24 de fevereiro de 2018

Capítulo 14

Dormimos até depois das dez, então fomos caminhando para a lanchonete perto de Columbus Circle. Comemos até nossa barriga doer, bebemos galões de café passado e ficamos sentados um em frente ao outro, os joelhos entrelaçados.
— E aí, está feliz de ter vindo? — perguntei, como se não soubesse a resposta.
Ele estendeu a mão e a colocou delicadamente atrás do meu pescoço, inclinando-se por cima da mesa até me beijar, sem reparar nas outras pessoas, e eu recebi a resposta de que precisava. Ao nosso redor, havia casais de meia-idade lendo o jornal do fim de semana, grupos de festeiros vestidos com roupas bizarras que ainda não tinham ido para casa dormir e conversavam entre si, além de casais exaustos com filhos mal-humorados.
Sam se recostou na cadeira e suspirou fundo.
— Minha irmã sempre quis vir aqui, sabe. Parece idiota que ela nunca tenha vindo.
— Sério?
Estendi a mão para pegar a dele, e Sam virou a palma para cima para segurar a minha, fechando os dedos sobre ela.
— É. Ela tinha uma lista inteira de coisas que queria fazer, como ir a um jogo de beisebol. Os Kicks? Os Knicks? Um time que ela queria ver. E comer em uma lanchonete de Nova York. E mais que tudo ela queria subir no topo do Rockefeller Center.
— Não o Empire State?
— Não. Ela dizia que o Rockefeller devia ser melhor, com uma espécie de observatório de vidro. Pelo visto, dá para ver a Estátua da Liberdade de lá.
Apertei a mão dele.
— Podíamos ir lá hoje.
— Podíamos mesmo — concordou ele. — Faz a gente pensar, não é?
Sam pegou a xícara de café.
— Temos que agarrar as oportunidades quando podemos.
Uma vaga melancolia tomou conta dele. Eu não quis interromper. Sabia melhor que ninguém como, às vezes, é preciso se permitir ficar triste. Esperei um minuto e depois disse:
— Sinto isso todo dia.
Ele se virou para mim.
— Vou falar uma coisa tipo Will Traynor agora — avisei.
— Tudo bem.
— Não tem quase nenhum dia aqui em que eu não sinta que ele estaria orgulhoso de mim.
Senti um bocadinho de ansiedade, consciente de como havia testado Sam nos primeiros dias de nosso relacionamento por falar sem parar sobre Will, sobre como ele significara tanto para mim, sobre o vazio que ele deixara. Porém, Sam apenas aquiesceu.
— Também acho que ele estaria. — Ele acariciou meu dedo com o polegar. — Sei que eu estou. Orgulhoso de você. Quer dizer, sinto uma baita saudade. Mas, meu Deus, você é incrível, Lou. Chegou a uma cidade que não conhecia e fez esse emprego, no meio de milionários e bilionários, funcionar para você, e arranjou amigos, criou essa coisa toda para você. As pessoas passam a vida inteira sem fazer um décimo disso que você conseguiu.
Ele fez um gesto ao redor.
— Você também conseguiria — falei sem pensar. — Eu pesquisei. As autoridades de Nova York estão sempre precisando de bons paramédicos. Tenho certeza de que podíamos conseguir isso.
Falei em tom de brincadeira, mas, assim que as palavras saíram, percebi como desejava ardentemente que aquilo acontecesse. Inclinei-me sobre a mesa.
— Sam. Podíamos alugar um apartamento pequeno no Queens ou qualquer outro lugar e então podíamos ficar juntos toda noite, dependendo de quem estivesse trabalhando em que turno insano, e podíamos fazer isto aqui todo domingo de manhã. Podíamos ficar juntos. Não acha que seria maravilhoso?
Você só tem uma vida. Ouvi as palavras soando nos meus ouvidos. Diga sim, falei para ele em silêncio. Simplesmente diga sim.
Ele estendeu o braço por cima da mesa para pegar minha mão. Depois suspirou.
— Não posso, Lou. Minha casa não está pronta. Mesmo que eu decidisse alugá-la, precisaria terminar a obra. E não posso deixar o Jake por enquanto. Ele tem que saber que estou por perto. Só um pouco mais de tempo.
Forcei-me a dar o tipo de sorriso que indicava que eu não tinha levado aquilo a sério.
— Claro! Foi só uma ideia idiota.
Ele encostou os lábios na palma da minha mão.
— Não é idiota. Mas é impossível neste momento.

* * *

Decidimos, por um acordo tácito, não mencionar assuntos potencialmente difíceis de novo, e isso aniquilou uma quantidade surpreendente de temas — o trabalho dele, sua vida em casa, nosso futuro. Caminhamos pelo High Line, depois nos apressamos para ir até o Vintage Clothes Emporium, onde cumprimentei Lydia como uma velha amiga e me arrumei com um macacão cor-de-rosa com lantejoulas estilo anos setenta, um casaco de pele anos cinquenta e um boné de marinheiro, fazendo Sam rir.
Esta — disse ele, quando saí do provador com um vestido psicodélico solto e curto de náilon cor-de-rosa e amarelo — é a Louisa Clark que eu conheço e amo.
— Ela já mostrou para você o vestido de festa azul? Aquele com mangas?
— Não consigo me decidir entre este e o casaco de pele.
— Meu bem — disse Lydia, acendendo um cigarro Sobranie —, você não pode usar pele na Quinta Avenida. As pessoas não vão perceber que está sendo irônica.
Quando finalmente saí do provador, Sam estava ao lado da caixa, segurando um pacote.
— É o vestido dos anos sessenta — disse Lydia, prestativa.
— Você comprou para mim?
Peguei o pacote dele.
— Sério? Não achou espalhafatoso demais?
— É totalmente louco — disse Sam, impassível. — Mas você parecia tão feliz com ele... tão...
— Ah, meu Deus, ele é um bom partido — sussurrou Lydia quando estávamos de saída, o cigarro pendendo do canto da boca. — Aliás, da próxima vez faça com que ele compre o macacão. Você ficou uma diva.

* * *

Voltamos para o apartamento por algumas horas e cochilamos, totalmente vestidos e enroscados de modo casto um no outro, saturados de carboidratos.
Às quatro, despertamos zonzos e concordamos que devíamos sair e completar nosso último passeio, já que Sam tinha que pegar o voo às oito da manhã do dia seguinte no aeroporto JFK. Enquanto empacotávamos seus poucos pertences, fui fazer um chá na cozinha, onde encontrei Nathan misturando algum shake de proteína. Ele deu um sorriso malicioso.
— Soube que o seu namorado está aqui.
— Será que nada é inteiramente privado neste corredor?
Enchi a chaleira e apertei o botão.
— Não quando as paredes são tão finas assim, Louisa — disse ele. — Estou brincando! — completou, quando corei até a raiz do cabelo. — Não ouvi nada. Mas é bom saber, pela cor do seu rosto, que você teve uma noite boa!
Eu estava prestes a bater nele quando Sam apareceu na porta. Nathan parou na frente dele e estendeu a mão.
— Ah. O famoso Sam. Prazer em finalmente conhecê-lo, cara.
— O prazer é meu.
Esperei ansiosamente para ver se eles iam se comportar como macho alfa um com o outro. Mas Nathan era bastante relaxado por natureza e Sam ainda estava calmo depois de vinte e quatro horas de comida e sexo. Os dois simplesmente se cumprimentaram, sorriram um para o outro e trocaram gracejos.
— Vocês vão sair hoje à noite?
Nathan tomou um grande gole da bebida enquanto eu entregava a Sam uma xícara de chá.
— Nós pensamos em ir ao topo do Rockefeller. É uma espécie de missão.
— Ai, gente. Vocês não vão querer ficar em uma fila de turistas na última noite juntos. Venham para o Holiday Cocktail Lounge no East Village. Vou encontrar meus amigos lá. Lou, você conheceu os caras da última vez que saímos. Vai ter uma promoção lá hoje à noite. É sempre uma boa pedida.
Olhei para Sam, que deu de ombros. Podíamos dar uma passada de meia hora, eu disse. Então talvez pudéssemos ir ao topo do Rockefeller sozinhos. Ficava aberto até onze e quinze.

* * *

Três horas mais tarde, estávamos espremidos ao redor de uma mesa tumultuada, meu cérebro girando de leve por causa dos drinques que tinham aterrissado nele, um após o outro. Eu estava com meu vestido solto psicodélico porque queria mostrar a Sam como tinha gostado. Ele, enquanto isso, da maneira como fazem os homens que adoram a companhia de outros homens, tinha se conectado a Nathan e seus amigos. Estavam comentando sobre as escolhas musicais de cada um e comparando histórias de terror bizarras da juventude.
Uma parte de mim sorria e me juntava à conversa, enquanto que a outra fazia cálculos mentais sobre a frequência com que poderia contribuir financeiramente para Sam ir a Nova York duas vezes mais do que ele havia planejado. Sem dúvida ele perceberia como isso era bom. Como nós dois éramos bons juntos.
Sam se levantou para comprar a rodada seguinte.
— Vou pegar o cardápio — ele pronunciou as palavras sem emitir som. Fiz que sim. Eu sabia que provavelmente devia comer alguma coisa para não ficar mal mais tarde.
E então senti a mão de alguém no meu ombro.
— Você está mesmo me perseguindo!
Josh me encarava com o rosto iluminado, um grande sorriso exibindo dentes perfeitamente brancos. Eu me levantei de repente, ruborizada. Virei-me, mas Sam estava no bar, de costas para nós.
— Josh! Oi!
— Você sabia que este pode ser considerado meu outro bar predileto, certo?
Ele estava usando uma camisa azul listrada de tecido macio, as mangas dobradas.
— Não sabia!
Minha voz estava alta demais, minha fala rápida demais.
— Acredito em você. Quer uma bebida? Aqui fazem um old-fashioned que é de outro mundo.
Esticou o braço e tocou meu cotovelo.
Dei um pulo para trás como se ele tivesse me queimado.
— É, eu sei. E não. Obrigada. Estou com amigos e...
Virei-me justo a tempo de Sam chegar, segurando uma bandeja de drinques, dois cardápios embaixo do braço.
— Oi — disse ele, dando uma espiada em Josh antes de colocar a bandeja na mesa.
Depois, se endireitou devagar e o examinou de verdade.
Permaneci de pé, as mãos tensas ao lado do corpo.
— Josh, este é o Sam, meu... meu namorado. Sam, este é... este é o Josh.
Sam encarava Josh, como se tentasse absorver alguma coisa.
— É — disse Sam afinal. — Acho que eu podia ter adivinhado.
Ele me olhou, depois tornou a encarar Josh.
— Vocês... vocês querem uma bebida? Quer dizer, dá para ver que já têm, mas eu ficaria feliz em oferecer a próxima rodada.
Josh fez um gesto na direção do balcão.
— Não. Obrigado, cara — disse Sam, que ficara de pé para demonstrar que era meia cabeça mais alto que o outro. — Acho que estamos bem aqui.
Seguiu-se um silêncio constrangedor.
— Tudo bem, então.
Josh me olhou e aquiesceu.
— Prazer em conhecer você, Sam. Vai ficar muito tempo?
— O suficiente.
O sorriso de Sam não se alargou até os olhos. Eu nunca o vira tão irritado.
— Bem, então... vou deixar vocês em paz. Louisa, vejo você por aí. Tenham uma ótima noite.
Josh ergueu as palmas das mãos, um gesto de paz. Abri a boca, mas não havia nada a dizer que soasse certo, então acenei, um gesto esquisito e agitado com os dedos.
Sam se sentou pesadamente. Dei uma espiada em Nathan, que estava do outro lado da mesa e mantinha uma expressão de perfeita neutralidade. Os outros rapazes não pareceram ter reparado nada e ainda estavam conversando sobre os preços dos ingressos do último show a que tinham ido. Durante um instante, Sam ficou perdido em seus pensamentos. Por fim, ergueu o olhar.
Peguei a mão dele, mas ele não apertou a minha.

* * *

O humor não melhorou. O bar estava barulhento demais para conversar com Sam, e eu não tinha certeza do que queria dizer. Beberiquei meu drinque e pensei em uma centena de argumentos que se reviravam em minha mente. Sam tomou um grande gole de sua bebida, aquiesceu e sorriu com as piadas dos rapazes, mas eu percebia o tique em seu maxilar e sabia que seu coração não estava mais lá. Às dez horas, saímos e pegamos um táxi para casa. Deixei que ele chamasse.

* * *

Subimos pelo elevador de serviço, seguindo as instruções, e verificamos se havia algum ruído antes de entrarmos sorrateiramente em meu quarto. Parecia que o Sr. Gopnik já estava na cama. Sam não falou nada. Foi ao banheiro se trocar e fechou a porta atrás de si, as costas rígidas. Ouvi-o escovar os dentes e gargarejar enquanto eu subia na cama, sentindo-me desconfortável e com raiva ao mesmo tempo. Ele pareceu ficar lá dentro por uma eternidade. Enfim abriu a porta e saiu de cueca. As cicatrizes ainda estavam vermelhas e intensas, cruzando sua barriga.
— Estou sendo um babaca.
— É, está, sim.
Ele expirou demoradamente. Olhou para minha foto de Will, aninhada entre uma foto dele mesmo e outra de minha irmã com Thom, que estava com o dedo no nariz.
— Desculpe. Simplesmente me pegou de surpresa. Como ele se parece com...
— Eu sei. Mas qualquer um também poderia dizer que é esquisito você passar o tempo com minha irmã e ela se parecer tanto comigo.
— Só que ela não se parece com você. — Ele ergueu as sobrancelhas. — Espera aí, o quê?
— Estou esperando você dizer que sou mil vezes mais bonita.
— Você é mil vezes mais bonita.
Afastei as cobertas para deixá-lo entrar, e ele subiu na cama ao meu lado.
— Você é muito mais bonita que sua irmã. Milhões de vezes mais. Você é praticamente uma top model.
Ele colocou uma das mãos em meu quadril. Estava morna e pesada.
— Mas com pernas mais curtas. Melhor assim?
Tentei não sorrir.
— Melhor. Mas um pouco grosseiro sobre as minhas pernas.
— São pernas lindas. Minhas pernas favoritas. As pernas de top models são simplesmente... entediantes.
Sam se aproximou e ficou em cima de mim. Toda vez que ele fazia isso era como se pedacinhos de mim ganhassem vida involuntariamente, e tive que me esforçar muito para não me remexer. Ele estava apoiado nos cotovelos, prendendo-me no lugar e olhando para o meu rosto, que eu tentava deixar impassível, mesmo que meu coração estivesse disparado.
— Acho que você matou o pobre rapaz de susto — falei. — Parecia de leve querer bater nele.
— É porque eu queria, de leve.
— Você é um bobo, Sam Fielding.
Estiquei-me e o beijei. Ao retribuir o beijo, ele estava sorrindo de novo. Seu queixo estava com a barba por fazer no lugar onde ele não tinha se dado ao trabalho de barbear.
Dessa vez Sam foi meigo. Em parte porque agora acreditávamos que as paredes eram finas e ele realmente não deveria estar ali. Porém, acho que estávamos cuidadosos um com o outro depois dos eventos inesperados da noite. Toda vez que ele me tocava, era com respeito. Ele disse que me amava, a voz baixa e suave, olhando direto em meus olhos. As palavras reverberaram dentro de mim como pequenos terremotos.
Amo você.
Amo você.
Amo você também.

* * *

Programamos o alarme para as 4h45, e acordei xingando, arrancada do sono pelo barulho estridente. Ao meu lado, Sam gemeu e pôs um travesseiro por cima da cabeça. Tive que acordá-lo à força.
Empurrei-o, resmungando, para o banheiro, abri o chuveiro e fui me arrastando até a cozinha para fazer um café. Quando voltei, ouvi o som do chuveiro sendo desligado. Sentei-me na beirada da cama, bebericando meu café e pensando de quem fora a maravilhosa ideia de beber drinques fortes em uma noite de domingo. A porta do banheiro se abriu assim que caí para trás.
— Posso pôr a culpa da bebida em você? Preciso culpar alguém.
Minha cabeça estava latejando. Eu a levantei e abaixei devagar.
— O que é que tinha naqueles drinques?
Apertei as têmporas com a ponta dos dedos.
— Eles devem ter servido doses duplas. Normalmente não fico tão mal. Ah, cara. Nós devíamos apenas ter ido ao Rockefeller.
Sam não disse nada. Virei o rosto para poder vê-lo. Ele estava imóvel na porta do banheiro.
— Quer falar comigo sobre isso?
— Sobre o quê?
Eu me empertiguei. Sam estava com uma toalha em torno da cintura e segurava uma caixinha retangular branca. Por um breve momento pensei que estava tentando me dar uma joia e quase caí na risada. Mas, quando ele me entregou a caixa, não estava sorrindo.
Eu a peguei da mão dele. E fiquei encarando, incrédula, um teste de gravidez.
A caixa estava aberta e o bastão de plástico branco, jogado lá dentro. Verifiquei o conteúdo, uma parte distante de mim percebendo que não havia nenhuma linha azul. Depois olhei para Sam, sem saber o que dizer.
Ele se sentou pesadamente na lateral da cama.
— Nós usamos camisinha, não é? Da última vez que eu visitei você. Usamos camisinha.
— On... onde você achou isto?
— Na sua lata de lixo, quando fui jogar a lâmina fora.
— Não é meu, Sam.
— Você divide este quarto com mais alguém?
— Não.
— Então como é que você não sabe de quem é?
— Eu não sei! Mas... mas não é meu! Não transei com mais ninguém!
Percebi, ao protestar, que o mero ato de insistir que eu não tinha feito sexo com mais ninguém fazia parecer que eu estava tentando esconder o fato de que tinha feito sexo com outra pessoa.
— Sei o que parece, mas não faço ideia de como isso veio parar no meu banheiro!
— É por isso que você está sempre me aborrecendo por causa da Katie? Porque na verdade está se sentindo culpada por sair com outra pessoa? Como é que chamam? Transferência? Era... era por isso que você estava tão... tão diferente na outra noite?
O ar desapareceu do quarto. Senti como se tivesse levado um tapa. Encarei-o.
— Você acha isso de verdade? Depois de tudo o que passamos?
Sam não disse uma palavra.
— Acha mesmo... que eu trairia você?
Ele estava pálido, tão chocado quanto eu.
— Eu só acho que, se a coisa parece um pato e grasna feito um pato, então, sabe... provavelmente é um pato.
— Não sou um maldito pato... Sam. Sam.
Relutante, ele virou a cabeça.
— Eu não trairia você. Não sou assim. Precisa acreditar em mim.
Os olhos dele examinavam meu rosto.
— Não sei quantas vezes vou ter que repetir. Não é meu.
— Nós estamos juntos há tão pouco tempo. E grande parte dele passamos separados. Eu não...
— Você não o quê?
— É uma daquelas situações, sabe? Se você contasse para seus amigos no bar, eles lançariam aquele olhar tipo... cara...
— Então não conte para seus malditos amigos no bar! Me escute!
— Quero escutar, Lou!
— Então qual é o seu problema?
Ele era a cara do Will Traynor!
A frase irrompeu dele como se não tivesse nenhum outro lugar para ir. Sam se sentou e apoiou a cabeça nas mãos. Então repetiu, baixinho:
— Ele era a cara do Will Traynor.
Meus olhos tinham se enchido de lágrimas. Limpei-as com o punho, sabendo que provavelmente estava manchando as bochechas com o rímel da noite anterior, mas sem me importar. Quando falei, a voz saiu baixa e grave. Nem parecia minha.
— Vou dizer isso mais uma vez. Não estou dormindo com mais ninguém. Se você não acredita em mim... Bem, não sei o que está fazendo aqui.
Sam não falou nada, mas senti como se sua resposta flutuasse silenciosamente entre nós: Nem eu. Ele se levantou e se aproximou da sua mala. Retirou uma calça lá de dentro e vestiu-a, puxando-a com movimentos curtos e raivosos.
— Tenho que ir.
Eu não conseguia dizer mais nada. Fiquei sentada na cama, observando-o, sentindo-me ao mesmo tempo desolada e furiosa. Não abri a boca enquanto ele se vestia e jogava o resto de suas coisas na mala. Depois ele a pendurou no ombro, foi até a porta e se virou.
— Boa viagem — falei.
Não consegui sorrir.
— Eu ligo quando chegar.
— Tudo bem.
Sam se curvou e me beijou no rosto. Não levantei o olhar quando abriu a porta. Ele ficou ali parado por mais um momento e então saiu, fechando silenciosamente a porta.

* * *

Agnes voltou para casa ao meio-dia. Garry a buscou no aeroporto, e ela chegou estranhamente quieta, como se estivesse relutante de estar ali. Cumprimentou-me de forma apressada por trás dos óculos escuros e se retirou para seu quarto de vestir, onde permaneceu, com a porta trancada, pelas quatro horas seguintes. Na hora do chá, apareceu, tomou um banho e se vestiu, forçando um sorriso quando entrei em seu escritório levando os painéis semânticos concluídos. Conversei com ela sobre as cores e os tecidos, e ela concordou, distraída, mas eu percebi que, na verdade, não tinha registrado nada do que eu fizera. Deixei-a tomar o chá, depois esperei até constatar que Ilaria tinha descido. Fechei a porta do escritório, de modo que ela ergueu o olhar para mim.
— Agnes — falei, baixinho. — É uma pergunta estranha, mas você deixou um teste de gravidez no meu banheiro?
Ela me fitou por cima da xícara de chá. Então colocou-a no pires e mudou a expressão.
— Ah. Isso. Sim, eu ia contar para você.
Senti a raiva crescer dentro de mim.
— Você ia me contar? Sabia que meu namorado encontrou?
— Seu namorado veio para o fim de semana? Que ótimo! Aproveitaram bem?
— Até o momento em que ele achou um teste de gravidez usado no meu banheiro.
— Mas você disse que não era seu, não é?
— Disse, Agnes. Mas, que engraçado, os homens costumam ficar um pouco desconfiados quando encontram testes de gravidez no banheiro das namoradas. Principalmente namoradas que moram a quase cinco mil quilômetros de distância.
Ela fez um gesto com a mão, como se desconsiderasse minhas preocupações.
— Ah, pelo amor de Deus. Se ele confia em você, vai ficar bem. Você não está traindo. Ele não devia ser tão idiota.
— Mas por quê? Por que você colocaria um teste de gravidez no meu banheiro?
Ela parou. Olhou ao meu redor, como se para checar que a porta do escritório estava realmente fechada. E de repente ficou séria.
— Porque, se eu deixasse no meu banheiro, Ilaria ia descobrir — disse, de modo direto. — E não posso deixar que ela veja.
Agnes ergueu as mãos, como se eu estivesse sendo incrivelmente tola.
— Leonard foi muito claro quando nos casamos. Nada de filhos. Foi nosso acordo.
— Sério? Mas isso não é... E se você decidir ter?
Ela enrugou os lábios.
— Não vou ter.
— Mas... mas você tem a minha idade. Como pode ter certeza? Na maioria dos dias nem ao menos sei se vou continuar usando a mesma marca de condicionador. Uma porção de pessoas muda de ideia quando...
— Não vou ter filhos com Leonard — disparou ela. — Entendido? Chega dessa conversa sobre filhos.
Fiquei parada, meio relutante, e a cabeça dela se virou de repente, com uma expressão decidida.
— Sinto muito. Sinto muito se criei problemas para você. — Ela esfregou a testa com a palma da mão. — Está bem? Sinto muito. Agora vou correr. Sozinha.

* * *

Ilaria estava na cozinha quando entrei alguns minutos depois. Batendo uma grande quantidade de massa em uma tigela, com movimentos regulares e fortes, ela não ergueu o olhar.
— Você acha que ela é sua amiga.
Parei, minha caneca a meio caminho da cafeteira.
Ela sovou a massa com uma força determinada.
— A puta trairia você sem dó se isso salvasse o pescoço dela.
— Isso não ajuda em nada, Ilaria — falei. Talvez tenha sido a primeira vez que lhe dei uma resposta. Enchi a caneca e andei até a porta. — E, acredite ou não, você não sabe tudo.
Eu a ouvi resmungar até o meio do corredor.

* * *

Fui até a mesa de Ashok para pegar a roupa lavada de Agnes, parando para conversar por alguns minutos a fim de tentar melhorar meu mau humor. Ashok estava sempre tranquilo, sempre otimista. Conversar com ele era como abrir a janela para um mundo mais leve. Quando voltei ao apartamento, havia um saco plástico, pequeno e ligeiramente amassado, do lado de fora da porta da frente.
Abaixei-me para pegá-lo e descobri, para minha surpresa, que era endereçado a mim. Ou pelo menos para “Louisa acho que é o nome dela”.
Abri a sacola no meu quarto. Dentro dela, embrulhado em papel de seda reciclado, havia um xale vintage da Biba, decorado com uma estampa de penas de pavão. Desenrolei-o e coloquei-o em volta do pescoço, admirando o brilho sutil do tecido, a maneira como reluzia mesmo na penumbra. Tinha cheiro de cravo e perfume antigo. Depois enfiei a mão na sacola e puxei um pequeno cartão. No alto, havia um nome, impresso em letra circular azul-escura: Margot De Witt. Embaixo, em um rabisco tremido, estava escrito: Obrigada por salvar meu cachorro.

6 comentários:

  1. Meu Deus, tenho do da velha coroca. Ela só gagá.
    Agnes está me deixando louca... não parece mesmo nada confiável.

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  2. Humm... Ganhou presente da vovó!
    Agnes egoísta...
    Sam... que merda a visita acabou assim! 😞

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    Respostas
    1. To achando que o filho é do pintor, só pode!

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    2. Não é só vc q pensa isso 😜 se não tiver nada a ver com o pintor essa suposta gravidez olha eu sou mto iludida kkkl

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  3. Este livro me surpreendeu,
    O Depois de você eu achei meio arrastado...
    Mas estou amando A Lou num astral melhor.
    E essa Agnes...hum hum...sei não hien?!

    P.S Amei a surpresa do Sam *-*

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Boa leitura, E SEM SPOILER!