16 de fevereiro de 2018

Capítulo 12

Acordei alarmada, buscando o ar, e olhei em volta, absorvendo as paredes de pedra, o chão de madeira, a pesada colcha ainda me cobrindo, e camisa masculina que eu usava como camisola. Não era um sonho. Eu realmente estava aqui. Olhei de relance para o tapete no chão ao meu lado, vazio, os cobertores da noite passada cuidadosamente dobrados e devolvidos à parte de cima do baú.
Kaden tinha ido embora.
Houve uma tempestade noite passada, com ventos como eu nunca tinha ouvido antes, pedacinhos soltos da cidade batendo repetidamente contra as paredes. Pensei que nunca conseguiria dormir, mas então, quando isso aconteceu, devo ter tido um sono pesado, atraída para o interior de sonhos com infinitas jornadas por uma savana, perdida na grama que acenava bem acima de minha cabeça, e tropeçando em Pauline, que estava de joelhos, orando por mim. Então eu estava mais uma vez de volta a Terravin, com Berdi me trazendo tigelas de caldo quente, esfregando minha testa, sussurrando – Veja as encrencas em que você se mete – mas então seu rosto de transformou no da minha mãe e ela se aproximou de mim, seu hálito quente na minha bochecha – Você é um soldado agora, Lia, um soldado no exército de seu pai. Eu achava que havia me sentado, relaxada, acordada, mas então a bela e doce Greta, com uma coroa dourada de trança circundando sua cabeça, veio caminhando na minha direção. Seus olhos estavam inexpressivos, sem visão, e sangue escorria de seu nariz. Ela estava tentando dizer o nome Walther, mas nenhum som saía de sua garganta porque uma flecha a atravessava.
Contudo, na verdade, foi o último sonho que me despertou. Era dificilmente um sonho, apenas um lampejo de cor, um indício de movimento, uma sensação que eu não conseguia bem ao certo captar. Havia um céu amplo e frio, um cavalo e Rafe. Eu vi a lateral de seu rosto, uma maçã do rosto, seu cabelo sendo soprado ao vento, mas eu sabia que ele estava partindo. Rafe estava indo para casa. Deveria ter sido um conforto; no entanto, em vez disso, parecia uma perda terrível. Eu não estava com ele. Ele estava partindo sem mim. Fiquei lá, deitada, arfando, imaginando se seria apenas a previsão do Komizar que me assombrava. O emissário tem uma chance melhor de estar vivo no final do mês do que você.
Joguei a colcha para trás e saltei para fora da cama, inalando profundamente, tentando erguer o peso no meu peito. Olhei ao redor do aposento. Eu não tinha ouvido Kaden sair, mas também não o tinha ouvido na noite em ele viera para me matar em minha cabana enquanto eu dormia. O silêncio era a sua força, enquanto era minha fraqueza. Cruzei o quarto até a porta e tentei abri-la, mas estava trancada. Fui até a janela e empurrei-a, abrindo a persiana. Fui atingida por uma rajada de ar gelado e senti calafrios subindo pelos meus braços. Havia uma cidade, reluzente e gotejante, disposta diante de mim, de um cru e fumacento cor-de-rosa em sua luz antes da alvorada.
Esta era Venda.
O monstro estava apenas acordando, com sua barriga vazia começando a rugir e revirar. Um cavalo atrelado a uma carroça e liderado por uma figura encapuzada trotava por uma rua estreita abaixo de mim. Do outro lado do caminho, uma mulher varria uma passagem, a água borrifando o chão logo abaixo. Silhuetas contraídas e cobertas agitavam-se nas sombras. A luz fraca espalhava-se pelas beiradas de baluarte, afundava em construções de ameias, vazava por muralhas escamosas e vielas sulcadas e lamacentas, uma relutância em seu lento rastejar.
Ouvi uma batida suave e me virei. Era tão fraca que eu não sabia ao certo de onde vinha. Da porta ou de algum lugar lá fora, abaixo de mim? Mais uma batida suave. E então eu ouvi uma chave raspando na fechadura. A porta foi aberta com facilidade, uns poucos centímetros, as dobradiças enferrujadas gemendo. Mais uma gentil batida. Peguei uma das espadas de treino de madeira, apoiando-me na parede, e a ergui, pronta para atacar se fosse necessário.
— Entre — eu chamei.
A porta se abriu com tudo. Era um dos meninos que eu tinha visto na noite passada empurrando os carrinhos para dentro do Saguão do Sanctum. Seus cabelos loiros estavam cortados em blocos desigual bem curtos, e seus grandes olhos castanhos ficaram mais arregalados quando viu a espada de madeira na minha mão.
— Senhorita? Eu só trouxe suas botas. — Ele cautelosamente as ergueu, como se ele estivesse com medo de me assustar.
Abaixei a espada.
— Eu sinto muito. Eu não pretendia...
— Você não tem que explicar, senhorita. É bom estar preparada. Eu poderia ser um desses homens monstro passando pela porta. — Ele riu. — Mas essa espadinha aí não teria conseguido derrubar nem mesmo a bunda deles.
Eu sorri.
— Não, imagino que não. Você é um dos rapazes de ontem à noite, não é? Os que trouxeram os carrinhos.
Ele olhou para baixo, e o vermelho espalhou-se por suas bochechas.
— Eu não sou um menino, senhorita. Sou uma...
Prendi a respiração percebendo o meu erro.
— Uma menina. Claro — eu disse, tentando encontrar uma maneira de tirar o seu embaraço. — Acabei de acordar. Ainda não tirei bem o sono dos olhos.
Ela ergueu a mão e esfregou seus cabelos desiguais e curtos.
— Não, é o cabelo curto. Não se pode trabalhar no Sanctum se a gente tem piolhos, e não sou muito boa com uma faca. — Ela era magra como um salgueiro, certamente não mais do que doze anos e nenhuma feminilidade havia florescido ainda. Sua camisa e as calças eram do mesmo marrom insípido do resto dos rapazes. — Mas um dia vou deixar crescer meus cabelos até ficarem realmente longos como os seus, tão bonitos e trançados. — Ela alternou o peso de seu corpo de um pé para o outro, esfregando seus braços esqueléticos.
— Qual é seu nome? — perguntei.
— Aster.
— Aster — repeti. O mesmo nome do poderoso anjo da destruição. No entanto ela parecia mais um anjo perdido com asas mal tosadas.
Fiquei ouvindo a avaliação distorcida da menina sobre Aster, que claramente não era o que os textos sagrados morrigheses revelavam.
— Meu pai me disse que a mamãe me deu um nome de um anjo logo antes de seu último suspiro. Ele disse que ela sorriu plenamente, um último reluzir, e então me chamou de Aster. Foi esse o anjo que mostrou a Venda o caminho pelos portões até a cidade. O anjo da salvação, disse ela. Foi isso que... — De repente, ela se endireitou, cerrando os lábios em uma linha firme. — Fui avisada para não tagarelar. Sinto muito, senhorita. Aqui estão as suas botas.
Ela deu um passo adiante formalmente, colocou as botas no chão a minha frente, em seguida, deu um passo duro para trás.
— De onde eu venho, Aster, trocar umas palavrinhas não é tagarelar. É a coisa educada e cordial a se fazer. Espero que você venha e tagarele comigo todos os dias.
Ela abriu um largo sorriso e deslizou mão pela cabeça de novo, constrangida. Eu olhei para minhas botas, limpas e com os cadarços bem amarrados.
— Como foi que você as encontrou? — perguntei.
Fiquei satisfeita ao ver que o silêncio também não era o ponto forte de Aster. Nós tínhamos alguma coisa em comum. Ela me disse que as conseguiu com Eben. Ele as agarrou logo antes de serem enviadas para o mercado. Minhas roupas já eram, mas ele roubou as botas da pilha e limpou-as para mim. Ele seria chicoteado se alguém descobrisse, mas Eben era bom em ser arguto, e Aster me jurou que eu não precisava me preocupar com isso.
— No que diz respeito a essas botas, elas se levantaram e saíram andando sozinhas.
— Você vai ser chicoteado por trazê-las para mim? — perguntei.
Ela olhou para baixo, o rosa tingindo suas bochechas novamente.
— Eu não sou tão valente assim, senhorita. Desculpe-me. Eu trouxe as botas por ordens do Assassino.
Ajoelhei-me de forma que eu ficasse cara a cara com ela.
— Se você insiste que eu a chame de Aster, então insisto que você me chame de Lia. Isso é um encurtamento para o nome Jezelia. Você pode fazer isso, Aster?
Ela assentiu. E então, pela primeira vez, notei o anel no polegar dela, tão solto que ela tinha que segurar a mão cerrada em punhos para não perdê-lo. Era o anel de um pomposo guarda morriguês. Ela tinha tomado um anel dos carrinhos.
Ela me viu olhando para ele, e começou a tagarelar. 
— Foi a minha escolha — explicou ela. — Eu não vou ficar com ele. Vou vendê-lo no mercado, mas só pela virada da noite eu queria sentir o seu ouro e sua maciez na minha pele. Esfreguei essa pedra vermelha a noite toda, fazendo pedidos.
— O que você quer dizer com isso, Aster, de sua escolha?
— O Komizar sempre dá aos empurradores de carrinhos o direito da primeira escolha dos espólios.
— Os governadores fazem suas escolhas depois de vocês?
Ela assentiu.
— O Conselho inteiro escolhe depois de nós. O Komizar certifica-se disso. Meu pai ficará feliz com a minha escolha. Os lordes dos quadrantes, eles amam anéis. Isso pode fazer com que consigamos um saco inteiro de grãos e papai pode fazê-los durar por um mês.
Escutei a maneira como ela falou sobre o Komizar, mais como um benfeitor do que um tirano.
— Você disse sempre. Há muitas carretas sendo trazidas para o Sanctum?
— Não — disse ela. — Costumavam ser apenas mercadorias de caravanas de mercadores a cada alguns meses, mas agora há as recompensas de guerra. Nós tivemos seis cargas este mês, mas essa foi a maior delas. As outras foram apenas três ou quatro carretas cheias.
Recompensas de guerra. As patrulhas estavam sendo assassinadas. Pequenas companhias de homens estavam andando para a morte sem ao menos ter ideia de que o jogo tinha mudado. Eles não estavam mais perseguindo alguns poucos bárbaros para mandá-los de volta para trás das suas fronteiras. Eles estavam sendo perseguidos por brigadas organizadas. Para quê? Para dar anéis aos criados? Não, não havia outra coisa em relação a isso. Algo importante o suficiente para enviar um assassino para me matar.
— Eu disse algo errado, senhorita?
Olhei para Aster outra vez, ainda me sentindo tola. Ela mordeu os lábios, decididamente esperando pela minha resposta.
Fomos subitamente alarmadas por uma voz.
— A porta está totalmente aberta. Quanto tempo leva para deixar aqui um par de botas?
Nenhum de nós tinha ouvido Kaden se aproximando. Ele estava em pé, parado na entrada da porta olhando severamente para Aster.
— Não muito — ela engasgou. — Acabei de chegar aqui. É verdade. Eu não estava tagarelando.
Ela passou apertando-se por ele, preocupada como um rato perseguido por um gato, e ouvimos o eco de seus passos correndo pelo corredor. Kaden sorriu.
— Você assustou a menina! Você tem que ser tão severo? — perguntei.
Ele levantou as sobrancelhas, e baixou o olhar para as minhas mãos.
— Não sou eu que estou segurando uma espada.
Ele fechou a porta atrás dele e atravessou o aposento, colocando um frasco e um cesto em cima de um dos baús.
— Eu trouxe um pouco de comida para que você não tenha que fazer as refeições no Saguão. Coma e vista-se, então nós iremos. O Komizar está nos esperando.
— Vestir-me? Com o quê?
Ele olhou para o vestido saco embolado no chão.
— Não — eu disse. — Vou vestir a camisa que estou trajando agora e uma calça sua.
— Eu vou falar com ele, Lia, eu prometo, mas por agora só faça o que eu...
— Ele disse que eu tinha que merecer luxos como roupas, mas ele não disse como. Eu vou lutar com você por elas.
Acenei com a espada, fazendo círculos no chão, provocando-o. Ele balançou sua cabeça em negativa.
— Não, Lia. Isso não é um brinquedo. Você só vai acabar se machucando. Coloque a espada de lado. — Ele falou comigo como se eu fosse Aster, uma criança que não tinha o menor entendimento das consequências. Não, pior ainda, como um nobre que não tinha noção de coisa alguma. Seu tom era superior e desdenhoso e soava mais vendano do que nunca. Calor eriçava os pelos das minhas têmporas.
— Já girei uma vara antes — eu disse. — O que mais há para se saber? — Franzi os lábios e olhei para a espada com os olhos arregalados de espanto. — Este é o punho da espada, não é? — perguntei, tocando a cruz de madeira. — Brinquei com espadas como estas com meus irmãos quando eu era criança. — Eu olhei para ele, com o maxilar cerrado. — Está com medo?
Ele sorriu.
— Eu avisei — ele estendeu a mão para a outra espada que estava encostada na parede, e lancei-me para a frente, golpeando com força sua canela.
— O que você está fazendo? — ele gritou, fazendo uma careta. Ele ficou pulando em um pé só, enquanto segurava o membro machucado. — Nós ainda não começamos!
— Sim, nós começamos, sim! Você começou isso há meses! — Falei e girei a espada novamente, atingindo a mesma perna, do lado. Ele segurou a outra espada e estirou-a para se defender, mancando, obviamente sentindo dor.
— Você não pode simplesmente...
— Deixe-me explicar uma coisa, Kaden! — Eu disse circulando-o, que seguia pelos arredores mancando, tentando me manter à distância. — Se esta fosse uma espada de verdade, você já estaria sangrando. Você desmaiaria, isso se conseguisse ficar de pé, porque meu segundo golpe teria cortado os músculos e tendões de sua panturrilha e teria aberto veias vitais. Tudo o que eu teria que fazer seria continuar mantendo-o em movimento, e seu coração faria o resto, bombeando o sangue para fora até que você entrasse em colapso, o que aconteceria agorinha mesmo.
Ele fez uma careta, segurando sua canela e, ao mesmo tempo mantendo sua espada em prontidão para bloquear outras estocadas.
— Maldição, Lia!
— Veja, Kaden, talvez eu tenha mentido. Talvez eu não fosse apenas uma criança quando usei uma dessas pela última vez, e talvez não fosse apenas por brincadeira. Talvez meus irmãos tenham me ensinado a lutar sujo, para ganhar vantagem. Talvez eles tenham me ensinado a entender os meus pontos fracos e fortes. Eu sei que não posso ter o alcance ou o poder absoluto de alguém como você, mas posso facilmente vencê-lo de outras maneiras. E parece que já fiz isso.
— Ainda não. — Ele se lançou para frente, avançando com ataques rápidos que eu consegui bloquear até que ele me empurrou contra a parede. Ele agarrou meu braço que segurava a espada e prendeu-o, em seguida, inclinou-se contra mim, sem fôlego. — E agora eu tenho a vantagem. — Ele olhou para mim, sua respiração vindo mais lenta e profunda.
— Não — eu disse. — Você teria perdido sangue demais a essa altura. Você já estaria morto.
Ele passou os olhos pelo meu rosto, pelos meus lábios, com sua respiração quente em minha bochecha.
— Não é bem assim — ele sussurrou.
— Eu vou vestir sua camisa e sua calça ou não?
Uma respiração sibilada escapou por entre os dentes dele. Ele soltou meu braço e foi mancando até a cadeira no canto do quarto.
— Eu não atingi você com tanta força assim — falei.
— Não? — Ele sentou-se e puxou para cima a perna da calça. Logo acima de sua bota, um calombo do tamanho de um ovo já inchava. Ajoelhei-me e olhei para aquilo. Ele estava bem feio. Eu o havia atingido com mais força do que eu pensava.
— Kaden, eu... — balancei a cabeça em negativa e olhei para ele, procurando palavras para me explicar.
Ele suspirou.
— Você provou seu ponto.
Eu ainda não tinha certeza se ele havia entendido por que eu estava com raiva ou por que eu o ataquei. Não era apenas por causa da roupa.
— Kaden, estou presa em uma cidade com milhares de pessoas que odeiam tudo sobre quem eu sou. O Komizar me humilhou na frente de todo o seu Conselho noite passada. A única coisa que eu não posso suportar é o mesmo escárnio vindo de você. Você não aprendeu nada sobre mim ainda? Sim, nobres sabem fazer outras coisas além de contar nossos dez dedos do pé. Você é tudo o que tenho aqui. Você é o meu único aliado.
Seus olhos se estreitaram com a palavra aliado.
— E quanto a Rafe?
— O que tem ele? Ele é um cúmplice conivente com um príncipe que provavelmente gostaria de me ver morta mais do que qualquer outra pessoa. Príncipe este que está traindo o meu reino, propondo acordos com vocês em benefício próprio. O que quer que eu pudesse ter pensado que havia entre nós é exatamente isso. Passado. Ele foi uma distração infeliz para mim também e certamente não é um aliado. Para mim ele não é nada além de uma verruga feia no meu bom senso.
Ele estudou meu rosto e finalmente abriu um largo sorriso.
— E o seu bom senso tinha uma mira decididamente aguçada.
Olhei de novo para o calombo que crescia na canela dele.
— Existe algum depósito de gelo no Sanctum?
Ele bufou.
— Esta não é taverna de Berdi, Lia. — Ele mancou até o baú e vasculhou-o, retirando uma calça e um largo cinto de couro. — Estes devem servir por ora — disse, e os atirou em cima da cama.
Como precaução, eu juntei o vestido saco do chão, abri a janela coberta por persianas, e atirei-o para fora.
— Jabavé — eu resmunguei, depois de fazer isso.
Esfreguei as mãos com determinação e me virei de volta para ele. Pelo menos uma questão estava resolvida: Eu nunca mais usaria o vestido de espinhos.
Olhei no cesto que ele tinha trazido.
— O que é tão importante que o Komizar tem de nos ver tão cedo? — perguntei a ele enquanto começava a comer os pãezinhos e o queijo. A lembrança de execuções públicas em Morrighan veio à tona. Elas sempre aconteciam logo depois da alvorada. E se o Komizar não tivesse acreditado na história de Rafe, afinal?
— Ele está de partida para verificar como estão as coisas na província de Balwood, ao norte. O governador não apareceu, o que quer dizer que está provavelmente morto — respondeu Kaden. — Mas o Komizar tem algumas questões aqui para resolver antes de ir.
De partida. As palavras eram como música para meus ouvidos – a melhor notícia que eu tinha ouvido em meses! Embora eu realmente me preocupasse com que questões eram essas que precisavam ser resolvidas. Terminei de comer e Kaden saiu dos aposentos enquanto eu terminava de me vestir. Notei novamente o agudo grito das dobradiças quando ele abriu a porta e me perguntei como eu tinha sido capaz de continuar dormindo apesar do barulho quando ele saiu mais cedo.
Era boa a sensação de calçar minhas botas de novo, limpas. Com meias limpas também. Eu abençoaria Eben esta noite, quando entoasse minhas memórias sagradas. Eu as dizia todas as noites agora, quase como se as estivesse proferindo no lugar de Pauline, como se ela estivesse aqui comigo e nós estivéssemos em nosso caminho para Terravin, prestes a começarmos uma grande aventura, em vez de estar aqui sozinha.

* * *

Caminhamos até Praça da Ala do Conselho. Mais uma vez passamos por um labirinto de corredores, pátios abertos e trilhas estreitas sem janelas com uma lanterna mal iluminando o caminho até a próxima. Kaden me disse que o Sanctum era cheio de passagens abandonadas e esquecidas depois de séculos de construção e reconstrução, algumas com becos sem saída e quedas mortais, de modo que eu deveria ficar perto dele. Muitas das muralhas contavam histórias de suas ruínas. Os escombros empilhados às vezes apresentavam um ato de idolatria macabra, como um braço esculpido ou uma cabeça parcialmente visível de pedra, fitando, inexpressiva, a parte de fora da muralha como um prisioneiro imortal, ou um pedaço de bloco de mármore entalhado com uma nota de outra época, as letras escorrendo como se fossem lágrimas. Mas eram apenas pedra, como as outras, remodeladas para formarem a cidade, um recurso disponível, como Kaden havia se referido a elas. Ainda assim, enquanto entrávamos em outra passagem escura, senti algo e parei, fingindo ajustar os cadarços da minha bota. Pressionei minhas costas contra a parede. Uma batida. Um aviso. Um sussurro.
Será que eu estava simplesmente sendo assombrada por um corredor aterrorizante?
Jezelia, você está aqui.
Parei abruptamente, quase perdendo o equilíbrio.
— Vamos em frente? — perguntou Kaden.
O tamborilar desapareceu, mas o ar estava frio em seu caminho. Olhei em volta. Apenas os ruídos de nossos movimentos preenchiam a passagem. Sim, assombrada, isso foi tudo. Kaden continuava seguindo adiante pela passagem, e eu o acompanhava. Ele estava em seu hábitat, isso era certo, tão confortável caminhando por esta estranha cidade quanto eu estava desorientada. Quão estranha deve ter sido Terravin para ele. E, ainda assim, não foi.
Ele tinha se adaptado com facilmente. Seu morriguês era impecável, e ele havia se sentado, relaxado na taverna, pedindo uma cerveja ale como se aquele fosse um segundo lar para ele. Seria por isso que Kaden achava que eu conseguiria simplesmente entrar nessa vida como se a minha antiga vida nunca tivesse existido? Eu não era um camaleão como ele, que conseguia tornar-se uma pessoa nova apenas por cruzar uma fronteira.
Nós subimos por um serpenteante lance de escadas e saímos em uma praça quadrada similar àquela na qual havíamos chegado ontem, mas é claro que ela não era quadrada – nada em Venda era. Do outro lado, eu podia ver estábulos com cavalos sendo conduzidos para dentro e para fora por soldados. Frangos soltos arranhavam o chão e pavoneavam-se, suas penas farfalhando enquanto pulavam para evitar cavalos. Dois porcos de engorda malhados fuçavam em um chiqueiro perto de nós, e corvos com o dobro do tamanho de qualquer corvo em Morrighan guinchavam de seus poleiros altos em uma torre que dava para a praça. Avistei o Komizar ao longe, guiando alguns vagões que estavam passando pelos portões como se ele fosse uma sentinela. Para o líder de um reino, ele parecia viver com as mãos na massa.
Eu não vi Rafe, o que me trouxe um pouco de alívio inquieto. Pelo menos ele não estava aqui com uma corda em volta do pescoço, mas isso também não significava que ele estava seguro. Onde será que o tinham colocado? Tudo o que eu sabia era que ele estava em algum lugar perto dos aposentos do Komizar, em uma sala segura, que poderia não passar de uma cela bárbara. Conforme nos aproximávamos, os guardas, governadores e os Rahtan viram o Komizar parar e voltar-se em nossa direção. Eles se viraram também. Senti o peso do escrutínio do Komizar. Ele passou seus olhos pela minha pessoa e pela minha nova vestimenta. Quando paramos a beira da multidão, ele caminhou lentamente até nós, para me inspecionar de um modo mais crítico.
— Talvez eu não tenha sido claro na noite passada. Alguns luxos, como roupas e sapatos... têm que ser conquistados.
— Ela fez por merecê-los — disse Kaden, quase cortando as palavras do Komizar.
Seguiu-se um momento relativamente longo de silêncio, e então o Komizar jogou a cabeça para trás e riu. Os outros fizeram o mesmo, caindo em ruidosas gargalhadas, um governador deu um soco no ombro de Kaden. Minhas bochechas ardiam. Eu queria chutar a outra canela de Kaden, mas sua explicação manteve as botas nos meus pés. Assim como soldados em uma taberna, os governadores desfrutavam seu grosseiro entretenimento.
— Surpreendente — disse o Komizar, bem baixinho, desferindo a mim um olhar interrogativo, de relance. — Talvez nobres tenham algum uso, no fim das contas.
Calantha aproximou-se, seguida de quatro soldados que traziam cavalos. Reconheci os cavalos ravianos morrigueses, mais espólios do massacre.
 — São estes? — perguntou o Komizar.
— O pior do lote — respondeu Calantha. — Vivos, mas feridos. As feridas deles estão cheias de pus.
— Levem-nos até o lorde do quadrante de Velte para que sejam abatidos — ele ordenou. — Certifique-se de que ele distribua a carne de forma justa – e certifique-se também de que eles saibam que este presente do Sanctum.
Vi que os cavalos estavam feridos, mas os ferimentos eram cortes que poderiam ser limpos e nas quais um cirurgião poderia colocar um curativo, não eram feridas mortais. Ele dispensou Calantha e foi andando até as carroças, acenando para que o Conselho o seguisse, mas vi o único e pálido olho dela demorar-se nele, a hesitação ali enquanto ela mesma se virava para sair. Desejando-o? Ele? Olhei para o Komizar. Como Gwyneth diria, ele era bem agradável aos olhos, e havia algo inegavelmente magnético sobre a sua presença. Ele exalava poder. Seus modos eram calculados e demandavam respeito. Mas desejo? Não. Talvez fosse outra coisa o que vi em seu olhar.
Os condutores das carroças estavam ocupados soltando lonas, e o Komizar falava com um homem que carregava um livro de registros. Ele era um camarada magro e desmazelado, e parecia estranhamente familiar. Ele conversou baixinho com o Komizar, mantendo os sussurros longe dos ouvidos dos governadores. Dei um passo para trás dos outros, espiando através das costas da irmandade do Sanctum, analisando-o.
— O que foi? — Kaden sussurrou.
— Nada — respondi, e provavelmente não era nada mesmo.
Os condutores jogaram as lonas para trás, e um baque nauseante atingiu meu peito. Engradados. Antes mesmo de o Komizar espiar em um dos engradados abertos, eu sabia o que havia ali. Ele puxou a palha para o lado, sacando garrafas deles e entregando-as aos governadores. Foi, então, andando até Kaden.
— E eu não posso me esquecer do Assassino, posso? Aproveite, meu irmão. — E virou-se para olhar para mim. — Por que tão pálida, Princesa? Você não gosta da safra de vinho de seus próprios vinhedos? Posso assegurá-la, os governadores a adoram.
Era o reverenciado vinho canjovês dos vinhedos morrigueses.
Aparentemente, ataques em caravanas mercadoras era algo que estava entre os muitos talentos do Komizar. Era dessa forma que ele garantia sua posição. Aquisição de luxo para seu Conselho que só ele parecia capaz de obter: garrafas de vinho caro para quais os Reinos Menores pagavam grandes somas, presentes de espólios de guerra para os criados, carne fresca doada aos famintos...
Mas barriga cheia era barriga cheia. Como eu poderia discutir com isso? E meu próprio pai dava presentes para seu gabinete, apesar de não assaltar caravanas para obtê-los. Quantos condutores morrigueses tinham morrido nas mãos dos assaltantes para que o Komizar pudesse mimar seus governadores? O que mais eles haviam roubado, e quem haviam matado para conseguir isso? A lista de mortes parecia crescer cada vez mais.
Ele deu rédeas largas para que o Conselho revirasse os outros engradados nas carroças restantes e para que dividisse a carga entre eles, e, em seguida, caminhou de volta para nós. Ele jogou uma pequena bolsa para Kaden que retiniu quando caiu na palma da mão dele.
— Leve-a para a jehendra e consiga algumas roupas adequadas para ela.
Olhei para o Komizar suspeitosamente.
Ele arqueou as sobrancelhas inocentemente, e afastando os longos cachos escuros do rosto. Ele parecia um menino de dezessete anos, em vez de um homem de quase trinta. Um dragão de muitas faces. E quão bem ele as usava.
— Não se preocupe, princesa — disse ele. — Apenas um presente meu para você.
Então por que isso criou um buraco ácido no meu estômago? Por que a mudança a partir de um vestido feito de saco, para o presente de roupas novas? Ele parecia estar sempre um passo à minha frente, sabendo exatamente onde pressionar para me tirar de equilíbrio. Presentes sempre vinham com um preço.
Um soldado trouxe seu cavalo enquanto um esquadrão inteiro esperava por ele no portão. Ele tomou as rédeas, deu suas despedidas, em seguida, acrescentou:
— Kaden, você será o Mantenedor em minha ausência. Caminhe comigo até o portão. Tenho algumas coisas para lhe dizer.
Eu os assisti se afastarem, o braço do Komizar apoiado no ombro de Kaden, suas cabeças unidas, conspirando. Um arrepio assustador me atravessou como se eu estivesse vendo fantasmas. Eles poderiam ser meus próprios irmãos, Regan e Bryn, andando pelos corredores do Civica, confiando em segredo. A pequena discórdia que eu tinha plantado já estava desaparecendo. Eles tinham uma história juntos. Fidelidade. O Komizar o chamou de irmão, como se eles realmente o fossem. Eu sabia, mesmo minutos atrás quando chamei Kaden de aliado, que ele não o era, não enquanto Venda vinha primeiro.

3 comentários:

  1. Posso estar errado, mas tenho a impressão que esse Komizar é gay. Essa afeição dele pelo Kaden me parece produnda DEMAIS.

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    1. Nossa, sério? Eu vejo tipo como irmãos. Não dá pra imaginá-los dessa maneira

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  2. Já eu penso que Komizar está se interessando por Lia, mas ele mesmo ainda não percebeu.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!