6 de fevereiro de 2018

Capítulo 15. Eu te amo, desesperadamente...

Magrí entrou como um gato pela janela do quarto.
Aos poucos, enquanto seus olhos acostumavam-se com a diferença de iluminação, a menina foi percebendo a cama a sua frente. E o vulto adormecido.
Aproximou-se. Lá estava dona Iolanda.
A menina examinou superficialmente o corpo da professora. Abaixo da axila esquerda, perto do seio, um curativo grande.
Não havia nenhum aparelho a que a professora estivesse ligada. Nem monitores para o coração, nem respiradores artificiais, nada. Apenas um tubo estava espetado na veia do braço, pingando gota a gota o líquido de um frasco pendurado em um suporte ao lado da cama.
“Não parece tão grave, esse ferimento... Como é que ela pode estar em coma? O que é isso? Aqui tem alguma coisa muito estranha... Não preciso ser médica para saber que estar em coma não é isso ..”
Desprendeu com cuidado um lado do esparadrapo e levantou uma ponta do curativo.
Ali estava. Um corte meio fundo, lateral. A bala não tinha penetrado no corpo da professora.
“Que história de coma é essa? Ah, preciso agir!”
Era um risco grande, mas a intuição e a inteligência da menina diziam-lhe que se alguma coisa estava errada com dona Iolanda, só poderia ser o que vinha daquele frasco e pingava-lhe na veia.
Suspirou, respirou fundo e decidiu-se.
“Uma decisão grave. Tenho de tomá-la. Vou tomá-la!” Olhou em volta. Sobre uma mesinha de serviço, havia vários frascos. Em um deles, estava escrito “soro fisiológico”.
“Um soro inofensivo. Igual aos líquidos naturais do corpo humano. É disso que eu preciso!”
Magrí retirou do suporte o frasco que estava dependurado, com o maior cuidado. Despejou o conteúdo na pia. Lavou-o muito bem e reencheu-o com o soro fisiológico.
Pronto. Tinha sido ousada demais. Mas Magrí era um Kara. Sentou-se ao lado da professora e tomou-lhe a mão.
Dona Iolanda respirava bem, calmamente. O tempo passava, parecia uma eternidade.
Até que a adormecida suspirou. Mexeu-se um pouco. Balançou a cabeça.
Era isso. Magrí estava certa. Era aquele líquido que fazia com que ela ficasse adormecida. Um coma induzido!
“Mais um crime...”
Magrí colou a boca ao ouvido de dona Iolanda:
— Dona Iolanda, sou eu, Magrí.
Com um fio de voz, a professora falou:
— Magrí...
— Fique quieta, dona Iolanda. Por favor, fique quieta. Você está me entendendo?
— ... sim...
— Ouça: você foi anestesiada, mas está bem. Seu ferimento é superficial. Tem de ficar quieta, como se ainda estivesse sem sentidos. Isso é fundamental. Você está correndo perigo, mas, em meia hora, eu vou tirar você daqui. Está me entendendo? Se alguém entrar nesse quarto, finja que ainda está desacordada!
A mão da professora apertou um pouco mais a mãozinha de Magrí :
— Magrí... Ele... ele apontou para mim... ele mandou atirar... Em mim...
— Ele? Quem é ele?
— No aeroporto... ele é...
Um ruído.
Alguém começara a girar a maçaneta da porta do quarto de dona Iolanda.

* * *

Aos poucos, o detetive Andrade foi recuperando a cor do rosto. Queixava-se, quase choramingando.
— Vocês são loucos! Malucos! O que aquela menina foi fazer? E se ela caísse lá de cima? Vocês estão completamente alucinados... Querem me matar do coração...
— Não se preocupe, Andrade — acalmava Calú. — Magrí é campeã de ginástica olímpica. Ela sabe o que faz. Você pode não acreditar, mas ela não corria nenhum perigo, andando pela fachada do prédio.
— Loucos... todos loucos...
— Está na hora — lembrou Miguel. — Crânio, de acordo com o plano, você tem de estar atrás do hospital, na viela, em cinco minutos. Fique lá e, se houver alguma coisa errada, avise Magrí com os dois assobios combinados. Calú, fique na entrada da viela. Não perca tempo avaliando nada: se alguma coisa parecer suspeita, avise com os assobios para dentro da viela.
— Certo.
— Certo, Miguel.
— São loucos... completamente loucos...

* * *

Magrí percebeu que havia outra porta na parede lateral do quarto de dona Iolanda. Uma ligação com o aposento ao lado.
Aquele aposento tinha de estar vazio!

* * *

O anão sabia que não poderia ser encontrado na viela. Abriu uma das caixas de papelão e enfiou-se dentro dela.
Com um canivete afiadíssimo, abriu um buraco no papelão. Todo o seu corpo horrendo estava escondido. Pelo buraco, o olho arguto do anão vigiava.

* * *

O aposento não estava vazio.
Mas quem ocupava o quarto não poderia denunciar a menina. Era um velho. Um paciente deitado. Ou não era nem mais isso. Estava morto. Provavelmente aguardando remoção para o necrotério.
Magrí tomou fôlego e percebeu que estava agora sem a vassoura. Como iria sair disfarçando, logo da porta ao lado de onde estavam de guarda os dois gorilas?
— Desculpe, senhor cadáver, mas, agora, acho que o senhor não se importa, não é? É para uma boa causa...
Com cuidado, tirou os lençóis da cama do falecido, fez uma trouxa, usando também os travesseiros e as toalhas, tomou fôlego e abriu a porta.
Os dois gorilas nem desconfiaram daquela faxineira que, do quarto ao lado, saía carregando uma trouxa de roupas sujas.

* * *

Crânio veio andando normalmente, pelo lado do hospital, até chegar à viela. Depois, entrou rapidamente, colocando-se meio na sombra, ao lado de um monte de caixas de papelão.
Dentro de uma delas, o anão encolheu-se o mais que pode.

* * *

Magrí desceu as escadas, carregando a trouxa de roupas, e chegou ao subsolo, onde tinha conseguido o uniforme de faxineira.
No fundo, havia uma porta. Pelo seu senso de orientação, Magri percebeu que aquela porta dava para os fundos do hospital.
 “Ótimo!”

* * *

Calú encostou-se displicentemente a um poste em frente à viela.
Nesse momento, os dois homens de terno aproximavam-se pela rua lateral, em direção à mesma viela.

* * *

Magrí saiu sorrateiramente pela porta e olhou.
A cabeça de Crânio aparecia ao lado de uma pilha de caixas de papelão.
O amigo fez um gesto com a cabeça. Tudo estava bem.
Mas, nesse momento, dois assobios curtos, fortíssimos, foram ouvidos.
Os dois homens, já entrando na viela, deram apenas uma olhada para trás. Não viram nada de mais. Não devia ser nada de mais.

* * *

Sem perder um segundo, Magrí mergulhou com Crânio no meio das caixas de papelão.
Quando os dois homens chegaram bem perto das caixas, não era possível perceber nada.
Crânio e Magrí encolheram-se.
Apenas uma folha grossa de papelão sujo separava os dois Karas do anão.

* * *

Os homens conversavam. Parecia ser sobre futebol.
Olharam em volta. Quando viram que não havia ninguém à vista, abriram o zíper da calça e aliviaram-se tranquilamente.
Os dois Karas ouviram o ruído de duas “torneirinhas” regando a parede do hospital. Crânio olhou para Magrí. A menina sorria. A situação era mesmo engraçada, depois de tanta tensão.
Magrí estava suada, excitada, depois de uma aventura tão incrível.
O rapaz continuava olhando para a menina. Ele tinha acompanhado a loucura de Magrí, ao atravessar quase toda a fachada do hospital, a quinze metros do chão. Seu olhar era de verdadeira adoração. De admiração. De um amor intenso, imenso, eterno...

* * *

Os homens, depois de urinarem, encostaram-se na parede e acenderam cigarros.
— Está um calor danado na frente do hospital... Vamos dar um tempo. Aqui é bem mais fresco. Ninguém vai aparecer por lá, nos próximos dez minutos...

* * *

Encolhidos no meio das caixas, Crânio e Magrí não podiam fazer qualquer ruído.
Estavam juntos, colados. Protetoramente, o braço de Crânio enlaçava Magrí.
Seus rostos estavam quase colados. Seus hálitos se misturavam. Respiravam o mesmo ar.
Não era possível falar, mas era perfeitamente permitido pensar o que se quisesse. E os dois bebiam-se, olhavam-se, aspiravam-se, ambos felizes pelo imprevisto que os jogara nos braços um do outro.
“Magrí... minha Magrí...”
“Crânio... meu... por um momento, ao menos, você é meu...”
Os olhinhos de Magrí fecharam-se. Os lábios de Crânio aproximavam-se, úmidos, ansiosos...
O corpo da menina relaxou-se nos braços sonhados de Crânio. Aquela verdadeira fortaleza de jovem mulher, que fora capaz de uma proeza tão incrível, como a que acabara de realizar, estava agora lânguida, entregue, mole e frágil como uma gatinha.
“Por um momento, pelo menos... ah, eu quero este momento; pelo menos...”
Delicados, os lábios daqueles dois adolescentes colaram-se, intensamente, apaixonadamente...
Separado apenas por uma folha de papelão, mais mudo do que os dois, o anão ouviu sussurros. E, se aquela carantonha horrenda pudesse sorrir, era o que o anão faria...
— Eu te amo, Magrí... desesperadamente...
— Eu te amo, meu querido... eu sempre te amei...
Dessa vez o beijo foi ardente, agarrado, mágico, total...

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Boa leitura! E SEM SPOILER!