16 de fevereiro de 2018

Capítulo 13

KADEN

— Ela fala bem a língua. Como isso é possível?
Ele não tinha mostrado sua surpresa na noite passada quando ela falou. Ele não faria isso. Surpresa na frente do Conselho não era o seu estilo. Na verdade, acho que ele raramente era surpreendido por algo, mas ele a ouviu em sua voz agora. Era estranho que eu sentisse um sentimento de orgulho. Assim como eu havia subestimado Lia quando comecei a seguir os rastros dela, ele a subestimara também. A maioria dos membros da realeza mal sabia onde Venda ficava, muito menos falava a língua.
— Ela tem um dom para línguas — expliquei — e o tempo que levamos para atravessar Cam Lanteux lhe deu muitas oportunidades para aprender a nossa.
Ele suspirou dramaticamente.
— Outro dom? A princesa está cheio deles, embora eu não tenha visto provas do que você reivindicou ainda. Eu não chamaria a performance do olhar fixo na noite passada de qualquer coisa além de farsa. Embora talvez um útil.
Ele deixou seu último pensamento no ar. Uma farsa, a sua preferência, pois que ele poderia controlar.
— Ficarei fora algumas semanas. Não mais que isso. Mas se Tierny ainda tiver aparecido no momento em que eu voltar, não trará nada de bom para ele. Será a sua vez de vir com uma demonstração de força e ver se temos um adversário que precisa ser trazido para o rebanho. Não podemos ter governadores rebelando-se quando tanto está em jogo. Especialmente com os suprimentos essenciais de que precisamos vindo de Arleston.
— Tierny está sempre atrasado.
— Atrasado ou não, quando eu voltar, você vai. E sem ela. Lembre-se que falei. Não somos galos guardando galinhas. Nós somos os Rahtans.
Rahtan. Eu tinha onze anos na primeira vez em que repeti essas palavras de volta para ele. Mais jovem ainda do que Eben. Até então, eu tinha estado sob sua proteção por um ano. Ele se assegurara que eu tivesse porções duplas de alimentos. Até então, meus olhos não eram mais fundos, as cavidades em minhas bochechas tinha sido preenchidas, e carne estava de volta em minhas costelas marcadas. Eu tinha dito as palavras com todo o orgulho que ouvi na sua voz agora. Nós somos os Rahtans, a irmandade unida, destemida e duradoura. A partir desse momento, ele tinha começado a preparação para me tornar o próximo assassino. Fiquei impressionado e grato pela confiança que ele me deu.
Minha lealdade a ele era, provavelmente, maior que a de qualquer um. Ele tinha matado muitos para salvar meus ossos magros. Eu lhe devia tudo. Ele era o assassino naquela época. Três Assassinos tinham ido e vindo desde então, nenhum deles sobrevivendo mais do que alguns anos. Aos quinze anos, eu fui o mais jovem desde sempre a reivindicar a posição. Isso foi há quatro anos.
Quanto sangue você tem em suas mãos, Kaden? Quantas pessoas você matou? Eu não podia responder Lia, porque eu não sabia os números. Eu sabia apenas de respirações borbulhantes. Os suspiros que vinham tarde demais. As mãos que eram lentas demais para sacar a arma pronta em seu lado. Eu sabia dos olhos espantados, que levavam um pedaço de mim com eles antes de se fecharem. Eles haviam crescido em um borrão sem rosto. Tudo o que eu sabia era que eles eram traidores que tinham se infiltrado em outros reinos para escapar da justiça, ou oficiais em postos avançados cujos ataques foram implacáveis e brutais, e que caçaram famílias como as de Eben que tentaram se estabelecer no Cam Lanteux. Mas o trabalho de um assassino só poderia instilar o medo no inimigo, e talvez retardar os ataques. Um exército marchando poderia impedi-los.
O Komizar parou a vários metros do portão.
— Não podemos deixar que a fraqueza tome posse, o que me leva ao meu próximo tópico — disse ele. — Três soldados deserdaram. Eles foram encontrados escondidos em um acampamento de nômades. Lidamos com os nômades por abrigá-los, mas os soldados foram trazidos de volta.
— Nômades? Quais?
— Nas florestas ao norte de Reux Lau.
Respirar ficou mais fácil. Eu não deveria ficar aliviado que nenhum cigano tivesse morrido, mas eu tinha um carinho especial por Dihara e seu clã. Eu sabia que Dihara era inteligente demais para abrigar traidores. A maioria dos ciganos era. Notícias das duras consequências dispensadas a alguns viajavam como o vento através de acampamentos ciganos.
Ele me disse que a execução seria no terceiro sino, na frente dos antigos companheiros, e eu faria a contagem.
Apesar de um chievdar realizar as execuções e as prisões, o Komizar ou o Mantenedor sempre fazia o último interrogatório, sempre chamava para as tropas que testemunharam um sim ou não, sempre dava a instrução final para eles baixarem a cabeça no bloco. Sempre dava o aval final. A contagem, como era chamado, os passos finais que tratavam a justiça.
— Mas lembre-se, não os mate muito rapidamente. Esse será um longo caminho para desencorajar ações semelhantes. Certifique-se de que eles sofram. Você cuidará disso, certo, irmão?
Eu olhei para ele. Assenti. Eu sempre soube do meu dever.
Ele me deu um abraço caloroso e afastou-se, mas depois de apenas alguns passos, parou novamente e se virou.
— Ah, e certifique-se de alimentar o emissário. Penso que Ulrix se esquecerá convenientemente, e não quero voltar para um cadáver. Eu não terminei com o nosso embaixador real. Ainda.

2 comentários:

  1. Não confio de jeito nenhum neste Komizar, e acho que existe alguma coisa na história de Kaden que ele esconde. Tem algo de muito errado nesta h

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Boa leitura, E SEM SPOILER!