2 de fevereiro de 2018

Capítulo 14

Da semente do ladrão,
O Dragão se erguerá,
Aquele glutão,
Alimentando-se do sangue de bebês,
Bebendo as lágrimas de mães.
— Canção de Venda —



Cânion do Diabo era um nome adequado. As brisas temperadas de Terravin não se aventuravam a descer até ali. O lugar era seco e cheio de areia, mas estranhamente belo à sua própria maneira. Grandes carvalhos nodosos mesclavam-se a altas palmeiras e a cactos redondos. Flores mais altas do que um homem abraçavam os finos riachos rochosos que nasciam de fissuras nas paredes. O grupo parecia ter sido reunido por um demônio, uma flora desconexa roubada dos cantos da terra para criar sua própria versão de paraíso. E, é claro, havia ali as amoras silvestres, seu fruto sedutor, mas não tínhamos nos deparado com elas ainda.
Gwyneth soprou uma baforada de ar, tentando refrescar seu rosto, e depois desabotoou a blusa, arrancando-a e prendendo-a em volta de sua cintura. Sua camiseta de baixo pouco escondia seus fartos e empinados seios debaixo do tecido fino. Minha camiseta era muito mais recatada do que a dela, mas, apesar do suor escorrendo pelas minhas costas, eu estava relutante em tirar minha blusa. Eu sabia que Terravin era mais relaxada em relação a partes do corpo expostas, porém, em Civica, seios quase desnudos eram algo escandaloso. Meus pais teriam...
Abri um sorriso e tirei meu colete e depois puxei minha blusa por sobre a cabeça. Imediatamente senti o alívio do ar na minha pele molhada de suor.
— Isso mesmo, Princesa. É bem melhor assim, não? — disse Gwyneth,
Puxei abruptamente as rédeas de Otto, que soltou uma reclamação alta.
— Princesa?
Ela fez com que Dieci parasse de repente, de um modo muito mais tranquilo do que eu tinha feito com minha montaria, e abriu um largo sorriso.
— Você achou que eu não soubesse? A onisciente Gwyneth sabe de tudo!
Meu coração ficou acelerado. Eu não estava achando aquilo divertido. Não estava nem totalmente certa de que ela não estivesse apenas pescando informações.
— Acho que você me confundiu com outra pessoa.
Ela fingiu estar ofendida, puxando os cantos da boca para trás em um sorriso presunçoso.
— Você está duvidando de mim? Você viu como sou boa em avaliar os fregueses regulares da taverna. — Ela estalou as rédeas e seguiu em frente. Eu a acompanhei, mantendo o mesmo passo enquanto Gwyneth continuava a falar, parecendo estar gostando desse jogo até mesmo mais do que aquele que estava jogando na taverna. — Ou — disse ela com um grande floreio — pode ser que eu tenha uma bola de cristal. Ou talvez eu tenha fuçado a sua cabana.
As joias na minha bolsa. Ou pior, as coisas roubadas...
Inspirei, alarmada.
Ela se virou para olhar para mim e franziu o rosto.
— Ou pode ser que Berdi tenha me contado tudo — disse ela simplesmente.
— O quê? — Puxei as rédeas de Otto novamente, e ele soltou mais uma lamúria estridente.
— Pare de fazer isso! Não é culpa do pobre animal.
— Berdi contou a você?
Com uma graça lenta e deliberada, ela desmontou de seu asno, enquanto eu me arqueava desajeitada no meu, quase tropeçando e caindo de cara no chão.
— Depois de tudo aquilo que ela falou de não contar nada a ninguém? — gritei, estridente. — Todas as advertências para tomar cuidado e aquilo de ficar nos escondendo por dias sem fim?
— Foram apenas alguns dias. E contar para mim foi diferente. Ela...
— Como anunciar quem eu sou para uma garçonete da taverna que conversa com estranhos para lá e para cá é diferente? Você não precisava saber!
Virei-me para conduzir o asno adiante, mas ela me agarrou pelo pulso e me virou com rudeza.
— Berdi sabe que eu moro na cidade e seria a primeira a saber se um magistrado viesse meter o nariz por aqui ou deixar notificações para sua prisão... caso as coisas chegassem a isso. — Ela soltou minha mão e esfreguei meu pulso onde ela o havia torcido.
— Então você sabe o que eu fiz? — perguntei.
Gwyneth franziu os lábios com desdém e assentiu.
— Eu não posso dizer que entendo seus motivos. É muito melhor estar algemada a um príncipe pomposo do que a um galanteador sem um tostão no bolso, mas...
— Eu preferiria não estar algemada a ninguém.
— Ah. Amor. Sim, tem isso. É um truquezinho bem legal se você conseguir encontrá-lo. Mas não se preocupe, eu ainda estou do seu lado.
— Bem, mas que alívio, não? — falei, bufando de raiva.
Ela puxou os ombros para trás e inclinou a cabeça para o lado.
— Não subestime minha utilidade, Lia, e não subestimarei a sua.
Eu já desejava que pudesse arrancar o meu comentário mordaz de volta.
— Sinto muito, Gwyneth. Não queria descarregar em você. É só que me esforcei tanto para ser cuidadosa. Não quero que ninguém se machuque por causa da minha presença aqui.
— Quanto tempo você planeja ficar?
Ela achava que eu estava apenas de passagem?
— Para sempre, é claro. Eu não tenho nenhum outro lugar para ir.
— Terravin não é o paraíso, Lia. Os problemas de Morrighan não vão desaparecer só porque você está se escondendo aqui. E quanto às suas responsabilidades?
— Eu não tenho responsabilidade alguma além de Terravin. Minhas únicas responsabilidades são com Berdi, Pauline e a estalagem.
Ela assentiu.
— Entendo.
Mas estava claro que não entendia. Da perspectiva dela, tudo que via era privilégio e poder, mas eu conheço a verdade. Eu não consegui encontrar minha utilidade nem mesmo em uma cozinha. Como Primeira Filha, então, eu não era nem um pouco útil. E, como peão político, eu me recusava a ser útil.
— Bem — ela suspirou. — Imagino que todos os erros que cometi foram por conta própria. Você tem o direito de cometer os seus também.
— Que tipo de erros você cometeu, Gwyneth?
Ela me desferiu um olhar contundente.
— Daqueles que a gente se arrepende. — O tom dela desafiava-me a forçar mais as perguntas, mas seus olhos tremeram por um instante efêmero. Ela apontou para os estreitos braços do cânion onde havia dito que as melhores frutas floresciam. — Nós podemos deixar os animais aqui. Você segue uma trilha e eu sigo a outra. Não deve demorar para enchermos as nossas cestas.
Aparentemente nossa discussão tinha acabado. Ela desatou as cestas das costas de Dieci e saiu sem revelar os erros lamentáveis que cometeu, mas sua breve e melancólica virada de olhos permaneceu comigo, e eu me perguntava o que ela teria feito.
Segui a trilha estreita para a qual ela apontou e vi que logo ela se abria em um oásis mais amplo, o jardim particular do diabo, completo com uma lagoa rasa alimentada por água caindo e fluindo com gentileza de um riacho. O declive sombreado ao norte do cânion pendia com arbustos de bagas de amoras silvestres, e seus frutos agrupados eram os maiores que eu já tinha visto na vida.
O diabo cuidava bem de seu jardim.
Arranquei uma das suas frutas proibidas e joguei-a dentro da boca. Fui engolfada por uma onda de sabor e lembranças. Fechei os olhos e vi o rosto de Walther, Bryn e Regan, com suco de amora escorrendo de seus queixos. Vi a nós quatro correndo pelo bosque, brincando sobre ruínas dos Antigos cobertas de musgo, descuidadamente, em momento algum pensando que nosso próprio mundo um dia iria mudar também.
Escadinha — era assim que tia Bernette se referia a nós, que tínhamos quase a diferença exata de dois anos de idade um do outro, como se a mãe e o pai se reproduzissem seguindo o cronograma estrito do Guardião do Tempo. É claro que, uma vez que uma Primeira Filha fosse produzida, a reprodução cessaria por completo. O olhar de relance do meu pai para a minha mãe no meu último dia em Civica passou rapidamente por mim, a última recordação deles que eu provavelmente teria — e, de repente, o comentário dele sobre a beleza da minha mãe no dia do casamento. Teriam sido os rigores do dever que fizeram com que ele a enxotasse para um lado e se esquecesse do amor? Será que ele algum dia a havia amado?
É um truquezinho bem legal se você conseguir encontrá-lo.
Mas Pauline encontrara o amor.
Apanhei um punhado de bagas e aninhei-as no chão junto a uma palmeira próxima ao riacho. O curto dia já havia trazido muita comoção, e o dia anterior não tinha sido muito diferente. Eu estava cansada disso e banhada pela tranquilidade do jardim do diabo, escutando o gorgolejar de seu riacho e, sem vergonha alguma, saboreando seus frutos, uma amora de cada vez.
Eu tinha acabado de fechar os olhos quando ouvi outro som, que os fizeram se arregalar rapidamente. Seria o lamuriar distante de Otto? Ou apenas o assovio do vento descendo o cânion? Mas não havia vento algum.
Eu virei a cabeça e ouvi o inconfundível som das pancadas de cascos no chão, pesados e metódicos. Levei a mão até a lateral do corpo, mas minha faca não estava mais lá. Eu a havia deixado pendurada na trombeta da minha sela quando tirei a blusa. Só tive tempo de me arrastar e me pôr de pé quando um imenso cavalo surgiu, com Rafe sentado em cima dele.
O diabo havia chegado. E uma estranha parte de mim estava feliz com aquilo.

7 comentários:

  1. Gente, quem é quem?! O Rafe é o assassino ou o príncipe? Eu devo ter perdido algo mas juro que não sei

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    1. Acho que Rafe é o príncipe

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    2. Essa é a ideia, Lari! A cada pista mudamos de ideia sobre quem é príncipe e quem é assassino; só descobriremos se estamos certo no final

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  2. Na minha opinião o assassino

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  3. Tenho quase certeza d q o Kaden é o assassino e o Rafe é o príncipe

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  4. Eu tenho certeza quase que absoluta que o assassino é o Rafe e o príncipe o Kaden, ainda mais com as suposições da Gwyneth sobre as possíveis profissões deles e a maneira como a Lia vê cada um.

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