinete tenha preferido usar a palavra dote. Apenas um pequeno porto e algumas poucas colinas. Mas para Dalbreck, ter um porto ocidental em águas profundas aumentaria seu poder em dez vezes.
Era também uma questão de orgulho. Em outro momento, o porto e em torno das terras tinha pertencido a Breck, o príncipe exilado de Morrighan, banido do reino por desafiar a decisão de seu irmão. Apesar de inúmeros séculos terem se passado desde então, Dalbreck ainda o queria de volta – algumas feridas nunca cicatrizavam. Eles viram Lia como uma incursão diplomática para conseguir o que acreditavam ser deles por direito, sem montar uma invasão direta.
Quando mencionei o desejo pelo porto para o Komizar, soou verdadeiro para ele não apenas porque ele sabia do valor do porto, mas porque a busca por mais poder era uma fome que ele entendia. Na noite anterior, ele havia sondado para obter detalhes sobre a corte de Dalbreck como se já planejasse seu encontro com o príncipe. Eu não o tomava como um tolo, no entanto. Ele não seria enganado para sempre. Eu conhecia o suficiente das reputações dos cavaleiros vendanos, a sua viagem rápida e a forma como eles deslizavam através das fronteiras com facilidade. Não demoraria muito antes que voltassem com notícias da boa saúde do meu pai. Lia e eu tínhamos que partir antes disso.
O sujeito bruto que tinha me identificado era uma preocupação, porém. Griz, o Komizar o chamara. Teria ele mentido por mim, ou estava verdadeiramente confuso? Talvez ele tivesse me visto em cima do estrado em uma cerimônia e me confundiu com um dos muitos dignitários lá. Ele era uma ponta solta sobre a qual eu não me sentia bem – e que ponta solta!
Deixei cair o pano na bacia e peguei outro, seco. Apenas uma fina linha de sangue manchou o tecido branco quando o pressionei em minha boca. O fluxo foi interrompido, mas meu lábio ainda latejava. Fui até a fenda da altura de uma janela, apenas larga o suficiente para eu passar por ela, e abri a persiana. Pombos esvoaçavam do peitoril molhado.
Muito abaixo, Venda despertava como um gigante desajeitado. Muralhas e torres me impediam de ver muito além de alguns telhados, mas a cidade parecia se espalhar por quilômetros. Era muito maior do que eu esperava. Debrucei-me o mais para frente que a janela estreita permitia. Estariam Sven e os outros já se esgueirando por uma daquelas ruas escuras?
O plano de Rafe vai nos matar primeiro.
Orrin podia ter expressado seus pensamentos, mas nenhum deles hesitou em fazer o que pedi. Tavish até mesmo sussurrou antes de eu partir: Já fizemos isso antes. Podemos fazer de novo. Mas naquela época tínhamos enfrentado apenas uma dúzia, não milhares, e nenhum deles era o Komizar.
Eu me virei e caminhei pelo quarto, tentando pensar em qualquer coisa que não fosse Lia. Olhei para os cortes em meus dedos, minha própria estupidez. Assim que me trouxeram para o meu quarto na noite passada e fecharam a porta, eu havia socado a parede sem pensar.
Ações impensadas como essa também não faziam parte do plano. Sven teria me repreendido por agir com o coração em vez da cabeça e colocar uma arma em potencial, a minha mão, em risco, mas foi tudo o que eu pude fazer por ficar sentado lá e agir como se não me importasse quando Lia beijou Kaden. A única coisa que havia retardado minha reação foi a mensagem alta e clara que eu havia recebido de Lia: o Komizar observava tudo. Eu sabia que ele estava jogando conosco para ver como reagíamos. O desempenho de Lia tinha sido incrivelmente crível. O Komizar assentira com aprovação. Mas até que ponto ela teria que ir para convencer Kaden também? Esta manhã, um dos guardas teve grande prazer em me dizer que Lia não estava usando o vestido de estopa, que Kaden havia dito ao Komizar que ela fizera por merecer um guarda-roupa inteiro na noite passada.
— A pequena cadela morrighesa esqueceu seu emissário frufru agora que sentiu o gostinho de um vendano.
Eu não soquei a parede depois que ele foi embora. Eu me levantei do chão onde ele tinha me deixado, sentindo o acúmulo de sangue na minha boca, e tentei me lembrar que Lia não tinha pedido nada disso. Lembrei-me do olhar em seus olhos quando ela me avistou, antes de atravessarmos a ponte, o olhar que me dilacerou o corpo até a alma, aquele que dizia que éramos tudo o que importava, e prometi a mim mesmo enquanto cuspia sangue no chão que um dia eu veria aquela expressão novamente em seus olhos.

16 comentários:

  1. Ai já to torcendo pra Lia não escolher nenhum dos dois e governar Venda sozinha

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    1. ideia maravilhosaaaaaaaaaaa

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  2. QUE A LIA FIQUE COM ELE. AMÉM!!!!

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  3. Sou com certeza a única que tá shipando com Rafe 50% com kaden 35% e 15 % com o griz

    Mirtiz

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  4. Os comentários dá Karina são os melhores KKKKKK

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  5. 100% Kaden
    Tem que ser o meu Kaden

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  6. Eu amo o Kaden, mais Rafe está passando por tudo só pra salvar ela, sem falar que o Kaden sempre coloca ela em segundo plano 100%Rafe

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  7. Kaden gosta dela, da pra ver, mas ele não merece o amor dela porque ta sempre colocando venda em primeiro lugar enquanto Rafe ta arriscando a própria vida pra salvar ela. Porém quando tem aquele clima entre Lia e Kaden não dá pra não gostar né kkkk

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  8. Se eu fosse ela abandonava essa bagunça todinha e ia governar Venda

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Boa leitura, E SEM SPOILER!