6 de fevereiro de 2018

Capítulo 13. Coitadinha, quase uma criança

As cores da manhã ainda procuravam firmar-se. No Parque do Ibirapuera, a temperatura estava uma delícia.
Sob uma árvore, meio aglomeradas em um banco, cinco pessoas conversavam, alheias aos praticantes madrugadores de Cooper que de vez em quando passavam bufando.
Andrade sentia-se incomodado, informando àqueles quatro adolescentes uma série de detalhes do inquérito que deveria permanecer em sigilo. Mas, como resistir aos seus meninos? E o detetive sabia que eles eram realmente especiais e que corriam perigo de vida com o Doutor Q.I. à solta. Como não preveni-los?
Tirou do bolso o envelope que recebera do agente Patrick Lockwood. Magrí abriu-o e folheou as fotos.
— É... é esse homem mesmo. Era ele que estava junto com o doutor Morales, no avião. Foi ele que os bandidos levaram à força, no saguão do aeroporto.
— O criador da Droga do Amor! – admirou-se Calú.
Os Karas já tinham extraído tudo o que o detetive sabia. Tudo o que relatara o diretor da Penitenciária de Segurança Máxima, tudo o que informara o doutor Hector Morales e o nada que os investigadores sob o comando de Andrade tinham conseguido no dia anterior.
— É preciso agora encontrar um ponto de partida — começou Crânio. — Vamos pensar de novo em tudo e procurar a linha lógica. Ontem, no rádio, eu ouvi um comentarista que era menos idiota do que a média. Ele apontou uma série de perguntas sem respostas. Em primeiro lugar, por que o sequestro de Chumbinho? O que Chumbinho teria a ver com o doutor Bartholomew Flanagan? O que Chumbinho teria a ver com a Droga do Amor?
Magrí levantou os braços, criticando o amigo:
— Ora, Crânio! Você está se esquecendo que quem está por trás de tudo é o Doutor Q.I.? Quando ele soube que eu e Chumbinho estávamos no aeroporto e que eu vim no mesmo avião que o cientista, resolveu tornar uma providência para nos assustar...
— Humm... — fez Calú. — Não me parece muito lógico...
— É claro que é lógico! — insistiu a menina. — Ele quer vingar-se da gente, não quer? Então vai pegar todos nós, um a um!
— Bem, isso é bastante lógico — concordou Andrade.
— Outro ponto que parece coincidência demais é o furto da bolsa da Magrí — continuou Crânio. — Terá sido algum espertinho que se aproveitou da confusão? Mas como pode um ladrãozinho agir enquanto está acontecendo um tiroteio?
— Ora, Crânio! — riu-se Andrade. — No aeroporto, ocorrem pequenos furtos o tempo todo! Todos os dias há algumas ocorrências. Bagagens perdidas, coisas assim...
— Bom, gente — decidiu Miguel. — O sequestro do doutor Flanagan é um acontecimento mundialmente grave. Meu medo é que todos os esforços se concentrem nele, e Chumbinho acabe esquecido. Chumbinho é nosso problema. Temos de agir, depressa!
— Espere aí, Miguel! — interrompeu Magrí. — Tudo é obra do mesmo Doutor Q.I. Se conseguirmos salvar o peixe grande, que é o doutor Bartholomew Flanagan, salvaremos também o nosso peixinho. Vamos nos concentrar no cientista!
— O que é isso, Magrí? — espantou-se Calú. — Você propõe que a gente só pense no cientista? Que história é essa? É do Chumbinho que nós estamos falando!
— Escute aqui, Calú: ninguém gosta mais do Chumbinho do que eu!
— Calma, pessoal! — pediu Crânio. — Não se trata de disputar quem gosta mais de quem...
Sem conseguir conter o impulso, Calú encarou Miguel. Magrí olhou para longe.
— Voltemos aos pontos obscuros — continuou o geninho dos Karas. — Por que deram apenas um tiro no aeroporto? Por que balearam só a dona Iolanda? Se pelo menos tivesse havido um tiroteio, e ela recebesse uma bala perdida, ainda daria para aceitar, mas...
— Eu também não consigo entender esse ponto — reforçou Magrí. — Que ligação especial poderia ter dona Iolanda com o caso? Com o doutor Bartholomew Flanagan? Ela, como eu e outras centenas de passageiros, viemos no mesmo voo. Por que só ela?
— Porque ela foi a primeira a gritar — palpitou Andrade. — Não foi isso o que você supôs, Magrí?
— Pode ser, Andrade, pode ser...

* * *

Por trás do banco, uma moita de azaleias erguia-se alta, começando a sombrear os cinco.
No meio da moita, escondia-se o anão. Destacando-se na cara empelotada, ainda mais sinistra sob a luz do sol, os olhos argutos do anão apertavam-se, ouvindo a conversa.

* * *

— Se dona Iolanda não foi baleada acidentalmente — continuava Crânio —, se o tiro foi proposital, qual teria sido a razão? Será que ela reconheceu algum dos bandidos, alguém que estivesse dentro do avião, por exemplo?
— Acho que não, Crânio — respondeu Magrí. — O grupo de sequestradores estava esperando os passageiros no saguão.
— E se dona Iolanda, por acaso, reconheceu alguém desse grupo? Alguém que ela já conhecia anteriormente?
— Pode ser. Como vamos saber?
— Perguntando para ela, ora!
Magrí encolheu os ombros.
— Tentei falar com dona Iolanda ontem à noite. Ela não pode receber visitas. Falei com um médico que está tratando dela.
— Então temos de entrar lá usando a cabeça, gente! — decidiu Miguel. — Eu tenho um plano... 
Andrade, sem querer, deixava-se envolver pelo entusiasmo e pelo raciocínio dos seus meninos. Sorrindo, olhava para cada um e apenas ouvia. Com orgulho, ouviu Miguel apresentar detalhadamente seu plano de invasão do hospital, até o momento em que o rapazinho estava quase terminando:
— … e aí, Andrade espera Magrí com o fusquinha perto do hospital e...
Nesse momento, Andrade despertou para o absurdo da situação em que estava se deixando enredar:
— Ei! Pare aí! Que negócio é esse? Vocês não passam de crianças! Acham mesmo que eu vou deixar que vocês se arrisquem desse jeito? Estão muitíssimo enganados! Nem por cima do meu cadáver!

* * *

O fusquinha entrou na curva cantando os pneus e brecou em frente ao hospital.
De dentro do carro, dirigido por um homem gordo, suado, saiu um casalzinho. A mocinha gemia e andava com dificuldade, apoiada num rapaz que teria no máximo a mesma idade dela. O homem gordo saiu apressado, deixando a porta aberta, e pegou a mão da moça, com uma expressão compungidíssima.
— Ai, ai... acho que não vou aguentar, papai...
Sua barriga estava enorme. O vestidinho erguia-se na frente, apertado, quase rasgando.
— Depressa! — pediu o homem gordo para o primeiro atendente que encontrou no saguão do hospital. — Minha filha! Está em trabalho de parto! Depressa, por favor!
A mocinha, gemendo, foi colocada em uma cadeira de rodas e levada às pressas para dentro.
— Pode deixar conosco, senhor — disse a recepcionista, por trás do balcão. — Vamos já chamar o obstetra. Sua filha está em boas mãos. Quer preencher a ficha?
Uma senhora, à espera no saguão, balançou a cabeça:
— Coitadinha. . . Quase uma criança. . . Deve ser mãe solteira. . . E olhou com cara feia para o rapaz que, ao lado do pai da moça, demonstrava-se sem jeito, com cara de culpado.
— Esses homens... — rosnou a senhora. — Desde jovens só querem se aproveitar das moças... Depois, olha aí!

* * *

Atrás do hospital, o anão arrastava-se por uma viela. Torto como uma aranha, escondeu-se atrás de uma pilha de caixas de papelão que provavelmente aguardavam a chegada do lixeiro. Imóvel, parecia esperar.

* * *

Magrí foi deixada em uma sala no andar térreo. Deitaram a menina numa cama.
— Tenha calma, minha filha — uma enfermeira passou-lhe a mão pela testa. — Respire fundo. O médico já vem aí . . .
— Ai, ai... está bem...
A porta da sala ficou aberta. Magrí viu uma maca sendo arrastada no corredor.
— Pode deixar aqui a maca — disse uma voz. — Esta paciente já está sedada. A Matilde vai levá-la para a sala de operação. É apendicite...
Magrí levantou-se sorrateiramente da cama. Tirou um grande travesseiro de baixo do vestido e, agachadinha, foi até o corredor, ocultando-se atrás da maca com a mulher que ia ser operada de apendicite.
Rapidamente, levantou a camisola da mulher e pôs o travesseiro sobre a barriga da anestesiada.
“Pronto! Eles vão tomar um sustinho lá na sala de operações. Ah, eu queria ver a cara deles quando alguém tiver a ideia de levantar a camisola dessa coitada...”
Havia uma escadinha, dando para o subsolo. Magrí desceu. Era um depósito e também uma espécie de vestiário das serventes do hospital.
Vestiu rapidamente um uniforme amarelo, amarrou um lenço na cabeça, ocultando o rosto ao máximo, pegou uma vassoura e subiu de novo as escadinhas.
“Muito bem. A hora da faxina deve ser mais cedo. Mesmo assim, acho que ninguém desconfiará de uma servente andando pelos corredores”.
Ao entrar no hospital, enquanto gemia, a menina teve tempo de descobrir qual era o andar da UTI, ao examinar o quadro dos setores do hospital, pendurado na parede atrás da recepcionista.
“Ainda bem que essa é outra. Se eu encontrasse a mesma recepcionista de ontem à noite, na certa ela me reconheceria...” Evitou os elevadores. Era mais seguro pelas escadas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!