6 de fevereiro de 2018

Capítulo 12. Por todos os sofrimentos do mundo

A noite já estava avançada e a sala da Central de Polícia cheia da fumaça dos muitos cigarros consumidos na reunião.
Andrade não fumava. O que ele sentia, naquele momento, era a garganta e os olhos ardentes da fumaça dos outros. E uma fome desesperada.
Um guarda saiu para buscar sanduíches. Três para Andrade e um para cada participante da reunião: o doutor Hector Morales, o diretor da Penitenciária de Segurança Máxima, dois homenzarrões altos e corpulentos e uma senhora magrinha que estava lá como intérprete, já que os dois grandalhões não entendiam uma palavra de português.
Os dois tinham chegado ao entardecer, e Andrade estranhou quando foi apresentado a eles pelo cônsul dos Estados Unidos:
— Estes são nossos especialistas em sequestros do Federal Bureau of Investigation, o FBI, como o senhor sabe, detetive Andrade. Este é o agente Patrick Lockwood...
— Parece nome de tira de seriado! — resmungou Andrade, sabendo que os agentes não entendiam português.
— Ah, ah, boa piada, detetive Andrade! E este outro é o agente Iúri Mikhailevich...
— Iúri o quê?! — perguntou o gordo detetive, já meio incomodado pela interferência estrangeira na sua investigação. — Isso não é nome russo?
— Bem... quer dizer... — gaguejou o cônsul. — É que Iúri era da KGB, a polícia secreta dos soviéticos. Mas, como a União Soviética não existe mais, ele veio procurar emprego nos Estados Unidos. O pessoal da CIA, a nossa polícia secreta, recomendou-o muito bem. Daí, resolvemos aproveitá-lo no FBI...
“Esses americanos são uns malucos!”, pensou Andrade, no início da reunião.
— Até agora não conseguimos descobrir como o Doutor Q.I. fugiu da nossa prisão — começou o diretor da Penitenciária de Segurança Máxima. — Ele não deixou pista alguma. Não há portas arrombadas, não há grades cerradas, os computadores que controlam as celas e as saídas estão intactos, ninguém parece ter sequer se aproximado das cercas e das portas eletrificadas. Só o que sei é que o homem não está mais lá dentro. Sumiu como um fantasma!
A mulher magrinha traduziu rapidamente para o inglês. O agente Patrick Lockwood fez uma expressão forçadamente inteligente e balançou a cabeça.
— Well... that’s our cumber one suspect...  ( — Bem... Esse é o nosso suspeito número um…)
Iúri Mikhailevich perguntou:
— Shtó?... Oh, izvinítie... Me sorry... lá nitchevó nhe partimáiu... Me not underrrstand verry vell… ( O quê?... Oh, desculpe... Desculparr mim... Eu não estou entendendo muito bem... Mim não estarr entendendo dirreito.)
O russo ainda não havia aprendido inglês direito, e a mulher magrinha teve de repetir tudo, bem lentamente, até que Iúri Mikhailevich demonstrasse ter entendido.
— Pelo jeito, a segurança da sua penitenciária não é tão máxima assim, não é, diretor? — provocou Andrade.
O diretor mexeu-se na cadeira, ofendido:
— Detetive Andrade, eu lhe garanto que o modo de sair da penitenciária que eu dirijo é pela porta da frente, com um alvará de soltura. Só que nenhum dos sentenciados que estão lá poderá ser solto antes de cinquenta anos. Assim, a única maneira de sair da Penitenciária de Segurança Máxima é através de um alvará de transferência para outro presídio. Não conheço outro modo!
Andrade levantou-se e caminhou pela sala, praguejando:
— Diabo! O jeito vai ser interrogar todos os guardas, todos os prisioneiros...
— Meus guardas e carcereiros estão às suas ordens, detetive — ofereceu o diretor. — Mas duvido que os prisioneiros informem qualquer coisa ao senhor. Lá dentro estão as maiores feras do nosso Estado. Se somarmos todas as penas que cada um deles tem a cumprir, vai dar mais de dez vezes toda a Era Cristã...
— Precisamos descobrir como o Doutor Q.I. fugiu — insistia Andrade. — Precisamos de pistas! Precisamos pelo menos de uma ponta da meada, para que eu possa começar a puxar...
A conversa emperrou mais um pouco, até que a intérprete traduzisse o que estava sendo dito e até que o russo entendesse pelo menos por alto.
— Shtó? Vhat? Shtó on skazal? ( O quê? O quê? O que ele disse? )

* * *

A porta se abriu e Andrade olhou ansiosamente. Na certa eram os sanduíches...
Não eram. Era um outro guarda.
— Telefone para o senhor, detetive Andrade.
— Eu já não disse que não podemos ser interrompidos?
— Desculpe, detetive... Ela disse que é sua sobrinha. E que é urgente... Na linha dois...
“Magrí, só pode ser Magrí!”, pensou Andrade, pedindo licença para atender na outra sala. Não queria falar com Magrí na frente daquelas pessoas.
Pegou o fone e apertou a tecla da linha dois. Era Magrí.
— O que você quer, minha querida? Estou numa reunião muito importante e...
— Andrade, precisamos falar com você!
— É sobre o Chumbinho? É claro que é sobre o Chumbinho! Não se preocupe, minha querida, estamos tomando todas as providências e...
O detetive argumentou de todas as maneiras, mas era impossível vencer a teimosia e a argumentação de Magrí. Principalmente a teimosia.
Acabou concordando. Na manhã seguinte, cedinho, no Parque do Ibirapuera. Ele estaria lá.
“Ah, esses meninos!”, pensava ele, ao desligar.

* * *

Quando voltou para a sala, os sanduíches e algumas garrafas de refrigerante já estavam sobre a mesa.
O calor e a fome eram grandes, e todos interromperam a reunião com prazer.
Depois de devorar seus três sanduíches, no mesmo tempo que Hector Morales levou para comer apenas um, Andrade perguntou:
— E o doutor Bartholomew Flanagan? Como é ele, doutor Morales? Quando os sequestradores telefonarem novamente, vamos pedir uma prova de que o cientista ainda está vivo. Para isso, preciso saber de detalhes da vida e da personalidade dele, para que a gente possa criar algumas perguntas que só ele possa responder...
— O doutor Bartholomew Flanagan? — começou Morales. — Oh, eu o conheço muito bem! Ele...
A senhora magrinha acabava de traduzir para os agentes do FBI o que Andrade e Morales conversavam quando o agente Patrick Lockwood levantou seu corpanzil e veio de lá com um envelope na mão:
— Here you are, detective. We brought everything we need to know about Doctor Bartholomew Flanagan. Here’s some photos and here is a paper with a briefing about his life... (— Aqui está, detetive. Nós trouxemos tudo o que precisamos saber sobre o doutor Bartholomew Flanagan. Aqui estão algumas fotos e uma ficha com um resumo sobre sua vida.)
Dessa vez foi Andrade que não entendeu nada:
 — O que ele disse?
A intérprete traduziu:
— Ele disse que o FBI tem toda a ficha do doutor Bartholomew Flanagan. Trouxe algumas fotos e um resumo da vida dele...
Andrade pegou o envelope. Havia várias fotos. Em várias delas, o cientista aparecia sorridente, de bermudas e óculos escuros. Andrade leu atrás das fotos. Algumas eram da Praia de Tampa, na Flórida, outras de Acapulco, no México, e as mais bonitas eram de Honolulu, no Havaí.
Olhou as duas folhas de computador que acompanhavam as fotos e estendeu-as para a senhora magrinha.
— Traduza, por favor.
A mulher ajeitou os óculos e traduziu.
— Bartholomew Sayre Flanagan. Nascido em 1939, em Augusta, na Geórgia. Apelido de infância: Bímbow. Doutorado em ciências biomédicas por Harvard. Principal cientista da Drug Enforcement. Casado com Mildred Winterland Flanagan em 1963. Enviuvou em 82. Sem filhos. Mora na Praia de Malíbu, na costa oeste. Costuma passar suas férias nas praias da Flórida, no México ou no Havaí. Foi surfista quando jovem...
— Shtó? Vhat? — perguntava o russo. — Izvinítie... lá nitchevó nhe panifnáiu... Me not underrstand… (— O quê? O quê? Desculpe... Eu não estou entendendo direito... Mim não entender...)
Depois que a intérprete terminou de traduzir os registros do FBI sobre o cientista sequestrado, e de tentar esclarecer alguma coisa para o agente russo, Andrade voltou-se para Hector Morales:
— Um folgadão, esse doutor Flanagan! Que vidão esses cientistas americanos levam! Malibu, Havaí, Acapulco, Flórida!
Hector Morales concordou:
— É verdade. Flanagan sabia levar a vida, quando conseguia tirar férias. Mas, no trabalho, era o mais compenetrado e competente de todos os cientistas da Drug Enforcement. Encontre-o, detetive Andrade. Ele tem de estar inteiro, para ganhar o Prêmio Nobel pela descoberta da cura para a praga do século!
— A Droga do Amor...
— Shtó? Shtó? Vhat? Vhat? — perguntava o russo, que não entendia uma vírgula de tudo o que estava acontecendo.

* * *

Antes de ir para casa, Magrí tomou um táxi e rumou para o hospital. Precisava de notícias de dona Iolanda.
Era um hospital particular, pequeno, um dos mais bem equipados da cidade.
Um carro negro estava discretamente estacionado em frente. Encostados no capô, dois homens conversavam.
Magrí empurrou a porta de vidro e entrou no saguão do hospital. Uma recepcionista estava meio oculta atrás de um balcão.
— Boa noite — cumprimentou Magrí. — Eu queria visitar Iolanda Negri.
A mulher levantou a vista. Pelo jeito, estava de muito mau humor por ter de cumprir aquele plantão noturno. Respondeu, carrancuda:
— A paciente está na Unidade de Terapia Intensiva. Visitas proibidas.
— Mas a senhora nem olhou na lista. Como sabe que...
— Não insista, mocinha. Boa noite.
Magrí não desistia.
— Olhe, moça. Então eu queria falar com algum dos médicos encarregados de cuidar dela...
A mulher olhou para Magrí de novo.
— Um momento.
Sua mão desapareceu sob o balcão. Devia ter acionado uma campainha ou algo assim, pois logo apareceu um homem sorridente, todo de branco, estetoscópio pendurado no pescoço.
— Pois não?
— Esta mocinha quer saber notícias da paciente baleada que está na UTI — informou a recepcionista, de maus modos.
O médico sorriu:
— Sim? A senhorita é filha da paciente?
— Não. Sou aluna dela. Ela é minha amiga...
O médico aproximou-se de Magrí, afavelmente. No entanto, sua expressão era séria.
— Olhe, mocinha, sua professora foi baleada seriamente. Ela se encontra em coma profundo. Mas ela está sob os cuidados da melhor equipe médica. Estamos fazendo de tudo. Talvez, em vinte e quatro horas, ela comece a reagir. Confie em nós.
No táxi, de volta para casa, Magrí deixou-se chorar. Por dona Iolanda, por Chumbinho, pelo amor dos Karas, por todos os sofrimentos do mundo...

* * *

O jardim da casa de Magrí estava escuro. Árvores altas sacudiam docemente os ramos sob a brisa da noite de verão.
Nas sombras, um vulto. Um vulto pequeno, recurvado. Como um felino noturno, o vulto arrastou-se cuidadosamente na direção da janela iluminada.
Dentro do retângulo de luz que vinha da janela aberta, Magrí entrava no quarto e jogava-se na cama, sem apagar a luz. Pelo jeito, ainda chorava.
Apoiando suas pequenas mãos deformadas no parapeito da janela, o vulto ergueu a cabeça. Os olhos argutos do anão invadiram o quarto.

3 comentários:

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!