24 de fevereiro de 2018

Capítulo 12

Quase não dormi, com todas as coisas que eu desejava ter e não ter dito rodando na minha cabeça feito um carrossel interminável, e acordei grogue com o barulho de batidas na porta. Saí cambaleando da cama e, ao abrir a porta, dei de cara com a Sra. De Witt de robe. Ela parecia pequena e frágil sem a maquiagem e o cabelo penteado, e seu rosto estava tenso de ansiedade.
— Ah, você está aí — disse ela, como se eu pudesse estar em outro lugar. — Venha. Venha. Preciso da sua ajuda.
— Q-Quê? Quem abriu a porta para você?
— O grandão. O australiano. Vamos. Não temos tempo a perder.
Esfreguei os olhos, me esforçando para ficar desperta.
— Ele já me ajudou antes, mas disse que não pode deixar o Sr. Gopnik agora. Ah, que importa? Abri a porta hoje de manhã para levar o lixo para fora, e o Dean Martin fugiu correndo e está em algum lugar do prédio. Não faço ideia de onde ele possa estar. E não consigo achá-lo sozinha.
Sua voz estava trêmula, porém autoritária, e suas mãos se agitavam em volta da cabeça.
— Depressa. Vamos agora. Tenho medo de alguém abrir a porta lá embaixo e ele ir para a calçada.
A Sra. De Witt torceu as mãos.
— Ele não sabe se virar bem sozinho lá fora. E alguém pode roubá-lo. Ele tem pedigree, sabe.
Peguei minha chave e a segui para o saguão, ainda de camiseta.
— Onde a senhora já procurou?
— Bem, em lugar nenhum, querida. Tenho problemas de locomoção. É por isso que preciso que você procure. Vou pegar a bengala.
Ela me olhou como se eu tivesse dito algo bem estúpido. Suspirei, tentando pensar no que faria se fosse um pequeno pug de olhos esbugalhados saboreando o gostinho inesperado da liberdade.
— Você precisa achar o Dean Martin. Ele é tudo que eu tenho.
Ela começou a tossir, como se os pulmões não suportassem a tensão.
— Vou olhar na entrada principal primeiro — avisei.
Corri escada abaixo, tendo em mente que Dean Martin não conseguiria chamar o elevador, e esquadrinhei o corredor procurando um cão pequeno e zangado. Vazio. Olhei para o relógio e descobri com um leve desalento que ainda não eram nem seis horas. Olhei embaixo e atrás da mesa de Ashok, depois corri para o escritório dele, que estava trancado. O tempo todo chamei baixinho por Dean Martin, sentindo-me um tanto estúpida ao fazer isso. Nenhum sinal. Subi a escada correndo e fiz a mesma coisa nos nossos andares, checando na cozinha e nos corredores nos fundos. Nada. Também vasculhei o quarto andar, antes de ponderar que, se eu tinha ficado sem fôlego, as chances de um pequeno pug gordo subir correndo tantos lances de escada com velocidade eram bem improváveis. E então ouvi lá fora o zumbido familiar do caminhão de lixo.
Pensei no nosso velho cachorro, que tinha uma habilidade extraordinária de tolerar — e até de apreciar — os cheiros mais nojentos conhecidos pela humanidade.
Corri para a entrada de serviço. Lá, em transe, estava Dean Martin, babando, enquanto os homens rolavam as latas de lixo enormes e fedorentas para trás e para a frente, do nosso prédio até o caminhão. Eu me aproximei devagar dele, mas o barulho era tão alto e sua atenção estava tão fixa nos lixeiros que ele não me ouviu até o momento exato em que me abaixei e o peguei.
Você já segurou um pug raivoso? Eu nunca tinha sentido algo se contorcer com tanta força desde que tive que prender Thom, então com dois anos, no sofá enquanto minha irmã tirava uma maldita bola de gude da narina esquerda dele.
À medida que eu me esforçava para mantê-lo preso embaixo do braço, o cão se jogava para a esquerda e para a direita, com os olhos se arregalando de fúria e seus ganidos revoltados inundando o prédio silencioso. Fui obrigada a envolvê-lo com os braços e posicionar a cabeça de modo a afastar a mandíbula dele, que não parava de tentar me morder. Lá de cima, ouvi a Sra. De Witt chamando:
— Dean Martin? É ele?
Usei toda a minha força para segurá-lo. Subi correndo o último lance da escada, desesperada para entregá-lo.
— Peguei! — falei, ofegante.
A Sra. De Witt deu um passo para a frente, com os braços estendidos. Ela estava com uma guia pronta e a prendeu na coleira dele, logo que o coloquei no chão. Nesse instante, com uma velocidade totalmente incompatível com seu tamanho e forma, ele girou e cravou os dentes na minha mão esquerda. Se houvesse alguém no prédio que não tivesse sido acordado pelos latidos, provavelmente acordou com meu grito. O berro no mínimo foi alto o suficiente para assustar Dean Martin e fazê-lo me soltar. Eu me curvei na direção da mão e xinguei, o sangue já escorrendo da ferida.
— Seu cachorro me mordeu! Droga, ele me mordeu!
A Sra. De Witt respirou fundo e endireitou o corpo.
— Bem, claro que mordeu, com você o segurando assim tão forte. Provavelmente ele estava sentindo um tremendo desconforto!
Ela enxotou o cão para dentro, de onde ele continuou rosnando para mim, mostrando os dentes.
— Olha lá — reclamou, gesticulando na direção dele. — Seus berros o assustaram. Ele está agitadíssimo agora. Você precisa aprender mais sobre cachorros se quiser lidar com eles do jeito certo.
Eu não consegui falar. Eu estava boquiaberta como nos desenhos animados. Foi nessa hora que o Sr. Gopnik, de camiseta e calça esportiva, abriu a porta da frente.
— Que gritaria toda é essa? — questionou, saindo no corredor.
Fiquei chocada pela ferocidade em sua voz. Ele analisou a cena à sua frente: eu de camiseta e calcinha, segurando a mão sangrando, e a idosa de robe, com o cão rosnando aos pés dela. Atrás do Sr. Gopnik, só deu para ver Nathan de uniforme, com uma toalha no rosto.
— Que diabo está acontecendo?
— Ah, pergunte à maldita garota. Ela que começou.
A Sra. De Witt pegou Dean Martin nos braços e depois sacudiu o dedo para o Sr. Gopnik.
— E não se atreva a me dar lição de moral sobre barulho neste prédio, meu jovem! Seu apartamento é um verdadeiro cassino de Las Vegas com tanto entra e sai. Acho incrível que ninguém tenha reclamado ainda com o Sr. Ovitz.
Com a cabeça erguida, ela deu meia-volta e fechou a porta.
O Sr. Gopnik piscou duas vezes, olhou para mim e depois de volta para a porta fechada. Houve um breve silêncio. E então, do nada, ele começou a rir.
— “Jovem!” — disse, balançando a cabeça. — Nossa, faz muito tempo que ninguém me chama disso.
Então se virou para Nathan, que estava atrás dele.
— Você deve estar acertando em alguma coisa.
De algum lugar no interior do apartamento, uma voz abafada se elevou em resposta:
— Não se gabe, Gopnik!

* * *

O Sr. Gopnik me mandou de carro com Garry até seu médico particular para tomar a antitetânica. Eu me sentei na sala de espera, que parecia até o saguão de um hotel luxuoso, e fui atendida por um médico iraniano de meia-idade, que talvez tenha sido a pessoa mais solícita que já conheci. Ao olhar a conta, que seria paga pela secretária do Sr. Gopnik, esqueci a mordida e achei que fosse desmaiar.
Quando voltei para casa, Agnes já tinha ficado sabendo da história.
Aparentemente, eu era o assunto do prédio.
— Você tem que processar! — disse ela, achando graça. — Ela é uma velha horrível e encrenqueira. E aquele cachorro obviamente é perigoso. Não sei se é seguro para nós morarmos no mesmo prédio. Você precisa de uma folga? Se precisar, posso processar a Sra. De Witt por serviços perdidos.
Eu não disse nada, acalentando os meus sentimentos sombrios em relação à Sra. De Witt e a Dean Martin.
— Nenhuma boa ação sai impune, não é? — comentou Nathan, quando esbarrei com ele na cozinha.
Pegou minha mão e analisou o curativo.
— Nossa. Aquele cachorrinho é uma fera.
Mas, apesar de no fundo estar furiosa com ela, não saiu da minha cabeça o que a Sra. De Witt dissera logo que bateu na minha porta: Ele é tudo que eu tenho.

* * *

Embora Tabitha tivesse voltado para seu apartamento naquela semana, o clima no prédio permaneceu irritadiço, quieto e marcado por explosões esporádicas. O Sr. Gopnik continuava passando muitas horas no trabalho enquanto Agnes preenchia a maior parte do nosso tempo juntas ao telefone com a mãe na Polônia. Eu tinha a impressão de que estava havendo algum tipo de crise em família. Ilaria queimou uma das camisas preferidas de Agnes (acredito que realmente foi um acidente, pois já fazia semanas que ela vinha reclamando da regulagem de temperatura do ferro novo) e, quando Agnes gritou que ela era desleal, uma traidora, uma suka em sua casa e jogou a camisa nela, Ilaria enfim perdeu a cabeça e disse ao Sr. Gopnik que não podia mais trabalhar lá, que era impossível, que ninguém trabalharia tanto e por tão pouco reconhecimento ao longo de tantos anos. Ela não aguentava mais e estava pedindo demissão. O Sr. Gopnik, com palavras delicadas e uma empática inclinação de cabeça, convenceu-a a mudar de ideia (ele também deve ter lhe oferecido um bom dinheiro), e esse aparente ato de traição fez com que Agnes batesse a porta com tanta força que o segundo vasinho chinês da mesa do saguão se espatifou no chão com um barulho musical, e ela passou a noite inteira chorando no quarto de vestir.
Quando fui trabalhar na manhã seguinte, encontrei Agnes sentada ao lado do Sr. Gopnik à mesa de café da manhã, com a cabeça apoiada no ombro do marido, enquanto ele murmurava algo em seu ouvido, os dedos dos dois, entrelaçados.
Ela se desculpou formalmente com Ilaria enquanto ele observava, sorrindo, e, quando ele foi trabalhar, xingou furiosamente, em polonês, durante todo o tempo que passamos correndo no Central Park.
Naquela noite, ela anunciou que passaria um fim de semana prolongado na Polônia, para visitar a família, e senti um leve alívio ao perceber que ela não queria que eu fosse junto. Às vezes estar naquele apartamento, por maior que fosse, com o humor instável de Agnes e as tensões oscilantes entre ela e o Sr. Gopnik, Ilaria e a família dele era insuportavelmente claustrofóbico. A ideia de ficar sozinha por alguns dias parecia um pequeno oásis.
— O que quer que eu faça enquanto você estiver fora? — perguntei.
— Tire uns dias de folga! — respondeu ela, sorrindo. — Você é minha amiga, Louisa! Acho que você tem que se divertir enquanto eu estiver fora. Ah, estou tão animada para ver a minha família. Tão animada — disse, batendo palmas. — Só a Polônia! Sem coisas estúpidas de caridade para ir! Estou tão feliz!
Eu me lembrei de que, quando cheguei a Nova York, Agnes relutava em se afastar do marido por uma noite que fosse. Mas achei melhor descartar o pensamento.
Quando voltei para a cozinha, ainda refletindo sobre essa mudança, Ilaria estava se benzendo.
— Você está bem, Ilaria?
— Estou rezando — respondeu ela, sem tirar os olhos da panela.
— Está tudo bem?
— Tudo ótimo. Estou rezando para aquela puta não voltar para cá.

* * *

Mandei um e-mail para Sam, empolgada com uma ideia que tive. Eu teria ligado, mas ele não tinha dado notícias desde o nosso último telefonema e fiquei com medo de ele ainda estar bravo comigo. Contei que eu havia ganhado uma folga de três dias no fim de semana, tinha olhado os voos e pensado em esbanjar em uma viagem inesperada para casa. O que ele achava? Para que mais os salários serviam? Encerrei a mensagem com uma carinha sorrindo, um emoji de avião, alguns corações e beijos.
A resposta chegou em uma hora.

Desculpe. Vou trabalhar direto e prometi levar Jake sábado à noite ao O2 para ver uma banda qualquer. É uma boa ideia, mas este não é o fim de semana ideal. Bj S

Fiquei olhando para o e-mail e tentei não me assustar. É uma boa ideia. Foi como se eu tivesse sugerido um passeio inocente no parque.
— Será que ele está me dando um gelo?
Nathan leu a mensagem duas vezes.
— Não. Ele está dizendo que está ocupado e que não é uma boa hora para você ir para casa assim do nada.
— Ele está me dando um gelo. Não tem nada nesse e-mail. Nenhum amor, nenhum... desejo.
— Ou ele podia estar indo para o trabalho quando escreveu. Ou no banheiro. Ou falando com o chefe. Ele só está se comportando como um homem.
Não engoli essa desculpa. Eu conhecia Sam. Analisei aquelas duas linhas várias vezes, tentando extrair o tom, a intenção subliminar. Entrei no Facebook, me odiando por fazer isso, e fui ver se Katie Ingram havia anunciado algum plano especial para o fim de semana. (Para me irritar, ela não tinha postado nada. O que era exatamente o que alguém faria se estivesse planejando seduzir o namorado paramédico gostoso de outra garota.) E então respirei fundo e escrevi uma resposta — bem, escrevi várias respostas, mas essa foi a única que não apaguei.

Não tem problema. Foi uma boa tentativa! Espero que você se divirta muito com o Jake. Bj L

E então cliquei em ENVIAR, admirada com o quanto as palavras de um e-mail podiam estar tão distantes daquilo que o autor de fato estava sentindo.

* * *

Agnes pegou o avião na quinta à noite, carregada de presentes. Eu me despedi dela com um sorriso enorme e depois desabei na frente da televisão.
Na sexta de manhã, fui a uma exibição de figurinos de ópera chinesa no Instituto do Vestuário no Metropolitan Museum of Art e passei uma hora admirando os bordados complexos, os vestidos de cores vivas, o brilho refletido das sedas. Inspirada, de lá fui à West 37th para ver umas lojas de tecido e armarinhos que eu tinha procurado na semana anterior. Aquele dia de outubro estava frio e seco, anunciando o início do inverno. Peguei o metrô e apreciei seu calor abafado e sujo. Passei uma hora examinando as prateleiras, me perdendo entre os rolos de tecido estampado. Eu havia decidido montar meu próprio painel semântico para Agnes para quando ela voltasse, forrando o pequeno sofá e as almofadas com cores alegres e vivas — tons de verde-esmeralda e rosa, lindas estampas de papagaios e abacaxis, o oposto dos drapejados e adamascados sem graça que os decoradores caros sempre lhe ofereciam.
Aquelas cores todas eram da Primeira Sra. Gopnik. Agnes tinha que imprimir a própria marca ao apartamento — algo arrojado, vigoroso e lindo. Expliquei à mulher no balcão o que queria fazer, e ela me indicou outra loja, no East Village — um brechó de roupas onde tinham peças de tecido antigo nos fundos.
Era uma vitrine de loja nada convidativa — um exterior sujo da década de setenta que prometia “Vintage Clothes Emporium, de todas as décadas, de todos os estilos, a preços baixos”. Mas entrei e me surpreendi: a loja era um armazém, organizado em carrosséis de roupas em seções identificadas com placas feitas à mão que diziam: “Anos quarenta”, “Anos sessenta”, “Roupas das quais os sonhos são feitos” e “Cantinho da pechincha: Costura desfeita não é vergonha”. O cheiro no ambiente era almiscarado, de perfume de décadas atrás, pele devorada por traças e noitadas havia muito esquecidas. Sorvi o aroma como se fosse oxigênio, sentindo que de alguma maneira eu tinha recuperado uma parte de mim que mal sabia que estava me fazendo falta. Passeei pela loja, experimentando pilhas de roupas de estilistas de quem nunca tinha ouvido falar, seus nomes um eco sussurrado de uma época havia muito esquecida — Feito Sob Medida por Michel, Fonseca de Nova Jersey, Srta. Aramis —, passando os dedos pelas costuras invisíveis, roçando sedas chinesas e chifon na bochecha. Eu podia ter comprado uma dezena de peças, mas por fim escolhi um vestido de festa justo azul-real com imensos punhos de pele e gola redonda (eu disse a mim mesma que não tinha problema nenhum se a pele datasse de sessenta anos atrás), um macacão jeans vintage e uma camisa xadrez que me dava vontade de derrubar uma árvore ou talvez montar um cavalo com um rabo esvoaçante. Eu poderia ter passado o dia inteiro lá.
— Eu estava de olho nesse vestido há taaaanto tempo — comentou a garota do caixa, quando o coloquei no balcão. Ela era toda tatuada, o cabelo pintado de preto preso em um enorme coque baixo e os olhos delineados com lápis preto. — Mas não coube em mim. Ficou bonito em você.
A voz dela era rouca, endurecida por cigarros e incrivelmente descolada.
— Eu não tenho ideia de quando vou usá-lo, mas preciso ter esse vestido.
— É assim que eu me sinto com as roupas o tempo todo. Elas conversam com a gente, não é? Aquele vestido estava gritando para mim: Me compre, sua idiota! E largue as batatas fritas! — disparou ela. — Adeus, amiguinho azul. Sinto muito ter decepcionado você.
— Sua loja é incrível.
— Ah, estamos aguentando o tranco aqui. Esmagadas pelos ventos cruéis dos aumentos de aluguel e pelos cidadãos de Manhattan, que preferem ir à TJ Maxx a comprar algo lindo e original. Olhe a qualidade disto. — Ela segurou o forro do vestido, apontando para os pontos minúsculos de costura. — Como você vai encontrar um trabalho como este vindo de algum galpão horrendo na Indonésia? Ninguém em todo o estado de Nova York tem um vestido assim. — Ela ergueu as sobrancelhas. — Exceto você, moça inglesa. De onde veio essa beleza?
Eu estava usando um sobretudo militar verde, que meu pai dizia de brincadeira que cheirava à Guerra da Crimeia, e um gorro vermelho para completar. Por baixo, eu estava de short de tweed, meia-calça e as botas Dr. Martens azul-turquesa.
— Amei esse look. Se um dia você quiser se desapegar desse casaco, eu consigo vendê-lo assim — disse ela, estalando os dedos tão alto que afastei a cabeça de leve. — Casacos militares. Nunca saem de moda. Tenho um casaco vermelho de infantaria que minha avó jura que roubou de um guarda do Palácio de Buckingham. Cortei as costas fora e transformei em uma jaqueta curta. Você sabe como é, não é? Quer ver uma foto?
Eu quis ver. Nós nos debruçamos sobre a jaqueta curta como as pessoas costumam se debruçar sobre fotos de bebês. A vendedora se chamava Lydia e morava no Brooklyn. Ela e a irmã, Angelica, haviam herdado a loja dos pais sete anos antes. Elas tinham uma clientela pequena, porém leal, e sobreviviam principalmente graças a visitas de figurinistas da televisão e de filmes, que compravam peças para desfazer e depois recosturar. Lydia me contou que conseguia a maioria das roupas em bazares e leilões promovidos por parentes de pessoas falecidas.
— A Flórida é o melhor lugar. Lá tem essas avós com closets gigantescos com ar-condicionado, entupidos de vestidos de festa dos anos cinquenta dos quais nunca se livraram. Nós vamos para lá a cada dois meses e praticamente renovamos o estoque com os parentes enlutados. Porém está ficando mais difícil. Hoje em dia tem muita competição.
Ela me deu um cartão com o e-mail e o site da loja.
— Se um dia quiser vender algo, me ligue.
— Lydia — retruquei, depois que ela já havia embrulhado minhas compras com papel de seda e colocado em uma sacola. — Acho que sou mais compradora do que vendedora. Mas obrigada. Sua loja é o máximo. Você é o máximo. Eu me sinto como... como se estivesse em casa.
— Você é um amor.
Ela disse isso sem alterar a expressão facial. Então levantou o dedo, pedindo que eu esperasse, e se agachou para baixo do balcão. Voltou com óculos escuros vintage, com armação de plástico azul-claro.
— Alguém deixou isto aqui meses atrás. Eu ia colocar em promoção, mas me dei conta de que ficaria fabuloso em você, ainda mais com aquele vestido.
— Eu não devo — comecei. — Já gastei tanto...
— Shh! É um presente. Então agora você está em dívida conosco e tem que voltar. Pronto. Você ficou linda com eles! — exclamou, segurando um espelho.
Tive que admitir, eu de fato estava bonita. Ajeitei os óculos no nariz.
— Bem, este é oficialmente meu melhor dia em Nova York. Lydia, vejo você na semana que vem. E vou gastar todo o meu dinheiro aqui de agora em diante.
— Legal! É assim que fazemos chantagem emocional com nossos clientes para continuarmos na ativa!
Ela acendeu um cigarro Sobranie e se despediu, acenando.

* * *

Passei a tarde montando o painel semântico e experimentando as roupas novas e, quando me dei conta, já eram seis da tarde e eu estava sentada na cama tamborilando os dedos nos joelhos. Eu havia ficado empolgada com a ideia de ter um tempo para mim mesma, porém agora a noite se arrastava diante de mim como uma paisagem sombria, indefinida. Mandei uma mensagem de texto para Nathan, que ainda estava com o Sr. Gopnik, para ver se queria sair para comer alguma coisa depois do trabalho, mas ele tinha um encontro, e disse isso com gentileza, mas do jeito que as pessoas fazem quando não querem ninguém segurando vela.
Pensei em ligar para Sam novamente, porém não tinha mais esperanças de que nossos telefonemas fossem se desenrolar na vida real da maneira que faziam na minha cabeça, e, embora eu ficasse olhando para o celular, meus dedos não chegaram a tocar nos dígitos. Pensei em Josh e me perguntei se o fato de eu ligar para ele e chamá-lo para beber o faria pensar que o convite significava algo mais. E então me perguntei se o fato de eu querer me encontrar com ele para tomar algo realmente significava algo mais. Fuxiquei o Facebook de Katie Ingram, mas ela ainda não tinha postado nada. E então fui à cozinha antes que fizesse algo estúpido e perguntei a Ilaria se ela queria ajuda com o jantar, o que fez com que ela girasse na sua rasteirinha preta e me encarasse com desconfiança por dez segundos inteiros.
— Você quer me ajudar com o jantar?
— Quero — respondi, e sorri.
— Não — retrucou ela, dando-me as costas.

* * *

Até aquela noite eu não tinha percebido como conhecia poucas pessoas em Nova York. Eu andara tão ocupada desde que cheguei e minha vida girara tão completamente em torno de Agnes, sua agenda e suas necessidades que não me ocorrera que eu não tinha feito nenhum amigo. E havia algo no fato de não ter nenhum programa em uma sexta à noite na cidade que me fazia sentir... bem... um pouco fracassada.
Fui a pé a um bom restaurante japonês e comprei sopa de missô e alguns sashimis que ainda não tinha experimentado, tentando não pensar Enguia! Estou realmente comendo enguia! Tomei uma cerveja, depois me deitei na cama, zapeei pelos canais da televisão e afastei pensamentos sobre outras coisas, tais como o que Sam estaria fazendo. Disse a mim mesma que eu estava em Nova York, o centro do universo. Qual o problema de ficar em casa em uma sexta à noite? Eu estava simplesmente descansando depois de uma semana do meu exigente trabalho em Nova York. Eu podia sair qualquer noite da semana se realmente quisesse. Disse isso a mim mesma várias vezes. E então meu celular apitou.
Você está na rua explorando os melhores bares de Nova York de novo?
Eu sabia quem era sem nem precisar olhar. Fiquei um pouco balançada.
Hesitei por um instante antes de responder:
Estou em casa, na verdade.
Gostaria de tomar uma cerveja amiga com um escravo assalariado exausto? No mínimo, você poderia garantir que eu não vá para casa com alguma mulher inadequada.
Sorri e então digitei: O que faz você pensar que sou uma protetora?
Está dizendo que damos a impressão de que jamais seríamos um casal? Nossa, isso foi cruel.
Eu quis dizer: o que faz você pensar que eu o impediria de ir para casa com outra pessoa?
O fato de você estar respondendo às minhas mensagens? (Ele adicionou uma carinha sorrindo.)
Parei de digitar, de repente me sentindo desleal. Fiquei olhando a tela, o cursor piscando impacientemente. Por fim, ele escreveu: Estraguei tudo? Acabei de estragar tudo, não foi? Droga, Louisa Clark. Eu só queria tomar uma cerveja com uma garota bonita em uma sexta à noite e estava preparado para ignorar a sensação de vaga tristeza que vem com o fato de saber que ela está apaixonada por outro. Gosto tanto assim da sua companhia. Vamos tomar uma cerveja? Umazinha só?
Eu me recostei no travesseiro, refletindo. Fechei os olhos e suspirei. Depois me endireitei e digitei: Sinto muito, Josh. Não posso. Bj
Ele não respondeu. Eu o ofendi. Nunca mais teria notícias dele.
E então meu celular apitou. Ok. Bem, se eu me meter em encrenca, mando uma mensagem para você logo de manhã cedo para vir me resgatar e fingir que é minha namorada ciumenta maluca. Esteja preparada para bater forte. Combinado?
Acabei rindo.
É o mínimo que eu posso fazer. Tenha uma boa noite. Bj
Você também. Mas não tão boa. A única coisa que me impede de ir aí agora mesmo é imaginar você secretamente arrependida de não ter saído comigo. Bj
Na verdade, me arrependi um pouco mesmo. Claro que sim. Há uma quantidade limitada de episódios de The Big Bang Theory a que uma garota consegue assistir. Desliguei a televisão, fiquei olhando para o teto, pensei no meu namorado do outro lado do mundo e pensei em um americano que parecia Will Traynor e de fato queria passar um tempo comigo, não com uma garota de cabelo louro volumoso que parecia usar fio-dental de paetê por baixo do uniforme. Pensei em ligar para a minha irmã, mas eu não queria incomodar Thom.
Pela primeira vez desde que eu chegara, tive a sensação quase física de estar no lugar errado, como se eu estivesse sendo puxada por cordas invisíveis para outro local a quilômetros de distância. Em determinado momento, fiquei tão mal que, quando entrei no banheiro e vi uma barata enorme na pia, não gritei, como costumava fazer, mas por um breve instante considerei torná-la meu animal de estimação, como o personagem de um livro infantil. E então percebi que estava oficialmente pensando como uma louca e joguei inseticida nela.
Às dez horas, irritada e inquieta, fui à cozinha e roubei duas das cervejas de Nathan, enfiando um bilhete de desculpas por baixo da porta dele, e as bebi, uma depois da outra, dando goles tão rápidos que tive que refrear um baita arroto. Eu me sentia mal pela maldita barata. O que ela estava fazendo, afinal? Só sendo barata. Talvez estivesse se sentindo sozinha. Talvez quisesse fazer amizade comigo. Olhei embaixo da pia, para onde eu a havia chutado, mas ela estava morta. Isso me deixou irracionalmente zangada. Achei que não tivesse nascido para matar baratas. Eu tinha sido enganada sobre baratas. Acrescentei isso à minha lista de coisas com as quais ficar furiosa.
Coloquei os fones de ouvido e cantei bêbada algumas músicas da Beyoncé que eu sabia que me deixariam pior, mas de alguma forma eu não me importava. Dei uma olhada na galeria do celular, conferindo as poucas fotos que havia de mim e Sam juntos, tentando detectar a força dos sentimentos dele pela maneira como me envolvia com o braço ou o jeito como inclinava a cabeça em direção à minha. Olhei fixamente para as imagens e tentei me lembrar do que me fazia sentir tão confiante, tão segura nos braços dele. Então peguei o notebook, entrei no e-mail e escrevi para ele.

Você ainda sente saudade de mim?

Cliquei em ENVIAR, percebendo, enquanto a mensagem desaparecia no vazio com um chiado, que tinha me condenado a várias horas de ansiedade relativa ao e-mail, enquanto esperava Sam responder.

7 comentários:

  1. Leitores corcondem que Agnes é muito mimada veiii o cara tem que fazer tudo que ela affff.... mas o que foi essse finalsinho desse capitulo muita pena de nossa lou

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  2. Tadinha da Low
    Ja passou por tanta coisa....


    Eríneas Graças

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  3. A Lou ainda está muito presa ao Will 😫

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  4. odeio o sam mas amo o josh
    queria a lou com elw ;)

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