14 de fevereiro de 2018

Capítulo 14. Eu quero ser um Kara!

Miguel, Crânio, Calú e Peggy cercavam Chumbinho, lendo os dois textos que a tevê transmitira e que o menino havia copiado em dois guardanapos. O primeiro era a sinistra ameaça dos bandidos. O segundo era uma mensagem que só poderia ter sido redigida por Magrí:
— Eu estou bem, papai... — Crânio lia em voz sussurrada. — Eles estão me ameaçando. Apenas faça tudo o que eles pedirem e eles vão me soltar. Estou realmente muito ao se preocupe comigo. Sinto-me como se estivesse Nova York, como eu falava quando era pequena. Rápido, papai. Salve-me. Peggy, sua canguruzinha...
— Nova York?!
A decepção estava estampada no rosto dos cinco jovens. Nova York!
— Como se estivesse em Nova York? — surpreendia-se Calú. — O que ela quis dizer com isso? Que está em alguma cidade parecida com Nova York? Ou que foi levada justamente para Nova York?
— Isso é impossível, Karas! — raciocinou Crânio. — São dez e cinco e Magrí foi sequestrada às seis e meia. Por mais rápido que seja esse helicóptero, impossível que tenha podido chegar a Nova York em apenas três horas e pouco!
— É claro! — completou Miguel. — Além disso, vocês acham que os bandidos iriam divulgar uma mensagem que mostrasse exatamente onde está Peggy, isto é, Magrí?
— Isso! — Calú mostrava esperança na voz. — E se Magrí nos mandou uma pista, é porque ela sabe que é possível a gente encontrá-la!
— Pode não haver nenhuma mensagem em código — argumentou Peggy. — É claro que Magrí tinha de obedecer aos bandidos e fazer esse texto, na certa por alguma condição imposta pelas negociações que devem estar sendo feitas com papai. A mensagem tinha de ser escrita de qualquer maneira, mesmo que ela não soubesse onde está.
— Não sei... é possível... — Crânio pensava concentrado, examinando a mensagem. — Pode ter alguma coisa aí, sim... Talvez em “não se preocupe comigo” ou em “não estão me ameaçando’’... Meu palpite é esse negócio de “seu pequeno canguru”...
— Isso não é pista nenhuma! — rebateu Peggy. — É um apelido que meu pai me deu. Eu devo ter contado isso a ela e Magrí usou a frase para provar ao papai que eu estou bem e que sou eu mesma! Que menina esperta! Surpreendente!
— Surpreendente?! — riu Chumbinho. — Você não conhece a Magrí, Peggy!
Miguel encerrou o debate:
— Não adianta ficar especulando. De acordo com a ordem dos bandidos, temos menos de duas horas para salvar Magrí. Crânio, você é o nosso especialista em códigos. Trate de decifrar a mensagem o mais rápido possível. Chumbinho fica para ajudar. Calú, volte para a porta da área esportiva, de olho em novidades. Eu e Peggy ficaremos aqui por perto, de guarda, para que ninguém perturbe Crânio e Chumbinho enquanto trabalham. Vamos lá, Karas!
Miguel mais uma vez deixava escapar a palavra “Karas”, como se conscientemente quisesse alimentar suspeitas de Peggy...
Três câmeras de tevê já estavam instaladas na frente ampla mesa de trabalho que fora destinada a Wilbur MacDermott nos aposentos presidenciais. Na parede atrás da mesa as secretárias tinham grampeado uma bandeira americana ao lado de uma brasileira, em deferência ao pais que hospedava a comitiva americana.
Tudo estava pronto para o discurso do presidente americano. Em menos de duas horas, o mundo conheceria o teor de suas importantes decisões e... a vida de Magrí estaria perdida.
Crânio e Chumbinho estavam debruçados numa mureta onde aproveitavam a iluminação de um jardim para trabalhar no bilhete de Magrí. A poucos passos dos dois, junto de Miguel, Peggy MacDermott estava excitada. As quatro últimas horas que haviam transcorrido desde que ela entrara no vestiário do colégio para tomar uma inocente ducha tinham sido muito mais vibrantes do que qualquer das horas de seus catorze anos de vida, tinha se envolvido numa aventura mais incrível do que o mais exagerado filme de Hollywood, fora carregada nua para o forro de um vestiário por um garotinho maluco, sua amiga brasileira estava sequestrada em seu lugar, três rapazes fascinantes cuidavam dela e as batidas de seu coração aceleravam-se toda vez que olhava o ouvia um deles, o gato que a protegera um tempão, lá no telhado, dentro de seu abraço. Bom, o garotinho maluco também a protegera em seus braços no mesmo telhado mas... mas era diferente.
O outro, o chefe do grupo de malucos, naquele momento também resolvia passar o braço em volta de seus ombros e falava com um tom paternalista:
— Não tenha medo, Peggy. Nós vamos conseguir. Magrí será salva!
— Não estou com medo, Miguel. Só quero saber uma coisa...
— O quê?
— Quem são vocês?
Andrade enxugou a careca. O que ele iria fazer ali, agora que não havia mais nenhuma testemunha importante dentro do Elite? Tomar outro sorvete, talvez? Afinal de contas, por causa do sequestro, ele tinha perdido o jantar. Ao entrar na lanchonete da italiana, passou por um rapaz cheio de tatuagens que, apesar do frio, vestia camiseta. Mas nem reparou nele.
— Who are you? A bunch of Rambos? Quem são vocês? Uma quadrilha de Rambos?
— Rambo? Não. Os Karas não usam de violência. A inteligência e a coragem são mais eficientes do que qualquer arma!
Miguel tinha acabado de contar tudo. Mas tudo mesmo. Não tivera saída. Peggy havia presenciado os Karas em ação e, pela primeira vez, ele revelava o grande segredo a alguém de fora. Sim, eles eram os “Karas”, um grupo secreto de adolescentes que havia começado a se reunir pelo espírito de aventura, pelo prazer do perigo e pela sede de justiça. A coisa toda havia começado e deveria continuar quase que somente como uma aventura imaginária, sem que jamais eles sonhassem em um dia serem obrigados a enfrentar a realidade. Mas a realidade tinha sido mais forte, tinha se imposto a eles e os havia envolvido em perigos reais, em aventuras fantásticas em que a vida dos cinco Karas muitas vezes estivera por um fio.
“Cinco loucos!”, admirava-se a americaninha. “Mas que loucos maravilhosos! Se a loucura é assim tão fascinante, eu quero ser louca também!”
Miguel, como se estivesse lendo seus pensamentos, declarou, gravemente:
— Peggy; eu nunca deveria ter lhe contado sobre os Karas. Só que não tive outro jeito. Agora só você sabe do grande segredo. No mundo inteiro, ninguém mais sabe disso. Nem mesmo nosso querido amigo, o detetive Andrade, que já viveu tantos perigos conosco, tem ideia da existência dos Karas. Ele pensa que tudo o que tem acontecido com gente são coincidências, que tem sido a sorte ou o azar que se intromete em nossas vidas e nos envolve em problemas Mas, na verdade, somos nós mesmos que nos intrometemos com a sorte e com o azar e procuramos os problemas.
— Fascinante, Miguel! Mas por que esse nome? O que quer dizer “Karas”?
Miguel sorriu:
— No Brasil, as pessoas chamam maldosamente os velhos e chatos de “coroas”. E chamam de “caretas” os covardes, os bobocas egoístas que não ligam para os outros. Os “caras” ou “Os Karas”, seriam o contrário desses “coroas”, o avesso desses “caretas”.
— Isso mesmo! — concordou a menina. — Vocês são exatamente o contrário dos velhos chatos, dos covardes, dos bobocas e dos egoístas!
— Fui eu quem inventou esse nome, Peggy — continuou o rapaz. — Mas há uma outra razão. Sabe aquele jogo que o mundo inteiro faz com moedas? Aqui, a gente chama de “cara ou coroa” e vocês, na América, de “heads and tails”, ou “cabeças e rabos”. Assim, nós somos os Cabeças, sempre à frente da vida, encarando o futuro, nunca um Rabo, que vive na retaguarda do mundo! Qual desses você prefere ser? Um Cabeça, no topo de tudo? Ou um Rabo, sempre apontando para o chão?
Peggy agarrou-lhe os ombros, excitada:
— Eu quero ser um Kara, Miguel, é claro. Deixe-me ser um Kara! Por favor, deixe-me ser um de vocês.
Encostado na entrada da Lanchonete italiana, com uma cabeleira inacreditável, camiseta regata rasgada, coberto de brincos e colares e com adesivos imitando tatuagens, Calú estava irreconhecível. Como esse tipo de figurino extravagante normalmente é usado para “aparecer”, o disfarce era perfeito, porque é claro que ninguém prestava a mínima atenção nele.
Ali era o lugar ideal, pois o rapaz podia ouvir as conversas de quem tinha estado na aglomeração e aparecia em busca de um lanche ou pelo menos um café expresso. Até mesmo alguns homens de preto da CIA passavam pela lanchonete e, pensando que ninguém dali entendia inglês, comentavam que as ordens do chefe eram para apenas manter a posição e parar de vasculhar o colégio.
No balcão, seu amigo, o detetive Andrade, exausto, terminava uma grande taça de sorvete, depois de ter devorado um sanduíche. Cambaleando pela calçada, um bêbado chegou à lanchonete, carregando uma garrafa de cachaça intacta debaixo do braço, e dirigiu-se para a italiana:
— Ischcuta’qui, ô dona. Mi vê uma da qui matô u guarda!
A italiana respondeu, sorrindo:
— Desculpe, mas em lanchonete perto de escola não se pode vender bebidas alcoólicas.
O bêbado demorou uns segundos para compreender a recusa e protestou:
— Ischcuta’qui! Qui hischtória é escha? Comu é qui a schinhora vai querê qui eu incari esscha noiti sschelada?
A mulher riu, alto:
— Ora, me faça o favor! Por que não bebe da sua garrafa? Está cheinha!
— Num poschu... Escha garrafa num é minha... É du Alfredo... I eu num possu toma a caisschaça du Alfredo, schem pidi lischença, tô schertu o tô erradu?
Saiu cambaleando. Um pouco mais adiante, a resmungar, encostou-se numa parede. Foi escorregando devagarinho e acabou adormecido na calçada. Miguel calava-se por um instante. Por que tinha decidido abrir os segredos dos Karas para a menina? E que direito tinha ele de contar tudo sem o consentimento dos outros membros do grupo? Aquilo não tinha sido uma... uma traição? Que chefe era ele, se não conseguia manter a língua quieta dentro da boca?
E será que ele realmente precisava ter contado tudo, ou será que, na verdade, ele queria contar tudo? Será q aquilo não teria sido uma forma de ele fazer com que ficasse para sempre junto dele? De fazer com que seu sorriso sempre estivesse aberto para ele, ouvindo suas ideias e seguindo suas decisões, vivendo a seu lado?
Agora porém, o que estava feito estava feito e Miguel tinha de garantir o silêncio da americana:
— Você precisa jurar, Peggy. Os Karas já fizeram inimigos tremendos e correríamos enormes riscos se esses bandidos soubessem que somos um grupo organizado, que realmente lutou para desmascará-los. É preciso que eles continuem trancafiados nas cadeias onde estão, pensando que nós somos personagens secundários, que se envolveram sem querer em suas vidas criminosas.
— Faço o que você disser, Miguel.
— Ponha a mão sobre o coração e jure que...
Com a mão esquerda, Peggy segurou o pulso direito de Miguel e puxou-o, apertando-lhe a mão sobre seu próprio coração, enquanto espalmava sua mãozinha direita sobre o coração do rapaz:
— Eu juro, Miguel, pelo meu e pelo seu coração, que, de agora em diante, seus segredos são os meus segredos, sua coragem é a minha coragem, sua vida é a minha vida!
Os lábios do rapaz tremeram, seu corpo estremeceu, sentindo o calor e a maciez do seio de Peggy MacDermott na palma de sua mão. Foi como se uma descarga elétrica, carregada com os mais deliciosos volts do mundo, tivesse percorrido o seu corpo.
Sob a palma de Peggy, o coração de Miguel pulava como um cabrito solto no pasto.

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