14 de fevereiro de 2018

Capítulo 13. O fim de Magrí

Discretamente, Crânio circulava pelo meio da multidão, com os ouvidos em alerta, à espera de alguma informação que prestasse, quando ouviu alguém chamar:
— Jerônimo! Anda logo com essa câmera!
Era o mesmo repórter, ajeitando-se à frente da câmera de tevê, pronto a revelar mais uma novidade daquele rumoroso sequestro:
— Aqui, Solano Magal, mais uma vez falando diretamente do Colégio Elite, de onde foi sequestrada a filha do presidente americano. Acabamos de descobrir que as três meninas que estavam nos vestiários com a senhorita Peggy foram encontradas nervosas demais e não puderam ser interrogadas. Estão agora sob o efeito de calmantes e serão levadas a um hospital onde ficarão em observação até amanhã. Mas parece que a internação é apenas uma medida de cautela, porque nada de grave teria acontecido com elas...
“Um problema a menos...”, raciocinava Crânio. “As meninas não falaram de Magrí. Que ótimo!”
Nesse momento, o geninho dos Karas avistou ao longe o corpanzil do detetive Andrade, reclamando na frente dos portões. Ainda havia um problema a resolver. Crânio precisava agir. E rápido! “Droga de americana! Será que ela vai cooperar?”
Debaixo da árvore, Chumbinho bronqueava:
— Ei, Calú! Que brincadeira é essa? Como é que eu vou usar essas calças?
Encarapitado num galho, Calú preparava-se para disfarçar Peggy e, lá de cima, respondeu:
— Foi o que deu pra pegar no escuro. Sinto muito. Arregace um pouco as pernas, que vai servir...
— Que ridículo, Kara!
De sentinela, Miguel olhou ao longe e imediatamente levantou a mão:
— Calú, Crânio está vindo para cá. Fez o sinal de “parar tudo e esperar”.
Calú parou de ajeitar uma peruca na cabeça de Peggy. Seus olhos encontraram-se. A filha do presidente americano era... hum... era uma graça! A menina olhava-o firme, examinando seu rosto bonito sob a fraca iluminação que conseguia intrometer-se entre as folhas. Sinais secretos? Códigos que se transmitem com apertões? Sinalização com pios de coruja? E perguntou:
— Quem são vocês? O que são vocês? Policiais-mirins? Agentes secretos?
Calú não esperava pela pergunta e titubeou: “E agora? Como é que eu vou falar dos Karas?”
— Bem... hum... ehr... humpf... não... quer dizer, sim...
— Sim o quê? São agentes secretos?
— Não... bem, sim... quer dizer... mais ou menos...
Para sua sorte, nesse instante Crânio chegava sob a árvore, com novas e estranhas ordens:
— Calú, preciso da Peggy.
— Como?
— Ei, Peggy! — chamava Crânio. — Magrí já se fez passar por você, não foi? Que tal agora você se fazer passar por Magrí?
— All right — respondeu a menina, de cima da árvore. — O que você quiser.
O que eu tenho de fazer?
— Como assim, Crânio? — protestou Calú. — Eu ia maquiá-la de mulata, vai ficar um estouro!
— Depois, Kara. Primeiro preciso dela no papel de Magrí. Miguel, me empreste a bicicleta!
— Certo, Kara — concordou Miguel, correndo para onde tinha deixado a bicicleta acorrentada, sem perguntar qual era o plano do amigo.
— Peggy, listen... — sussurrava Crânio. — Ouça que eu quero que você faça...
Em poucos minutos, Peggy MacDermott estava pedalando a bicicleta de Miguel, com o cabelo ajeitado do modo como Magrí normalmente usava. De longe, com o moletom do Elite que Chumbinho lhe havia emprestado talvez o plano de Crânio pudesse dar certo...
Uma ambulância chegava aos portões do complexo esportivo do colégio com a sirene gorgolejando como um peru enlouquecido e exibindo um letreiro na carroçaria: “Hospital Brasiliano — Resgate Terrestre”.
Do colégio, protegidas por vários agentes da CIA, três macas vinham sendo carregadas na direção da ambulância. “Magrí! Uma das macas deve estar trazendo a Magrí!”, Andrade rompeu a multidão, procurando ver quem estava sendo carregado.
Na primeira maca, encontrou uma garota de cabeleira negra, cacheada. Nas outras, mais duas alunas desconhecidas. Nem sinal de Magrí.
— Como?! Onde está Magrí?
Antes que o gordo detetive se pusesse a berrar no meio da rua, alguém tocava amistosamente em seu ombro. O detetive voltou-se:
— Quem... ? Oh, é você, Crânio? O que está fazendo aqui?
O rapazinho exibia a cara mais inocente deste mundo:
— Nada... Eu tinha de vir pegar um CD-ROM de pesquisa na sala de computação e...
— Uma pesquisa? — estranhou Andrade. — A essa hora?
— São as provas finais do semestre, Andrade... Um sufoco! Mas eu nem imaginava que tinha acontecido uma coisa dessas logo no nosso colégio! Sequestraram a filha do presidente americano, é? Puxa! Vou correndo pra casa!
O detetive estava alterado, sem querer contagiar o rapaz com seus temores:
— Eu... é que... Onde estão os outros?
— Quem? Miguel, Calú e Chumbinho estão em casa, estudando para as provas. Magrí foi para a casa de uma amiga, aqui perto, depois da exibição de gin...
O detetive surpreendeu-se, abrindo os braços, numa posição de quem recebe um enorme presente:
— O quê?! Magrí não estava dentro do colégio?
Crânio sorriu, com uma cara de sonso ainda maior:
— Como assim, dentro do colégio? É claro que ela estava dentro do colégio para a exibição de ginástica. Depois, ela foi para a casa da Sandrinha, que fica para lá, logo atrás do... Ei, Andrade! Veja. Lá vai ela!
O confuso detetive olhou para onde apontava o garoto. A uns cinquenta
metros, uma menina com o uniforme do Elite passava pedalando tranquilamente sua bicicleta, mal iluminada pelas luzes dos postes. E acenava na direção deles
— Magrí!
Andrade acenava de volta como um possesso e nem sabia o que dizer. Logo a bicicleta virava uma esquina e desaparecia de vista. O detetive começou a gaguejar:
— Magrí! Olha, Crânio! É a Magrí!
— Ora, é claro que é a Magrí, Andrade... O que deu em você?
— Não... é que... sabe? Magrí estava... quer dizer. Crânio, eu pensei que... Mas que maravilha!
E abraçou o jovem amigo com uma força de quem acabou de ser salvo de um incêndio:
— Crânio! Que beleza! Magrí está salva! Salva!
O rapaz abria a boca, fazendo-se de completamente desentendido:
— Salva? Mas de quê, Andrade?
O detetive ria com gosto, beliscava a bochecha de Crânio e dizia:
— Olhe aqui, meu filho. Você viu que desgraça aconteceu na sua escola, não é? Mas nem esquente a cabeça. Pode deixar que, amanhã, o colégio estará liberado normalmente para as aulas. Agora pode ir para casa tranquilo. Deixe o problema conosco. Haveremos de salvar a filha do presidente!
— Puxa, Andrade... tomara mesmo! Mas agora eu tenho de ir. Você sabe, não é? As provas do semestre...
E Andrade ficou vendo o rapaz afastar-se calmamente. Em pensamento, o gordo detetive gargalhava, com vontade de dançar pela calçada: “Magrí! Que alívio! Magrí saiu da escola antes do sequestro! Mas que maravilha! Magrí está fora disso! Está foooora!”
Só a custo alguém muito íntimo poderia reconhecer Miguel, com enchimentos nas roupas, um bigodinho nascente e boné enfiado até as orelhas. Do mesmo modo, ninguém descobriria que era Crânio quem estava atrás de grossas sobrancelhas postiças, nem Calú, cheio de decalques de tatuagens em todas as partes visíveis do corpo mal coberto por uma camiseta estampadíssima e uma cabeleira arrepiada. E talvez nem mesmo o presidente dos Estados Unidos conseguiria reconhecer a própria filha, com aquela peruca enroladinha e a pele morena, deliciosamente achocolatada.
Agora, eles podiam circular à vontade. Quem não estava nem um pouco satisfeito era Chumbinho, por causa da calça horrorosa que Calú havia trazido para ele. Além disso, tivera de emprestar os tênis para Peggy e, assim, descalço, com os cabelos escondidos um larguíssimo boné de abas caídas sobre a face e o rosto disfarçado por um par de óculos fundo-de-garrafa, o menino enfiara-se numa das mesas dos fundos da lanchonete da italiana, onde suas pernas podiam ficar escondidas da vista dos frequentadores. À sua frente, o aparelho de tevê só transmitia notícias sobre o sequestro.
Os outros quatro sentaram-se numa guia de calçada onde manifestantes e curiosos descansavam da vigília. Ali podiam discutir o que haveriam de fazer sem despertar suspeitas. Estavam numa encruzilhada. Depois que Natália e as outras duas alunas tinham sido levadas para o hospital, nada mais havia no colégio que pudesse ajudá-los a localizar Magrí.
Peggy MacDermott quase elevava a voz, revoltada:
— Nem sei como, mas precisamos salvar Magrí!
— O que faremos? — perguntava Crânio, desorientado. — Para onde iremos? Como vamos descobrir para onde esses bandidos levaram Magrí?
— Vamos lutar, Karas! — conclamou Calú.
Peggy continuava a estranhar aquele modo como os rapazes se tratavam:
— What’s this Karas business? Que história é essa de “Karas”?
Os três rapazes entreolharam-se. Calú deixara escapar mais um segredo para a americana. O mais importante. Mas a solução desse problema tinha de ser adiada. Um estranho rapazinho, com um boné de lã enfiado na cabeça, calças desengonçadas arrastando-se pelo chão e óculos tão grossos que mal lhe permitiam enxergar em frente, chegava esbaforido:
— Karas! Magrí mandou uma mensagem para a gente!
“Karas again? Outra vez isso de ‘Karas’? Quem são esses garotos?”, pensou ela, mas o que disse foi:
— Yeah! Agora temos alguma coisa por que lutar! Vamos lutar!
Os rapazes olhavam a americaninha, admirados. Era como se Magrí estivesse de volta. Peggy MacDermott agia como um verdadeiro Kara! Crânio desviou o olhar. Para ele, não era possível aceitar qualquer garota no lugar de Magrí.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!