14 de fevereiro de 2018

Capítulo 12. Droga de americana!

Depois que Chumbinho desapareceu na escuridão dos telhados, Crânio não conseguia acreditar no que o garoto tinha contado:
— Magrí, na mão de sequestradores! E para salvar a pele dessa gringa... Droga de americana!
Miguel não gostou do mau humor do amigo:
— Magrí fez o que tinha de fazer. Exatamente o que você faria, no lugar dela.
Com Magrí em risco de vida, estava difícil para Crânio controlar-se:
— Precisamos do Chumbinho e do Calú de volta logo, Miguel. Esse helicóptero já deve estar longe, a esta hora. Temos de agir! Cadê esses dois Karas?
— Estão vindo. E Peggy virá junto.
— Não gosto disso. Essa droga de americana vai acabar nos atrapalhando!
— Controle-se, Crânio! — ralhou Miguel. — Chumbinho contou que a menina é valente. Disse que até parece um Kara de verdade!
— Não gosto disso mesmo, Miguel. Não gosto nem pouco disso. A única menina que é um Kara de verdade é a Magrí!
— Não adianta discutir agora. Eles estão muito vulneráveis, escondidos em cima do telhado. E não podemos expor a filha do presidente, senão Magrí estará perdida. Mandei que Calú arranjasse um modo de nos disfarçar. Precisamos do anonimato para investigar. Se a gente ficar especulando por lá, o Andrade vai cair na nossa pele, com aquele jeito de paizão dele, e vai acabar descobrindo o que estamos fazendo. O que será de Magrí então?
— Está bem, Kara — concordou Crânio, ainda descontente com essa história de comparar uma americaninha desconhecida com sua inigualável Magrí.
— Magrí foi demais! — comentou Miguel. — Salvou a vida da americana, sacrificando-se em seu lugar. Fazer-se passar pela filha do presidente dos Estados Unidos era mesmo a única saída. A ideia de um Kara!
Crânio avaliava a situação e não parecia contente com o que concluía:
— E por quanto tempo você acha que Magrí vai conseguir manter esse jogo, Miguel? Você não vê como isso é arriscado? Infelizmente o plano dela só serviu para salvar Peggy. Na hora em que ela chegar onde quer que os bandidos a estejam levando, algum dos sequestradores vai perceber o erro cometido. E, daí...
Miguel ouvia o amigo com as sobrancelhas franzidas. Não o interrompeu.
— O que eu quero dizer é... Quero dizer que... que tudo o que Chumbinho fez talvez não baste para salvar a vida de Magrí. Talvez nem tenha adiantado nada ele esconder essa menina. Se os bandidos descobrirem o engano, Magrí estará morta!
Compreendendo os riscos da decisão de Magrí, o lábio inferior do líder dos Karas tremeu. Crânio continuava:
— Magrí assumiu conscientemente esse sacrifício, Miguel. Ela entendeu que o desaparecimento ou a morte da filha do presidente provocaria uma verdadeira crise, enquanto, no caso dela, seu desaparecimento, sua própria morte, não alterariam em nada a situação do mundo!
Juntos, os dois Karas haviam concluído que a situação não tinha remédio: salvar Magrí, que salvara Peggy, era praticamente impossível. Após uma pausa, Crânio suspirou fundo:
— Desgraçadamente é isso. Mesmo que Magrí consiga continuar enganando os bandidos, há ainda outro perigo, e esse não temos jeito de evitar...
— Outro perigo?! — Miguel estava ofendido, corno se o raciocínio de Crânio fosse o culpado pela situação de Magrí. — Você não acha que já temos perigos demais?
— Mesmo que Magrí consiga enganá-los, esses sequestradores podem resolver matar Peggy, isto é, Magrí, mesmo depois de receberem o resgate, ou seja lá o que tenham exigido em troca da menina!
— O que você está dizendo, Crânio?
— E as três garotas que estavam no vestiário, Miguel? Esqueceu-se delas? É claro que elas devem ter dito aos policiais que Peggy estava no vestiário junto com Magrí!
— Nesse caso, a polícia pode pensar que os sequestradores levaram as duas... — Mas os sequestradores sabem que só levaram uma! E daí, mesmo que Magrí consiga enganá-los mais um pouco, quando souberem de algum noticiário falando do desaparecimento de duas meninas, vão querer descobrir qual das duas eles levaram, não? E isso seria...
Miguel baixou os olhos:
— Isso seria o fim de Magrí, não é isso o que você quer dizer?
MacDermott entrou no luxuoso banheiro dos aposentos presidenciais. Sherman Blake o seguiu.
O banheiro era imenso e reluzia de tantos dourados. O presidente americano abrira uma torneira da pia, provocando um jorro forte, e estava com a cabeça debaixo d’água.
— Wilbur...
O presidente levantou a cabeça molhada e recebeu uma toalha das mãos de
 seu guarda-costas, que, atrás dele, estranhamente ousava chamá-lo pelo primeiro nome:
— Ahn? O que você quer, Blake?
A expressão do atlético Sherman Blake era desafiadora:
— Eu quero que você salve a vida de Peggy, seu miserável!
— Como?! — os olhos do presidente arregalaram-se, surpresos com o absurdo de ser tratado daquela forma por um subordinado.
— O que é isso, Blake?
O guarda-costas tremia enquanto falava:
— Deixe o orgulho de lado, Wilbur! Peggy vale mais do que o seu maldito orgulho!
— Blake! Você enlouqueceu? Nós somos amigos há muitos anos, mas isso não lhe dá o direito de...
— Muuuuitos anos mesmo, Wilbur! — Blake quase gritava. — E foram anos em que você só pensou em si mesmo, na miserável da sua carreira. Anos em que jamais teve tempo para a pequenina Peggy! Nem você nem sua mulher. Vocês dois só sonhavam com o poder, com conchavos políticos, jantares diplomáticos, enquanto eu, somente eu, fazia o verdadeiro papel de pai para ela!
— Blake, controle-se! Eu exijo que você se controle. É natural que esteja sofrendo, todos nós estamos sofrendo, mas é preciso manter a cabeça no lugar!
— Cabeça no lugar! — Blake ria nervosamente, descontrolado. — O único lugar em que sua cabeça sempre esteve foi nas nuvens, com seus sonhos doidos de poder, de prestígio! Pois agora, pelo menos agora, aproveite a oportunidade. Defenda a vida da menina. Tente amá-la um pouco, como eu a amo!
Os gritos no banheiro presidencial foram ouvidos no salão. E, quando Rodrigues Lobo, Pacheco e Hooper para lá acorreram, viram o guarda-costas presidencial soluçando como uma criança, abraçado a MacDermott.
— Vamos, Blake... — consolava o Presidente, compreendendo a explosão do amigo, que sempre havia amado e se dedicado a Peggy, como se ela realmente fosse sua filha. — Agora, calma... Tudo vai acabar bem, você vai ver, tudo vai acabar bem...
— Salve a minha Peggy, Wilbur... Por favor, salve a minha menina... Por favor... Faça qualquer coisa... O que tiver de ser feito... Salve Peggy... Ela é tudo o que eu amo nesta vida...
Os soluços de Blake calavam a todos. “Ah, que coisa mais triste!”, pensava Pacheco. “A dor de perder alguém a quem se ama...” “O que eu posso dizer?”, hesitava Rodrigues Lobo. O que eu faria, se tivesse de decidir entre a felicidade do planeta e a vida da minha filha?”
Hooper balançava a cabeça, estranhando a cena: “Quem é que está sofrendo realmente como um pai? MacDermott?... Ou Blake?”
— Uh-uh!
— É Chumbinho com a filha do presidente, Crânio. Responda.
— Uh-uh-uh...
Em um minuto, Chumbinho descia do muro trazendo a menina mais procurada do país.
O líder dos Karas reconheceu-a da exibição de ginástica daquela tarde, quando seu coração sentira-se apertado. Agora, vendo-a de perto, ainda que suja por ter-se arrastado pelos telhados, vestindo o uniforme de Chumbinho, aquela sensação voltou-lhe, mais forte ainda, perturbando as emoções de Miguel.
— Here we are, Peggy — anunciou Chumbinho. — Chegamos. Estes são os meus amigos.
A expressão da filha do presidente dos Estados Unidos era segura, decidida, de quem sabe que ninguém ali estava brincando. Por um breve momento, Miguel deixava que a emoção lhe dominasse a cabeça. O rosto de Peggy entrava-lhe pelo olhar e em seu coração acomodava-se.
Sacudiu a cabeça, procurando afastar aquela sensação inoportuna e decidiu, recuperando o controle sobre si mesmo:
— De agora em diante só vamos falar na língua dela. Ela precisa entender tudo o que combinarmos. Peggy, obrigado por nos ajudar a proteger Magrí.
— E o que mais eu poderia fazer? — disse a americana com uma coragem encantadora. — Ela está arriscando a própria vida por mim, não está?
— Certo. Agora suba nesta árvore — ordenou Miguel, como se fosse a coisa mais natural do mundo dar ordens para a filha de um presidente. — Você precisa ficar escondida, até que Calú possa disfarçá-la.
Agilmente, a americana obedeceu, desaparecendo entre as ramagens. O rosto de Crânio queimava. Para salvar aquela intrometida, sua querida Magrí estava nas mãos de bandidos. E a vida de Magrí era tudo para aquele rapaz:
“Droga de americana! Por que essa danada tinha de vir para o Brasil? Ai, o que vai ser da minha Magrí? Droga de americana! Droga de americana!”
— Uh-uh!
Desta vez era Calú que chegava. Chumbinho emitiu os pios de coruja avisando que a frente de batalha estava livre, e o ator dos Karas logo desceu do muro. Carregava um saco, feito Papai Noel.
Tinha rastejado pelos telhados em outra direção e, afastando algumas telhas, conseguira entrar no teatro do Colégio Elite. De um dos camarins, pegou um estojo de maquiagem, procurou por perucas, escolheu alguns adereços e estava quase saindo quando se lembrou da figura de Chumbinho, de cuecas. No escuro, apanhou um par de calças qualquer, do armário de figurinos.
— Está tudo aí, Calú?
— Tudo, Miguel.
— Vamos. Depressa!
Miguel organizou a sessão de transformações que agora seriam operadas por Calú. Crânio ficaria por último esperando discretamente no meio da aglomeração que se mantinha inalterada à frente dos portões da área esportiva. Talvez alguma novidade surgisse por ali.
No alto da árvore, o jovem ator dos Karas começou a planejar a maquiagem de Peggy. A menina teria de ficar irreconhecível, ainda que o próprio pai trombasse com ela na rua.
“Os Karas não vão me libertar... Não há mais tempo... Eu vou morrer... vou morrer...”
As forças de Magrí tinham chegado ao fim. Sem uma peça de roupa sobre o corpo entorpecido pelo frio, nada mais havia para ela fazer, além de chorar e silenciosamente despedir-se da vida:
“Adeus, mamãe... adeus, papai... adeus, meus queridos Karas... adeus, Crânio, meu amor! Crânio... Por que eu não segui o que o meu coração mandava e fiquei para sempre com você? Ai! Para sempre? Não há mais ‘para sempre’... Esses bandidos vão me matar... vão me matar...”
Lutou para não soluçar. Mesmo no fim de sua vida tão curta, ela havia de morrer como um Kara:
“Adeus, meus amigos... para sempre...”

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