14 de fevereiro de 2018

Capítulo 11. De onde você surgiu?

A junção dos dois telhados criava um área sombreada, livre da iluminação que vinha do pátio de recreio do pré-primário do Elite. Os homens de preto já não circulavam tanto, mas infelizmente dois deles tinham resolvido dar uma descansada e conversavam sentados nos balancinhos, que ameaçavam desabar com seu peso.
Com um enorme ponto de interrogação no olhar, Calú havia se juntado a Chumbinho e à surpreendente presença de Peggy MacDermott ali em cima. O menor dos Karas sorria, aliviado com a chegada do amigo. Eles agora não estavam mais sós.
Não podiam falar, não podiam fazer nenhum ruído, Chumbinho pegou no braço do amigo e começou a contar o que tinha acontecido. Com apertões curtos e longos usava o código Morse-Apertão, inventado pelos Karas para ser usado quando tinham de falar um com o outro no meio de um monte de gente, sem que ninguém notasse.
Como no código Morse, antigamente usado pelos telegrafistas, a combinação de apertos curtos e longos substituía as letras do alfabeto.
— E-s-t-a-é-a-f-i-1-h-a-d-o-p-r-e-s-i-d-e-n-t-e-V-o-c-ê-n-ã-o-v-a-i-a-c-r-e-d-i-t-a-r-C-a-l-u-m-a-s-M-a-g-r-í-f-o-i-s-e-q-u-e-s-t-r-a-d-a-n-o-l-u-g-a-r-d-e-l-a-T-e-m-o-s-de-e-s-c-o-n-d-ê-l-a-p-o-r-q-u-e-s-e-o-s-s-e-q-u-e-s-t-r-a-d-o-r-e-s-d-e-s-c-o-b-r-i-r-e-m-o-e-n-g-a-n-o-n-a-c-e-r-t-a-v-ã-o-m-a-t-a-r-M-a-g-r-í...
— V-o-c-ê-f-i-c-o-u-l-o-u-c-o-C-h-u-m-b-i-n-h-o?
O Código Morse foi um dos mais usados em telegrafia no passado. A comunicação é feita por batidas, por clarões ou até por escrito. Tudo não passa de uma combinação de pontos e traços, ou batidas curtas e longas:
Peggy não podia entender o que estava acontecendo: os dois rapazes pegavam no braço um do outro, apertavam-se e olhavam-se nos olhos, como se conversassem! Pareciam um par de malucos, fazendo expressões de dúvida, surpresa e decisão, como se realmente um estivesse ouvindo o que o outro dizia! E... como era bonito aquele novo gato que tinha ido rastejando pelos telhados! Era mesmo um gato!
Embaixo, os tiras americanos levantavam-se dos balancinhos e sumiam de vista. O pátio estava momentaneamente vazio. Peggy olhava fascinada para os rapazes. Alguma coisa aqueles dois malucos deviam ter combinado, porque, de repente, Chumbinho acenou para a garota pedindo calma e apontando o amigo. Em seguida, pôs-se a rastejar pelos telhados, logo desaparecendo de vista.
A seu lado, o rapaz bonito tocava os lábios com o dedo, pedindo silêncio. Tomou-lhe as mãos e olhou-a firmemente, para dar-lhe confiança. Nessa hora, o sorriso que o rapaz lhe dirigia iluminava a noite e o coração da filha do presidente dos Estados Unidos...
— Mister President, aqui estou. Nossa menina... ahn... sua filha... eu... — Sherman Blake apresentava-se ao seu superior, ansioso e embaraçado. — Ai, se eu não tivesse saído do lado dela, nada disso teria acontecido! Que tipo de guarda-costas sou eu?
— Blake, meu amigo, a culpa não é sua — acalmou-o suavemente o presidente americano. — Fui eu que quis que você ficasse aqui, no hotel, junto comigo, enquanto os agentes da CIA levavam Peggy para o colégio da amiga. Quando você decidiu ir para lá, nada mais havia a fazer.
Um oficial americano aproximava-se, vermelho com um pimentão:
— A mensagem foi transmitida daqui mesmo, Mister President. O endereço eletrônico do transmissor é o do hotel. Alguém usou um dos computadores daqui e endereçou a mensagem de miss Peggy para o endereço de e-mail secreto da CIA, que faz com que as mensagens recebidas entrem no monitor automaticamente!
— Que horror! — exclamou Rodrigues Lobo. — Esses bandidos conhecem até os códigos secretos da CIA!
— Reunimos todos os funcionários do hotel e estamos interrogando um por um — continuava o oficial. — Mas é improvável que consigamos alguma coisa por aí...
MacDermott derreou-se numa poltrona.
— Estamos nas mãos deles, Augusto! Nas mãos deles...
Rodrigues Lobo apoiou a mão no ombro de MacDermott, mostrando que estava a seu lado, ainda que soubesse ser impossível consolá-lo. Miss Malloy aproximava-se de seu presidente, com uma importante informação:
— Mister President, logo que foi informada do sequestro, sua esposa embarcou de Washington para cá. Eram cinco horas, horário de Nova York, senhor.
Ela deverá chegar ao Brasil a uma da madrugada, horário daqui.
— Ligue-me com o avião dela, miss Malloy — pediu MacDermott, desanimado —, por favor...
A ligação foi imediatamente completada e os outros se afastaram, para deixar o americano à vontade.
— Hello, honey... Como você está suportando essa desgraça? Ah, você é forte demais, minha querida! Se eu pudesse, trocava meu mandato pela vida dela... Eu sei, eu sei. Mas é que Peggy... Como? Mas é nossa única filha!... Está bem, querida. Se você pode aguentar, eu também tenho de conseguir. Vou continuar, pode estar certa. Não, não vou desistir agora!... Obrigado, amor, você é uma rocha... I love you too...
De fora, do grande auditório de entrevistas, vinha o alarido dos jornalistas que protestavam contra a falta de informações sobre os desdobramentos do caso:
— Liberdade de imprensa! Exigimos liberdade de imprensa!
Quando Wilbur MacDermott desligou o telefone, todos se voltaram para ele. Parecia um novo homem, convencido do que tinha a fazer. Surdo aos protestos dos jornalistas, olhou fixamente à sua frente. Encarava homens de verde, os homens de preto, Rodrigues Lobo, J. Edgar Hooper, Sherman Blake e o Doutor Pacheco, reunidos como o elenco secundário de uma peça à espera da fala do protagonista.
A imagem do presidente americano não era mais a de um pai desolado com a possibilidade de perder a única filha. Respirando em pequenos haustos, como se tivesse corrido, procurava controlar-se. Solenemente declarou:
— Muito bem, senhores. Não há nada que esses bandidos possam fazer para me dobrar. Jamais negociarei com terroristas. Se for necessário que minha filha morra para que este mundo possa ser um pouco mais feliz e mais justo, assim será. Acabo de falar com a mãe dela. Minha mulher disse que, se ela pode aceitar esse risco extremo eu também tenho de conseguir. E estou certo de que até mesmo ela, a minha Peggy, estaria disposta a esse sacrifício final pelo que é justo.
Os homens ouviam em silêncio, emocionados pela decisão de Wilbur MacDermott. “Eu sei onde estou... Os Karas precisam entender o meu código... Precisam...”
Magrí encolhia-se de frio sobre o plástico gelado da barraquinha. De fora, vinham as vozes dos seus guardas, cansados da espera:
— I need some booze! Preciso de bebida...
— Shut up! Cale a boca. Não venha piorar a situação. Você sabe que o captain não perdoa nenhum deslize. Você quer morrer, é? Já se esqueceu como é nosso captain com a faca de guerra na mão?
“O capitão!”, pensava a prisioneira.”Quem será ele? Porque ele falava tão baixo? Será que era para que eu, para que Peggy não ouvisse o que ele dizia? Se for por isso... Já sei! Se ele não queria que eu o ouvisse, é porque filha do presidente poderia reconhecer sua voz. Que horror! Peggy conhece esse bandido!”
Para não dar na vista, Miguel e Crânio não faziam a guarda da calçada juntos. Alternadamente, cada um andava para cima e para baixo, enquanto o outro permanecia de sentinela. Por isso, o geninho dos Karas estava distante quando Miguel ouviu o combinado pio de coruja:
— Uh-uh...
— Uh-uh-uh... — respondeu ele, sinalizando que o caminho estava livre.
Em pouco tempo, o mais jovem dos Karas, o menino que tinha ousado esconder a filha do presidente dos Estados Unidos, pulava suavemente para a calçada.
“É Chumbinho! E... está pelado?! O que houve?”, surpreendeu-se Miguel. Agilmente, Chumbinho desceu do muro e escondeu-se sob a sombra de uma árvore para que nenhum passante desconfiasse da presença de um menino em cuecas às nove da noite em plena rua.
Miguel encostou-se no tronco e ouviu o que Chumbinho tinha a contar.
— Miguel, você nem vai acreditar! Ouça só...
No fim do relato, falando o mais baixo que era possível, Miguel decidiu:
— Você agiu bem, Chumbinho. Seu plano é o mais louco em que já nos
 metemos, mas era a única coisa a ser feita. Se Peggy aparecer, os bandidos matarão Magrí, sem piedade. Mas é muito perigoso esconder a menina nos telhados. Volte lá e traga Peggy. Diga a Calú que nós temos de circular disfarçados. Ele saberá o que fazer. Vá, Kara.
— Certo, Kara.
Nesse momento, Crânio se aproximava e quase levou um susto ao encontrar o menor dos Karas nas sombras:
— Chumbinho! Onde você esteve?
— Você nem imagina, Kara!
— Onde está Magrí?
— Esse é o problema...
— Calú encontrou você?
— Encontrou. Ele ficou lá em cima, no telhado.
— Mas diga logo o que aconteceu!
— Uma loucura, Kara!
— E que história é essa de andar de cuecas?
— Sem comentários — cortou Chumbinho. — Emergência máxima é apelido, Kara. Prepare-se para a luta. Magrí foi sequestrada!
O sangue fugiu do rosto do gênio dos Karas:
— Magrí foi sequestrada?! Mas como? E a filha do presidente?
— Também. Só que essa fui eu quem sequestrou!
Peggy MacDermott não conseguia tirar os olhos do rosto do rapaz, que também não desviava o olhar. O sorriso dele era terno, calmo, transmitia tranquilidade, segurança... E algo mais, muito, muito mais...
“Como é o seu nome?”, queria perguntar a menina, sem poder falar. “Quem é você? De onde você surgiu? Para onde você está me levando?”
Apesar do frio intenso, uma onda de calor veio subindo, subindo pelo corpo de Peggy e ela sentiu-se flutuar sobre os telhados, como se nada de sólido a prendesse, quando os braços do rapaz a envolveram, protegendo-a. Por um louco momento, Peggy esquecia-se do imenso perigo que estava enfrentando. Nada mais havia, senão aquele rapaz...

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