6 de fevereiro de 2018

Capítulo 11. Um anão disforme

Era fim de tarde.
O sol, que queimara o asfalto durante todo o dia, recolhia-se agora tingindo o céu sem nuvens de vermelho, laranja e amarelo. Poucos estudantes ainda circulavam pelo Colégio Elite. Aqueles que ainda faziam provas de recuperação ou estudavam para elas. Junto à sombra da marquise da entrada, ao lado das folhagens do belo jardim do colégio, uma figura ocultava-se.
Se qualquer dos estudantes percebesse aquela presença, na certa se assustaria.
Era uma figura disforme. Um anão horrendo. Corpo deformado e recurvo, rosto empelotado, barba rala, olhos miúdos e argutos. O nariz entortava-se sobre lábios grossos e dentes miúdos, muito brancos. Um pequeno chapéu cobria-lhe os cabelos, que não viam água há muito tempo.
O anão esperava.

* * *

Toda a imprensa abria seus espaços para a cobertura dos crimes surpreendentes do dia. As emissoras de televisão e de rádio não cansavam de procurar notícias novas para informar seu público, com uma avidez maior que a dos policiais:
“O bilhete dos sequestradores traz uma estranha assinatura, senhores telespectadores: as iniciais Q.I. O que significaria isso? As iniciais de um nome? Uma sigla como `C.V.’, do Comando Vermelho? Até agora nossa reportagem ainda não conseguiu maiores informações da polícia...”
“Há uma porção de perguntas ainda não respondidas, senhores ouvintes. Por que sequestrariam apenas uma das testemunhas do caso do doutor Bartholomew Flanagan, o menino Chumbinho? E por que foi disparado apenas um tiro, ferindo gravemente uma professora, dona Iolanda Negri, que estava justamente ao lado do menino também posteriormente sequestrado?”
“O cônsul americano, na capital, está preocupadíssimo. O sequestro de um importante cidadão de seu país repercutiu negativamente na Casa Branca. Soubemos que o presidente americano ligou para Brasília e falou diretamente com nosso presidente, pedindo severas e urgentes providências...”
“Nossa reportagem acabou de saber que, nos próximos minutos, pousará um jatinho do FBI, trazendo dois agentes especiais, encarregados de ajudar a polícia brasileira nas investigações...”
“Acabamos de entrevistar um especialista em organizações criminosas, senhores ouvintes. Segundo ele, `Q.I.’ pode significar `Comando Internacional’, uma nova facção de criminosos. Ainda de acordo com a opinião desse especialista, os bandidos, semi-analfabetos, escreveriam `Comando’ com `Q’ e não com `C’ . . .”

* * *

— Quanta besteira! Besteira, besteira! — falou Crânio para si mesmo, desligando o rádio. — E é Chumbinho? Ai, Chumbinho! Preciso...
Correu para o telefone, mas a campainha do aparelho tocou antes que ele pegasse o fone.
Crânio tremeu. Era Magrí. Já sabia da volta da menina pelo telefonema de Chumbinho, no aeroporto, mas ouvir aquela voz deixou-o sem fala.
— Emergência máxima. Em meia hora.
Não havia o que discutir.
— C-certo, Magrí...
Crânio desligou o telefone e saiu apressado para o Colégio Elite.

* * *

Depois do telefonema de Chumbinho, Calú não pudera ir ao ensaio do “Escorial”, do belga Michel de Ghelderode. O diretor da peça compreenderia. Também, se não compreendesse, problema dele. As preocupações de Calú eram maiores do que seu amor pelo teatro.
Precisava pensar, pensar... decidir... Chumbinho o convocara por telefone para uma emergência máxima e ele respondera que não tinha mais nada com isso. Seu sangue, o sangue de um Kara, fervia nas veias.
Suas dúvidas foram interrompidas pela televisão, com a notícia do sequestro de Chumbinho.
— O quê?? Chumbinho sequestrado?? Dane-se nossa briga? Eu vou...
Sua decisão já estava tomada quando Magrí telefonou.
— Em meia hora, Calú.
— Certo.

* * *

Miguel acabava de chegar em casa, depois do treinamento dos monitores de acampamento. Não sabia dos desdobramentos do caso da Droga do Amor. Não sabia do sequestro de Chumbinho.
Atendeu o telefonema de Magrí.
— Emergência máxima. Em meia hora, Kara. A segurança do ex-líder dos Karas abalou-se.
— Ma-Magrí! Você está ligando dos Estados Unidos?
— Não. Estou de volta.
— Mas o que houve? O Campeonato de Ginástica Olímpica ainda não...
— Não temos tempo para explicações, Miguel. Emergência máxima.
Aquela voz, aquela convocação... Miguel esforçou-se para recuperar o controle. Chegara ao momento mais difícil de sua encenação. Era preciso manter-se firme:
— Escute, Magrí, desculpe. Não sei se você já falou com Chumbinho, mas eu estou fora diss...
— Cale-se. Chumbinho foi sequestrado.
— Estou indo.

* * *

Magrí tinha sido a primeira a chegar. Com diferença de minutos, um a um, os outros três Karas surgiram pelo alçapão do vestiário do Colégio Elite.
Miguel fechou a rodinha formada pelos amigos ajoelhados no forro.
O sol, descendo no horizonte, jogava seus raios horizontalmente através das poucas telhas de vidro e já não os iluminava. No escuro, Miguel falou, com segurança:
— Não temos tempo a perder. Magrí, diga tudo o que sabe.
Magrí sentiu que aquele rapaz era novamente o comandante dos Karas.

* * *

Uma sombra disforme e torta galgava silenciosamente o telhado do vestiário do Colégio Elite.
Arrastou-se sem ruído até bem perto das telhas de vidro e tirou do bolso um estetoscópio. Com as hastes nos ouvidos, colou o estetoscópio na fresta de duas telhas. Enquanto o anão ouvia, seus lábios contorciam-se em um sorriso torto.

* * *

Magrí usava sua incrível capacidade de síntese. Sem omitir nenhum detalhe, narrou todos os lances de sua chegada ao aeroporto, do sequestro do doutor Bartholomew Flanagan, do tiro que atingira dona Iolanda, das conversas entre Andrade e o doutor Hector Morales, da fuga do Doutor Q.I. da penitenciária e, por fim, do misterioso sequestro de Chumbinho e do bilhete encontrado ao lado da bicicleta do menino.
— Por que o Doutor Q.I. assinaria o bilhete?
— Acho que é uma forma direta de nos ameaçar, Crânio — raciocinou Magrí. — Ele quer que nós saibamos de sua fuga. Que ele está atrás de nós...
— E um dos Karas já está em poder dele. . . — concluiu Calú, com um tom desolado na voz.
Uma imensa pausa silenciou os quatro Karas.
O desafio era de arrasar. Nenhum deles ousava falar, mas cada um pensava que, se o Doutor Q.I. achava Chumbinho uma testemunha importante, não seria um resgate que ele pediria. Cada um deles procurava afastar do pensamento a dolorosa ideia de que o caçula dos Karas, àquela hora, já podia estar morto...
Miguel levantou a cabeça:
— Vamos agir. Nem a vida de Chumbinho nem a nossa valem nada enquanto o Doutor Q.I. estiver fora da cadeia. Precisamos do Andrade. Ele tem de nos ajudar.
— Andrade? — riu-se Calú. — Ora, ele parece um pai! Ou uma mãe... Vive dizendo que a gente não deve correr riscos, que tudo deve ficar somente a seu cargo...
Miguel cortou:
— Ele vai ter de mudar de ideia. Ligue para ele, Magrí. Diga que tem uma informação importante que só pode ser passada para ele, sem testemunhas. No Parque do Ibirapuera, na primeira hora da manhã!
Ali estava de novo o líder dos Karas.
Levantaram-se, prontos para sair do esconderijo secreto, e hesitaram por um momento, fitando um ao outro, na escuridão.
Miguel olhou fundo nos olhos de Magrí, como se pudesse enxergar sua luz na escuridão:
— A última prova do Campeonato Mundial de Ginástica Olímpica vai ser amanhã, Magrí. Por que você voltou antes’?
Magrí nada respondeu. Seu rostinho girou, encarando as sombras daqueles três garotos que ela adorava. E que ela sabia que a adoravam. Seus três Karas... Suas três “Chiquitas”... Juntos, cada um podia sentir o calor excitado do outro. Cada um podia sentir pulsar o coração dos outros. Três corações pulsando por Magrí. O coraçãozinho de Magrí pulsando forte pelos três. Porém, mais forte ainda por um dos três...
De repente, como se tivessem combinado, os quatro abraçaram-se com força, misturando suas vontades, sua amizade, sua coragem, seu amor...
Ali estavam de novo os Karas, reunidos. Nada poderia jamais separá-los.

2 comentários:

  1. qro saber logo de quem magrí mais gosta, ahh

    Fairytopia. LDM

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    1. qro saber logo de quem magrí mais gosta, ahh.
      e do cranio

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Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!