6 de fevereiro de 2018

Capítulo 14. Você precisa viver, meu amorzinho

A UTI ficava no último andar.
Magrí entrou no longo corredor de cabeça baixa, varrendo os cantos, de modo que seu rosto ficasse protegido de qualquer olhar.
Com o canto dos olhos, viu, em frente a uma porta, dois homens em pé, apoiados na parede. Dois gorilões. Por que dois homens estariam ali, guardando apenas uma das portas? Seriam seguranças protegendo algum político internado? Magrí duvidou:
“Aposto que aquele é o quarto onde está dona Iolanda... E esses só podem ser homens do Doutor Q.I. ! O que querem com a minha professora?”
Precisava pensar no que fazer. Abriu a primeira porta e entrou.
Era um quarto grande, e as luzes estavam apagadas. As cortinas filtravam um pouco da claridade da manhã.
A menina olhou para o retângulo de vidro da porta que fechara atrás de si. E, pelo lado contrário, leu o que estava escrito: ffoin9m•IozI — Iua••ni sIA”
Logo abaixo, lá estava a sinistra sigla da praga do século... Magrí sentiu o coração apertar-se.
Aproximou-se de um dos berços.
Um bebê dormia. Pouco mais de um ano de idade, talvez dois... Um esqueletinho, coberto por manchas vermelho-escuras. Respirava com dificuldade. Tubos espetavam-se em seus braços.
“Essa criança nunca mais vai brincar... Perdeu a chance de descobrir o mundo, de fazer parte dele... Ai! Por quê? Por que ela foi amaldiçoada? Por que a morte tem de levar esse bebê? O que essa criança fez para merecer isso?”
Esquecendo-se por um momento do que viera fazer ali, a menina debruçou-se sobre o berço e beijou ternamente o rostinho magro, adormecido.
“Meu amorzinho... Viva, por favor! Como alguém pode roubar o soro que poderia fazer você sorrir de novo? Que poderia fazer você brincar novamente com as outras crianças? Como pode alguém ser tão cruel? Como pode alguém pensar em lucrar com a sua morte? Por que, queridinho? Por quê?”
Magrí chorou sobre o bebê, como se o sal de suas lágrimas pudesse arrancar aquela praga que destruía uma vida como aquela, tão tenra, tão inocente...
“Ah, meu queridinho! Eu tenho de lutar! Eu não posso deixar você morrer! Você precisa da Droga do Amor, porque esse mundo precisa do seu amor, da sua vida! Esse mundo será pior, mais feio, mais vazio se você morrer... Eu nem sei como é o seu nome. Talvez eu nunca pudesse ver você crescer, tornar-se adulto, mas eu preciso que você viva!”
Levantou-se, decidida.

* * *

Magrí afastou ligeiramente as cortinas de uma das janelas da sala de isolamento infantil.
Abriu a vidraça e olhou.
“Pelo meu cálculo, a janela do quarto onde deve estar dona Iolanda é a décima, a partir desta...” 
Uns quinze metros separavam a janela da rua, lá embaixo. Examinou a parede. Uma saliência de uns cinco centímetros percorria toda a fachada, um metro abaixo da linha das janelas.
“Muito bem. Se eu imaginar que estou no Campeonato Mundial de Ginástica Olímpica, apoiar os pés na saliência e agarrar-me aos parapeitos das janelas, acho que vai dar...”
No campeonato, Magrí adorava plateias cheias, aplaudindo suas performances. Mas, naquele caso, qualquer espectador lá embaixo acharia muito estranha uma demonstração de ginástica olímpica nas paredes de um hospital.
Do outro lado da rua, dois homens de terno estavam encostados em um carro escuro. Pareciam parentes dos dois gorilões que guardavam a porta do quarto.
O sol abrasava, batendo em cheio naquela parede do hospital. Qualquer um dos dois homens, ou algum passante, se levantasse os olhos, iria assistir a toda a acrobacia que a menina pretendia fazer para chegar até o quarto de dona Iolanda.
Um pouco mais longe, na esquina, o fusquinha de Andrade estava estacionado, esperando.
Magrí pegou um abajur de cabeceira, acendeu-o e tapou sua luz com um pequeno travesseiro.
Pela cortina entreaberta, mostrou a luz acesa. Tapou-a de novo, destapou-a, tapou-a, destapou-a...
* * *
Dentro do fusquinha, Miguel chamou a atenção dos outros: — Vejam! Naquela janela!
Andrade, Crânio e Calú olharam. Uma luzinha piscava intermitentemente atrás das cortinas.
— É Magrí — sorriu Crânio. — Que danada! Está transmitindo em Código Morse!
— Fique quieto! Estou tentando traduzir!
— Vocês conhecem o Código Morse? — espantou-se Andrade, como se ainda houvesse alguma coisa naqueles garotos que pudesse surpreendê-lo.
— Um curto, dois longos...
— Peguei! — disse Crânio. — “Não deixem ninguém olhar para cima.” Ah, ah! Ela está dizendo para a gente dar um jeito de distrair as pessoas da rua. Vai aprontar uma das boas!
— Calú — comandou Miguel. — Você é o ator. Esse é um trabalho para você.
— Certo, Miguel.
Andrade não estava entendendo nada:
— Ué... Que besteira é essa? Que negócio é esse de não olhar para cima? O que é que tem a ver as pessoas na rua? O que é que o Calú vai fazer?
Crânio pôs a mão no ombro do detetive.
— Andrade, acho que é melhor você também não olhar para cima nos próximos dez minutos...
— Ai, esses meninos estão todos malucos! Onde é que eu estava com a cabeça quando deixei eles se envolverem nisso? Malucos! São malucos!

* * *

Crânio e Miguel saíram do carro e começaram a andar pela calçada oposta ao hospital. Conversavam despreocupadamente e deram uma paradinha quando chegaram ao lado dos dois homens do carro escuro.
Os homens nunca tinham visto aqueles rapazes e não se incomodaram com eles.
Nesse momento, vindo do outro lado da calçada, depois de dar a volta no quarteirão, surgiu Calú.
Parou e fez uma expressão furiosa, apontando o dedo para Crânio:
— Vinícius, seu desgraçado! Ainda bem que te encontrei!
Crânio mostrou-se surpreso.
— Oh, Zé Luiz...
— Que Zé Luiz nem meio Zé Luiz! Você tem de largar do pé da Vanessa! Ela é minha namorada!
Crânio parecia sem jeito e tentava explicar-se:
— Eu? Ora, o que é isso? Eu não tenho nada com a Vanessa...
— Mentiroso! Eu vou...

* * *

Mesmo sem entender a razão da cena, o detetive Andrade, sentado no fusquinha, divertia-se com aquilo, como um pai orgulhoso assistindo às gracinhas dos filhos...
Mas, naquele momento, o coração do detetive gelou.
Uma das janelas do quinto andar do hospital abria-se, e uma menina esbelta, com um uniforme amarelo sobre o vestido, punha as pernas para fora, dependurando-se no parapeito.
“Magrí! Não!”
O pobre Andrade não sabia o que fazer. De boca aberta, coração na mão, via a menina grudar-se na parede e arrastar-se lentamente para os lados, só com as pontinhas dos tênis apoiadas numa saliência minúscula. Um número de circo, a quinze metros do chão. E sem rede!
“Ai, não! Você vai morrer, Magrí! Não, não me mate do coração!”
Da segunda janela, Magrí repetia a operação, passando para a terceira...

* * *

Os dois homens pareciam divertir-se com a discussão dos três rapazes. Duas mulheres, carregando sacolas de compras, pararam e ficaram também observando.
Enquanto dois discutiam, o terceiro tentava conciliar, apartar o que já estava quase se tornando uma briga.
— Que é isso, gente? Deixa pra lá! Vamos conversar!
— Conversar coisa nenhuma! O que esse cara pensa, vindo aqui me tirar satisfações?
— A Vanessa é minha! É minha!
— Deixa de ser besta! A Vanessa não está nem aí pra você!
— O quê?!
O rapaz, furioso, tentou agarrar o outro pela camisa. Este desvencilhou-se e socou o agressor.
Calú caiu para trás e começou a cena principal. Contorcendo-se, seus olhos viravam nas órbitas e uma espuma de saliva começou a escorrer pelos cantos da boca do agredido.
— O que você foi fazer, Vinícius? Você não sabe que o Zé Luiz sofre de ataques? E agora?
— Oh, eu não sabia...
Calú contorcia-se magistralmente, e um ronco surdo saía de sua garganta...

* * *

Lá em cima, como uma macaquinha, Magrí passava de janela em janela.
Depois de atravessar quase toda a fachada do hospital, a menina agarrou-se no parapeito onde chegara e alçou o corpo para cima. Em um segundo, desapareceu pela janela.
Andrade não conseguia mover-se.

* * *

Uma das senhoras com sacola aproximou-se, preocupada:
— O que houve com o garoto? Vamos levá-lo para o hospital aqui em frente!
Os olhos de Calú, revirando-se, viram Magrí terminar seu número circense. Na mesma hora, parou de contorcer-se. Sacudiu a cabeça e sentou-se na calçada.
— Pode deixar, minha senhora — acalmou Miguel. — Ele já está melhorando.
“Vinícius” abaixou-se para ajudar “Zé Luiz” a levantar-se:
— Oh, desculpe, Zé Luiz... Está melhor?
— Hum... estou, pode deixar.
Os dois ajudaram “Zé Luiz” a levantar-se e caminharam para a esquina. Em pouco tempo, já tinham desaparecido.

* * *

Calú esfregava o queixo:
— Você precisava bater tão forte, Crânio?
— Realismo, Kara, isso é realismo!
— E aonde é que você foi buscar esse “Zé Luiz”?
— No mesmo lugar em que você achou esse tal “Vinícius” ora! Vinícius... Que ideia!
Depois de dar a volta no quarteirão, os três Karas foram encontrar o detetive Andrade.
Dentro do fusquinha, havia um gordo homem-estátua, agarrado ao volante, de boca aberta, e branco como se tivesse visto a mula-sem-cabeça.
Esgazeados, fixos na fachada do hospital, os olhos do detetive não conseguiam nem piscar.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!