24 de fevereiro de 2018

Capítulo 11

Querido Thom,
Estou mandando um boné porque Nathan e eu fomos a um jogo de beisebol de verdade ontem, e todos os jogadores usavam boné (na realidade usavam capacetes, mas essa é a versão tradicional). Comprei um para você e outro para alguém que eu conheço. Peça para a sua mãe tirar uma foto de você com o boné para eu pendurar na minha parede!
Não, acho que não tem nenhum caubói nesta parte dos Estados Unidos, infelizmente. Mas hoje vou a um clube de campo e vou ficar de olho para o caso de aparecer algum caubói cavalgando. Obrigada pelo desenho muito bonito do meu popô e meu cachorro imaginário. Eu não tinha percebido que meu bumbum ficava com aquele tom de roxo embaixo da calça, mas vou levar isso em conta se algum dia for passear pelada pela Estátua da Liberdade, como está no desenho.
Talvez a sua versão de Nova York seja ainda mais emocionante do que a cidade de verdade.
Com amor.
Bjs, Tia Lou

* * *

O clube Grand Pines se estendia por quilômetros de uma área exuberante, com árvores e campos em ondulações tão perfeitas e em tonalidades tão vivas de verde que pareciam saídos da imaginação de um menino de sete anos pintando com giz de cera.
Em um dia fresco e de céu aberto, Garry nos levou devagar pelo longo caminho, e, quando o carro parou diante do extenso prédio branco, um jovem de uniforme azul-claro se adiantou e abriu a porta de Agnes.
— Bom dia, Sra. Gopnik. Como vai a senhora?
— Muito bem, obrigada, Randy. E você, como está?
— Não podia estar melhor, madame. Lá dentro já está enchendo. Grande dia!
Como o Sr. Gopnik tinha ficado preso no trabalho, coube a Agnes entregar a Mary, uma das funcionárias antigas do clube, um presente pela aposentadoria. Durante a maior parte da semana, Agnes deixara claro como se sentia por ter que fazer isso. Ela detestava o clube. Os amigos da ex-Sra. Gopnik estariam lá. E Agnes detestava falar em público. Ela não conseguiria fazer aquilo sem Leonard.
No entanto, dessa vez ele foi irredutível. Isso vai ajudá-la a tomar posse do seu espaço, querida. E Louisa estará lá com você.
Ensaiamos o discurso dela e traçamos um plano. Chegaríamos ao Grande Salão o mais tarde possível, no último minuto antes de as entradas serem servidas para que pudéssemos nos sentar nos desculpando, culpando o trânsito de Manhattan. Às duas da tarde, depois do café, Mary Lander, a aposentada em questão, ficaria de pé, e algumas pessoas fariam comentários gentis sobre ela. Então Agnes se levantaria, pediria desculpas pela ausência inevitável do Sr. Gopnik e diria mais algumas palavras agradáveis sobre Mary antes de lhe entregar o presente de aposentadoria. Permaneceríamos por mais uma meia hora diplomática e depois iríamos embora, alegando assuntos importantes a resolver na cidade.
— Esse vestido está bom?
Ela estava com um conjunto inusitadamente conservador: um vestido reto fúcsia com um bolero mais claro de manga curta e colar de pérolas. Não era seu estilo habitual, porém compreendi que ela precisava se sentir dentro de uma armadura.
— Está perfeito.
Ela respirou fundo e eu sorri para lhe incentivar um pouco. Então Agnes agarrou a minha mão e a apertou.
— Vamos entrar lá e logo depois sair — falei. — Não tem nada de mais.
— Dois grandes dane-se — murmurou ela, dando um leve sorriso.
A construção em si era clara e espaçosa, pintada de creme, com imensos vasos de plantas e reproduções de móveis antigos por toda parte. Os corredores revestidos de carvalho, os retratos dos fundadores nas paredes e os funcionários silenciosos transitando de um cômodo para outro eram acompanhados pelo burburinho abafado de conversas em voz baixa e pelo tilintar ocasional de um copo ou uma xícara de café. Tudo era lindo de se ver e toda necessidade parecia ser prontamente atendida.
O Grande Salão estava cheio, com cerca de sessenta mesas redondas decoradas com elegância, repletas de mulheres bem-vestidas, conversando por cima de copos de água mineral sem gás ou ponche. Os cabelos seguiam o mesmo padrão — todas as mulheres tinham feito escova — e o traje adotado era dispendiosamente elegante — vestidos bem-cortados com jaquetas bouclé ou peças separadas combinadas com esmero. O ar estava pesado com a mistura inebriante de perfumes. Em algumas mesas, havia um homem solitário rodeado de mulheres, porém eles pareciam estranhamente assexuados em uma sala com uma presença feminina tão predominante.
Para um observador distraído — ou talvez um homem comum —, quase nada pareceria fora de lugar: movimentos suaves de cabeça, uma redução no barulho conforme passamos, um ligeiro franzir de lábios. Eu estava andando atrás de Agnes, que estancou de repente, fazendo com que eu quase batesse em suas costas. Então vi a disposição da mesa: Tabitha, um jovem, um homem mais velho, duas mulheres que não reconheci e, ao meu lado, uma mulher mais velha, que ergueu a cabeça e fuzilou Agnes com o olhar. Quando o garçom se adiantou e puxou a cadeira, Agnes se sentou de frente para o Alerta Roxo em pessoa, Kathryn Gopnik.
— Boa tarde — cumprimentou Agnes de forma abrangente, a todos na mesa, conseguindo não olhar para a primeira Sra. Gopnik.
— Boa tarde, Sra. Gopnik — respondeu o homem sentado ao meu lado.
— Sr. Henry — retribuiu Agnes, com um sorriso hesitante. — Tab. Você não contou que viria hoje.
— Não sabia que tínhamos que informar a você todos os nossos passos. Nós temos, Agnes? — provocou Tabitha.
— E você, quem é?
O cavalheiro mais velho à minha direita se virou para mim. Quase respondi que era uma amiga de Agnes de Londres, mas percebi que isso seria impossível.
— Sou Louisa — respondi. — Louisa Clark.
— Emmett Henry — disse ele, estendendo a mão enrugada. — Encantado em conhecê-la. Esse sotaque é inglês?
— É, sim.
Olhei para cima para agradecer ao garçom que me servia água.
— Que encantador. E você está aqui a passeio?
— Louisa trabalha como assistente de Agnes, Emmett.
A voz de Tabitha se elevou na mesa.
— Agnes criou o extraordinário hábito de trazer os funcionários para eventos sociais.
Minhas bochechas coraram. Senti o peso da análise minuciosa de Kathryn Gopnik, junto com os olhares do restante da mesa.
Emmett refletiu por um instante.
— Bem, sabe, minha Dora levava Libby, a enfermeira, a absolutamente todos os lugares nos seus dez últimos anos. A restaurantes, ao teatro, aonde quer que nós fôssemos. Ela dizia que a velha Libby era uma interlocutora melhor do que eu.
Ele deu um tapinha na minha mão e soltou um risinho, e várias pessoas na mesa amavelmente fizeram o mesmo.
— Ouso dizer que ela estava certa.
E assim fui salva da condenação social por um homem de oitenta e seis anos.
Emmett Henry conversou comigo enquanto comíamos a entrada de camarão, contando-me sobre sua longa sociedade no clube, os anos em que atuou como advogado em Manhattan, a aposentadoria passada em uma instituição para idosos perto dali.
— Eu venho aqui todos os dias, sabe. Me mantém ativo, e sempre tem gente com quem conversar. É minha casa fora de casa.
— É lindo — elogiei, olhando para trás. Na mesma hora várias cabeças viraram para o outro lado. — Entendo por que o senhor gosta de vir aqui.
Por fora, Agnes parecia serena, porém percebi que suas mãos tremiam de leve.
— Ah, este é um prédio histórico, querida. — Emmett indicou o lado da sala onde havia uma placa. — Foi construído em... — disse, fazendo uma pausa para causar impacto; então pronunciou devagar: — 1937.
Não quis contar a ele que na nossa rua na Inglaterra havia uma habitação social ainda mais antiga. Acho que minha mãe até tinha um par de meias mais velhas do que isso. Assenti, sorri, comi meu frango com cogumelos selvagens e tentei pensar em alguma maneira de me aproximar de Agnes, que estava claramente infeliz.
A refeição se arrastou. Emmett me contou histórias intermináveis sobre o clube e coisas divertidas ditas e feitas por pessoas de quem eu nunca ouvira falar, e de vez em quando Agnes erguia o olhar e eu sorria para ela, mas era perceptível que ela estava mal. As pessoas espiavam a nossa mesa e cochichavam. As duas Sras. Gopnik sentadas a centímetros de distância uma da outra! Dá para imaginar?! Depois do prato principal, pedi licença e me levantei.
— Agnes, você se importaria de me mostrar onde fica o toalete? — perguntei.
Achei que mesmo dez minutos longe daquela sala já ajudariam.
Antes que ela pudesse responder, Kathryn Gopnik colocou o guardanapo na mesa e se virou para mim.
— Eu mostro, querida. Estou indo na mesma direção.
Ela pegou a bolsa e parou do meu lado, aguardando. Olhei para Agnes, mas ela não se mexeu. Depois fez que sim com a cabeça.
— Vá. Eu vou... terminar meu frango — disse ela.
Segui Kathryn entre as mesas do Grande Salão até o corredor, com os pensamentos frenéticos. Atravessamos o corredor acarpetado, eu alguns passos atrás dela, e paramos diante do toalete. Ela abriu a porta de mogno e recuou um passo, me dando passagem.
— Obrigada — murmurei, e entrei em uma cabine.
Eu nem estava com vontade de fazer xixi. Sentei no vaso: se eu ficasse lá um bom tempo, talvez ela fosse embora antes de eu sair da cabine, mas, quando saí, vi que estava em frente às pias, retocando o batom. Ela olhou para mim enquanto eu lavava as mãos.
— Então você mora na minha antiga casa — comentou.
— Moro.
Não havia muito sentido em mentir. Ela franziu os lábios e então, satisfeita, guardou o batom.
— Tudo isso deve ser muito constrangedor para você.
— Só estou fazendo o meu trabalho.
— Hum.
Ela pegou uma escova pequena na bolsa e a passou de leve no cabelo. Fiquei na dúvida se seria grosseiro sair do banheiro sozinha e se a etiqueta pregava que eu também deveria voltar para a mesa com ela. Enxuguei as mãos e me inclinei em direção ao espelho, vendo se o rímel tinha borrado para poder enrolar o máximo possível.
— Como está o meu marido?
Pisquei.
— Leonard. Como ele está? — insistiu ela. — Com certeza não será nenhuma grande traição você me contar como ele está.
O reflexo dela me encarava.
— Eu... eu não o vejo muito. Mas ele parece estar bem.
— Fiquei me perguntando por que ele não veio. Se a artrite piorou de novo.
— Ah. Não. Acho que ele tinha um compromisso de trabalho hoje.
— Um “compromisso de trabalho”. Bem, acho que isso é uma boa notícia, afinal de contas.
Kathryn guardou a escova com cuidado na bolsa e tirou um pó compacto. Deu duas batidinhas em cada lado do nariz e o fechou. Eu estava ficando sem ter o que fazer. Vasculhei minha bolsa, tentando lembrar se tinha trazido pó compacto. E então Kathryn se virou para me encarar.
— Ele está feliz?
— Perdão?
— Eu fiz uma pergunta direta.
Meu coração disparou, golpeando freneticamente as minhas costelas. Sua voz era suave, tranquila.
— Tab não conversa comigo sobre ele. Ela ainda está bem zangada com o pai, apesar de ser louca por ele. Sempre foi a princesinha do pai. Então acho que ela não conseguiria me falar o que realmente está acontecendo.
— Sra. Gopnik, com todo o respeito, não acho que seja meu papel...
Ela virou o rosto.
— Não. Acho que não é.
Kathryn guardou o pó compacto na bolsa.
— Sei bem o que devem ter falado de mim para você, Srta...
— Clark.
— Srta. Clark. Também sei que você tem consciência de que a vida raramente é preto no branco.
— Eu tenho. — Engoli em seco. — E também sei que Agnes é uma boa pessoa. Inteligente. Gentil. Culta. Ela não está dando o golpe do baú. Como a senhora disse, essas coisas raramente são preto no branco.
Seus olhos encontraram os meus pelo espelho. Ficamos imóveis por mais alguns segundos, depois ela fechou a bolsa e, após uma longa conferida no próprio reflexo, deu um sorriso forçado.
— Fico feliz que Leonard esteja bem.
Voltamos para a mesa quando os pratos tinham acabado de ser retirados. Ela não dirigiu mais a palavra a mim pelo restante da tarde.

* * *

As sobremesas foram servidas junto com o café, a conversa diminuiu e o almoço foi chegando ao fim. Várias idosas receberam ajuda para ir ao toalete, com os andadores abrindo caminho em meio aos delicados movimentos de pernas de cadeiras. O homem de terno subiu no pequeno palco, suando um pouco no colarinho, agradeceu a todos pela presença, depois disse algumas palavras sobre os próximos eventos no clube, incluindo uma noite de caridade dali a duas semanas, cujos lugares já estavam todos vendidos (uma salva de palmas celebrou essa notícia). Por fim, disse que eles tinham um anúncio a fazer e indicou a nossa mesa com a cabeça.
Agnes respirou fundo e se levantou, atraindo o olhar de todos. Foi até o palco e assumiu o lugar do gerente ao microfone. Agnes esperou ele trazer para a frente do salão uma afro-americana idosa vestindo um terno preto. A mulher balançava as mãos, como se todos estivessem fazendo um alarde desnecessário.
Agnes sorriu para ela, respirou fundo, como eu havia pedido, depois colocou os dois cartões cuidadosamente no suporte e começou a falar, com a voz clara e determinada.
— Boa tarde a todos. Obrigada por virem hoje e obrigada a toda a equipe de funcionários por um almoço tão delicioso.
A voz dela estava perfeitamente modulada, as palavras polidas como joias após horas de ensaio na semana anterior. Houve um murmúrio de aprovação.
Dei uma espiada em Kathryn, cuja expressão estava indistinguível.
— Como muitos de vocês sabem, hoje é o último dia de Mary Lander no clube. Gostaríamos de desejar a ela uma aposentadoria muito feliz. Leonard me pediu para lhe dizer, Mary, que ele sente demais não ter podido vir hoje. Ele é grato por tudo o que você fez pelo clube e sabe que todos aqui se sentem da mesma forma. — Ela fez uma pausa, como eu havia pedido. O salão estava em silêncio e o rosto das mulheres, atento. — Mary começou a trabalhar aqui no Grand Pines em 1967 como ajudante de cozinha e cresceu até se tornar assistente da gerência. Todos aqui apreciaram muito a sua companhia e seu trabalho árduo ao longo dos anos, Mary, e vamos sentir muito a sua falta. Nós, e os outros membros deste clube, gostaríamos de lhe oferecer um pequeno símbolo da nossa gratidão e sinceramente esperamos que a sua aposentadoria seja o mais prazerosa possível.
Houve uma educada salva de palmas e deram a Agnes uma escultura de vidro em formato de pergaminho com o nome de Mary gravado. Ela a entregou à mulher mais velha, sorrindo, e ficou imóvel enquanto tiravam fotos. Depois foi para a ponta da plataforma e voltou para a nossa mesa, com o rosto reluzindo de alívio por deixar os holofotes. Observei Mary sorrir para mais fotos, dessa vez com o gerente. Eu estava prestes a me inclinar na direção de Agnes para parabenizá-la quando Kathryn se levantou.
— Na verdade — começou ela, a voz interrompendo o burburinho —, eu gostaria de dizer algumas palavras.
Sob o olhar de todos, Kathryn foi ao palco, onde passou pelo suporte. Pegou o presente das mãos de Mary e o entregou ao gerente. Depois envolveu as mãos de Mary com as suas.
— Ah, Mary — disse, se virando para que as duas ficassem voltadas para a plateia. — Mary, Mary, Mary. Que querida você tem sido.
Houve uma espontânea explosão de aplausos no salão. Kathryn aquiesceu, aguardando o fim do barulho.
— Ao longo dos anos, minha filha cresceu com você tomando conta dela, e de nós, durante as centenas, não... as milhares de horas que passamos aqui. Tempos tão, tão felizes. Se tínhamos o menor dos problemas, você sempre estava lá, resolvendo as coisas, fazendo curativos em joelhos ralados ou colocando gelo em galos na cabeça. Acho que todos nos lembramos do incidente no ancoradouro! — Houve uma torrente de risadas. — Você amou principalmente nossos filhos, e este lugar sempre pareceu um santuário para Leonard e para mim porque era o único onde sabíamos que nossa família estaria segura e feliz. Estes gramados belíssimos presenciaram muitos momentos maravilhosos e testemunharam muita risada. Enquanto estávamos fora jogando golfe ou participando de um delicioso coquetel com amigos, você cuidava de nossos filhos e oferecia aquele inigualável chá gelado. Todos nós amamos o chá gelado especial da Mary, não é, amigos?
Todos gritaram em concordância. Observei Agnes ficando rígida, batendo palmas roboticamente como se não tivesse muita certeza do que mais poderia fazer.
Emmett se inclinou para mim.
— O chá gelado de Mary é realmente sensacional. Não sei o que ela coloca nele, mas, meu Deus, é mortal.
Ele ergueu os olhos para o céu.
— Tabitha veio especialmente da cidade, assim como muitos de nós hoje, porque sei que ela considera você não apenas uma funcionária deste clube, mas parte da família. E todos nós sabemos que não há substitutos para a família!
Ousei não olhar para Agnes nessa hora, quando os aplausos explodiram novamente.
— Mary — continuou Kathryn, quando o salão voltou a ficar em silêncio — você ajudou a perpetuar os verdadeiros valores deste lugar, valores que alguns podem achar antiquados, mas que sentimos que fazem deste clube o que ele é: solidez, excelência e lealdade. Você tem sido seu rosto sorridente, seu coração pulsante. Sei que falo por todos quando digo que simplesmente este lugar não será o mesmo sem você.
A idosa estava radiante, com os olhos brilhando por causa das lágrimas.
— Pessoal, encham suas taças e brindemos à nossa maravilhosa Mary.
O salão veio abaixo. Os que podiam se levantaram. Quando Emmett se pôs de pé com dificuldade, olhei em volta e então, me sentindo de certo modo desleal, me levantei também. Agnes foi a última a se levantar da cadeira, ainda batendo palmas e forçando um sorriso educado.

* * *

Há algo de reconfortante em um bar realmente apinhado, onde é preciso enfiar o braço por uma aglomeração de gente para conseguir a atenção do barman e onde é uma sorte dois terços de sua bebida permanecerem no copo ao voltar para a mesa. Segundo Nathan, o Balthazar era uma espécie de instituição do SoHo: sempre lotado, sempre divertido, um marco na cena dos bares de Nova York. E, naquela noite, mesmo em um domingo, estava abarrotado, cheio o suficiente para que o barulho, os barmen sempre em movimento, as luzes e o burburinho tirassem os eventos do dia da minha cabeça.
Cada um tomou duas cervejas, em pé no bar, e Nathan me apresentou aos caras que conhecia da academia, cujos nomes eu esqueci quase instantaneamente, mas que eram engraçados e legais e que precisavam apenas de uma mulher como pretexto para trocarem insultos divertidos. Lutamos para conseguir uma mesa, onde bebi mais e comi um cheeseburguer, e com isso me senti um pouco melhor. Por volta das dez, quando os caras estavam ocupados grunhindo e trocando impressões com outros frequentadores da academia, com caretas e veias saltando, eu me levantei para ir ao banheiro. Fiquei dez minutos lá, desfrutando do relativo silêncio enquanto retocava a maquiagem e ajeitava o cabelo. Tentei não pensar no que Sam estaria fazendo — isso havia deixado de ser um conforto para mim e passado a revirar meu estômago. Então saí para voltar para a mesa.
— Você está me stalkeando?
Girei no corredor. Lá estava Joshua Ryan vestindo camisa e calça jeans, com as sobrancelhas erguidas.
— O quê? Ah. Oi! — Instintivamente passei a mão no cabelo. — Não... não, eu só estou aqui com uns amigos.
— É brincadeira. Como você está, Louisa Clark? Aqui é bem longe do Central Park.
Ele se inclinou para beijar meu rosto. Seu cheiro era delicioso, de cítrico e algo suave e almiscarado.
— Uau. Isso foi quase poético — disse ele.
— Só estou conhecendo todos os bares de Manhattan. Sabe como é.
— Ah, sim. O “tente algo novo”. Você está bonita. Gosto de todo esse... — disse, apontando para o meu vestido reto e o cardigã de manga curta — estilo engomadinho.
— Eu tive que ir a um clube hoje.
— Fica bem em você. Quer pegar uma cerveja?
— Eu... eu realmente não posso deixar os meus amigos.
Por um instante, ele pareceu decepcionado.
— Mas, ei, junte-se a nós! — acrescentei.
— Ótimo! Deixe só eu avisar ao pessoal que está comigo. Estou acompanhando um casal, eles vão gostar de não me ter por perto. Onde fica a sua mesa?
Abri caminho novamente através da multidão até Nathan, com o rosto corado e um zumbido baixo nos ouvidos. Não importava que o sotaque dele não fosse o mesmo, que as sobrancelhas fossem diferentes, que o cantinho dos olhos não tivesse o desenho correto — era impossível olhar para Josh e não se lembrar de Will. Me perguntei se isso nunca ia deixar de me abalar. Pensei no meu uso inconsciente da palavra “nunca”.
— Encontrei um amigo! — falei bem na hora que Josh apareceu.
— Um amigo — repetiu Nathan.
— Nathan, Dean, Arun, este é Josh Ryan.
— Você esqueceu o “Terceiro”. — Ele riu para mim, como se tivéssemos compartilhado uma piada interna. — Oi — cumprimentou Josh, estendendo a mão e se inclinando para apertar a de Nathan.
Vi os olhos de Nathan o examinarem de cima a baixo e piscarem para mim. Dei um sorriso neutro, alegre, como se eu fosse amiga de hordas de homens bonitos espalhados por toda Manhattan que queriam se juntar a nós nos bares.
— Alguém quer uma cerveja? — perguntou Josh. — A comida também é muito boa se alguém se interessar.
— Um “amigo”? — murmurou Nathan, quando Josh foi ao bar.
— Sim. Um amigo. Nós nos conhecemos no Baile Amarelo. Com Agnes.
— Ele parece o...
— Eu sei.
Nathan refletiu por um instante. Olhou para mim, depois para Josh.
— Todo esse lance de “dizer sim”. Você não...
— Eu amo o Sam, Nathan.
— Claro que você o ama. Só estou falando.
Senti Nathan me observando pelo restante da noite. De alguma maneira, Josh e eu acabamos na ponta da mesa, distantes de todos os outros, onde conversamos sobre o trabalho dele e a mistura insana de opiáceos e antidepressivos com a qual seus colegas de trabalho se entupiam todos os dias para suportar as demandas do escritório, e como ele estava se esforçando para não ofender o chefe, que se ofendia fácil, e sempre falhava, e o apartamento que ele nunca teve tempo de decorar e o que tinha acontecido quando sua mãe com mania de limpeza, que morava em Boston, viera visitá-lo. Fiz que sim com a cabeça, sorri, escutei e tentei garantir que, ao observar seu rosto, fazia isso de uma maneira apropriada e interessada, e não um tanto obsessiva e melancólica do tipo ah-mas-você-se-parece-tanto-com-ele.
— E você, Louisa Clark? Você não disse quase nada sobre si mesma a noite toda. Como estão as férias? Quando vai voltar para o trabalho?
O trabalho. Percebi, com dificuldade, que na última vez que nos encontramos, eu mentira sobre quem era. E também que eu estava bêbada demais para sustentar qualquer mentira ou para me sentir envergonhada como provavelmente deveria ficar ao confessar tudo.
— Josh. Preciso contar uma coisa.
Ele se inclinou na minha direção.
— Ah. Você é casada.
— Não.
— Bem, isso já é alguma coisa. Tem uma doença incurável? Só lhe restam semanas de vida?
Fiz que não com a cabeça.
— Está entediada? Você está entediada. Prefere conversar com outra pessoa agora? Entendi. Eu falei sem parar.
Comecei a rir.
— Não. Não é isso. Você é uma ótima companhia.
Olhei para os meus pés.
— Eu... eu não sou quem disse que era. Não sou uma amiga de Agnes da Inglaterra. Só disse aquilo porque ela precisava de uma aliada no Baile Amarelo. Sou, bem, sou a assistente dela. Sou só uma assistente.
Quando ergui a cabeça, percebi que ele estava me observando.
— E?
Eu o encarei. Seus olhos tinham minúsculas manchas douradas.
— Louisa. Estamos em Nova York. Todo mundo aqui se coloca lá em cima. Todo caixa de banco é vice-presidente júnior. Todo barman tem uma empresa de produção. Achei que você trabalhasse para Agnes pela forma como corria atrás dela. Nenhuma amiga faz isso. A não ser que seja, tipo, realmente estúpida. O que você claramente não é.
— E você não se importa?
— Ei. Eu só estou feliz por você não ser casada. A não ser que você seja casada. Essa parte não era mentira também, era?
Ele estava segurando a minha mão. Senti uma leve falta de ar e tive que engolir em seco antes de responder:
— Não. Mas eu tenho namorado.
Ele manteve os olhos fixos nos meus, talvez analisando se eu diria uma frase impactante, depois soltou minha mão com relutância.
— Ah. Bem, isso é uma pena. — Ele se endireitou na cadeira e tomou um gole da bebida. — Então por que ele não está aqui?
— Porque ele está na Inglaterra.
— E ele vai se mudar para cá?
— Não.
Joshua fez uma careta, uma do tipo que as pessoas fazem quando acham que você está fazendo algo idiota, mas não querem dizer isso em voz alta. Ele deu de ombros.
— Então podemos ser amigos. Você sabe que todo mundo sai com alguém aqui, certo? Não precisa ser um problema. Eu serei seu acompanhante masculino incrivelmente bonito.
— Por sair você quer dizer “fazer sexo”?
— Uau. Vocês, garotas inglesas, são muito diretas.
— Só não quero lhe passar a impressão errada.
— Você está me dizendo que não vamos ter uma amizade colorida. Tudo bem, Louisa Clark. Entendi.
Tentei não sorrir, mas não aguentei.
— Você é muito bonita — disse ele. — E engraçada. E direta. E não é como nenhuma das garotas que já conheci.
— E você é muito encantador.
— É porque estou um pouco embevecido.
— E eu estou um pouco bêbada.
— Ah, agora fiquei ofendido. Ofendido de verdade — brincou Joshua, colocando a mão na altura do coração.
Foi nessa hora que virei a cabeça e vi Nathan nos observando. Ele ergueu de leve a sobrancelha e deu uma batidinha no pulso. Foi o suficiente para me trazer de volta à realidade.
— Sabe... tenho mesmo que ir embora. Eu acordo cedo.
— Fui longe demais. Assustei você.
— Ah, eu não me assusto assim tão fácil. Mas amanhã vai ser um dia complicado no trabalho. E minha corrida matutina não dá muito certo com vários copos de cerveja e uma dose de tequila na cabeça.
— Você vai me ligar? Para uma cerveja platônica? Para eu poder curtir você um pouco?
— Preciso avisá-lo: na Inglaterra “curtir” tem um significado bem diferente.
Contei o que era e ele deu uma grande gargalhada.
— Bem, prometo não fazer isso. A não ser, claro, que você queira.
— Essa é uma baita oferta.
— Estou falando sério. Me liga.
Fui embora do bar, sentindo o olhar dele em minhas costas ao longo de todo o trajeto até a porta. Enquanto Nathan chamava um táxi, me virei para a porta, que estava se fechando. Só deu para vê-lo através de uma frestinha antes que a porta batesse, mas foi suficiente para perceber que ele ainda me olhava. E sorria.

* * *

Liguei para o Sam.
— Oi — disse, quando ele atendeu o telefone.
— Lou? Por que eu ainda pergunto? Quem mais me ligaria às 4h45?
— E aí? O que você está fazendo?
Deitei de costas na cama e deixei os sapatos caírem no chão acarpetado.
— Acabei de chegar de um plantão. Estou lendo. Como você está? Parece alegre.
— Fui a um bar. Dia difícil. Mas estou bem melhor agora. E só queria ouvir a sua voz. Porque estou com saudade. E você é meu namorado.
— E você está bêbada.
Ele riu.
— Pode ser. Um pouco. Você disse que estava lendo?
— Isso. Um romance.
— Sério? Pensei que você não lesse ficção.
— Ah, Katie me deu. Insistiu que eu ia gostar. Não quero encarar um interrogatório por não estar lendo o livro.
— Ela está comprando livros para você?
Eu me endireitei, o bom humor de repente se dissipando.
— Por quê? O que significa ela ter comprado um livro para mim?
Sam parecia estar se divertindo.
— Significa que ela gosta de você.
— Não significa, não.
— Significa, sim, com certeza.
O álcool tinha eliminado minhas inibições. Senti as palavras saindo da boca antes que pudesse contê-las.
— Se uma mulher faz você ler é porque gosta de você. Ela quer entrar na sua cabeça. Quer fazer você pensar em coisas.
Eu o ouvi rir.
— E se for um manual de conserto de motocicletas?
— Não importa. Porque aí ela está tentando mostrar que é do tipo descolada, sexy e amante de motocicletas.
— Bem, este aqui não é sobre motocicletas. É uma coisa francesa.
— Francesa? Isso é ruim. Qual é o título?
— Madame de.
— Madame de quê?
— É só Madame de. É sobre um general e uns brincos e...
— E o quê?
— Ele tem um caso.
— Ela está fazendo você ler livros sobre franceses que têm casos? Ah, meu Deus. Então ela realmente gosta de você.
— Você está errada, Lou.
— Eu sei quando alguém gosta de alguém, Sam.
— Sério.
Ele começava a demonstrar cansaço.
— Então... um homem me paquerou hoje. Eu percebi que ele gostou de mim. Então eu disse logo que tinha alguém. Cortei na hora.
— Ah, foi? E quem é esse homem?
— O nome dele é Josh.
— Josh. É o mesmo Josh que ligou para você quando eu estava indo embora?
Mesmo através do meu leve bafo de bêbada comecei a perceber que aquela conversa não ia acabar bem.
— Sim, é.
— E você por acaso esbarrou com ele em um bar.
— Foi! Eu estava lá com o Nathan. E literalmente esbarrei nele perto do banheiro.
— E o que foi que ele disse?
A voz de Sam agora tinha um leve sinal de irritação.
— Ele... ele disse que era uma pena.
— E é?
— O quê?
— Uma pena?
Houve um breve silêncio. De repente eu me senti terrivelmente sóbria.
— Só estou contando o que ele disse. Estou com você, Sam. Estou literalmente usando isso como um exemplo de como percebi que alguém gosta de mim e dei um fora antes que ele pudesse ter a impressão errada. Esse é um conceito que você parece não querer entender.
— Não. Me parece que você está me ligando no meio da noite para pegar no meu pé por causa da minha colega de trabalho que me emprestou um livro, mas para você tudo bem sair e conversar bêbada sobre relacionamentos com esse Josh. Meu Deus. Você nem queria admitir que nós tínhamos um relacionamento até que eu pressionei. E agora você conversa alegremente sobre coisas íntimas com um cara que encontrou em um bar. Isso se você realmente só encontrou com ele em um bar.
— Eu precisei de um tempo, Sam! Pensei que você estava brincando comigo!
— Você precisou de um tempo porque ainda estava apaixonada pela lembrança de outro cara. Um cara morto. E agora você está em Nova York porque... bem, porque ele queria que você fosse para aí. Então não entendo por que você está toda estranha e ciumenta por causa da Katie. Você nunca se incomodou com quanto tempo que eu passava com Donna.
— É porque a Donna não gostava de você.
— Você nem conheceu Katie ainda! Como pode saber se ela gosta de mim ou não?
— Eu vi as fotos!
— Que fotos? — explodiu ele.
Eu era uma idiota.
— No Facebook dela. Lá tem fotos. De você e ela.
Engoli em seco.
— Uma foto.
Pairou um longo silêncio. Do tipo que diz: Você está falando sério? Do tipo ameaçador que surge quando alguém silenciosamente muda a opinião que tem de você. Quando Sam tornou a falar, sua voz estava baixa e controlada:
— Essa é uma discussão ridícula e eu preciso dormir.
— Sam, eu...
— Vá dormir, Lou. Nos falamos mais tarde.
Então desligou.

8 comentários:

  1. A LOU ESTA SENDO TRAIDA

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  2. Porque os homens são sempre assim? Sempre se fazem de desentendidos...

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  3. Não acho que o Sam faria isso,e Sim,acho que ele não percebeu as intenções da fulaninha!
    Homens não são espertos como nós mulheres 😉

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  4. creio que tudo caminha para um romance, embora ele goste da lou, mas a proximidade e saudades podem nos trair... e isso vale para ambos... fica de olho aberto Lou.... #apaixonadacomonoprimeirolivro... #queroofilmeparaontem

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  5. Ah... Esse Sam está se deixando envolver com essa biscate, onde já se viu ela atendeu o telefone dele com ele tomando banho... Que liberdade é essa ... Abre o olho Lou

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  6. Nunca gostei do Sam, não consigo imaginá-lo fazendo a Lou feliz e creio que ele vai ter algo com essa Katie. AFF, só pra confirmar meu pensamento. kkkk.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!