24 de fevereiro de 2018

Capítulo 13

Acordei me sentindo enjoada, e não foi a cerveja. Levei menos de dez segundos para sentir a vaga sensação de náusea se infiltrar em uma sinapse e se conectar à memória do que eu tinha feito na noite anterior. Abri devagar o notebook e levei os punhos fechados até os olhos quando descobri que, sim, eu realmente tinha enviado aquilo e, não, ele não havia respondido. Mesmo quando pressionei “atualizar” quatorze vezes.
Fiquei deitada em posição fetal por um tempo, tentando desfazer o nó em meu estômago. E então pensei em ligar para ele e explicar em tom de brincadeira que Hah! Fiquei um pouquinho alegre e com saudade de casa e só queria ouvir sua voz e sabe, desculpe... mas ele tinha me dito que trabalharia o sábado todo, o que significava que naquele exato momento estaria em ação com Katie Ingram. E alguma coisa dentro de mim rejeitava ter aquela conversa com Katie por perto, podendo ouvir tudo.
Pela primeira vez desde que fora trabalhar para os Gopnik, o fim de semana se alongava à minha frente como uma viagem interminável em um terreno árido. Então, fiz o que qualquer garota faz quando está longe de casa e um pouco triste. Comi meio pacote de biscoitos de chocolate e liguei para minha mãe.
— Lou! É você? Espere aí, estou lavando umas roupas do vovô. Deixe eu desligar a água quente.
Ouvi minha mãe andar até o outro lado da cozinha e o rádio, que tocava indistinto ao fundo, foi silenciado de repente, e imediatamente me senti transportada para nossa casinha na Renfrew Road.
— Alô! Já voltei! Está tudo bem?
Ela parecia ofegante. Imaginei-a desamarrando o avental. Ela sempre tirava o avental durante telefonemas importantes.
— Estou ótima! Ainda não tivemos um minuto para conversar direito e aí pensei em dar uma ligada.
— Não é caro demais? Achei que você só queria mandar e-mails. Você não vai acabar recebendo uma dessas contas de mil libras, não é? Vi uma história na televisão sobre como as pessoas podem acabar se ferrando por usar o telefone nas férias. Elas tinham até que vender a casa na volta da viagem, só para se livrar da dívida.
— Eu verifiquei as tarifas. É bom ouvir sua voz, mãe.
O prazer de mamãe em falar comigo me fez sentir um pouco envergonhada por não ter telefonado antes. Ela continuou tagarelando, contando-me sobre como planejava fazer aulas noturnas de poesia quando o vovô estivesse se sentindo melhor, e sobre os refugiados sírios que tinham se mudado para o final da rua — ela estava ensinando inglês para eles.
— Obviamente na metade do tempo não consigo entender uma palavra do que eles dizem, mas fazemos uns desenhos, sabe? E Zeinah, a mãe da família, sempre prepara alguma comida para mim para agradecer. Você não ia acreditar no que ela consegue fazer com massa folhada. De verdade, eles são muito simpáticos, todos eles.
Ela contou que o médico novo disse que meu pai precisava perder peso; que a audição do vovô estava indo embora e a televisão ficava em um volume tão alto que toda vez que ela ligava quase fazia um tiquinho de xixi; e Dymphna, que morava em nossa rua, ia ter um bebê, e dava para ouvir os enjoos dela de manhã, de tarde e de noite. Fiquei sentada na cama escutando e me sentindo estranhamente reconfortada que a vida seguisse seu rumo normal em algum outro lugar do mundo.
— Tem falado com a sua irmã?
— Não nos últimos dias, por quê?
Ela baixou a voz, como se Treena estivesse no cômodo, e não a sessenta quilômetros de distância.
— Ela arrumou um homem.
— Ah, é, eu sei.
— Você sabe? Como ele é? Ela não conta absolutamente nada. Sai com ele duas ou três vezes por semana agora. E fica cantarolando e sorrindo quando eu falo sobre ele. É muito esquisito.
— Esquisito?
— Ver a sua irmã sorrir tanto. Eu fico bastante desconcertada. Quer dizer, é ótimo e tudo o mais, mas não parece ela. Lou, fui até Londres passar a noite com ela e o Thom para que ela pudesse sair, e, quando voltou, ela estava cantando.
— Uau.
— Pois é. Quase afinada até. Contei para o seu pai e ele me acusou de ser pouco romântica. Pouco romântica! Respondi que só alguém que realmente acredita em romance consegue ficar casada depois de lavar as cuecas dele por trinta anos.
— Mãe!
— Ah, meu Deus. Esqueci. Você ainda não deve ter tomado café da manhã. Bem. Seja como for. Se você falar com ela, tente arrancar alguma informação. Aliás, como vai seu namorado?
— Sam? Ah, ele está... bem.
— Que ótimo. Ele foi até o seu apartamento algumas vezes depois que você viajou. Acho que só queria se sentir perto de você, coitadinho. Treena disse que ele estava muito triste. Ficou procurando qualquer trabalho para fazer por perto. Também veio jantar conosco. Mas não tem aparecido faz um tempo.
— Ele está muito ocupado, mãe.
— Imagino. Ele tem um emprego e meio, não é? Bom, tenho que desligar antes que esta ligação leve nós duas à falência. Contei que vou me encontrar com a Maria esta semana? A atendente do banheiro daquele hotel lindo em que ficamos em agosto? Vou a Londres ver Treena e Thom na sexta, mas antes vou dar um pulo lá e almoçar com a Maria.
— No banheiro?
— Não seja ridícula. Tem uma promoção de massa do tipo coma-duas-pague-uma naquela rede de restaurantes italianos perto de Leicester Square. Não lembro o nome agora. Ela é muito exigente com os lugares aonde vai, diz que devemos avaliar a cozinha de um restaurante pela limpeza do banheiro feminino. E pelo visto o banheiro desse lugar tem uma manutenção muito boa. De hora em hora. Está tudo bem com você? Como vai a vida glamorosa da Quinta Rua?
— Avenida. Quinta Avenida, mãe. Está ótima. Está tudo... incrível.
— Não se esqueça de me mandar mais fotos. Mostrei para a Sra. Edwars aquela foto sua no Baile Amarelo, e ela disse que você parecia uma estrela de cinema. Não disse qual, mas eu sei que era um elogio. Eu estava comentando com seu pai que devíamos ir até aí fazer uma visita antes que você se torne importante demais para nos receber!
— Como se isso fosse acontecer.
— Estamos muito orgulhosos de você, querida. Nem acredito que tenho uma filha na alta sociedade de Nova York, andando em limusines e fazendo amizade com gente importante.
Olhei ao redor, para o meu quartinho, com o papel de parede da década de oitenta e a barata morta embaixo da pia.
— É — falei. — Tenho muita sorte mesmo.

* * *

Tentando não pensar no significado de Sam não passar mais no meu apartamento apenas para se sentir próximo de mim, eu me vesti, tomei um café e desci. Resolvi voltar para o Vintage Clothes Emporium. Tinha a sensação de que Lydia não se importaria se eu simplesmente ficasse por lá.
Havia escolhido minhas roupas com cuidado: dessa vez vesti uma blusa turquesa estilo chinês com uma pantalona de lã preta e sapatilhas vermelhas. Só o ato de criar um look que não envolvesse camisa polo e calça de náilon fez com que me sentisse mais eu mesma. Prendi o cabelo em duas tranças, atadas nas costas com um lacinho vermelho, e depois acrescentei os óculos escuros que Lydia me dera e brincos em formato de Estátua da Liberdade que eram irresistíveis, apesar de terem vindo de um quiosque de bugigangas para turistas.
Ouvi a confusão assim que desci a escada. Fiquei pensando por um tempinho o que a Sra. De Witt estaria aprontando, mas, quando fiz a curva, vi que a voz alterada era de uma jovem asiática, que parecia estar empurrando uma criancinha para Ashok.
— Você disse que hoje era o meu dia. Você prometeu. Tenho que ir para a passeata!
— Não vou poder, querida. Vincent está de folga. Não conseguiram ninguém para ficar no saguão.
— Então os seus filhos podem ficar sentados aqui com você. Vou nessa passeata, Ashok. Precisam de mim.
— Não posso cuidar das crianças aqui!
— A biblioteca vai fechar, meu bem. Entende isso? Você sabe que é o único lugar com ar-condicionado aonde eu posso ir no verão! E é o único lugar em que não enlouqueço. Diga aonde mais nos Heights posso levar essas crianças quando passo dezoito horas por dia sozinha com elas.
Ashok ergueu o olhar enquanto eu permanecia parada ali.
— Ah, oi, Srta. Louisa.
Ela se virou. Não sei o que eu esperava da esposa de Ashok, mas não era essa mulher de aparência intensa, vestindo calça jeans e uma bandana, o cabelo encaracolado caindo pelas costas.
— Dia.
— Bom dia.
Ela se virou para o outro lado.
— Não vou mais discutir isso, meu bem. Você me disse que o sábado era meu. Vou à passeata para proteger um recurso público valioso. Ponto final.
— Vai ter outra manifestação na semana que vem.
— Temos que manter a pressão! Este é o momento em que os vereadores decidem o orçamento! Se não estivermos na luta agora, os jornais locais não vão noticiar, e então eles vão pensar que ninguém se importa. Você sabe como funcionam as relações públicas, meu bem? Sabe como o mundo funciona?
— Vou perder meu emprego se o patrão vier aqui e encontrar três crianças. Sim, amo você, Nadia. Amo mesmo. Não chore, querida.
Ele se virou para a menininha em seu colo e beijou sua bochecha molhada.
— O papai tem que trabalhar hoje.
— Já estou de saída, meu bem. Volto no início da tarde.
— Não vá. Você não tem a coragem de... ei!
Ela se afastou, a palma da mão para cima, como se para barrar mais protestos, e saiu do prédio, abaixando-se para pegar um cartaz que tinha deixado perto da porta. Como se estivessem perfeitamente coreografadas, todas as três crianças começaram a chorar. Ashok xingou baixinho.
— Como é que eu me viro com isso agora?
— Eu fico com elas — falei, antes de saber o que estava fazendo.
— O quê?
— Não tem ninguém em casa. Posso levar as crianças para cima.
— Está falando sério?
— Ilaria vai visitar a irmã nos sábados. O Sr. Gopnik está no clube. Vou deixar as crianças na frente da televisão. Não deve ser muito difícil, certo?
Ele me fitou.
— A senhorita não tem filhos, não é, Srta. Louisa? — Então, Ashok se recompôs. — Mas, nossa, isso salvaria a minha pele. Se o Sr. Ovitz passar por aqui e encontrar esses três, vou ser demitido antes que dê tempo de você dizer, ahn...
Ele pensou por um instante.
— Você está demitido?
— Exatamente. Tudo bem. Deixe que eu suba com a senhorita e explique quem é quem e quem gosta do quê. Ei, crianças, vocês vão para uma aventura lá em cima com a Srta. Louisa! Não é legal?
Três crianças me encararam com o rosto molhado e catarrento. Abri um enorme sorriso para elas. E, em uníssono, as três recomeçaram a chorar.

* * *

Se algum dia você estiver melancólica, separada da família e um pouco insegura a respeito da pessoa que ama, recomendo fortemente ficar encarregada de três pequenos estranhos, com pelo menos dois que ainda não sejam capazes de ir ao banheiro sem ajuda. A frase “viva o momento” só fez sentido de fato para mim quando saí perseguindo um bebê, a fralda obscenamente suja quase caindo, que atravessava engatinhando um caríssimo tapete Aubusson, ao mesmo tempo que tentava conter um fedelho de quatro anos perseguindo um gato traumatizado. O filho do meio, Abhik, podia ser acalmado com biscoitos, e eu o coloquei em frente a desenhos animados na sala de TV, jogando nacos de biscoito com as mãos gordas na boca cheia de baba, enquanto eu tentava manter os outros dois restritos a uma área de cerca de seis metros quadrados. Eles eram engraçados, fofos, volúveis e exaustivos, gritando, correndo e batendo sem parar nos móveis. Vasos oscilaram, livros foram jogados das estantes e rapidamente recolocados. O barulho — e alguns odores desagradáveis — enchia o ar. Em determinado momento, eu estava sentada no chão segurando dois deles pela cintura enquanto a mais velha, Rachana, cutucava meu olho com dedos grudentos e ria. Eu ria também. Era meio engraçado, de um jeito graças a Deus isso vai terminar logo.
Depois de duas horas, Ashok subiu, disse que a esposa estava presa no protesto e perguntou se eu podia ficar com as crianças por mais uma hora. Concordei. Ele estava com aquele olhar arregalado dos verdadeiramente desesperados e, no fim das contas, eu não tinha mais nada para fazer. No entanto, tomei a precaução de levar as crianças para o meu quarto, onde coloquei um desenho animado na televisão, tentei evitar que elas abrissem a porta e, no fundo, aceitei que o ar nessa área do edifício talvez nunca mais tivesse o mesmo cheiro. Eu tentava evitar que Abhik pusesse inseticida na boca quando alguém bateu na porta.
— Espere um pouco, Ashok — gritei, tentando arrancar a lata da mão da criança antes que o pai visse.
Porém, foi o rosto de Ilaria que apareceu diante de mim. Ela me encarou, depois olhou para as crianças e de novo para mim. Abhik parou de chorar por um instante, fitando Ilaria com seus enormes olhos castanhos.
— Hum. Oi, Ilaria!
Ela não falou nada.
— Eu... eu estou ajudando o Ashok por algumas horas. Sei que não é o ideal, mas, humm, por favor, não fale nada. As crianças vão ficar aqui só mais um pouquinho.
Ela espiou a cena, depois cheirou o ar.
— Vou borrifar o quarto depois. Por favor, não conte para o Sr. Gopnik. Prometo que não vai acontecer de novo. Sei que eu devia ter perguntado antes, mas não tinha ninguém em casa e o Ashok estava desesperado.
Enquanto eu falava, Rachana correu choramingando na direção da mulher mais velha e se jogou como uma bola de rúgbi em sua barriga. Pisquei quando Ilaria cambaleou para trás.
— Eles vão embora logo, logo. Posso pedir para o Ashok vir imediatamente. De verdade. Ninguém precisa saber...
Mas Ilaria apenas ajeitou a blusa e pegou a menininha no colo.
— Está com sede, compañera?
Sem olhar para trás, saiu arrastando os pés, segurando com força Rachana no colo, o pequeno polegar enfiado na boca.
Enquanto eu permanecia imóvel, a voz de Ilaria ecoou pelo corredor.
— Traga as crianças para a cozinha.

* * *

Ilaria fritou uma porção de bolinhos de banana, oferecendo pedacinhos de banana às crianças, para que se ocupassem enquanto ela cozinhava, e eu tornei a encher canecas de água e tentei evitar que as crianças menores caíssem das cadeiras da cozinha. Ela não falou comigo, mas ficou cantarolando baixinho, o rosto estampando uma meiguice inesperada, a voz baixa e musical enquanto conversava com as crianças. Estas, como cães reagindo a um treinador eficiente, ficaram quietas e passíveis de negociação no mesmo instante, estendendo as mãos para mais um pedaço de banana, lembrando-se de falar por favor e obrigado, de acordo com as instruções de Ilaria. Elas comeram bastante, ficando cada vez mais sorridentes e plácidas, a neném esfregando os olhos com os punhos fechados, como se estivesse pronta para dormir.
— Com fome — disse Ilaria, apontando os pratos vazios com a cabeça.
Tentei lembrar se Ashok dissera alguma coisa sobre comida na mochila da bebê, mas eu estivera distraída demais para olhar. Eu estava simplesmente agradecida por ter uma adulta no recinto.
— Você tem um jeito incrível com crianças — comentei, mastigando um pedaço de bolinho.
Ela deu de ombros, mas pareceu silenciosamente orgulhosa.
— Você devia trocar a pequena. Podemos improvisar uma cama para ela na última gaveta do seu armário.
Eu a encarei.
— Porque ela pode cair da sua cama.
Ela revirou os olhos, como se isso fosse óbvio.
— Ah. Claro.
Levei Nadia de volta para o meu quarto e a troquei, fazendo uma careta. Fechei as cortinas. Depois puxei a gaveta de baixo, ajeitei meus pulôveres para nivelá-los, e deitei Nadia ali, esperando que ela adormecesse. No início ela lutou contra o sono, os grandes olhos me fitando, as mãos gordas e cheias de covinhas esticadas procurando as minhas, mas dava para ver que aquela era uma batalha perdida. Tentei copiar Ilaria e cantei baixinho uma canção de ninar. Bem, estritamente falando, não era uma canção de ninar: a única música cuja letra eu conseguia lembrar era a Canção Molahonkey, que só a fez rir, além de outra sobre Hitler ter apenas um testículo, que meu pai cantava para mim quando eu era pequena. Mas a neném gostou. Seus olhos começaram a se fechar.
Ouvi os passos de Ashok no corredor e a porta se abrir atrás de mim.
— Não entre — sussurrei. — Ela está quase... Himmler tinha algo parecido...
Ashok permaneceu onde estava.
— Mas o pobre e velho Goebbels não tinha bola nenhuma.
E assim ela adormeceu. Esperei um instante, coloquei meu suéter turquesa em cima dela para evitar que ficasse com frio, então me levantei.
— Pode deixá-la aqui, se quiser — sussurrei. — Ilaria está na cozinha com os outros dois. Acho que ela está...
Eu me virei e gritei. Sam estava de pé na porta, com os braços cruzados e um meio sorriso, uma sacola no chão entre seus pés. Abri e fechei os olhos, em dúvida se estava tendo uma alucinação. E então levei as mãos devagar até o rosto.
— Surpresa!
Ele moveu os lábios para pronunciar a palavra, mas não emitiu nenhum som, e eu atravessei o quarto tropeçando e o empurrei para o corredor, onde podia beijá-lo.

* * *

Sam revelou que tinha planejado tudo na noite em que eu contara sobre minha inesperada folga no fim de semana. Jake não fora problema — não faltaram amigos felizes em aceitar um ingresso grátis para o show —, e ele tinha reorganizado o trabalho, implorando favores e permutando turnos. Depois havia reservado um voo barato de última hora e embarcado para me surpreender.
— Você teve sorte que eu não resolvi fazer a mesma surpresa para você.
— Cheguei a pensar nisso, a nove mil metros de altura. Tive essa visão repentina de você voando na direção oposta.
— Quanto tempo temos?
— Só quarenta e oito horas, infelizmente. Tenho que ir embora segunda-feira de manhã cedo. Mas, Lou, eu... não queria esperar mais algumas semanas.
Ele não falou mais nada, mas eu sabia o que queria dizer.
— Estou tão feliz por você ter vindo. Obrigada. Obrigada. Então, quem deixou você entrar?
— O homem lá da recepção. Ele me avisou sobre as crianças. Depois me perguntou se eu já tinha me recuperado da minha intoxicação alimentar.
Sam ergueu uma sobrancelha.
— É. Não existem segredos neste prédio.
— Ele também me disse que você era um doce e a melhor pessoa daqui. O que eu já sabia, é claro. E então uma senhorinha idosa com um cachorro histérico veio pelo corredor e começou a gritar com ele sobre a coleta do lixo, mas deixei que ele resolvesse o assunto com ela.
Tomamos café até a esposa de Ashok chegar e assumir as crianças de novo. O nome dela era Meena e, cintilando com a energia residual de sua passeata comunitária, ela me agradeceu com sinceridade e nos contou sobre a biblioteca em Washington Heights que estavam tentando salvar. Ilaria parecia não querer entregar Abhik de volta para a mãe: estava ocupada gargalhando com ele, beliscando delicadamente as bochechas do garoto e fazendo-o rir. O tempo todo que ficamos lá com as duas mulheres, batendo papo, eu sentia a mão de Sam abaixo da minha cintura, sua enorme figura preenchendo a cozinha, sua mão livre ao redor de uma das xícaras de café, e de repente senti que aquele lugar estava alguns graus mais próximo de ser o meu lar, porque agora eu poderia visualizar Sam nele.
— Muito prazer em conhecê-la — dissera ele a Ilaria, estendendo a mão.
Em vez de lançar seu costumeiro olhar de absoluta desconfiança, ela dera um pequeno sorriso e apertara a mão dele. Percebi que poucas pessoas se davam ao trabalho de se apresentar a ela. Nós duas éramos invisíveis na maior parte do tempo, e Ilaria, talvez em virtude de sua idade ou nacionalidade, ainda mais que eu.
— Tome cuidado para o Sr. Gopnik não ver o rapaz aqui — murmurou ela quando Sam foi ao banheiro. — Namorados são proibidos no prédio. Usem a entrada de serviço.
Ela balançou a cabeça como se não acreditasse que estava concordando com algo tão imoral.
— Ilaria, não vou esquecer isso. Obrigada — falei.
Estendi os braços como se fosse abraçá-la, mas ela me lançou um olhar penetrante. Interrompi meu gesto no meio do caminho e o transformei em dois polegares para cima.

* * *

Comemos pizza — uma vegetariana inofensiva —, depois paramos em um bar escuro e imundo onde um jogo de beisebol bradava em uma pequena tela de TV.
Sentamos a uma minúscula mesa com nossos joelhos se encostando. Metade do tempo eu não fazia ideia sobre o que estávamos conversando, porque não conseguia acreditar que Sam estava ali, na minha frente, inclinando-se em sua cadeira, rindo de coisas que eu dizia e passando a mão na cabeça. Como que por um acordo tácito, não mencionamos Katie Ingram e Josh. Em vez disso, conversamos sobre nossas famílias. Jake tinha uma namorada nova e raramente ficava na casa de Sam, como antes. Sam confessou que sentia falta dele, embora compreendesse que nenhum menino de dezessete anos realmente desejava passar o tempo com o tio.
— Ele está muito mais feliz, e o pai dele ainda não se resolveu, então eu devia ficar alegre por ele. Mas é estranho. Eu me acostumei a ter o Jake por perto.
— Você sempre pode ir ver minha família — falei.
— Eu sei.
— Posso só dizer pela quadragésima oitava vez como estou feliz de você estar aqui?
— Você pode me dizer o que quiser, Louisa Clark — disse ele suavemente, levando as juntas de meus dedos aos lábios.

* * *

Permanecemos no bar até as onze. Por mais estranho que pareça, apesar do tempo limitado de que dispúnhamos para ficar juntos, nenhum de nós sentia a urgência cheia de pânico que tivéramos da última vez, de aproveitar cada minuto. O fato de ele estar lá era um bônus tão inesperado que acho que nós dois concordamos silenciosamente em apenas aproveitar a companhia um do outro. Não havia necessidade de visitar pontos turísticos, marcar uma lista de tarefas a serem cumpridas ou correr para a cama. Estava, como os jovens dizem, tudo tranquilo, na boa.
Saímos do bar enroscados um no outro, como bêbados alegres fazem, e eu fui até o meio-fio, pus dois dedos na boca e assobiei, sem demonstrar perplexidade quando um táxi amarelo parou na minha frente cantando pneus. Eu me virei para fazer um sinal para Sam entrar, mas ele estava me encarando.
— Ah, é. Ashok me ensinou. Você precisa meio que colocar os dedos embaixo da língua. Olhe... desse jeito.
Sorri para ele, mas algo em sua expressão me incomodou. Achei que ele ia gostar de meu pequeno artifício para chamar um táxi, mas, em vez disso, foi como se de repente ele não me reconhecesse.
Voltamos para um prédio silencioso. O Lavery estava quieto e majestoso observando o parque, elevando-se acima do barulho e do caos da cidade, como se, de algum modo, fosse superior àquele tipo de coisa. Sam parou quando chegamos à calçada coberta em frente ao prédio e fitou a estrutura alta, sua monumental fachada de tijolos, as janelas estilo palladiano. Balançou a cabeça, quase para si mesmo, quando entramos. O saguão de mármore estava em silêncio, o porteiro da noite cochilava no escritório de Ashok. Ignoramos o elevador de serviço e subimos pela escada, nossos passos abafados pela longa extensão de carpete azul-royal, nossas mãos deslizando pelo corrimão de metal polido. Subimos mais um lance até chegarmos ao corredor dos Gopnik. Ao longe, Dean Martin começou a latir. Entramos no apartamento e fechei com cuidado a imensa porta atrás de nós.
A luz de Nathan estava apagada e, ao longo do corredor, a TV de Ilaria balbuciava indistintamente. Sam e eu atravessamos o enorme hall na ponta dos pés, passamos pela cozinha e chegamos a meu quarto. Troquei de roupa, colocando uma camiseta, mas pensando, subitamente, que gostaria de dormir com algo um pouco mais sofisticado; em seguida, entrei no banheiro e comecei a escovar os dentes. Perambulei para fora do banheiro, ainda escovando, e encontrei Sam sentado na cama, o olhar fixo na parede. Fitei-o com o ar mais inquisidor possível quando se está com a boca cheia de espuma sabor menta.
— O que foi?
— É... esquisito — respondeu ele.
— Minha camiseta?
— Não. Estar aqui. Neste lugar.
Voltei para o banheiro, cuspi e lavei a boca.
— Está tudo bem — comecei a falar, fechando a torneira. — Ilaria é tranquila, e o Sr. Gopnik só vai voltar domingo à noite. Se você se sentir mesmo pouco à vontade, eu reservo um quarto para nós em um hotelzinho que Nathan conhece a dois quarteirões e aí podemos...
Ele balançou a cabeça.
— Não isso. Você. Aqui. Quando ficamos no hotel, éramos apenas você e eu, como sempre. Só estávamos em um lugar diferente. Aqui, finalmente consigo ver como tudo mudou para você. Pelo amor de Deus, você está morando na Quinta Avenida. Um dos endereços mais caros do mundo. Está trabalhando neste edifício de doido. Tudo cheira a dinheiro. E tudo é absolutamente normal para você.
Por mais estranho que fosse, fiquei na defensiva.
— Ainda sou eu.
— Claro — disse ele. — Mas você está em um lugar diferente agora. Literalmente.
Ele falou em tom neutro, mas algo naquela conversa me deixou desconfortável. Descalça, andei até onde ele estava, coloquei as mãos em seus ombros e disse, com um pouco mais de ênfase do que pretendia:
— Ainda sou apenas a Louisa Clark, sua garota ligeiramente desajeitada de Stortfold. — Como ele não respondeu, acrescentei: — Sou apenas uma funcionária aqui, Sam.
Ele me olhou nos olhos, depois estendeu a mão e acariciou meu rosto.
— Você não entende. Não consegue ver como mudou. Você está diferente, Lou. Anda por essas ruas como se fossem suas. Chama um táxi assobiando e ele aparece. Até mesmo seu jeito de andar mudou. É como se... não sei. Você cresceu como pessoa. Ou talvez tenha crescido como outra pessoa.
— Está vendo, agora você está dizendo uma coisa boa, mas soa como uma coisa ruim.
— Não é ruim — corrigiu ele. — Apenas... diferente.
Eu me aproximei mais e montei em Sam, minhas pernas nuas pressionando sua calça jeans. Encostei o rosto no dele, nariz contra nariz, nossas bocas a centímetros de distância. Envolvi seu pescoço com meus braços para sentir a maciez de seu cabelo escuro na minha pele, sua respiração morna em meu peito. O quarto estava escuro, e uma luz fria de neon lançava um raio estreito na minha cama. Eu o beijei e, com aquele beijo, tentei transmitir algo do que ele representava para mim, o fato de que podia chamar um milhão de táxis com um assobio, mas ainda sabia que ele era a única pessoa com quem gostaria de compartilhar um táxi. Beijei-o, meus beijos se tornando cada vez mais profundos e intensos, pressionando-me nele, até que Sam cedeu, suas mãos se fecharam ao redor de minha cintura e deslizaram para cima, e senti o exato momento em que ele parou de pensar. Sam me puxou com força em sua direção, sua boca grudada na minha, e gemi enquanto ele se mexia, empurrando-me para baixo, todo o seu ser reduzido a uma única intenção.
Naquela noite ofereci algo para Sam. Estava desinibida, diferente do que costumo ser. Eu me tornei diferente porque estava desesperada para lhe mostrar como realmente precisava dele. Era uma luta, mesmo que ele não soubesse. Escondi meu próprio poder e o deixei cego com o dele. Não houve ternura, nem palavras suaves. Quando nossos olhos se encontravam, eu estava quase com raiva dele. Ainda sou eu, disse-lhe em silêncio. Não se atreva a duvidar de mim. Não depois de tudo isso. Ele tapou meus olhos, colocou a boca em meu cabelo e me possuiu. Eu deixei. Queria que ele ficasse meio louco com aquilo. Queria que ele sentisse que estava tomando tudo. Não faço ideia dos sons que emiti, mas, quando acabou, meus ouvidos estavam tinindo.
— Isso foi... diferente — disse ele quando voltamos a respirar normalmente. Sua mão deslizou por cima de mim, suave agora, o polegar acariciando minha coxa. — Você nunca esteve assim.
— Talvez eu nunca tivesse sentido tanto a sua falta.
Inclinei-me e beijei seu peito. Senti um sabor salgado nos lábios. Ficamos ali deitados no escuro, observando a faixa de neon que atravessava o teto.
— É o mesmo céu — disse ele na penumbra. — É isso que temos que manter na memória. Ainda estamos embaixo do mesmo céu.
Ao longe, soou uma sirene de polícia, seguida por outra em um contraponto desencontrado. Eu não registrava mais esses barulhos: os sons de Nova York tinham se tornado conhecidos, caindo na categoria de ruídos despercebidos.
Sam se virou para mim, o rosto nas sombras.
— Comecei a esquecer as coisas, sabe. Todas as pequenas partes de você que amo. Eu não conseguia me lembrar do cheiro do seu cabelo.
Ele baixou a cabeça, aproximando-a da minha, e inspirou.
— Ou o formato do seu queixo. Ou o modo como a sua pele treme quando faço isso...
Deslizou o dedo de leve a partir da minha clavícula, e eu meio que sorri com a reação involuntária do meu corpo.
— Esse jeito maravilhosamente tonto com que você me olha logo depois... Eu tinha que vir aqui, para me lembrar dessas coisas.
— Ainda sou eu, Sam.
Ele me beijou, os lábios tocando suavemente quatro, cinco vezes os meus, um sussurro.
— Bem, qualquer que seja a versão de você, Louisa Clark, eu te amo — disse Sam, e rolou devagar, suspirando, para se deitar de costas.
Porém, nesse momento tive que reconhecer uma verdade desconfortável. Eu fora diferente com ele. E não tinha sido apenas porque eu queria mostrar como o desejava, como o adorava, apesar de isso fazer parte do motivo. Em algum nível mais sombrio, oculto, eu queria mostrar a ele que eu era melhor do que ela.

10 comentários:

  1. Aiiii q gracinhaaaa...
    Ele foi ver ela
    Ps: Ja estava começando a ficar c raiva do Sam...


    Eríneas Graças

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  2. Sam é um Amor 😍

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  3. Ainda bem que foi fazer uma surpresa a lou😍🤗😍

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  4. Já tava com raiva do sam,agora acabou o ranço!

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  5. chorei de rir com a mãe dela.... já sentia a falta dela kkkkk (só eu senti isso?) kkkkk ah quanto ao Sam ah que lindo a surpresa para ela! torço para eles ficarem juntos!!!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!