2 de fevereiro de 2018

Capítulo 13

— Por que você não me acordou quando chegou ontem à noite?
Eu estava em pé atrás de Pauline enquanto ela se olhava no espelho, e observei sua imagem anuviada. O vidro tinha manchas escuras causadas pelo tempo e provavelmente fora jogado ali como um excedente danificado, mas eu estava feliz de ver que um pouco de rubor havia retornado às bochechas dela, que escovava seus longos cachos cor de mel com escovadelas rápidas enquanto eu tirava minhas roupas de montaria do guarda-roupa.
— Já era madrugada e você estava dormindo profundamente. Não havia necessidade de acordá-la.
As escovadas rápidas foram ficando mais lentas, hesitantes.
— Eu sinto muito que você e Berdi tenham discutido. Ela realmente está tentando...
— Eu e Berdi estamos bem, Pauline. Não se preocupe. Nós conversamos depois que você foi embora. Ela entende meus...
— Você tem que entender, Lia, que Terravin não é como Civica. Seu pai e o gabinete dele não estão observando todos os soldados no Reino. Berdi está fazendo o melhor que pode.
Eu me virei para brigar com ela, minha raiva ardendo por levar uma nova reprimenda, mas então a semente da verdade ficou presa na minha garganta.
Meu pai raramente deixava os confortos de Civica. Nem o gabinete dele. Ele reinava de longe, se é que reinava mesmo, arranjando casamentos para resolver seus problemas. Quando fora a última vez em que ele realmente tinha viajado por seu Reino e falado com aqueles que não ficavam deitados no berço e na segurança de Civica? O Vice-Regente e seu pequeno séquito eram os únicos que passavam algum tempo longe de Civica, e isso acontecia apenas em visitas diplomáticas e rotineiras aos Reinos Menores.
Peguei minha calça e a chacoalhei, tentando tirar seus vincos, e nós duas olhamos para os joelhos da calça que estava caindo aos pedaços e para os fios corroídos onde mais uma dúzia de buracos estavam começando a irromper.
— Você tem razão, Pauline. Terravin não é nem um pouco como Civica. — Trocamos sorrisos, sabendo que trapos como essa calça nunca haviam sido usadas nem mesmo pelos patrulheiros externos da corte real, e deixamos o não dito passar.
Depois de três décadas no trono, meu pai não conhecia mais seu Reino. Algumas coisas eram mais fáceis de ver de longe do que quando estão bem debaixo do nosso nariz.
Nós duas nos vestimos, enfiando as camisas para dentro das calças e calçando nossas botas. Atei a faca na lateral do meu corpo e coloquei meu macio colete de couro para cobri-la. Uma lâmina de quinze centímetros. Sorri. Será que ele caiu nessa? Na verdade, a faca mal tinha dez centímetros, mas era bem pesada, e como observado pela minha tia Bernette, um pouco de exagero era sempre esperado quando se descrevia armas, vitórias e partes do corpo. Eu carregava a pequena adaga incrustada com joias mais para me sentir perto dos meus irmãos do que para me proteger, embora não fosse ruim que Rafe pensasse que era para minha proteção. Walther sempre afiava a lâmina para mim, orgulhando-se da forma como eu atacava a porta do meu quarto com ela. Agora cabia a mim fazer isso. Toquei a bainha da arma, certificando-me de que ela estava oculta junto ao meu quadril, e me perguntei se meus irmãos sentiam tanta falta de mim quanto eu sentia deles.
Com a estalagem ainda cheia, não havia nenhum quarto a ser limpo nesta manhã, e Berdi estava nos mandando em uma expedição para coletar amoras silvestres. Era uma mudança bem-vinda na rotina, e eu também estava ansiosa para proporcionar um dia de passeio para Otto, Nove e Dieci, embora soubesse que não faria diferença: eles ficariam tão contentes com um passeio quanto comendo feno no curral e provendo comentários ocasionais a alguém que estivesse de passagem — o que eles perceptivamente pareciam fazer com regularidade sempre que Enzo estava por perto.
Nós deveríamos pegar Gwyneth no caminho, e ela nos mostraria a rota até o Cânion do Diabo, onde os arbustos de amoras silvestres eram densos. Berdi dizia que as amoras de lá eram as mais doces. Faltando menos de duas semanas para o festival, ela estava se preparando para fazer bolinhos, compotas e mingau de amoras silvestres. Além disso, como Gwyneth nos revelou às escondidas, Berdi precisava de frutas frescas para a nova safra de vinho de amoras silvestres que seria envelhecida na adega, com a qual Berdi substituiria as garrafas que seriam bebidas no festival deste ano.
Eu tinha me perguntado o que haveria dentro dos engradados escuros empilhados no canto da adega. Ao que parecia, todos os mercadores contribuíam com alguma coisa para o festival, e doces e delícias de amoras silvestres eram as especialidades de Berdi, ano após ano. Era uma tradição — pela qual eu ansiava.
Trancei os cabelos de Pauline, tentando circundar a cabeça dela com a trança, mas eu não era tão habilidosa e, por fim, tive que me conformar com uma trança simples, porém bem-feita, que descia até o meio das costas dela.
Trocamos de lugar e ela fez o mesmo comigo, mas criou algo mais elaborado com muito menos esforço, começando a fazer tranças em cada uma das minhas têmporas e unindo-as na coroa da minha cabeça, deixando, de forma artística, rebentos soltos no caminho, de modo a atenuar seu efeito. Pauline cantarolava para si enquanto fazia isso, e decidi que ela ainda deveria estar refletindo sobre aqueles sonhos com Mikael da noite anterior, mas então um pequeno murmúrio escapou de seus lábios como se tivesse descoberto algo nos meus cabelos que não deveria estar ali — algo como um carrapato grande e gordo.
— O que foi? — perguntei, alarmada.
— Eu só estava me lembrando daqueles dois camaradas da noite passada. Eles pareciam abalados quando Berdi baniu você para a cozinha. Você tem alguns admiradores interessantes.
— Kaden e Rafe?
— Olha! Você sabe o nome deles? — Pauline ficou hesitante e deu um puxão nos meus cabelos, fazendo com que eu me encolhesse de dor.
— Só por cortesia. Quando os servi, perguntei seus nomes.
Ela se inclinou para o lado para ter certeza de que eu podia vê-la no espelho e revirou os olhos com grande floreio.
— Eu não consigo imaginar você perguntando o nome de açougueiros velhos apenas para servi-los. E quanto àquele terceiro camarada que entrou depois? Você perguntou o nome dele também?
— Terceiro camarada?
— Você não o viu? Ele entrou logo depois dos outros dois. Um homem magro, desmazelado. Ele olhou bastante de esguelha para você. — Tentei me lembrar de quem ela estava falando, mas estivera tão ocupada com aquele soldado cafajeste e depois servindo Kaden e Rafe, que nem mesmo me lembrava de a porta da taverna ter sido aberta de novo.
— Não, eu não o notei.
Ela deu de ombros.
— Ele não ficou por muito tempo. Nem mesmo terminou sua cidra. Mas Kaden e Reef certamente se demoraram. Eles não se pareciam nem um pouco com coelhos assustados para mim.
Eu sabia que ela estava se referindo a Charles e a muitos dos outros meninos que me evitavam.
— O nome dele era Rafe — falei, corrigindo-a.
— Ohh... Rafe. Qual deles você preferiu?
Minha coluna ficou rígida. Preferência? Agora era a minha vez de revirar os olhos.
— Os dois eram rudes e presunçosos.
— Isso é a Sua Majestade Real falando ou alguém que tem medo de coelhos assustados? — Ela puxou mais uma fina mecha de cabelos.
— Eu juro, Pauline, que vou cortar sua cabeça se puxar meus cabelos mais uma vez! O que deu em você?
Ela estava resoluta e não se intimidou nem um pouco com minha ameaça.
— Eu só estou retribuindo seu favor da noite passada. Deveria ter desafiado aquele soldado eu mesma bem antes de você ter que intervir. — Soltei um suspiro. — Todos nós temos nossas habilidades. Você é paciente demais, o que às vezes não funciona a seu favor. Eu, por outro lado, tenho a paciência de um gato molhado. Apenas em raras ocasiões isso realmente vem a calhar. — Eu dei de ombros, resignada, fazendo com que Pauline abrisse um largo sorriso. Rapidamente, tratei de acrescentar uma cara feia a isso. — E como puxar os meus cabelos até me deixar careca pode ajudar?
— Estou salvando você de si mesma. Eu a observei com eles na noite passada. — As mãos dela caíram nos meus ombros. — Quero que você pare de ter medo — disse ela com gentileza. — Os bons não fogem, Lia.
Engoli em seco. Eu queria desviar o olhar, mas os olhos dela estavam fixos em mim. Pauline me conhecia bem demais. Eu sempre escondera os meus temores dos outros com conversa penetrante e gestos audazes. Quantas vezes ela tinha me visto tentar domar minha respiração em um corredor escuro da cidadela depois de um encontro com o Erudito em que ele havia me dito o quanto eu era deficiente nos meus estudos, nas minhas habilidades sociais ou em quaisquer coisas em que o meu resultado era aquém do esperado? Ou as muitas vezes em que fiquei paralisada na janela do meu quarto, inexpressiva, fitando o nada por uma hora que fosse, piscando para refrear as lágrimas depois de mais uma dispensa rude do meu pai. Ou as vezes em que tive que me retirar para meu closet e trancar a porta. Eu sabia que Pauline havia me ouvido chorar.
De qualquer forma, nos últimos anos, eu não tinha me mostrado capaz de outra coisa, e quanto mais eles me empurravam, me moldavam e me silenciavam, mais eu queria ser ouvida.
As mãos de Pauline deslizaram dos meus ombros.
— Acho que ambos eram visualmente agradáveis —, falei. Ouvi o fingimento na minha própria voz. A verdade era que achei ambos atraentes, cada um à sua maneira. Ora, eu não estava morta. Mas embora eles tivessem feito meu sangue correr quando entraram na taverna, aqueles dois também haviam me enchido de apreensão.
Pauline ainda esperava por mais algum detalhe, e ficou lá sem expressão. Aquilo não parecia uma admissão suficiente para ela, então dei a ela uma que eu tinha certeza de que me arrependeria depois.
— E talvez eu tenha preferido um deles.
No entanto, eu não estava muito certa disso. Achar algo intrigante em relação a um dos dois rapazes não necessariamente queria dizer que eu o preferia. Ainda assim, ele havia assombrado meus sonhos na noite passada de um jeito estranho. Vislumbres parciais de seu rosto dissolviam-se e reapareciam repetidas vezes como um espectro, aparecendo em sombras da floresta profunda, com paredes de ruínas desfazendo-se e os olhos dele crepitando em um leque de chamas.
Ele me seguia aonde quer que eu fosse, procurando por mim como se eu tivesse roubado um segredo que pertencia a ele. Eram sonhos perturbadores, nem um pouco do tipo de sonhos que eu imaginava que Pauline tinha com Mikael. Talvez meus sonhos inquietos estivessem sendo causados pela comida de Berdi, mas, nessa manhã, quando acordei, meus primeiros pensamentos foram sobre ele.
Pauline sorriu e prendeu minhas tranças com um fio de ráfia.
— As amoras silvestres esperam por Vossa Majestade.
Enquanto colocávamos as selas sobre o trio de asnos zurradores, Kaden saiu da taverna. Berdi servia um cardápio simples pela manhã: queijo, ovos cozidos, arenques defumados, mingau, pão ázimo e muito chicory quente para beber, tudo isso disposto sobre o balcão na lateral. Era uma refeição simples em que as próprias pessoas se serviam. Se preferisse, o hóspede poderia embalar a comida em uma mochila para levar. Ninguém ficava com fome na estalagem de Berdi, nem mesmo mendigos ou princesas que apareciam nos degraus dos fundos.
Puxei a sela de Otto e fui verificar como estava a de Nove enquanto olhava de relance para Kaden. Pauline pigarreou como se algo tivesse ficado preso em sua garganta de repente. Desferi um olhar austero para ela, cujos olhos voltaram-se na direção do rapaz, que agora estava se aproximando de nós. De repente, minha boca ficou seca, e engoli em seco. Kaden trajava uma camisa branca, e suas botas esmagavam pedras na terra enquanto ele se aproximava de nós.
— Bom dia, moças. Vocês estão saindo cedo.
— Assim como você — respondi.
Trocamos gentilezas, e Kaden explicou que estava indo cuidar de algumas questões que poderiam fazer com que ele permanecesse mais alguns dias na estalagem, embora não tivesse dito que questões eram essas.
— Você é um mercador de pele de animais como Gwyneth sugeriu? — perguntei a ele.
Ele abriu um sorriso.
— Sim, na verdade, sou. Negocio peles de pequenos animais. Geralmente faço as transações em Piadro, mas tenho esperanças de encontrar preços melhores mais ao norte. Elogio sua amiga quanto às habilidades de observação dela.
Então eu estava errada. Ele realmente lidava com o comércio de peles. Impressões podiam ser enganadoras.
— Sim — concordei. — Gwyneth é muito perceptiva.
Ele soltou seu cavalo da grade.
— Espero que quando eu voltar nesta tarde, um quarto de verdade possa estar disponível.
— É improvável que isso aconteça até depois do festival — disse Pauline. — Mas pode ser que haja algum quarto vago em outra estalagem na cidade.
Ele fez uma pausa como se contemplasse a ideia de ir procurar um quarto em algum outro lugar, repousando os olhos em mim por vários segundos, mais do que era confortável. Na reluzente luz do dia, seus cabelos loiros brilhavam, e seus profundos olhos azuis revelavam mais cor, um espectro impressionante de manchinhas cor de bronze, intensas e cálidas como terra recém-cultivada, mas a inquietude ainda espreitava debaixo da calma aparente. Alguns pelos de barba por fazer no queixo dele refletiam o sol da manhã, e eu nem mesmo me dei conta de que estava analisando seus lábios bem definidos até que um sorriso divertido espalhou-se por eles. Rapidamente voltei a minha atenção para Nove, sentindo minhas bochechas arderem.
— Eu vou ficar aqui — respondeu ele.
— E seu amigo? Ele vai ficar aqui também? — perguntei.
— Não sei quais são os planos dele, mas suspeito que seu nariz seja sensível demais para que dure muito tempo em um celeiro.
Ele se despediu, e fiquei observando enquanto ele saía cavalgando em um cavalo tão preto quanto a noite, uma forte fera selvagem, com até mesmo sua respiração infligindo medo, como se ele fosse descendente de um dragão. Era uma fera que poderia rachar facilmente uma baia de estábulo — impossível confundi-la com uma égua. Sorri com esse pensamento, lembrando-me da forma como Rafe o havia provocado. Eles formavam uma dupla estranha.
Quando ele estava bem longe do alcance de nossa vista, Pauline disse:
— Então, é o Rafe.
Montei em Otto e não respondi. Hoje Pauline parecia ter acordado com vontade de dar todo seu apoio a relacionamentos. Primeiro foi comigo e Berdi, e agora era comigo e... quem quer que fosse. Seria porque ela queria tão desesperadamente fortalecer seu próprio relacionamento com Mikael? Eu não era propensa a chamar os deuses fora dos rituais necessários, mas toquei os lábios com dois dedos e enviei acima uma prece para que o namorado dela voltasse logo.
Terravin era pequena, o que era parte de seu charme. Da estalagem de Berdi, localizada na parte de trás das colinas, na extremidade sul, até os primeiros agrupamentos de lojas na extremidade norte, era uma jornada de quinze minutos, no máximo — mais rápido se você não estivesse com três asnos que não tinham pressa de chegar a lugar algum. Fiquei maravilhada com todas as casas e lojas de cores chamativas, e Pauline me disse que essa era uma tradição que havia começado séculos atrás. As mulheres do pequeno vilarejo pesqueiro pintavam as fachadas de uma cor chamativa para que seus maridos pudessem ver suas próprias casas lá de longe no mar e se lembrassem de que as esposas esperavam pela volta deles. Acreditava-se que essa era uma forma de proteger seu verdadeiro amor de ficar perdido no oceano.
Será que alguém poderia realmente viajar até tão longe a ponto de não conseguir encontrar de novo o caminho de volta para casa? Eu nunca havia entrado no mar além da altura dos meus joelhos, em um mergulho congelante nas águas do oceano Safran numa rara viagem familiar, onde eu persegui meus irmãos na praia e catei conchinhas com... meu pai. A velha recordação passou como uma rajada alarmante de vento frio por mim. Tantas outras lembranças haviam se empilhado em cima desta que ela estava quase extinta. Eu estava certa de que meu pai não se lembrava mais de nada disso. Ele era uma pessoa diferente naquela época. Eu também era.
Eu e Pauline seguimos nosso caminho para o norte ao longo da estreita trilha superior, paralela à estrada principal lá embaixo. Faixas irregulares de luz espremiam-se entre as árvores, brincando no nosso caminho. Além da estrada principal, havia dúzias de vias estreitas como a que estávamos que serpenteavam por Terravin e pelas encostas de colinas circundantes, cada uma delas conduzindo a descobertas únicas. Cortamos caminho descendo por uma dessas vias até o centro da cidade, e a Sacrista podia ser avistada, uma estrutura grande e imponente demais para um vilarejo tão pequeno. Presumi que o povo de Terravin devia ser fervoroso em sua adoração aos deuses.
Um cemitério ladeava a cidade, perfurado por lápides espalhadas, tão antigas que eram apenas finas e simples placas de pedra. Quaisquer adornos, palavras ou grandes tributos foram lavados há muito tempo, deixando seus honrados ocupantes perdidos para a história, e, mesmo assim, velas em homenagem a eles ainda reluziam nas lanternas de vidro vermelho em frente a algumas das lápides por ali espalhadas.
Vi o olhar contemplativo de Pauline tremular pelos epitáfios e pelas velas. Até mesmo Otto diminuiu a velocidade enquanto passávamos por ali, suas orelhas agitando-se como se estivéssemos sendo saudados pelos residentes do cemitério. Uma brisa passou pelas lápides, puxando meus cachos soltos de cabelos, fazendo com que se enrolassem como cobras em volta do meu pescoço.
Foi-se... foi-se...
Minha pele se arrepiou. O horror cerrou minha garganta com uma ferocidade súbita. Mikael. Alguma coisa está errada. Alguma coisa está irremediável e irreparavelmente errada.
Fui completamente tomada por um medo inesperado. Tentei me forçar a rememorar os fatos: Mikael estava apenas em patrulha. Tanto Walther quanto Regan haviam estado em dezenas de patrulhas e, às vezes, demoravam para voltar para casa por causa das condições do tempo, dos suprimentos ou de inúmeras outras coisas absurdas. Patrulhas não eram perigosas. De vez em quando, havia escaramuças, mas raramente eles se deparavam com qualquer transgressor que fosse. O único machucado com o qual algum deles havia voltado para casa fora um dedo do pé esmagado quando um cavalo pisara no pé descalço de Regan.
Patrulhas eram apenas uma precaução, uma forma de garantir que as fronteiras não seriam cruzadas e que nenhum assentamento permanente seria estabelecido no Cam Lanteux, a zona de segurança entre os reinos. Eles perseguiam bandos de bárbaros, levando-os de volta para dentro de suas próprias fronteiras. Walther chamava isso de mera bravata.
Ele dizia que a pior parte da patrulha era aguentar os odores corporais de homens que passavam dias sem tomar banho. Para falar a verdade, eu não sabia ao certo se os bárbaros constituíam uma ameaça de verdade. Sim, eles eram selvagens, segundo todos os relatos que eu tinha ouvido na corte e dos soldados, mas haviam sido mantidos atrás das fronteiras durante centenas de anos. Quão ferozes realmente poderiam ser?
Eu disse a mim mesma que o amor da vida de Pauline estava bem, mas ainda permanecia em mim aquela sensação opressiva. Eu nunca nem mesmo conhecera Mikael. Ele não era de Civica, havia sido apenas alocado lá como parte de uma rotatividade de tropas, e Pauline havia seguido as regras da corte ao pé da letra e fora discreta em seu relacionamento — tão discreta que nem mesmo mencionou Mikael para mim até um pouco antes de partirmos. Agora eu temia que poderia nunca vir a conhecer este homem que amava tanto minha amiga e que fazia com que o rosto dela ficasse radiante ao falar dele.
— Você gostaria de dar uma parada? — falei sem pensar, alto demais, deixando Pauline alarmada. Puxei para trás as rédeas do Otto.
Ela parou também, com linhas de ansiedade surgindo em sua testa.
— Se você não se importar. Só vou demorar um instante.
Assenti, e ela deslizou de Nove, puxando uma moeda de seu alforje. Ela entrou apressada na Sacrista. Uma vela. Uma prece. Uma esperança. Uma luz trêmula ardendo por Mikael. Um farol para que ele chegue em segurança a Terravin.
Isso a sustentaria até a próxima vez em que a brisa de aviso passasse pelos ossos daqueles que estavam mortos há muito tempo. Pauline era fiel à sua palavra, como em todas as coisas, e quando voltou, pouco tempo depois, a rígida ponta de preocupação que endurecera sua face uns poucos minutos antes se suavizara. Pauline havia entregado a preocupação aos deuses. Meu próprio coração ficou mais leve.
Nós terminamos nossa jornada na estrada principal e seguimos as direções que Berdi nos deu até o pequeno quarto alugado de Gwyneth em cima das instalações do boticário, um estabelecimento minúsculo entre duas lojas maiores. Uma estreita escadaria abraçava uma das paredes e dava para um quarto no segundo piso que presumi ser o de Gwyneth, que ficava separado do restante da estrutura e era tão apertado que mal dava para abrir os dois braços ao mesmo tempo. Com certeza o cômodo não tinha água corrente ou o conforto básico de um armário. Eu estava intensamente curiosa em relação à vida de Gwyneth fora da taverna. Ela nunca falava disso e, quando sondávamos, sempre dava respostas vagas e mudava de assunto, o que só servia para atiçar minha imaginação. Eu esperava que ela morasse em algum lugar muito mais exótico ou misterioso do que em um quartinho no sobrado de uma loja em uma movimentada estrada principal.
Descemos de nossos asnos, e entreguei as rédeas de Otto a Pauline, dizendo a ela que eu subiria as escadas para pegar Gwyneth, mas de repente ela saiu da sapataria do outro lado da rua com uma criança que não tinha mais do que seis ou sete anos de idade, uma menina bonita com cachos da cor do morango caindo além de seus ombros e com sardas brilhando no nariz e nas bochechas. Ela segurava um pacotinho embrulhado, ao qual estava claro que dava valor, abraçando-o junto a seu peito.
— Obrigada, senhorita Gwyneth! Mal posso esperar para mostrar isso à mamãe!
A garota saiu correndo em disparada e desapareceu quando virou em outra rua.
— Adeus, Simone! — gritou Gwyneth às costas da menininha e continuou olhando na direção em que ela havia corrido por um bom tempo depois que já se fora. Um fraco sorriso iluminava seus olhos, uma gentileza que permeava todo o seu ser. Esse era um lado terno que eu nunca havia visto na geralmente embotada Gwyneth.
— Ela é muito bonita — falei, para fazer com que Gwyneth soubesse que estávamos ali.
Ela voltou rapidamente seu olhar em nossa direção e suas costas enrijeceram-se.
— Chegaram cedo demais — disse ela sumariamente.
Gwyneth juntou-se ao nosso lado da rua, inspecionando com ares de suspeita o dentuço Dieci, perguntando-se em voz alta se alguém já teria montado essa besta feia. Para falar a verdade, nós não sabíamos, mas o animal aceitou a sela muito bem. Enquanto ela verificava a cilha, uma grande carroça com comida passava ruidosamente em seu caminho até as docas, e fortes odores de enguia gordurenta frita enchiam o ar. Embora eu não gostasse dessa iguaria regional, seu aroma não era desagradável, mas Pauline levou a mão rapidamente à boca. Sua face empalideceu-se e ela se dobrou ao meio, fazendo jorrar sua refeição matinal na rua. Eu tentei ajudá-la, mas ela me dispensou e agarrou a barriga novamente quando uma nova onda a acometeu e minha amiga vomitou mais ainda. Eu estava certa de que o estômago dela estava vazio agora. Pauline endireitou-se, inspirando, trêmula, mas suas mãos ainda pressionavam sua barriga, de forma protetora. Permaneci fitando as mãos dela e, em um instante, o resto do mundo desapareceu.
Ah, benditos deuses!
Pauline?
Isso me atingiu tão rapidamente quanto um soco no estômago. Não era de se admirar que ela andasse tão pálida e cansada. Não era de se admirar que ela estivesse tão amedrontada.
— Pauline — sussurrei.
Ela balançou a cabeça, cortando-me.
— Eu estou bem! Vou ficar bem. Acho que o meu estômago estranhou o mingau.— Ela me enviou um rápido olhar suplicante com os olhos cheios d’água.
Poderíamos falar disso mais tarde. Com Gwyneth ainda olhando, eu me apressei em acobertar minha amiga, explicando a ela que Pauline sempre teve uma constituição delicada.
— Estômago fraco ou não, ela não está em condições de viajar por um cânion quente adentro para catar frutas — disse Gwyneth em um tom firme, e fiquei grata por minha amiga ter concordado com ela. Ainda pálida, Pauline insistiu que conseguiria voltar para casa sozinha, e eu relutantemente deixei que fosse.
— Não coma mais o mingau de agora em diante — gritou Gwyneth para ela enquanto se afastava.
Mas eu e Pauline sabíamos que não fora a refeição matinal que a fizera vomitar.

4 comentários:

  1. Foi-se... foi-se...

    Coitada, se mikael o amor dela morreu...
    Do jeito que ela fala dele deveria ser um homem bom.

    E grávida...

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  2. Será que a pauline ta grávida do boy dela?

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  3. Santo anjo!Uma mulher enjoada é praticamente um teste de gravidez

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  4. ela ta grávida????
    chocada "o"

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Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!